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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Os capados

Foto Agência Ecclesia

Os pontos nos ee
"Sexualmente falando, és imprestável", disse ela. "Tá bem", disse ele, e foi organizar-se com a vizinha. Ele percebera "emprestável". São coisas que acontecem...

Houve uma maré em que a minha mãe lavava para fora. Na poça do Santo e no rio da Ponte do Ranha, à beira do Matadouro, carregava e lavava montanhas de roupa alheia. Eu às vezes ia com ela. Aquilo era um trabalho muito duro. Tão duro que eu, preguiçoso por idade e por feitio, como vim a saber mais tarde, fazia tudo para "ajudar". Mas não me deixavam. Nem a minha mãe nem as outras lavadeiras, sobretudo estas. Diziam-me, entre cantigas e caralhadas, que os meninos do sexo masculino não podiam lavar roupa. Se os meninos do sexo masculino lavassem roupa - dizia o mulherio -, quando fossem homens não lhes crescia a barba, ó terrível maldição!
A mim, confesso, nem me aquecia nem me arrefecia, aquilo da barba. Eu já estava por tudo. Tinha 11 anos, faltavam-me duas ou três semanas para entrar no seminário, e logo que lá chegasse - também me diziam - iriam capar-me sem dó nem piedade! Então olha, perdido por um, perdido por mil...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 4 de maio de 2025

Dia sim, dia não

Domingo, dia da mãe. Domingo, terça e quinta. Segunda, quarta e sexta, com o pai. Sábado em casa da tia. É. Os divórcios são um merda.

P.S. - Hoje é Dia da Mãe.

domingo, 5 de maio de 2024

A vida é bela e amiúde nem por isso

Foto Hernâni Von Doellinger

A minha mãe teve uma infância muito difícil, era desta maneira que eu ia começar a escrever. Mas não. A minha mãe não teve uma infância difícil, nem uma infância fácil, nem uma infância assim assim. A minha mãe não teve infância, ponto final.
A minha mãe não foi sequer à escola. Mandaram-na para criada de servir aos sete anos de idade. Serviu famílias importantes em Fafe, mas ninguém se lembra ou faz caso, a minha mãe era um criança e os tempos eram outros.
A minha mãe casou aos 18 e ficou viúva aos 33. Viúva e com quatro filhos evidentemente menores. Era tempo do fascismo - sim, do fascismo!, escusam de fazer de conta -, da pobreza sufocante e do opróbrio, da reprovação pública, porque a má-língua sobre vizinhos ou conhecidos era o passatempo que havia antes dos reality shows da TVI e das notícias de faca e alguidar da CMTV. Naquele tempo de cinza, ser-se nova e viúva era uma desgraça, mas também, socialmente, um defeito, uma marca na testa para toda a vida. A minha mãe passou a ser oficialmente a Viúva da Bomba, para que não lhe viessem ideias. E no entanto, sozinha, fez de nós quatro as pessoas que somos, à sua imagem e semelhança, vertebrados e moralmente limpos, gente digna e séria, respeitadora e respeitada, menos eu, que dei no que dei e, com esta idade, já não tenho remédio.
Como é que a minha mãe conseguiu? Com muita muita canseira, com roupa lavada para fora em tanques de ricos, na poça do Santo ou no tanque do Matadouro, com camisolinhas e casaquinhos de lã feitos por encomenda, primeiro à mão e depois à máquina, com lágrimas tantas que eu bem as via por mais escondidas que fossem, com os tostões contados sete vezes ao dia, com os meus irmãos mais velhos - a Nanda e o Nelo - a terem de ir trabalhar ainda crianças para que eu e o Lando, os mais novos, pudéssemos "estudar e ser alguém na vida". E sermos alguém na vida por eles, em nome deles, de todos, porque nós os cinco éramos apenas um, assim é que a nossa mãe nos queria, como os mosqueteiros, ainda nem fazíamos ideia do Intermarché, embora eu já soubesse do Alexandre Dumas e do d'Artagnan.
Resultado: os meus irmãos são umas jóias, foram e são sempre os melhores naquilo que fizeram e fazem na vida, que era o mínimo que a nossa mãe nos exigia, o Nelo e a Nanda afinal também são "alguém" mesmo sem "estudos" e, quer-se dizer, só eu dei para o torto porque nestas coisas de família é realmente imprescindível a excepção que confirme a regra, e portanto resolvi sacrificar-me pelo bem comum.
A minha mãe fazia das tripas coração e da massa com fressura um pitéu. O dinheiro não chegava e então passou a tomar conta de crianças. Isso, a minha mãe tomava conta dos meninos dos outros, era "ama" disputada, havia lista de espera, metiam-se cunhas, empenhos para que ela aceitasse esta ou aquela criança. Lembro-me do Miguel, da Guidinha, do André, da Xaninha, da Susana, do Ginho, do Miguelinho, e esqueço-me indesculpavelmente de outros, e os meninos chamavam à minha mãe, cada qual à sua maneira, "mãe Xandrina", "mãe minha" (haverá forma mais bonita de chamar alguém?) ou simplesmente "bozinha", porque os netos também lhe passaram pelas mãos. A querida Guidinha, agora casada e também mãe de um rapaz já adulto, ainda hoje chama "mãe Xandrina" à minha mãe e a mim chama-me "tio Nane". E eu gosto muito destes chamamentos assim.
Na Rua do Assento, na casinha de pedra, minúscula, imensa e mágica, a minha mãe chegou a olhar por nove meninos ao mesmo tempo. Como se fossem também seus filhos. Olhava por eles para olhar por nós. Era mãe urbi et orbi, atentíssima, severa e amorosa, dava-lhes, de acordo com a exigente cartilha que lhe corria no sangue, o pão e a educação. Tinha ali uma espécie de infantário, restrito e de alta qualidade, muito procurado e com enorme lista de espera. Metiam-lhe empenhos, chegavam-lhe peitas, recomendações, pedidos praticamente desesperados. A minha mãe informava-se sobre os pais que se lhe abeiravam, era picuinhas no exame, rigorosa, mandona nas condições, só uns poucos conseguiram passar pelo seu crivo, e, se fosse hoje, se calhar ia presa. Por falta de licença...

domingo, 3 de maio de 2020

Mãe só há uma, e é para mim!

Foto Hernâni Von Doellinger

Alexandrina
Tenho na ideia escrever um livro sobre a minha mãe. E sei que, ao contrário do que é uso, são muito poucas as pessoas que merecem que se lhes escreva um livro sobre. Mas a minha mãe é diferente, justifica, é uma mulher extraordinária, no sentido literal do termo, e não por ser minha mãe. Nesta história, eu sou o menos.
Eu ia agora escrever que a minha mãe teve uma infância muito difícil, mas dei fé a tempo de que estaria a mentir: a minha mãe não teve infância, não foi à escola, a vida mandou-a para criada de servir aos sete anos de idade. A minha mãe ficou viúva e com quatro filhos aos 33 anos. Tempo do fascismo - sim, do fascismo -, da pobreza sufocante e do opróbrio, da reprovação pública, porque a má-língua sobre vizinhos ou conhecidos era o passatempo que havia antes dos reality shows da TVI. Naquele tempo de cinza, ser-se nova e viúva era uma desgraça, mas também, socialmente, um defeito, uma marca na testa. A minha mãe era a Viúva da Bomba. E no entanto, sozinha, fez de nós quatro, à sua imagem e semelhança, as pessoas que somos, vertebrados e moralmente limpos, gente digna e séria, respeitadora e respeitada, menos eu, que sou um bocado palhaço.
Como é que a minha mãe conseguiu? Com muita muita canseira, com camisolinhas e casaquinhos de lã feitos para fora, e lágrimas que eu bem as via, com os tostões contados sete vezes ao dia, com os meus irmãos mais velhos - a Nanda e o Nelo - a irem ainda crianças para o trabalho para que eu e o Lando, os mais novos, pudéssemos "estudar e ser alguém na vida". Sermos alguém na vida em nome deles, de todos, porque nós os cinco éramos apenas um, assim é que a nossa mãe nos queria, como os mosqueteiros, ainda nem fazíamos ideia do Intermarché. Evidentemente, só eu dei para o torto.
A minha mãe fazia das tripas coração e da massa com fressura um pitéu. O dinheiro não chegava e então passou a tomar conta de crianças. Isso, a minha mãe tomava conta dos meninos dos outros, era "ama" disputada, metiam-se empenhos para que ela aceitasse as crianças. Lembro-me do Miguel, da Guidinha, do André, da Xaninha, da Susana, do Ginho, do Miguelinho, e esqueço-me indesculpavelmente de outros, e os meninos chamavam à minha mãe, cada qual à sua maneira, "mãe Xandrina", "mãe minha" (haverá forma mais bonita de chamar alguém?) ou simplesmente "bozinha", que os netos também lhe passaram pelas mãos. A querida Guidinha, casada e também mãe, ainda hoje chama "mãe Xandrina" à minha mãe e a mim chama-me "tio". E eu gosto. Na Rua do Assento, na casinha de pedra - minúscula, imensa e mágica -, uma casa que então podia ser a dos sete anões ou a do João do pé de feijão, conforme, a minha mãe chegou a olhar por nove meninos ao mesmo tempo. Olhava por eles para olhar por nós. Era severa e amorosa, dava-lhes, de acordo com a cartilha que lhe corria no sangue, o pão e a educação, tinha ali uma espécie de infantário, restrito e de alta qualidade, e se fosse hoje se calhar ia presa.
Já viram a importância das mães como a minha, que, repito, para além dos seus, tomava conta dos filhos dos outros? Olhem para as últimas notícias, vejam aí os pais que não sabem tomar conta dos próprios filhos...

A minha mãe comeu o pão que o diabo amassou e diz que o 25 de Abril foi o melhor que aconteceu em Portugal. Isso e as vitórias do FC Porto. Dei voltas e voltas à cabeça e finalmente encontrei um título excelentíssimo para o livro que tenho na ideia escrever sobre a minha mãe. Não se deve partir do título para o texto, tomem nota, mas desta vez até calhou bem. "Alexandrina" é o meu título, depois de muito muito trabalhado, e é uma categoria, não é?
Mas a minha mãe é extraordinariamente maior do que a minha habilidade para a escrita. Eu sei que nunca na vida vou saber escrever um livro sobre a minha mãe - na verdade, eu não sei escrever livro nenhum -, portanto, descendo à terra, a partir deste momento, mudo o tempo do verbo e falo apenas do livro que tinha na ideia escrever sobre a minha mãe. Tinha. Para os arquivos, ainda assim, faço questão que fique registado o título do livro que eu nunca vou escrever: "Alexandrina", que já diz muito...

A minha mãe ouviu um too
Liguei esta manhã à minha mãe, para receber a indispensável bênção semanal, e a minha mãe disse-me que em Fafe estava um frio de rachar, daquele frio que parece que "já passou por muita neve", portanto fora de prazo, e que por volta das seis, sete horas ouviu um too. A minha mãe ficou muito admirada por ser só um. Ainda admitiu, a rir-se com os botões, que fosse uma bomba, mas não, o que ouviu foi mesmo um too, tinha a certeza.
É este falar antigo, escorreito, musical, tão galego nosso, que me apaixona tanto, e suspeito e lamento que sejam já poucos os que o guardam em Fafe. Atenção: a minha mãe falou bem. A minha mãe fala sempre bem. Toar é sinónimo de trovejar e portanto um trovão é um too. Lê-se e diz-se tôo e não tu, à estrangeira. A minha mãe ouviu um too e deram-me umas saudades desgraçadas...

O dedo que adivinhava tudo
Se eu em pequeno acreditava no dedinho da minha mãe que sabia tudo? Acreditava, e acreditava piamente. Aquele dedo mantinha-me na linha. E ainda hoje.

Anjo da guarda, minha companhia
Todas as noites. A nossa mãe pegava em nós - na Nanda, no Nelo e em mim - e colocava-nos de joelhos e mãos postas, virados para a parede. Não era castigo, era amor. Na parede do quarto da nossa mãe, por cima da cama de casal, estava pendurada uma daquelas gravuras do anjo da guarda à la menino da lágrima. Rezávamos: "Anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia."

(Morávamos na casinha amarela do Santo Velho. O quarto da nossa mãe, logo à entrada, era também a sala, a urgência, o consultório das aflições e desgraças da rua inteira. A minha mãe curava. Cura. Eu era então o mais novo e os mimos eram todos para mim. Os mimos que a pobreza honrada permitia. Éramos remediamente felizes, mas ríamo-nos muito, graças a Deus. Umas senhoras da Granja que trabalhavam no Centro de Saúde e passavam pelo nosso Santo Velho diziam que eu "até a chorar era bonito" - contava-me a minha mãe, cheia de vaidade, fazendo-me festinhas nos caracóis, e eu gostava. E eu gosto, mãe. Quando a minha mãe se zangava comigo - e eu enchia-a de razões para isso -, dizia-me que eu tinha sido deixado lá em casa pelos ciganos...
Depois nasceu o Lando e acabaram-se-me as mordomias.)

Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito "sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora que fazia a vida negra ao senhor e que, todos concordávamos com a nossa mãe, era "uma cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já tinha feito algumas redacções sobre "A cabra" e por isso sabia que a cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa alimentação, que era assim que a coisa se rematava.

O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.

Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz.

Vai lamber sabão!
Havia o sabão azul, o sabão rosa e o sabão amarelo. O sabão azul era o sabão macaco, para lavar roupa de barba rija, o sabão rosa já naquele tempo era para peças mais delicadas e o sabão amarelo era para lavar as escadas e os soalhos, que, em muitas casas, depois eram encerados. E havia também o sabão para lamber, que eu nunca soube de que cor era nem que sabor tinha, mas era o que a minha mãe me mandava fazer, "Vai lamber sabão!", quando eu andava à roda dela a arengar conversa sem assunto.

A minha extraordinária professora de Português
A língua portuguesa é para mim uma paixão e o meu ofício. O amor e o respeito pela nossa língua foram-me ensinados primeiro pela minha mãe - analfabeta por culpa da vida, e sábia graças à vida. A minha mãe corrigia-me a leitura, emendava-me as palavras, eu de cabeça enfiada nos livrinhos fascistas da primária, na mesa da nossa sala que era também o quarto dos meus pais logo à entrada da casinha do Santo Velho, e a minha mãe a ensinar-me Português. Ela não sabia ler nem escrever, e eu achava aquilo extraordinário. Ainda hoje acho aquilo extraordinário.

P.S. - Selecção de textos publicados originalmente entre 21 de Agosto de 2011 e 4 de Abril de 2019, aqui repetidos sem rigor cronológico. Há mais e é de graça: basta clicar nas etiquetas "série A minha mãe" ou "série Memórias de Fafe".

segunda-feira, 7 de maio de 2012

É de um homem desconfiar

Ontem. Dei os maiores parabéns que soube e pude à minha mulher, por ser mãe. Dei dois beijos e um abraço cheio de coração ao meu filho, por ser quem é: filho da mãe, razão da coisa. A mim ninguém me disse nada. Mau...

Vagamente relacionado: vi no jornal Público um título bem esgalhado e todo prafrentex. Dizia: "Ser mãe não é obrigatório". Pois não. A não ser que se tenha filhos.