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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Jogando ao pau com os ursos

Cada macaco no seu galho
"Em que ramo é que trabalhas?", perguntaram-lhe. E o macaco respondeu: "No de baixo, derivado às vertigens..."

A moda é nova, mas pegou de estaca em Portugal. O fado, a dieta mediterrânica, o cante alentejano, os chocalhos de Alcáçovas e a olaria preta de Bisalhães foram elevados aos píncaros do Património Cultural Imaterial da Humanidade, com grande regozijo nacional. Seguiram-se a falcoaria, a louça de Estremoz, os Caretos de Podence e as Festas do Povo de Campo Maior - até ver. Fixemo-nos, porém, na falcoaria. A falcoaria, numa das suas definições mais acessíveis, é a arte milenar de criar, treinar, cuidar e caçar com aves de rapina no seu habitat natural. Os falcões e colaterais contrafacções, digamos águias e açores, caçam, matam e comem, em geral, outras aves e pequenos quadrúpedes que não têm lóbi na Unesco. Está certo: a Unesco é uma organização das Nações Unidas que visa contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a educação, a ciência, a cultura e as comunicações. Com a falcoaria ficámos irremediavelmente lançados. Eu, pela parte que me toca, penso agora nos sapateiros, nas mulheres-a-dias, nos periquitos, nos perdigueiros, nos entrançados de palha de Travassós e, andava com esta ferrada há que tempos, nos furões. Comigo, estão todos à bica.

E antes que me esqueça: por exemplo, o jogo do pau. O nosso indesmentível jogo do pau, que é tão nosso como dos outros. Porque não? Ou o berlinde, a carica, o pião, o espeto, a macaca, o moche, o tene, a cabra-cega, o arranca-cebolas, o mamã-dá-licença, o esconde-esconde. Ou o jogo da malha. Ou o jogo da bisca. Ou o jogo Benfica-CUF de 22 de Março de 1959. Porque não?
Por exemplo, as Janeiras, os Reis, as novenas, o terço e a bênção do Santíssimo. A incomparável procissão da Senhora de Antime e o pagamento de promessas de joelhos em Fátima. Porque não? As marchas de Lisboa e as rusgas do Porto e o Pai das Orelheiras e o carnaval de Ovar e as arruadas das bandas de Revelhe e Golães e a bicha das sete cabeças e a chega de bois e as "Velhas" da Terceira e as adufeiras de Monsanto e a Justiça de Fafe e a Porca de Murça e as pedras parideiras de Arouca e os zés-pereiras e os cabeçudos e os gigantones. Ou a cantiga no duche, ou a lengalenga do avô, ou a arenga de bêbado, ou o apita-o-comboio, ou o atirei-o-pau-ao-gato, ou o areias-era-um-camelo. Ou o canto pimba, ou o canto neiro. Porque não?
Por exemplo, os ranchos folclóricos, os conjuntos típicos, a Maria Albertina e o António Mafra, os grupos excursionistas, os motoclubes e as motosserras, que são serras onde se anda de mota. Ou as bandas de música de um modo geral, filarmónicas e copofónicas, indispensáveis. Porque não? Ou os bandos de malfeitores, banqueiros ou governantes, os salgados e os doces, da alheira de Mirandela ao pastel de Belém. Porque não?
Por exemplo, o manguito do Bordalo. Ou o caralho das Caldas. Porque não?
Por exemplo, o assobio. O assobio com dedos ou com as mãos em concha. Porque não?

Somos um país para o Guinness. É património até dar com um pau. É património sem mãos a medir. Com assinalável pertinácia, Portugal mete os dedos à boca e, com vossa licença, vomita património imaterial da humanidade por todos os lados. Um destes dias, sem darmos fé, estamos todos condecorados. Da cabeça aos pés.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 29 de agosto de 2026

Fafe de sorte e azar

Servindo à pinta
- Com quantos paus de faz uma canoa?
- Ignoro.
- E com quantas copas?...

As máquinas de flippers chegaram a Fafe creio que pelos finais da década de 70 do século passado e assentaram arraiais na exígua sala de bilhares do velho café Peludo, onde Serafim d'Eiteiro debitada pérolas filosóficas para jogadores momentaneamente ensandecidos. Fafe daquele tempo, sobretudo Fafe fora de horas, era uma terra de jogo, havia muito vício, muita batota. O bom povo de Fafe jogava ao quino, pelo Natal, no Peludo exactamente. Jogavam maus meninos bem, todo o ano, toda a noite, no Club Fafense, desperdiçando sorrateiras fortunas de berço. Jogavam os novos cavalheiros da indústria, desalinhados e ricos a estrear, toda a noite, todo o ano, no Fernando da Sede, de porta respeitosamente fechada. (Para entrar era preciso saber o santo-e-senha. Eu sabia, entrava, mas não jogava.) Jogava-se aos pinhões em casa, jogava-se ao bilhar, ao dominó, à sueca, à lerpa, às copas, ao sete e meio, ao montinho e à malha em todo o lado, a dinheiro, a cerveja ou a vinho, e até se jogava ao sapo, ao pau e à bola, mas isso já era para predestinados. Em Fafe jogava-se forte e feio. Ateimava-se. A ateima também era um jogo. Jogava-se a tudo. E até se jogava ao pilas.
Queiramos ou não: Fafe era Fafe, um farol civilizacional, inapagável Las Vegas do vale do Ave, hoje em dia com barragem e tudo, oásis de sorte e azar encravado entre a Póvoa de Lanhoso e Felgueiras, a zona de Basto, Vieira do Minho e Guimarães, consoante o lado por onde se lhe quiser entrar.
Os flippers chegaram a Fafe e foi uma febre medonha. Uma epidemia, descontrolada mas circunscrita. Eram sempre os mesmos, os do póquer, que eram os do king, que eram os do bilhar, que eram os do dominó, que eram os das copas, agora apanhados pelo pinball, e apostava-se ali à rica e sempre com o dinheiro na mão. Os recordes, sucessivamente batidos, valiam belas maquias. Eram autênticos agarrados, constavam-se lares praticamente desfeitos. Era preciso marcar vez, havia quem pagasse por uma vaga, havia quem se esquecesse de ir trabalhar à tarde, só para não largar a máquina, deixando-a à mercê da concorrência. Não havia vida para além dos flippers, morava-se ali, ao som daquelas campainhas mágicas, sem mulheres, sem filhos, e ao fim da noite talvez também sem um tostão no bolso. Depois as máquinas foram-se embora, foi a sorte, ou então milagre, e os jogadores tornaram a casa, às mulheres e aos filhos, à vida real. Até que chegaram as consolas, os computadores e os telemóveis-casinos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Gamer.)

sábado, 18 de julho de 2026

Betos, Betas e betadas

Perto e bom caminho
Todos os dias ele fazia o caminho de Santiago, há mais de quarenta anos, e gabava-se muito disso. Morava na Praza de Galicia, em Compostela, a cinco minutos da catedral.

Beto é aquela pessoa, geralmente jovem e bem-comportada, que, pertencendo a um meio abastado e socialmente favorecido, cultiva uma aparência sofisticada e uma atitude presumida. O beto usa roupa e acessórios caros e frequenta os lugares da moda. Quer parecer e aparecer. O grande Afonso Praça (1939-2001), no seu Novo Dicionário do Calão, define-o assim: "Rapaz muito certinho, pelo menos na aparência, e oriundo de boas famílias. De um modo geral, é conservador, de direita, não falta às aulas, cumpre as suas obrigações escolares, é respeitador, não faz noitadas e gosta de vestir roupas de boas marcas."
Isto é. Beto, betinho, copinho de leite, menino da mamã, vaidoso, armante, boneco, janota, dândi, tirone, snobe, queque, coninhas, choninhas, aqui já serei eu talvez a esticar-me um bocadinho, mas isto, estou em crer, anda tudo ligado e vai tudo dar ao mesmo. E se os rapazes forem raparigas, então já não são betos, são betas.
Em Fafe, diga-se a este respeito, havia Betas do sexo masculino. O Sr. Beta e os dois filhos Betas, da Cumieira, os quais, naquela época, eram músicos da Banda de Revelhe, os três do ramo dos saxofones, se não estou em erro, e cumpriam muito bem o seu papel. Para além disso, o Sr. Beta pai era um renomado capador, pelo menos de porcos.
Beto pode também ser petit non de Alberto, Norberto ou Roberto, isto é, de Berto, para não irmos mais longe.
Ora bem. Aqui chegados, importa, porém, ressalvar o seguinte: não era destes betos que eu queria falar. Era, isso sim, do beto, um jogo de pau e bola que se jogava no recreio do seminário menor de Braga quando por lá passei como um cometa nos finais da década de sessenta do século XX, mas que devia ser muito mais antigo, quiçá até ancestral, do tempo dos romanos, a avaliar pela maneira tão obsoleta e cómica como o impiedoso padre Coutinho praticava a modalidade misturado com a miudagem, correndo de "casa" em "casa" agarrado à sotaina arregaçada para não se estender ao comprido, e nós, os pequenos seminaristas, mafarricos, rezávamos bastante para que ele se enrodilhasse nas vestimentas mesmo assim e, se possível, caísse de cangalhas no meio do terreiro, e havia de ser de rir e de dar graças a Deus.
O jogo do beto, que nunca mais vi em lado nenhum, não me entusiasmou por aí além. Faltavam-me o jeito, a pontaria, força de braço e a vontade de correr. Eu era mais sombra e paleio, sentado de preferência.
Beto, em algumas partes do Norte, nomeadamente no Porto, é gíria para botão de casaco, designando também o velhinho jogo do botão. Jogo do beto, andei à procura, assim jogado com pau e bola, terá existido e não sei se ainda existe, nem que seja só por memória e tradição, pelo menos em lugares da Guarda e Trás-os-Montes, versões de jogo diferentes uma da outra e diversas igualmente da forma de jogar que conheci em Braga. Há quem diga que o beto é semelhante ao críquete, jogo inglês, e eu imagino logo o Sr. Pimenta da enfermaria, de bata branca, a fazer de árbitro, mas o nosso beto de seminário era muito mais parecido com o basebol, jogo americano.
Beto era o nome do jogo e também o nome da espécie de pá de madeira, digamos taco ou bastão, com que se batia na bola. Uma pá robusta, comprida, pesada, que o padre Coutinho gostava de usar amiúde como palmatória, distribuindo à rapaziada em pânico as suas célebres e dolorosas betadas, enquanto assobiava deliciado a entrada prometedora de uma sinfonia de Beethoven. O padre Coutinho era, não desfazendo, uma besta.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Jogava-se ao tene

Alta competição
Os erres pagam-se caro. Os emes ficam muito mais em conta.

Jogava-se ao tene, no nosso largo, no velho Santo Velho. Tene, esclareça-se desde já, não é singular de ténis. Nem é sapatilha desirmanada nem nome que se dê ao jogo de ténis quando jogado por uma pessoa só. Nesse caso chama-se, vá lá, squash. Não. O tene era um jogo universal, de recreio, de rua, de pobres, envolvendo quantos mais miúdos melhor, sem necessidade de outros apetrechos ou equipamentos senão o próprio corpo e muita corda nos sapatos. Embora também se jogasse descalço. Ou de chancas. Ou, há que admiti-lo, de galochas...
As regras são simples. O objectivo do jogo é fugir ou tenir, conforme o ponto de vista. Escolhe-se à sorte um desgraçado, que deve tentar apanhar, isto é, tocar com a mão, os outros participantes. Um deles. E, uma vez conseguido, troca-se de posição. Quem foi apanhado, isto é, tocado, assume então a função de apanhador, o ex-apanhador passa a normal fugidor e assim sucessivamente.
Dir-me-eis então: ora, mas isso é o jogo da apanhada, ou o pega-pega ou pique-pega, se for no Brasil. Nada disso. Era o tene, o nosso tene. Porque, lá está, basta tenir, tocar levemente com a mão, com o dedo. Quem toca levemente, tene. Básico e inofensivo. O tene. Já o arranca-cebolas, por exemplo, implicava outra, por assim dizer, dinâmica e não raras visitas ao hospital.
Dir-me-eis então, e já estais a chatear: ora, mas não é tenir, é tinir, o verbo tenir não existe na língua portuguesa. Existe, existe, basta ir a Fafe e ouvir alguém que seja do falar antigo e que se lembre, claro que se lembra, do velho jogo e deste precioso regionalismo talvez baixo-minhoto e que pegou de estaca pelo menos ali na nossa zona. Ou onde é que cuidais que o bom do Costeado foi buscar o "Nem lhe teni, senhor árbitro!"?...

P.S. - Versão publicado no meu blogue Mistérios de Fafe. "Mãe recorre à justiça para que jogo da apanhada seja declarado perigoso", diz hoje em título o jornal Público.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

O que acontece em Fafe, fica em Fafe

As máquinas de flippers chegaram a Fafe creio que pelos finais da década de 70 do século passado e assentaram arraiais na exígua sala de bilhares do velho café Peludo, onde Serafim d'Eiteiro debitada pérolas filosóficas para jogadores momentaneamente ensandecidos. Fafe daquele tempo, sobretudo Fafe fora de horas, era uma terra de jogo, havia muito vício, muita batota. O bom povo de Fafe jogava ao quino, pelo Natal, no Peludo exactamente. Jogavam maus meninos bem, todo o ano, toda a noite, no Club Fafense, desperdiçando sorrateiras fortunas de berço. Jogavam os novos cavalheiros da indústria, desalinhados e ricos a estrear, toda a noite, todo o ano, no Fernando da Sede, de porta respeitosamente fechada. (Para entrar era preciso saber o santo-e-senha. Eu sabia, entrava, mas não jogava.) Jogava-se aos pinhões em casa, jogava-se ao bilhar, ao dominó, à sueca, à lerpa, às copas, ao sete e meio, ao montinho e à malha em todo o lado, a dinheiro, a cerveja ou a vinho, e até se jogava ao sapo, ao pau e à bola, mas isso já era para predestinados. Em Fafe jogava-se forte e feio. Ateimava-se. A ateima também era um jogo. Jogava-se a tudo. E até se jogava ao pilas, como já por aí contei.
Queiramos ou não: Fafe era Fafe, um farol civilizacional, inapagável Las Vegas do vale do Ave hoje em dia com barragem e tudo, oásis de sorte e azar encravado entre a Póvoa de Lanhoso e Felgueiras, a zona de Basto, Vieira do Minho e Guimarães, consoante o lado por onde se lhe quiser entrar.
Os flippers chegaram a Fafe e foi uma febre medonha. Uma epidemia, descontrolada mas circunscrita. Eram sempre os mesmos, os do póquer, que eram os do bilhar, que eram os do dominó, que eram os das copas, agora apanhados pelo pinball, e apostava-se ali à rica e sempre com o dinheiro na mão. Os recordes, sucessivamente batidos, valiam belas maquias. Eram autênticos agarrados, constavam-se lares praticamente desfeitos. Era preciso marcar vez, havia quem pagasse por uma vaga, havia quem se esquecesse de ir trabalhar à tarde, só para não largar a máquina, deixando-a à mercê da concorrência. Não havia vida para além dos flippers, morava-se ali, ao som daquelas campainhas mágicas, sem mulheres, sem filhos, e ao fim da noite talvez também sem um tostão no bolso. Depois as máquinas foram embora, foi a sorte, ou então milagre, e os jogadores tornaram a casa, às mulheres e aos filhos, à vida real. Até que chegaram as consolas, os computadores e os telemóveis espertos...

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Gamer.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Jogava-se ao tene, que era para todos

Jogava-se ao tene, no nosso largo. Tene, esclareça-se desde já, não é singular de ténis. Nem é sapatilha desirmanada nem nome que se dê ao jogo de ténis quando jogado por uma pessoa só. Nesse caso chama-se squash. Não. O tene era um jogo universal, de recreio, de rua, de pobres, envolvendo quantos mais miúdos melhor, sem necessidade de outros apetrechos ou equipamentos senão o próprio corpo e muita corda nos sapatos. Embora também se jogasse descalço. Ou de chancas. Ou, vá lá, de galochas...
As regras são simples. O objectivo do jogo é fugir ou tenir, conforme o ponto de vista. Escolhe-se à sorte um desgraçado, que deve tentar apanhar, isto é, tocar com a mão, os outros participantes. Um deles. E, uma vez conseguido, troca-se de posição. Quem foi apanhado, isto é, tocado, assume então a função de apanhador, o ex-apanhador passa a normal fugidor e assim sucessivamente.
Dir-me-ão então: ora, mas isso é o jogo da apanhada, ou o pega-pega ou pique-pega, se for no Brasil. Nada disso. Era o tene, o nosso tene. Porque, lá está, basta tenir, tocar levemente com a mão, com o dedo. Quem toca levemente, tene. Básico e inofensivo. O tene. Já o arranca-cebolas, por exemplo, implicava outra, por assim dizer, dinâmica e não raras visitas ao hospital.
Dir-me-ão então, e já estão a chatear: ora, mas não é tenir, é tinir, o verbo tenir não existe na língua portuguesa. Existe, existe, basta ir a Fafe e ouvir alguém que seja do falar antigo e que se lembre, claro que se lembra, do velho jogo e deste precioso regionalismo talvez baixo-minhoto e que pegou de estaca pelo menos ali na nossa zona. Ou onde é que cuidam que o bom do Costeado foi buscar o "Nem lhe teni, senhor árbitro!"?...

(Texto publicado originalmente no meu blogue Fafismos)

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Os sonhos são como o algodão: hidrófilos

Ultimamente dá-me para sonhar com pessoas que já morreram. Pessoas de quem gosto - familiares e amigos, sobretudo amigos. Sou um simples, acho que são saudades. Mas dizem-me que não, que o assunto é muito mais complicado, especialistas em correntes de ar garantem-me que os sonhos querem dizer coisas, significam, e que não enganam. Como o algodão do Sonasol. Nos sonhos está lá tudo, e tudo acaba por bater certo. Limpinho.
Sonhar com pessoas amigas que já morreram, falar com elas no sonho, explicam-me que é o melhor que me podia acontecer. É o pré-aviso de que está aí a rebentar-me nas mãos uma fartura de boas notícias, um mar de felicidade e saúde como o aço para mim e para os meus. O que é preciso é estar atento aos recados que os defuntos da corda me querem segredar. Isto é a regra geral, científica, embora possa parecer o horóscopo.
Não sei se esta tão conveniente interpretação dos sonhos com mortos também vale para Portugal e para vivos chamados Hernâni Von Doellinger naturais de Fafe e residentes em Matosinhos-sur-Mer. Pela miséria que me tem saído na rifa nos últimos tempos, suspeito que não, mas cá fico à espera de melhores dias.
Tenho alguma pressa, confesso, porque se uma coisa sei de certeza é que os sonhos padecem de prazo de validade. Um gajo deita-se uma noite moço e convencido de que os sonhos molhados até são um acontecimento, vá lá, engraçaaaaado..., e acorda de manhã ancião e alagado em mijo derivado à incontinência urinária. A vida é tão breve, não foi?
Entretanto, gostaria de aproveitar a oportunidade para comunicar aos meus sonhos que, uma vez que desdenho a Raspadinha, o que me convinha mesmo era o Euromilhões. O jackpot do jackpot, se fazem favor. Agora vou dormir e passo à escuta.

Por falar nisso: sonhar com algodão dizem que é muito bom para a saúde e que traz uma vida cheia de dinheiro e de felicidade. Bem empregue. É preciso ser-se mesmo muito desgraçado para sonhar com algodão. Se ainda fosse com merda...

P.S. - Publicado originalmente no dia 11 de Setembro de 2014. No dia 24 de Setembro de 1961 nasceu o Totobola, o primeiro jogo de apostas mútuas de Portugal.