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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Os capados

Foto Agência Ecclesia

Os pontos nos ee
"Sexualmente falando, és imprestável", disse ela. "Tá bem", disse ele, e foi organizar-se com a vizinha. Ele percebera "emprestável". São coisas que acontecem...

Houve uma maré em que a minha mãe lavava para fora. Na poça do Santo e no rio da Ponte do Ranha, à beira do Matadouro, carregava e lavava montanhas de roupa alheia. Eu às vezes ia com ela. Aquilo era um trabalho muito duro. Tão duro que eu, preguiçoso por idade e por feitio, como vim a saber mais tarde, fazia tudo para "ajudar". Mas não me deixavam. Nem a minha mãe nem as outras lavadeiras, sobretudo estas. Diziam-me, entre cantigas e caralhadas, que os meninos do sexo masculino não podiam lavar roupa. Se os meninos do sexo masculino lavassem roupa - dizia o mulherio -, quando fossem homens não lhes crescia a barba, ó terrível maldição!
A mim, confesso, nem me aquecia nem me arrefecia, aquilo da barba. Eu já estava por tudo. Tinha 11 anos, faltavam-me duas ou três semanas para entrar no seminário, e logo que lá chegasse - também me diziam - iriam capar-me sem dó nem piedade! Então olha, perdido por um, perdido por mil...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 13 de setembro de 2026

Os cartoleiros

Da estupidez
Incomoda-me a estupidez. Sobretudo a minha.

Os cartoleiros eram os protegidos ou favoritos dos "superiores", quer-se dizer, dos padres, no seminário. Isso e nada mais. Eram geralmente alunos acima da média, com direito a pequenas mordomias e tolerância alargada. Insignificâncias. Eram os que tinham maior proximidade e convívio com os mestres. Além disso, os cartoleiros eram também, como se dizia em Fafe, escovas, graxistas, lambe-botas e, frequentemente, bufos. Eu, devo confessar, gozei do estatuto de cartoleiro no que diz respeito à primeira parte, isto é, aos benefícios, mas fui vítima da segunda, da manha hipócrita dos chegamissos. Os cartoleiros eram apontados a dedo e invejados pelos colegas, e invejavam-se entre si.
É claro que, no Brasil, a palavra cartoleiro desfruta de um significado diverso e muito próprio, no âmbito dos trabalhos manuais em particular ou do artesanato de uma forma geral. Mas isso, valha-me Deus, já nos levaria por outros caminhos...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Foi-se a inocência, ficaram as orelhas

Foto Tarrenego!

O homem-tocha
O homem-tocha mudou de residência, mas ficou na zona. Chamam-lhe agora homem-mealhada.

Chegava a altura dos pontos e eu baixava à enfermaria. Academicamente falando, os pontos eram aquilo a que hoje, suponho, ainda se chama testes, e a enfermaria já então era o que é - enfermaria. Atenção: eu dava parte de doente não porque fosse mau aluno, mas porque era muito bom preguiçoso. Para além dos percevejos na cama e do tradicional concurso de punhetas logo pela manhãzinha e a meio da tarde, o melhor que a enfermaria tinha era a sineta a tocar lá fora para os outros, a comida "de dieta" e o enfermeiro propriamente dito, que na verdade era barbeiro. O Sr. Pimenta, se bem me lembro. O Sr. Pimenta era enfermeiro suponho que por usucapião, porque tinha a bata branca de barbeiro, trazia os termómetros no bolso, via as febres, passava raspanetes e dava-nos uns comprimidos de faz de conta que, se não me engano, eram sobras do Laboratório Militar. Os comprimidos serviam para tudo e não faziam nada. As febres eram forjadas na fricção com os cobertores - chamava-se àquilo "manipular a febre" ou apenas "manipular". Para além disso, o Sr. Pimenta dava também muito mal injecções, provavelmente de água destilada. E eu contava anedotas.
Figura mítica, consagrada instituição da velha Tamanca e autoridade local, espécie de regedor interno, o Sr. Pimenta era um homem gordo, de andar pesado e lento, periclitante. A cada passo parecia-me que ia cair redondo para um dos lados, consoante a perna curta que avançava. O Sr. Pimenta tinha idade para ser meu avô, achava eu, e uma barbearia montada como se fosse a sério, no pequeno corredor mesmo em frente à capela e ao lado da sala de aulas que era também a "loja" onde os padres nos vendiam os "objectos", mas cortava tão mal o cabelo como os tosquiadores fardados que mo raparam sem dó nem piedade, uns anos depois, quando dei entrada nos Comandos. O Sr. Pimenta era barbeiro porque tinha a bata branca de enfermeiro.
Quer-se dizer: o Sr. Pimenta era a bata.
E poderia ter sido, quem sabe, o Homem-Bata, isto é, o Bataman, se, derivado aos seus múltiplos poderes e polivalentes predicados, a Marvel lhe tivesse deitado a mão em devido tempo. Infelizmente a Marvel não recruta em Portugal, e é o que perde.
Apesar de ter tudo para ser um super-herói, o Sr. Pimenta era só Sr. Pimenta para mim, porque a minha mãe tinha-me ensinado a tratar os senhores por senhores. Para o resto da rapaziada do seminário, meninos bem ou matarruanos, o Sr. Pimenta era o Pimenta, ordens de cima, nada de confianças. Paradoxalmente. E os outros funcionários ou acoitados, os que nos serviam no refeitório, certamente lerdos mas filhos de Deus como a gente, eram "criados". Criados. Ordens de cima. Já nem falo de educação - a caridade cristã tem definitivamente muito que se lhe diga.

Portanto, chegava a altura dos pontos e eu baixava à enfermaria. Um ano, o padre Vilar, o bom padre Vilar, não quis que eu ficasse sem nota a Religião e Moral. Visitou-me, fez-me duas ou três perguntas que valeriam o ponto, perguntas do mais elementar possível, só para que eu fizesse boa figura. Perguntou-me:
- Quem é Deus para ti?
- Deus é o meu pai - respondi.
- Todos somos filhos de Deus - atalhou o padre.
- Mas eu sou mais, porque sou órfão - defendi-me, com uma não ensaiada porém oportuna lágrima no canto do olho que me valeu para aí um dezoito.
Isto é: sou malabarista desde pequenino.

Na enfermaria havia sempre um bufo que ia contar ao impiedoso padre Coutinho as minhas anedotas, mas omitia a parte da sagrada masturbação, que era regra geral e ideia não sei de quem, minha é que não, parece impossível. E eu também não sabia a malícia das anedotas que levava de Fafe para contar. Fiquei a saber quando fui chamado à pedra por uma orelha - e assim me roubaram a inocência. O padre Coutinho gostava muito de música clássica, e eu tenho a certeza absoluta de que a música clássica, que é tão boa, não gostava nada dele.

(Texto antigo, do meu blogue Mistérios de Fafe. O "bom padre Vilar", monsenhor Manuel José da Costa Azevedo Vilar, faleceu hoje, aos 82 anos. Acabo de saber. A Mi é que viu nas notícias e perguntou-me: - Não é o teu padre Vilar? Era, caramba! E era realmente um dos bons. Dos que me marcaram, pelo melhor, para toda a vida.)

Os fujões

O fim do mundo
Como diziam os antigos, e os antigos é que sabem: "Aos dois mil chegarás, dos dois mil não passarás". E que se segue? Há 26 anos que o mundo acabou, e eu, francamente, não me parece que isto tenha melhorado...

Os fujões fugiam. E até mais do que uma vez. Fugiam sempre que podiam. Por isso é que eram fujões, frequentemente apontados a dedo. Fugiam do seminário, que é o que eu sei, ou de colégios internos, rígidos, eram alunos do primeiro ano, crianças de dez ou onze anos em choque de desmame, longe de casa, cheios de saudades, inadaptados à severidade das regras, à disciplina apertada, musculada, ao silêncio, aos horários, à solidão, à exigência escolar, à comida, à cama, ao gozo e abuso dos mais velhos ou mais fortes, à mão lampeira e pesada de professores, prefeitos ou outros alegados guardiões ou superiores.
Aproveitavam geralmente a confusão do recreio para fugir, escalando o portão escondido atrás da esquina, sem vigilância, e até era um portão que metia respeito. Chegavam à rua e não sabiam o que fazer à vida. Não iam longe. Choravam baba e ranho, perdidos, atarantados, assustados, culpados, como se levassem ao peito um enorme letreiro a dizer "Fujão", os vizinhos já sabiam o que ali se passava, tantas vezes que viram, e corriam logo a tocar à sineta da portaria, a avisar quem de direito, geralmente não chegava a ser preciso organizar grandes operações de busca.
Imaginai: um puto de São Lourenço da Montaria, Viana do Castelo, entregue a si próprio em plena Rua de São Domingos, esconsa mas quase no centro da cidade de Braga, sem dinheiro nem mundo, e sem sentido de orientação, os pequenos olhos turvos, pisqueiros, rasos de água, como é que ele havia de saber o caminho para casa, para a serra?
Depois de apanhado, o fujão era exibido no salão de estudo e castigado em público para servir de exemplo. Um bom fujão, é preciso que se diga, normalmente insistia no dia seguinte, nos dias seguintes. E as cenas tristes repetiam-se, cada vez piores. Após a segunda ou terceira tentativa de fuga e consequentes sovas, os pais do fujão eram também chamados à pedra. Vinham de camioneta, fazia-lhes diferença. Chegavam envergonhados, num desgosto que só visto, e ouviam das que não queriam. Que resolvessem de vez o assunto, à pancada era o mais indicado! Às vezes, porém, os pais condoíam-se da evidente infelicidade do filho, daquela dor de alma, principalmente a mãe, pediam muitas desculpas aos senhores padres, tão bons educadores, pagavam "a conta" com língua de palmo e levavam a criança enfim para casa. Era mais uma "vocação" que se perdia.

Isto os fujões. Claro que também havia os mijões, que por acaso, não raras vezes, coincidiam, isto é, acumulavam. Os mijões eram mijões porque faziam chichi na cama, e também havia normas quanto a eles. Eram vários e cheiravam bastante. À noite, no enorme dormitório, quando, após as orações, as luzes se apagavam de vez e os fujões e candidatos a fujões se entregavam finalmente à liberdade, na paz dos sonhos, os meninos que faziam chichi na cama davam um nó à toalha na cabeceira de ferro e esse era o sinal para o senhor guarda-nocturno saber que ali estava mais um que necessitava de ser chamado, nas rondas habituais. O senhor guarda-nocturno nascera realmente para aquilo ou então alguém o ensinou muito bem, era meticuloso e eficiente, chegava-se à beira da cama marcada, abanava o desgraçado aos safanões e rosnava, palavra de honra: - Ó mijão, acorda!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Abaixo de Braga e um pouco mais acima

Foto Hernâni Von Doellinger
                                         
Já chega?
Mandaram-no abaixo de Braga e ele foi. Quando entrou em Celeirós, ligou a perguntar se já chegava...
 
A primeira pedra do actual Santuário do Sameiro, em Braga, isto é, por acaso bem acima de Braga, foi lançada e benzida, não sei se por esta ordem, no dia 31 de Agosto de 1890, faz hoje anos. Deus me perdoe, mas o Santuário do Sameiro agora faz-me rir, porque me lembra a cantiga "Óculos de sol" da Natércia Barreto, que eu durante muito tempo julgava que era a Madalena Iglésias. Esta, cá está, é uma private joke, que só eu, o presidente da Confraria do Sameiro, o reitor do santuário e talvez mais meia dúzia de pessoas, se tanto, catrapiscamos, desculpai lá a capelinha...
Como se sabe, o Sameiro é um extraordinário local de peregrinação, muito procurado ao longo dos tempos sobretudo derivado ao bacalhau com natas, pelo menos pela parte que me tocava. Mas já não toca. Infelizmente, o velho Restaurante Maia é agora outra coisa e, quer-se dizer, acabou-se o que era bom...

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Era uma música muito estranha

Apontamento musical
Era um pequeno apontamento musical. Estava escrito num "post-it".

Uma vez, há muitos séculos, levaram-me a uma espécie de concerto no auditório do Conservatório de Música de Braga. Eu estava no seminário, teria no máximo os meus dezasseis anos e portanto que remédio. Fomos talvez para compor a sala, não faço ideia. E aquilo foi muito chato, não é para me gabar. Pela primeira vez na vida ouvi Béla Bartók, por interposta pessoa, e Cândido Lima, por ele próprio, creio que também com direito a comentários, ainda por cima. Saí de lá muito zangado com a padralhada e convencidíssimo de que o que acabara de ouvir não era música, até porque já tinha aprendido nas aulas que "música é um conjunto de sons agradáveis aos ouvidos", e na verdade eu vim cá para fora com as orelhas todas fodidas.
Que se segue? Descobri recentemente que existe o Dia Internacional da Música Estranha, festejado a 24 de Agosto, e lembrei-me deste lamentável episódio, que me marcou como ferro em brasa até aos dias de hoje. E então, quer-se dizer, talvez aquilo fosse isso: música estranha. Mas eu não sabia. Devo acrescentar, em minha defesa, que entretanto mudei de opinião a respeito daquela, digamos assim, especialidade musical. Mudei de opinião, mas apenas um bocadinho...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. O maestro Cândido Lima nasceu no dia 22 de Agosto de 1939, em Viana do Castelo. Fundador do Grupo Música Nova, autor de "A Sétima Voz", "Madrigal Blue" e "Cartas", foi o primeiro compositor português a utilizar em simultâneo, entre outros meios, computador, electroacústica e orquestra. Hoje é Dia Internacional da Música Estranha. E Dia do Artista.)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Lostras, sostras e ostras

Lamparinas bem dadas
Quando, no meio da discussão e dos encontrões, lhe ofereceram um par de lamparinas, ele aceitou de bom grado e até aproveitou para deitar abaixo a ligação à EDP.

Talvez por ter nascido em Fafe, e pobre, e nos finais da década de cinquenta do século passado, conheci primeiro as lostras e as sostras e só mais tarde é que soube das ostras. Não estou a queixar-me da minha sorte, é apenas uma confissão que eu precisava de fazer há tantos anos, e agora, dito isto, fiquei em paz. Na verdade, "as ostras", "as lostras" e "as sostras" até são expressões aparentemente parónimas - ora tentai lá pronunciá-las, uma e depois a outra e depois a outra, a ver se não soam à mesma coisa -, mas resultam muito diferentes no que significam.
Comecei naturalmente pelas lostras, ou não fosse eu filho da minha mãe, que nos chegava a roupa ao pêlo com assinalável pertinácia. Bufardos, sopapos, bofetadas, bofetões, galhetas, lamparinas, estampilhas, lostras para todos os efeitos, aprendi isso tudo à minha custa, mesmo antes de entrar para a escola, que em nossa casa era uma fartura pelo menos nesse departamento e eu era muito bom para sinónimos.
Sostras, eu também sabia. Desde pequenino, isto é, desde que tive noção. Sostras. Mulheres sujas e preguiçosas, badalhocas, regra geral o que elas se chamavam umas às outras quando disputavam homem ou coisa parecida. Putas, putéfias, vacas, vaconas, cabras, coirões, coironas. Fazia parte do léxico fafense metido a cotio, era o fafês no seu melhor. Aliás, a palavra sostra, para mim, já naquela idade, trazia com ela qualquer coisa de sexual, de lascivo, de atesoante, dito simplesmente. E, a esse respeito, é preciso que se note que eu, apesar de padreca, fui aquilo que se diz um rapaz precoce, outra palavra que por acaso também me arrebitava sobremaneira, mas eu, não desfazendo, ficava incomodado por tudo e por nada.
Já ostras, o mais parecido que eu lhes conhecia por aquela altura, sem sequer ter ideia dessa estranha ligação, eram sardinhas fritas com arroz de tomate, e que bem que me sabiam. Assim pessoalmente, as ostras foram-me apresentadas teria eu 24 anos, em Bordéus, França. Casado de fresco, cheio de vaidade, fui lá mostrar a minha bela mulher às minhas queridas tias São e Dores, que não puderam vir ao nosso casamento. Levei também a minha mãe e o meu irmão Orlando e merendeiro para um regimento, fomos de comboio, de wagons-lits, num expresso do oriente para remediados e cagarolas, isto é, no Sud Expresso, e tivemos todos um Natal bem porreiro.
Foi por aqueles gloriosos dias que eu finalmente provei as ostras, essa requintada francesice, assim achava, vinham nuns cestinhos muito jeitosos, deram-me a ferramenta para a mão, aprendi a abri-las sem desastre e a comê-las de imediato só com um esguicho de limão, coisa tão boa, coisa tão mar, em Bordéus, França, com champanhe evidentemente, o que eu andei para ali chegar, 24 anos de vida, e as ostras eram de Setúbal, Portugal, estava lá escrito, se calhar foram comigo no comboio, é preciso ser-se muito parolo, eu. E a verdade é só uma: as ostras eram realmente tão extraordinárias como sardinhas fritas com arroz de tomate, nem mais nem menos, sardinhas compradas na Mocha, com sítio à beira da estrada, em frente ao tasco do Paredes e ao lado do Zé Manco, dividindo praça com os tremoços da Marrequinha e as castanhas assadas da Maria Barraca, consoante a época. Foi logo ali, no estrangeiro, que eu percebi pela primeira vez a inegável superioridade moral das nossas sardinhas e a sorte que tenho por ter nascido em Fafe naquele tempo e, ainda por cima, no Santo Velho.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Ostra e portanto vou assar bacalhau no forno, como fazia a minha mãe e como faz tão bem o minha irmã Nanda. Comidinha caseira, antiga, farta, saborosa graças a Deus. Limpinha. À moda do tempo em que as palavras eram livres de serem ditas...)

sábado, 18 de julho de 2026

Betos, Betas e betadas

Perto e bom caminho
Todos os dias ele fazia o caminho de Santiago, há mais de quarenta anos, e gabava-se muito disso. Morava na Praza de Galicia, em Compostela, a cinco minutos da catedral.

Beto é aquela pessoa, geralmente jovem e bem-comportada, que, pertencendo a um meio abastado e socialmente favorecido, cultiva uma aparência sofisticada e uma atitude presumida. O beto usa roupa e acessórios caros e frequenta os lugares da moda. Quer parecer e aparecer. O grande Afonso Praça (1939-2001), no seu Novo Dicionário do Calão, define-o assim: "Rapaz muito certinho, pelo menos na aparência, e oriundo de boas famílias. De um modo geral, é conservador, de direita, não falta às aulas, cumpre as suas obrigações escolares, é respeitador, não faz noitadas e gosta de vestir roupas de boas marcas."
Isto é. Beto, betinho, copinho de leite, menino da mamã, vaidoso, armante, boneco, janota, dândi, tirone, snobe, queque, coninhas, choninhas, aqui já serei eu talvez a esticar-me um bocadinho, mas isto, estou em crer, anda tudo ligado e vai tudo dar ao mesmo. E se os rapazes forem raparigas, então já não são betos, são betas.
Em Fafe, diga-se a este respeito, havia Betas do sexo masculino. O Sr. Beta e os dois filhos Betas, da Cumieira, os quais, naquela época, eram músicos da Banda de Revelhe, os três do ramo dos saxofones, se não estou em erro, e cumpriam muito bem o seu papel. Para além disso, o Sr. Beta pai era um renomado capador, pelo menos de porcos.
Beto pode também ser petit non de Alberto, Norberto ou Roberto, isto é, de Berto, para não irmos mais longe.
Ora bem. Aqui chegados, importa, porém, ressalvar o seguinte: não era destes betos que eu queria falar. Era, isso sim, do beto, um jogo de pau e bola que se jogava no recreio do seminário menor de Braga quando por lá passei como um cometa nos finais da década de sessenta do século XX, mas que devia ser muito mais antigo, quiçá até ancestral, do tempo dos romanos, a avaliar pela maneira tão obsoleta e cómica como o impiedoso padre Coutinho praticava a modalidade misturado com a miudagem, correndo de "casa" em "casa" agarrado à sotaina arregaçada para não se estender ao comprido, e nós, os pequenos seminaristas, mafarricos, rezávamos bastante para que ele se enrodilhasse nas vestimentas mesmo assim e, se possível, caísse de cangalhas no meio do terreiro, e havia de ser de rir e de dar graças a Deus.
O jogo do beto, que nunca mais vi em lado nenhum, não me entusiasmou por aí além. Faltavam-me o jeito, a pontaria, força de braço e a vontade de correr. Eu era mais sombra e paleio, sentado de preferência.
Beto, em algumas partes do Norte, nomeadamente no Porto, é gíria para botão de casaco, designando também o velhinho jogo do botão. Jogo do beto, andei à procura, assim jogado com pau e bola, terá existido e não sei se ainda existe, nem que seja só por memória e tradição, pelo menos em lugares da Guarda e Trás-os-Montes, versões de jogo diferentes uma da outra e diversas igualmente da forma de jogar que conheci em Braga. Há quem diga que o beto é semelhante ao críquete, jogo inglês, e eu imagino logo o Sr. Pimenta da enfermaria, de bata branca, a fazer de árbitro, mas o nosso beto de seminário era muito mais parecido com o basebol, jogo americano.
Beto era o nome do jogo e também o nome da espécie de pá de madeira, digamos taco ou bastão, com que se batia na bola. Uma pá robusta, comprida, pesada, que o padre Coutinho gostava de usar amiúde como palmatória, distribuindo à rapaziada em pânico as suas célebres e dolorosas betadas, enquanto assobiava deliciado a entrada prometedora de uma sinfonia de Beethoven. O padre Coutinho era, não desfazendo, uma besta.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Trago uma Páscoa no ouvido

Já não chove!
Noé, como todos os homens especialmente abençoados por Deus, era um incorrigível optimista. De hora a hora, dia após dia, durante quarenta dias, espreitava à janela da Arca, desviando a cortininha de chita estampada em degradê, e dizia à mulher: "É só um aguaceiro"...

Seminário de Braga. Lembro-me de uma Páscoa e a memória até é fácil - foi em 1974, ano santo, e no sábado do Domingo de Ramos havia Festival da Eurovisão em Brighton, Reino Unido. Era a grande noite, a verdadeira, tempos outros. Os nossos "superiores", como impunham que lhes chamássemos, deixaram-nos ir para a sala da televisão: muito compostos, bico calado, ouvimos as cantigas a preto e branco. Paulo de Carvalho cantou "E Depois do Adeus". Esteve bem, muito bem, Paulo de Carvalho nunca soube cantar mal. Para mim, Portugal ia ganhar. Sem espinhas. Preparei-me para o melhor.
Só que. Já disse: era seminário, Braga e Semana Santa, véspera à noite do Domingo de Ramos. Portanto: só que, na hora da votação, a parte talvez mais emocionante, os do orfeão, à inapelável voz de comando, tocados como gado, desatámos a descer por umas escadas de que nem sabíamos a existência e, num lampo, chegámos à rua por uma porta dos fundos ou, por outra, dos lados. Ia passar a procissão. O Paulo de Carvalho que nos desculpasse, mas era a nossa vez de cantar. O estrado com degraus estava montado logo ao pé da porta, no cantinho do Largo de Santiago, defronte do Governo Civil. Cantámos o "Miserere", como mandava a tradição. E era digno de ser ouvido, minhas senhoras e meus senhores: nós cantávamos a cores.
"Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam"... Cantámos numa fervurinha mas como querubins, como querubins apressados, a procissão parou e passou, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo amém, e toca a galgar a escadaria (que já não era secreta) com o coração aos saltos, quem é que ganhou, quem é que ganhou, mas afinal quem é que ganhou? Foi o Paulo de Carvalho? Foi Portugal? Evidentemente que foi Portugal. Ganhámos, de certeza que ganhámos...

(Ao contrário do que alguém possa ainda pensar, por causa da história das senhas radiofónicas do 25 de Abril, "E Depois do Adeus" é apenas uma notável balada de dor de corno, sem qualquer submensagem política. Muito bem cantada, isso sim, letra de José Niza e com uma orquestração - do maestro José Calvário, também autor da excelentíssima música - do melhor que alguma vez se fez ou virá a fazer no nosso país.)

Mas não. Não ganhámos. Portugal não ganhou e Paulo de Carvalho também não. Ganharam os Abba, com "Waterloo". A nossa canção, "E Depois do Adeus", desenrascou apenas três pontos e ficou em último lugar, empatada com a Alemanha, a Suíça e a Noruega. E vá lá, que a companhia podia ser pior.

Que se segue. Há cinquenta anos que ando com esta Páscoa no ouvido. E não por causa dos Abba nem pela bela canção do Paulo de Carvalho. É o "Miserere". O "Miserere" ensinado e dirigido pelo bom padre José Sousa Marques, se não erro no nome, chamado entre nós o Galinhola por causa dos seus meneios e ademanes. O "Miserere" que ainda sei de cor aos retalhos e com o qual, volta e meia, puxando pelo lamentável baixo-barítono que sobrevive dentro de mim, atazano o orelhame do pessoal cá de casa.
As saudades fizeram-me isto: lancei-me à procura do meu "Miserere" no YouTube e não o encontrei. Quem sou eu para desgostar do sublime "Miserere" de Allegri, que está em todo o lado como Deus Nosso Senhor e a CMTV, mas - deu-me para aqui -, de momento o "Miserere" bracarense, completo, integral, pungente, é que me convinha. E não sei dele.

E que mais? O maestro José Calvário, que morreu em 2009, com apenas 58 anos. Extraordinária figura, conhecido sobretudo da televisão, cheguei a vê-lo algumas vezes em Fafe, o que me enchia de orgulho e emoção. Eu era fã, sabia-o de cor. Sabia das suas gravações com a London Philharmonic Orchestra, com a London Symphony Orchestra, com a Orquestra Sinfónica do Estado Húngaro. Eu sabia do jazz, dos Psico, dos trabalhos com ou para Adriano Correia de Oliveira, António Gedeão, Carlos Mendes, Fernando Tordo, Tonicha, da sua pluralidade e excelência musical. Via-o a passar de carro, sem parar e evidentemente sem me reparar, mas para mim bastava. A família - "os Calvários", que creio que eram do Porto - tinha uma fábrica em Fafe, na Recta, actual Avenida de São Jorge, um pouco depois da Parefa, como quem vai para Armil sem cruzamentos rotundos e semáforos preguiçosos. Eu ligava aquela gente, não sei dizer porquê, ao nosso Jardim do Calvário, e por isso achava que eles, apesar de ricos, famosos, distantes e inacessíveis, também eram nossa gente, embora todas as noites fossem dormir a casa, pelo menos nunca se me constou o contrário nem lhes sei de filhos suplementares e fafenses. A fábrica chamava-se Coral, Malhas Coral, e mandou uma equipa ao primeiro torneio de futebol de salão de Fafe, em 1977, organizado de raiz pelo Grupo Nun'Álvares, com o Chester à frente. E a equipa deu nas vistas vestindo camisola e calção numa cor nova e inusitada para o tempo, algo entre o vermelho, o laranja e o rosa, certamente coral como o próprio nome indica, espero não estar a dizer asneira, ou então sonhei isto tudo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. José Calvário morreu no dia 17 de Junho de 2009, aos 58 anos.)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Um padre aí para as curvas

As despesas da corrida
Fez todas as despesas da corrida. Quando, no fim, chegou à meta e lhe apresentaram a conta, ia morrendo do coração...

O Padre Clementino morava no seminário. Não porque fosse prefeito ou professor ou tivesse outras responsabilidades administrativas ou religiosas na instituição, mas apenas porque naquele tempo ainda não havia lares para padres velhinhos e desconsertados. O Padre Clementino não era velhinho, ainda não, avariara apenas, ninguém o reclamou e ficou por ali. Mas era uma figuraça, um ser fabuloso, um mito vivo e vivaço. Um cromo. Baixote, redondo, anafado, bonacheirão, vermelhusco de cara e sorriso gaiato, batina coçada, sebenta, amiúde carregada de nódoas, isto é, o Padre Clementino tinha tudo para ser cónego, mas, que eu saiba, felizmente nunca lhe fizeram essa desfeita.
O Padre Clementino era muito cuidadoso com a fruta, sobretudo com as maçãs. Punha-as a madurar na beira da janela do quarto minúsculo que lhe fora distribuído como reforma e só as comia quando elas estivessem satisfatoriamente podres, cheias de bolor, para aproveitar a penicilina. Por estas e por outras, o Padre Clementino tinha uma saúde que até metia impressão, havíeis de ver.
Contava-se, com o seu quê de lenda. Nas férias, pela calada da noite ou durante o horário lectivo, com a rapaziada nas salas de aula, o Padre Clementino andava de bicicleta pelos compridos e desérticos corredores do seminário. Apesar da ausência de tráfego, da via desafogada, apesar de ter os corredores só para ele, corredores largos, longas rectas sem sequer chicanas, a verdade é que às vezes o homem caía, sei lá se por falta de jeito ou apenas porque o raio da sotaina se lhe enrodilhava na corrente, não faço ideia. Caía e pronto. E pronto, não! Rectifico. Caía, levantava-se logo que conseguisse, não sei se estais e ver a tartaruga de pernas para o ar, verificava os estragos no material, que eram quase sempre nada, marcava o local do tombo com um grande sinal que ele já tinha preparado e que dizia, regra geral, "CURVA PERIGOSA!!!", nem mais nem menos, e saía dali todo lampeiro, novamente bicicletando como eminente ás do pedal. Com o Padre Clementino era mesmo assim, de categoria, tudo nos conformes. Fossem chamar tolo a outro...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Bicicleta e Dia Mundial da Corrida.)

terça-feira, 2 de junho de 2026

Perfume de mulher

E foi lavar-se
A velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda, meia dúzia de linhas encriptadas em gatafunhos analfabetos, e leu baixinho, como que soletrando, acariciando as impossíveis sílabas uma a uma: - O do talho às onze, o taxista ao meio-dia, o padre às três e o senhorio às cinco. Desarriscou-os a todos, um atrás do outro, meticulosamente, com gosto, sorriu para o espelho do toucador, provocando-se, e resolveu tirar o dia. Guardou a agenda e pegou no telemóvel, vagarosamente, com requebros e biquinhos, imitando um gesto coquete que vira uma vez na televisão. Marcou encontro com a Amélia Calçuda. O espelho corou. E ela foi lavar-se.

Na minha infância e princípios da juventude lidei muito com padres. E os padres cheiravam. Isto é, tinham ou emanavam um certo e determinado cheiro. Não como o extraordinário Padre Clementino ou o Secónego, casos particulares, que cheiravam naturalmente a mofo, mas outro cheiro, doce, aperfumado, que também não era incenso nem ares de santidade ou sacristia. Cheiravam não sabia bem a quê. Aquilo intrigava-me, ainda por cima porque eu nem fazia ideia de que havia perfumes para homens, quanto mais para padres!
Que se segue. Na vasta sabedoria dos meus dez-onze anos, resolvi então que aquilo de os padres cheirarem a perfume era para disfarçar o cheiro a tabaco, como, por exemplo, o nosso senhor abade. Os padres não queriam que o povo soubesse do cigarrito às escondidas. Bem visto! Porque, naquele tempo, fumar era um pecado muito grande, praticamente ao nível do pecado da sagrada masturbação.
E nisso fui acreditando, bem-aventurados os néscios, até que um dia, espigadote e epifanado, finalmente percebi: aquilo do perfume dos padres era mas é cheiro a mulher, cheiro de convívio íntimo com mulher. E, nesse caso, Deus os abençoe...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Prostituta ou Dia Internacional da Trabalhadora Sexual.)

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Que puta de vida!

Foto Hernâni Von Doellinger

O Lopes ofereceu-me pelo aniversário os "Mistérios de Fafe", de Camilo Castelo Branco. Uma "edição popular" de 1969 da Parceria A. M. Pereira Ld.ª, "8.ª edição, conforme a 2.ª, última revista pelo autor", Camilo, que avisa desde logo: "Esta novela contém adultérios, homicídios, missionários e outros cirros sociais", portanto Fafe no seu melhor. Prendinha bem catita, que nisto de livros o Lopes nunca dá ponto sem nó, e foi apenas a cereja em cima do bolo, um mimo, porque a prenda principal foi outra - outro livro, evidentemente. Os meus melhores livros, aliás, são-me regularmente dados pelo Lopes e pelo meu irmão Orlando, honra lhes seja.
Mas o Lopes. O Lopes é um bom caralho! Aqui atrasado ofereceu-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista", para mim, estais a ver a malandrice? Porque o Lopes parece que está sempre no gozo. O Lopes chama-se Luís Lopes, é jornalista, escritor, argumentista e fafense amador, tantas as vezes que me acompanhou nos meus periódicos e mais ou menos nocturnos regressos à terra. O seu primeiro livro, publicado pela Vega em 1997, tem por título "Que Puta de Vida!", e quem ainda não leu, não sabe o que anda a perder. É coisa que se lê num lampo ou, melhor dizendo, no tempo de uma gargalhada. Ou de um espirro. Alguns raros exemplares poderão ainda ser encontrados, creio, nas melhores casas da especialidade.

Já agora, o seguinte. À medida que nos formos conhecendo melhor, ides perceber que eu levo os telemóveis muito a sério (à séria, se lido em Lisboa). Se o meu telemóvel toca, e é raro, eu atendo. Sempre. Ainda ontem: eu estava aqui nas traseiras, a escrevinhar qualquer coisa, por acaso sem o telemóvel à mão, e ouvi-o tocar na cozinha, virada para a rua. Fui lá a correr: não era o telemóvel, era a máquina de lavar roupa, que as máquinas de lavar roupa agora também tocam. O que é que eu fiz? Atendi a máquina de lavar roupa, evidentemente. E era o Lopes...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Autor Português)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Os convencidos da vida

Espelho meu
Ele era careca, completamente careca. Careca e vaidoso. Aliás, penteava-se de risca ao meio.

O problema dos ex-colegas. Sim, a chatice dos ex-colegas. Para um gajo a caminho dos setenta, embora em estado de praticamente novo, a questão dos ex-colegas é um aborrecimento quase tão grande como os calhamaços do José Rodrigues dos Santos se por acaso eu os lesse. Uma aflição. Os ex-colegas são uma pedra no sapato, e é por isso que há muitos anos só calço botas ou sapatilhas. Imaginem-me: com ex-colegas da minha rua e da escola primária, os melhores de todos, com ex-colegas do seminário, já lá irei, com ex-colegas do liceu que foram para doutores e foi um ar que se lhes deu, com ex-colegas dos Comandos que acham que são muito audazes e eu realmente não sou, com ex-colegas da fábrica de quem tenho tantas saudades, com ex-colegas dos jornais e da rádio que têm lá as suas vidas, vejo-me à rasca para os aturar a todos, mesmo quando eles não querem saber de mim, o que é regra geral. E quando querem saber de mim, então ainda é pior. O caso do seminário, e eu disse que vinha cá, é absolutamente paradigmático. Para quê? Digmático. Ninguém me mandou para o seminário, fui porque quis, porque queria ser padre, e às vezes ainda quero. A minha mulher sabe disso, desta minha impenitente inclinação, e, mais, somos felizes. No ano em que lá cheguei, ao seminário, éramos 136 crianças, eu tinha 11 anos e havia um documento de acção psicológica (isto anda tudo ligado) que rezava assim: "Começar é fácil. Recomeçar é de muitos. Chegar ao fim é de heróis. Nesta marcha ascensional é nosso dever caminhar! A empresa é difícil, mas fascinante O Ideal!"...
E há criaturas que acreditam nisto, os supra-sumos que chegaram ao "O Ideal!" e que, portanto, só podem imaginar que são os maiores, os "heróis". Se tivessem ido para os Comandos, esses supra-sumos, sumos sacerdotes, andariam agora por aí de boina vermelha e crachá, eventualmente de G3 a tiracolo se os deixassem, e, em vez de melancólicos ego te absolvo, diriam esfuziantes mama sumae! Estes rapazes tiveram os melhores mestres do mundo, o padre Fonseca e o padre João Aguiar, para não irmos mais longe, e afinal não aprenderam nada com eles, não perceberam nada da vida. Não percebem nada da vida.
Eu explico. Reencontrei-me ultimamente com ex-colegas do seminário que deram em padres. E até gostei, a princípio. Há aquela festa propedêutica, "ó pá, há que tempos, és mesmo tu, estás mais gordo, estás mais magro, está igualzinho, dá aí um abraço...", como pessoas normais, e depois os meus ex-colegas enfiam no cu um daqueles feijõezinhos milagrosos que lhes dão aquela voz sacrista e falseta, e, magníficos, condescendentes e compassivos, com a superioridade moral dos eleitos, dos exclusivos de Deus, perguntam sempre lá do alto, como se estivessem secretamente combinados uns com os outros, "e então, o que é que tens feito?"...
Fico atrapalhado. O que é que eu tenho feito? Começo a suar, a gaguejar, não sei o que hei-de dizer em minha defesa. Afinal estou perante um dos que chegaram ao topo do Kilimanjaro e eu nem sequer passei do sopé do Bom Jesus do Monte, onde o Secónego tinha uma casa. Conto o melhor que consigo: "ó pá, tenho sido sobretudo jornalista mas também trabalhei numa fábrica, sou casado há mais de quarenta anos, sempre com a mesma mulher, o que é censurável no meu ofício, porém continuo apaixonado, tenho um filho que é uma jóia e o meu maior orgulho, temos a casa e o carro pagos, damos umas voltinhas para arejar, eu não sei conduzir mas cozinho muito bem, tenho quatro amigos, pendurei a carreira profissional para tomar conta primeiro do meu sogro e depois da minha sogra, e não me lembro se já disse que sou jornalista"...
Mas não chega. Eu sei que não chega! E continuo aflito, gago e suado, mortinho por desaparecer por mim abaixo. Eu até acho que a classe dos ex-colegas está muito sobrevalorizada. Parece-me que a maioria das pessoas passa distraidamente ao lado do negativismo, da carga pejorativa que a própria expressão em si encerra. Ex-colega, ex-colegas. Se, por analogia, as pessoas pensarem no que pensam quando pensam em ex-amigo, em ex-amigos, em ex-mulher ou ex-mulheres, certamente compreenderão o que eu quero dizer. Mas não adianta. Isso não me salva. Os ex-colegas aparecem-me, realizadíssimos da vida, e eu, que sei que sou a desgraça que sou, a mediocridade em pessoa, encho-me de vergonha, só me apetece fugir...
Que raiva! Porque é que os nossos ex-colegas, mesmo os que não conhecemos de lado nenhum, estão todos melhor de vida do que nós? Tenho um desgosto muito grande.

Ou por outra, tinha. Porque aqui atrasado fui a Fafe a um funeral e mudei de táctica. Fui a Fafe, dizia, e esbarrei com um dos meus que deu em padre e que, ainda por cima, estava encarregado do serviço fúnebre. Conversámos na sacristia da Igreja Matriz, intermediados pelo meu sobrinho Geno, que me saiu um tipo bem porreiro. Como de costume, inquirido sacramentalmente, pelo ex-colega, "e então, o que é que tens feito?", confessei na mesma o "ó pá..." do parágrafo ali de cima, o "ó pá..." completo, porque tenho este defeito de informar, deformação decerto profissional, mas depois acrescentei, perguntando-lhe também, para livração da minha alma:
- E tu? Não fazes nada, não é? Quer-se dizer, nunca fizeste nada, pois não? És padre...

P.S. - Em todo o caso e nos tempos que correm, com o que vai aí de pedofilia e outros abusos eclesiásticos: como diria a minha mãe, que é sábia mas também queria um filho padre, "mais vale não fazer nada do que fazer asneiras"...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. O padre Fonseca é o padre Albino da Conceição Fonseca, actual reitor do Santuário de Santa Luzia, Viana do Castelo, e o padre João Aguiar era o cónego João Aguiar Campos (1949-2023). Devo muito a ambos. O próximo domingo, 26 de Abril, Domingo do Bom Pastor, será Dia Mundial de Oração pelas Vocações.)

sábado, 21 de março de 2026

Perfume de mulher

E foi lavar-se
A velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda, meia dúzia de linhas encriptadas em gatafunhos analfabetos, e leu baixinho, como que soletrando, acariciando as impossíveis sílabas uma a uma: - O do talho às onze, o taxista ao meio-dia, o padre às três e o senhorio às cinco. Desarriscou-os a todos, um atrás do outro, meticulosamente, com gosto, sorriu para o espelho do toucador, provocando-se, e resolveu tirar o dia. Guardou a agenda e pegou no telemóvel, vagarosamente, com requebros e biquinhos, imitando um gesto coquete que vira uma vez na televisão. Marcou encontro com a Amélia Calçuda. O espelho corou. E ela foi lavar-se.

Na minha infância e princípios da juventude lidei muito com padres. E os padres cheiravam. Isto é, tinham ou emanavam um certo e determinado cheiro. Não como o extraordinário Padre Clementino ou o Secónego, casos particulares, que cheiravam naturalmente a mofo, mas outro cheiro, doce, aperfumado, que também não era incenso nem ares de santidade ou sacristia. Cheiravam não sabia bem a quê. Aquilo intrigava-me, ainda por cima porque eu nem fazia ideia de que havia perfumes para homens, quanto mais para padres!
Que se segue. Na vasta sabedoria dos meus dez-onze anos, resolvi então que aquilo de os padres cheirarem a perfume era para disfarçar o cheiro a tabaco, como, por exemplo, o nosso senhor abade. Os padres não queriam que o povo soubesse do cigarrito às escondidas. Bem visto! Porque, naquele tempo, fumar era um pecado muito grande, praticamente ao nível do pecado da sagrada masturbação.
E nisso fui acreditando, bem-aventurados os néscios, até que um dia, espigadote e epifanado, finalmente percebi: aquilo do perfume dos padres era mas é cheiro a mulher, cheiro de convívio íntimo com mulher. E, nesse caso, Deus os abençoe...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Perfume.)

domingo, 25 de janeiro de 2026

Epístola aos Travassolenses

A desobra de Deus
Deus criou o homem. E o homem inventou a religião. E talvez não houvesse necessidade...

Paulo de Tarso, ou Saulo de Tarso, também conhecido como Apóstolo Paulo, São Paulo Apóstolo, Apóstolo dos Gentios ou simplesmente São Paulo, nem sempre foi o santo que hoje se pinta. Tem atrás de si um passado, como todos nós, mas um passado mais negro do que o da maioria de nós. Saulo era um fariseu radical, impiedoso, feroz, um zelota que se dedicava sem descanso à perseguição dos seguidores de Jesus. Era portanto do piorio, mau como as cobras, o diabo em pessoa, e só amansou e ganhou juízo quando Deus Ele mesmo lhe saiu ao caminho, dando-lhe um valente safanão e cegando-o temporariamente, a ver se ele aprendia. E ele aprendeu.
Assim miraculosamente convertido, Paulo resolveu pôr a correspondência em ordem e desatou a escrever missivas. Para além da algumas cartas com destinatário individual, sempre para homens, que fique devidamente registado, epistolou aos Romanos, aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, aos Tessalonicenses e eventualmente aos Hebreus. Catequizou também os Gentios, e quando eu descobri a parte nova da Bíblia, em pequenino, contada pelo senhor abade, julgava que os Gentios eram um povo assim como os Helvéticos ou os Teutónicos, naturais e residentes num país de que era proibido ou eventualmente pecado dizer o nome, por indecente e má figura.
Aprendi muito, depois, no seminário. Tive bons mestres. Agora ao caso, tive até um famoso especialista em "St Paul'ssss Cathedraaaal", o cónego Azevedo, ou "Ticha", por ser professor de Inglês, realmente um pândego, excêntrico e musical, bailarino de sobrepeliz e crónico mestre de cerimónias da Sé de Braga, figura que a minha memória tola às vezes confunde injustamente com o cónego Rodrigo, ou "Pipa", derivado à própria forma, outro cromo mas menos dado, também antiquíssimo e, no que me diz respeito, ineficaz professor de Latim. Já agora: o cónego Azevedo era o cónego Manuel Rodrigues de Azevedo (1915-1988) e o cónego Rodrigo era o cónego Rodrigo Guilhermino Ernesto de Carvalho. Cá está, eu e os cónegos...
Os nomes na Bíblia sempre me fascinaram. Tanto que eu pensava (e ainda penso) que se São Paulo fosse hoje e se por acaso resolvesse escrever aos portugueses só se dirigiria, arrisco dizer, aos Albicastrenses, aos Egitanienses, aos Escalabitanos aos Brigantinos, aos Freixenistas ou Freixienses ou Freixonistas ou Freixonitas, gente assim de nome fidalgo, ainda que indeciso, e nunca abaixo disso. Aliás, creio que os fafenses, padecendo de tão simples onomástica, ficariam de fora. Os fafenses assim entendidos de um modo geral, mas já não diria o mesmo, deixa-me cá ver, em relação, por exemplo e em concreto, aos Serafonenses ou aos Travassolenses que também podem ser Travassoenses, que se apresentam com gentílicos realmente de categoria, com gabarito bastante para merecerem a atenção do apóstolo e bem capazes de integraram a sua lista de contactos favoritos. E eu parece que estou a ouvir nas capelas e igrejas por esse mundo fora, palavra de honra, "Leitura da Segunda Epístola de São Paulo aos Travassolenses. Meus irmãos..."
E Melquisedeque? Ai o que eu gostava do nome Melquisedeque! E Ponto e Bitínia e Capadócia e Antioquia, nomes assim de perlimpimpim, de números de circo de Natal. Antioquia que me fazia sonhar aventuras das mil e uma noites, lamentando embora que São Paulo, que por estas bandas terá pregado o seu primeiro sermão, nunca tenha mandado uma epístola na volta do correio, uma sequer para amostra, aos simpáticos e desamparados Antioquenses.
Já no que respeita aos sodomitas, habitantes de Sodoma, continuo a achar que ficaram com a pior parte da fama. Os gomorritas, que eram outros que tais, safaram-se, vá-se lá saber porquê, e nem constam nos dicionários, quanto mais! A História nem sempre é justa, e parece-me que a Bíblia, às vezes realmente tão atrevida, devia ter aqui uma palavra a dizer.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Conversão de São Paulo.)

sábado, 16 de novembro de 2024

Estamos no fim do ano, meus meninos!

O Natal começa cedo cá em casa. Este ano começou no dia 9 de Novembro, sábado passado, aproveitando que estivemos o fim-de-semana de plantão, portanto sem direito ao costumado laréu. A minha mulher tirou o dia, desencaixotou o Natal e espalhou-o pela casa inteira. O pinheiro, os presépios, a aldeia de Natal, bonequinhos de neve, arranjos de mesa, canecas de Natal, Pais Natais de todos os materiais, tamanhos e feitios, laços, lacinhos, azevinhos, estrelas-do-natal naturais e artificiais, soldadinhos de madeira a fazerem de soldadinhos de chumbo, peluches alusivos e musicais, Ferrero Rocher, Mon Chéri, calendários do Advento, bengalinhas, comboiinhos, renas e grinaldas e estrelinhas e anjinhos, velas, bolas e embrulhinhos por todo o lado, em todos os cantos e corredores, em todas as portas, em todas as divisões, incluindo casas de banho, despensa e quarto de arrumos. A iluminação foi inaugurada anteontem, quinta-feira, quando o Kiko e a Sara vieram jantar. A minha mulher gosta muito do Natal, o meu filho gosta muito do Natal. Eu gosto muito da minha mulher e do meu filho.

No ano passado metemos o galo no presépio. Todos os anos experimentamos um melhoramento natalício, há muito que andávamos com o galo debaixo de olho, e foi no ano passado. Agora lá está ele outra vez, pelo segundo ano consecutivo, já afeito aos seu novos quefazeres, altaneiro e bico calado, mas imaginamo-lo todo kikirikiki como o Jerónimo do reclame da Compal, a anunciar o nascimento do Menino Jesus exactamente às 7h30, conforme muito bem podia constar da Bíblia.
O nosso galo do presépio é um galo de Barcelos, mas, atenção, não é o Galo de Barcelos. Nada de parolices, valha-nos Deus! É um galo de capoeira, obra de mestre barcelense, isso sim, 6x4 centímetros, a obra, um euro e meio, o preço. É arte.
Só presépios temos oito, para além de mais meia dúzia de Meninos Jesus avulsos, e nem a varanda e o escritório escapam ao nosso Natal. Pusemos o galo novo no presépio principal, evidentemente. O nosso é um presépio inclusivo, ao contrário do presépio do falecido papa Bento XVI, que em 2012 resolveu expulsar a vaca e o burro, porque, sentenciou, no local do nascimento de Jesus "não havia animais". Portanto, concluí eu, também não havia ovelhinhas, o que quer dizer que também não houve pastorinhos do deserto. Sobravam, inequivocamente, os três reis magos. Gente fina, vinho de outra pipa. Reis. E magos (porque o champanhe ainda não tinha sido inventado). Esses, é certo, estiverem lá, em representação de toda a humanidade - segundo Ratzinger. Estiveram os reis magos e os anjos cantadores. Os anjos também estiveram.
Que se segue? Eu por acaso até era mais dado a acreditar no burro e na vaca do que na mirabolante história de Gaspar, Melchior e Baltasar, uma boa linha média para quem jogue em 4-3-3, mas que se há-de fazer? Na verdade, eu por acaso até sou capaz de acreditar mais no burro e na vaca do que nos anjos e no presépio completo, a começar pelo dogma da virgindade de Maria tal como está estabelecido. Mas quê? Mais de dois mil anos a aquecerem o Menino com os respectivos bafos, e foi este o pagamento que o burrinho e a vaquinha receberam.
Cá em casa não expulsamos ninguém, pelo contrário. No nosso presépio entram todos. Todos são bem-vindos, sem excepção. Pastores, trolhas, cabrinhas, escafandristas, empregados de mesa, com e sem-abrigo, prostitutas, levandiscas, lambe-botas, grilos, reis magos e outros artistas de circo, polícias municipais, cães e gatos, sapos e ciganos, evidentemente o burro e a vaca, que se lixe o Vaticano!, e desde ano passado o galo, este ano a minha mulher ainda não se decidiu pela novidade, se calhar para o ano um porco e depois uma avestruz, o Ben-Hur, se também quiser, o He-Man, o Super-Homem, o homem-estátua, a Justiça de Fafe, a Barbie, o Nenuco, a Popota, a Irmã Lúcia, os Power Rangers, o Padre Cruz, os Transformers e as Tartarugas Ninja, o Zé Povinho e o Fradinho das Caldas, o Tutankhamon, o Yoda, Marcelo Rebelo de Sousa e até Bento XVI se entretanto sair em boneco.
Deus é grande, e o nosso presépio será cada vez maior.

É. Chegamos ao Verão e a minha mulher começa logo a programar o Natal, a fazer compras de Natal, a falar do Natal, e realmente num lampo estamos lá, num lampo estamos cá. Agora, nesta idade, os dias fogem-nos com uma bolina que já não conseguimos controlar. "Estamos aqui, estamos no Natal!" E de repente estamos, mal acabamos de dizer. Como se estivéssemos sempre no Natal. Como se o Natal fosse um presente contínuo. E, olhem, do mal o menos.
Faz-me lembrar o padre Fraga, mestre e amigo na minha infância sacrista. Há muitos anos, no seminário, em Braga, o querido padre Fraga passava a vida a tentar chamar-nos à razão, a apelar ao redobrar do esforço no estudo, à recuperação de notas, ao brio escolar. O bom padre Fraga, Albano Teixeira Fraga, que é fafense de Travassós e que se desfazia em riso de cada vez que queria falar de mau, perorava com os braços cruzados no peito, gesticulando com uma mão de cada vez, "por um lado isto, por outro lado aquilo", coisa bonita de se ver. Ele tinha uma teoria, um argumento poderoso. Estávamos ainda em Janeiro, no início do 2.º período, e o padre Fraga agitava as juvenis (in)consciências, alertando, apocalíptico: "Porque, meus meninos, estamos no fim do ano!..."
Isso. A urgência da vida. Com o padre Fraga, desde o princípio do ano que estávamos no fim do ano, não havia tempo a perder. Cá em casa, a Mi é com o Natal. Os nossos Natais, verdade seja dita, são como os cigarros das férias grandes, fumados às escondidas atrás do Jardim do Calvário - acendem-se uns nos outros.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Deus nos livre dos afrontamentos

Um dominguinho como de costume e Deus manda. Missinha das onze, homiliazinha com palavrinhas a abater e um que outro puxãozinho de orelhas para temperar, uns acenozinhos ao rebanho, umas lambidelas recebidas na mão santa, a do cachucho, e depois... o almocinho. O almocinho de dominguinho: três pratos, tal qual a Santíssima Trindade e o outro assunto que não vem ao caso. Duas horas à mesa e sempre a dar-lhe, como se fosse castigo, penitência. "Ui! Comi que nem um abade" - desabafou, num arroto final. "Nada de modéstias, Vossa Excelência Reverendíssima Senhor Dom, afinal de contas sois Bispo, sois Bispo" - acudiu o solícito secretário, jovem presbítero, com as maiúsculas bajuladoras numa mão e o bicarbonato de sódio na outra. É. Deus nos livre dos afrontamentos.

(Publicado originalmente no dia 8 de Julho de 2015. O Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga, faz hoje 100 anos. Também hoje remato a quase trintena de apontamentos com que assinalei a efeméride pela parte que me toca.)

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Entrou para o seminário aos 11 anos...

Rui Valério entrou para o seminário aos 11 anos, conta a CNN Portugal, e hoje o Papa escolheu-o para ser o novo patriarca de Lisboa. Eu também entrei para o seminário aos 11 anos, mas, lá está, mais uma vez não fui o escolhido. Em todo o caso, não me dava jeito. Tenho a produção toda tomada até ao final do ano e, a verdade também é só uma, convinha-se um lugar cá mais para cima, para o Minho, se possível, no Alto Minho então é que era, uma casinha com um terreno, pequeno que fosse, o rio e o mar à beira...

(Publicado originalmente no dia 10 Agosto de 2023. O Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga, faz 100 anos depois de amanhã, quinta-feira, dia 14. Sigo com a série de republicações vitaminadas, assinalando a efeméride pela parte que me toca.)

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

O meu amigo Jeremias

Encontrei ontem por acaso o Jeremias, o velho Jeremias, o grande Jeremias, o meu amigo Jeremias - aos anos que não nos víamos um ao outro, eu e o Jeremias. Fiquei tão contente! Recordámos os tempos antigos, os primeiros anos de seminário, falámos das nossas vidas, da família, dos filhos, dos netos, dos amigos que já morreram, daquela inesquecível excursão a Andorra, grandes malucos, da situação na Ucrânia e em Gaza e em Moçambique, das cheias em Valência, de Donald Trump, de Pinto da Costa, do Macaco e do INEM, deste país que só neste país, do tempo para o fim-de-semana e de projectos para o futuro. Enfim, pusemos a conversa em dia, avivámos uma amizade que vem desde os bancos da escola, por assim dizer. Despedimo-nos calorosamente trocando abraços da boca para fora e números de telemóvel e apalavrando a marcação de um almoço para um dia que não chova. Cada qual seguiu para o seu lado, e só então é que eu reparei que aquele não é o Jeremias, nem sequer é parecido com o Jeremias, de resto, pensando bem, ele também não me disse que era o Jeremias e eu nunca tive um amigo chamado Jeremias nem nunca na vida fui a Andorra nem andei no seminário. Na verdade, depois de muito puxar pela cabeça, cheguei à absoluta conclusão de que não conheço este indivíduo de lado nenhum. Em todo o caso, gostei muito de falar com o Jeremias e é bom ter amigos assim.

(Publicado originalmente no dia 19 de Fevereiro de 2020. O Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga, faz 100 anos na próxima quinta-feira, dia 14. Sigo com a série de republicações vitaminadas, assinalando a efeméride pela parte que me toca.)

domingo, 10 de novembro de 2024

A problemática da xalxixa

Foto Tarrenego!

Si six scies scient six saucisses ici, six cent six scies scient six cent six saucisses ici
. No seminário, também aprendíamos coisas assim, interessantes para a vida. Esta foi-me ensinada pelo padre Américo Ferreira Alves (1917-2013), na aula de Francês. O tonitruante e escuteiríssimo padre Américo era um excelente professor. O Francês que aprendi com ele nos dois primeiros anos do "Ciclo" chegou-me e sobrou-me para todo o "Liceu", com dispensa de exames. O padre Américo, depois monsenhor, era autor de um livrinho muito prático para Português e Francês, de aquisição obrigatória, creio que se chamava "Analyse", e gostava muito de poetar. Escrevia os seus versinhos no quadro, para que os copiássemos, se quiséssemos, e declamava-os a ritmo marcial, num vozeirão de bradar aos céus. Se os sargentos fossem diseurs, diriam certamente assim. Já lá vão mais de 50 anos, mas lembro-me de um poema, tremendo, que começava talvez desta maneira, citando de cor:

Céu de puro anil
e de graças mil
pelo mês de Abril
és a beleza.

Só pra ti olhar
faz-me suspirar
e em ti buscar
toda a riqueza.

Quer-se dizer: não tenho a certeza quanto à localização certa de "beleza" e "riqueza", se era por esta ordem ou ao contrário, também não sei se "riqueza" entra mesmo, ou seria "tristeza" ou "clareza" ou "leveza" ou "pureza", mas "beleza" é exacto que constava e a rima era realmente esta, em "eza". Em todo o caso, estão a ver a profundeza?

(A partir de um microtexto publicado originalmente no dia 11 de Maio de 2018. O Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga, faz 100 anos na próxima quinta-feira, dia 14. Sigo com a série de republicações vitaminadas, assinalando a efeméride pela parte que me toca. Nem de propósito, hoje é Dia Internacional do Trava-Línguas.)