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quarta-feira, 18 de março de 2026

De Portugal, dos Algarves e da Póvoa de Varzim

Foto Hernâni Von Doellinger

Escarmentado
Estou mortinho pelo Verão. O calor, a praia, o mar, a areia, os biquínis, as sungas, as bolas, o Algarve. Uma vez fui ao Algarve. Fui, palavra de honra, em 1981, se não estou em erro. E, quer-se dizer, fiquei servido.

A Póvoa de Varzim, que era Fafe no Verão, enormou-se sem rei nem roque. Cresceu a torto e a direito - e digo bem, literalmente a torto e a direito. Cuido que a culpa não é só dos fafenses apartamenteiros, que, na verdade, são mais que as mães. Outros culpados haverá, por exemplo derivados de Famalicão ou de Felgueiras, gente igualmente de mostrar e com fábricas e ferraris que entretanto faliram. As fábricas. E os operários respectivos e indefesos. Os ferraris estão bem, graças a Deus, na garagem disfarçada de lavandaria atrás do lago do menino que mija e da piscina de plástico. Os da Póvoa de todo o ano só agora deram fé que foram encabados. Arruinaram-lhes os quartinhos de aluguer e as vistas. São prisioneiros domiciliários, vedados por um colossal muro de betão que lhes rouba a praia, o ar e a vida. A cidade dos empreiteiros aluga-se. É o que diz nas janelas desesperançadas.

Fafe mudava-se no Verão para a Póvoa. E de que falavam os fafenses, uns com os outros, nas vésperas de irem de férias? Falavam de sectores. Era importante saber, os fafenses perguntavam-se reciprocamente "em que sector estás?", "para que sector vais?", enquanto metiam a mobília de casa na mala do carro, na camioneta de aluguer ou no autocarro do João Carlos Soares, e a conversa entrava numa onda, parecia, de quem discute números de porta ou terminações de lotaria, mas eles lá se entendiam e marcavam encontros, se calhar só da boca para fora.

Quer-se dizer, Fafe mudava-se no Verão para a Póvoa, e eu agora também. Não cuideis que estou no gozo. À falta de posses para outros algarves, eu próprio passei a fazer férias na Póvoa de Varzim, todos os anos, geralmente à terça-feira à tarde.
As minhas férias deste ano foram temporãs, gozei-as no passado dia 8 de Abril, depois de irmos ao Correio levantar a reforma. Peguei na mulher e ala para a Póvoa, com transbordo na Senhora da Hora. Saímos depois de almoço, mas para mim o almoço já conta como férias. Comemos em casa dois bijus, um para cada, levantámos a mesa, varremos a sala, lavámos a louça, regámos os vasos, desligámos a água, a luz e o gás, fechámos a porta com três chaves e uma tranca, pedimos à vizinha que deitasse os olhos e lá fomos apanhar o metro. A viagem correu muito bem.
A Póvoa estava um bocado ao deus-dará, praticamente de vago, decerto derivado à chuva que caía desalmadamente, uma falta de respeito para veraneantes que, como nós, não gostam de confusões e tomam horas para o Verão. Mas há cada vez mais andares e apartamentos para vender e quartos por alugar, de acordo com os letreiros que se acotovelam. A língua oficial da Póvoa de Varzim, entre os meses de Junho e Agosto, é o francês com caralhos no meio. No resto do ano também. Eu e a minha mulher foi como se estivéssemos no estrangeiro, embora com caralhos no meio e bastante molhados, e ainda há um bocadinho tínhamos saído de casa com um rico dia de sol. Por falar nisso, liguei à vizinha para saber se estava tudo bem. Estava.
Aproveitámos as férias em cheio. Olhámos para o casino e para o Cego do Maio, fomos espreitar as montras com bolas de berlim, a praia, os banhos e as banhas. Não havia. Fomos às piscinas, ao museu, à biblioteca, à praça de toiros demolida e ao estádio que qualquer dia também, mas fomos sempre pelo lado de fora, para não incomodar. Não percebo quem diz que não tem dinheiro para ir de férias. Eu e a minha mulher fomos e às 17h45 já estávamos outra vez no lar doce lar, encharcados como pitos mas felizes da vida. Mais: resolvi fazer um prolongamento extraordinário das férias, e demo-nos ao luxo de jantar. Dois bijus, um para cada, e uma colher de xarope para a tosse bebida a meias.
As minhas férias ficaram-me por 10,65 euros. Ora portanto, 24 cêntimos dos dois pães do almoço, dez euros de dois andantes Z5 (cartões incluídos) para as viagens Matosinhos-Póvoa de Varzim e Póvoa de Varzim-Matosinhos, mais os 24 cêntimos dos papos-secos do jantar, uma extravagância, e 17 cêntimos da chamada para a vizinha. Total: 10,65 euros, com todas as tarifas incluídas, o xarope para a tosse tinha-me sido dado como amostra. Quase onze euros, um bocado puxado, é certo, e não dá para descontar no IRS, mas é uma questão de nos organizarmos durante o resto do ano.
A minha mulher ainda quis ir a uma agência de viagens, para ver se a coisa nos saía mais em conta - como se nós fôssemos uns necessitados! Mandei-a dar uma volta e ela passou as férias todas sem me falar.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A ligação do Metro do Porto até à Póvoa de Varzim foi inaugurada no dia 18 de Março de 2006. Faz hoje 20 anos.)

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Época balnear, mas pouco

Dei uma espreitadela à praia, hoje de manhã. Pouca clientela. Meia dúzia de gatos pingados, se tanto. E não admira: ainda está muita gente de férias...

Contadora de verões

Foto Hernâni Von Doellinger

Teremos sempre a Póvoa

A Póvoa de Varzim, que é Fafe no Verão, enormou-se sem rei nem roque. Cresceu a torto e a direito - e digo bem, literalmente a torto e a direito. Cuido que a culpa não é só dos fafenses apartamenteiros, que, na verdade, são mais que as mães. Outros culpados haverá, por exemplo derivados de Famalicão ou de Felgueiras, gente igualmente de mostrar e com fábricas e ferraris que entretanto faliram. As fábricas. E os operários. Os ferraris estão bem, graças a Deus, na garagem disfarçada de lavandaria atrás do lago do menino que mija e da piscina de plástico. Os da Póvoa de todo o ano só agora deram fé que foram encabados. Arruinaram-lhes os quartinhos de aluguer e as vistas. São prisioneiros, vedados por um colossal muro de betão que lhes rouba a praia, o ar e a vida. A cidade dos empreiteiros aluga-se. Os autarcas também. Mas tornemos a Fafe. Quem fez ao Largo o que fez, quem fez ao Assento o que fez, quem fez ao Santo Velho o que fez, quem fez ao monte de São Jorge e a Castelhão o que fez, só pode ter construído também a Póvoa de Varzim moderna e encaixotada, é de justiça e entregue-se-lhes a medalha. E depois é mandá-los à merda pelo que fizeram da minha terra.

A Póvoa. Fafe muda-se no Verão para a Póvoa, e eu também. Não cuidem que estou a ser cínico. À falta de posses para outros algarves, eu próprio passei a fazer férias na Póvoa de Varzim, todos os anos, desde os tempos da troika - e troika, para mim, são estes três: Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva.
As minhas férias deste ano foram no passado dia 1 de Agosto, um domingo à tarde. Peguei na mulher e ala para a Póvoa, com transbordo na Senhora da Hora. Saímos depois de almoço, mas para mim o almoço já conta como férias. Comemos em casa dois bijus, um para cada, levantámos a mesa, varremos a sala, lavámos a louça, regámos os vasos, desligámos a água, a luz e o gás, fechámos a porta com três chaves e uma tranca, pedimos à vizinha que deitasse os olhos às janelas e lá fomos apanhar o metro. A viagem correu muito bem.
A Póvoa estava cheia, como costuma acontecer nesta época do ano, certamente por causa do tempo. Mas há cada vez mais andares e apartamentos para vender e quartos por alugar, de acordo com os letreiros. A língua oficial da Póvoa de Varzim, entre os meses de Junho e Agosto, é o francês com caralhos no meio. Eu e a minha mulher foi como se estivéssemos no estrangeiro, embora com caralhos no meio, e ainda há um bocadinho tínhamos saído de Matosinhos. Por falar nisso, liguei à vizinha para saber se estava tudo bem. E estava.
Aproveitámos as férias em cheio. Olhámos para o casino e para o Cego do Maio, fomos espreitar as montras com bolos, a praia, os banhos e as banhas. Fomos às piscinas, ao museu, à biblioteca, à praça de toiros e ao estádio, sempre pelo lado de fora, para não incomodar. Não percebo quem diz que não tem dinheiro para ir de férias. Eu e a minha mulher fomos e às 17h45 já estávamos outra vez em casa. Mais: resolvi fazer um prolongamento extraordinário das férias e demo-nos ao luxo de jantar. Dois bijus, um para cada.
As minhas férias ficaram-me por 10,65 euros. Ora portanto, 24 cêntimos dos dois pães do almoço, dez euros de dois andantes Z5 (cartões incluídos) para as viagens Matosinhos-Póvoa de Varzim e Póvoa de Varzim-Matosinhos, mais os 24 cêntimos dos papos-secos do jantar, uma extravagância, e 17 cêntimos da chamada para a vizinha. Total: 10,65 euros, com todas as taxas incluídas. Um bocado puxado, é verdade, e não dá para descontar no IRS, mas é uma questão de nos organizarmos durante o resto do ano. O que é preciso é saber fazer "uma boa aplicação dos recursos" que temos, como filhodaputamente dizia, no seu tempo de troika, o então alegado primeiro-ministro.
A minha mulher ainda quis ir a uma agência de viagens, para ver se a coisa nos saía mais em conta. Como se nós fôssemos uns necessitados! Mandei-a dar uma volta e ela passou as férias todas sem me falar.

A propósito de férias: as únicas pessoas que eu e a minha mulher conhecemos que nunca foram ao Brasil somos nós os dois. Mas já está resolvido: para o ano, se Deus quiser, vamos outra vez à Póvoa...

P.S. - Publicado originalmente no dia 23 de Agosto de 2013. Naquele tempo as minhas férias eram isto, e há oito anos que nem isto são. Entretanto, com a pandemia e sem os velhos ingleses, o Algarve descobriu que Portugal tem portugueses, os quais até serão desejados e bem-vindos ou bem-idos, consoante, agora que não há perigo de andarem a cheirar a chulé e a tirar carranhas do nariz à beira dos sofisticados turistas estrangeiros calçados de meias e sandálias. Fazem-se apelos patrióticos e de salvação nacional, das autoridades locais ao Presidente da República: todos para o Algarve, rapidamente e em força! Os portugueses devem, em todo o caso, aprender a falar inglês, para que o Algarve os entenda. Eu e a minha mulher abstemo-nos, ficamos cá por cima. Nós teremos sempre a Póvoa...

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Inquéritos de Verão

Foto Tarrenego!

Figueira de Castelo Rodrigo, um calor do caraças, aqui há uns anos. Para quem não me conhece, eu sou, em primeiro plano, o da esquerda. Obviamente.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

A sério? E há quem goste?

Foto Hernâni Von Doellinger

Uma vez no Verão levei com uma bolada nos dentes e fiquei com a boca cheia de praia. Sinceramente, achei uma merda. Soube-me a areia. 

P.S. - Hoje, 11 de Agosto, é Dia de Brincar na Areia.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Delícias do mar (no tempo delas)

Areia macia e morna, água, o sal da terra, cheiro a argaço, sol quando Deus quer, a brisa nas ventas, o falar das ondas, o silêncio do horizonte a ganhar de vista, madrugadas de pés molhados, ocasos de fogo, Apúlia, um fino bem tirado, pescadores, peixeiras, surfistas, parassurfistas, ciclistas e todos os tipos de nudistas, a Foz, Matosinhos, a ver navios, os números do Porto de Leixões, camarão da costa, gambas no Peixoto de Fafe que já não é, cracas em São Mateus, alcatra de peixe no Boca Negra, lapas em casa do Victor e da Ana, ilha Terceira, ilha Terceira, ilha Terceira, ecos de Nemésio, mexilhões de vinagreta, masoquistas esturricando agosto e areando os entrefolhos, amêijoas à Bulhão Pato no portinho de Âncora, o bacalhau assado na brasa do Senhor Álvaro em Valença, o bacalhau assado no forno pela minha mãe, o bacalhau de quarto da minha avó de Basto, os bolinhos de bacalhau da minha avó da Bomba, a punheta de bacalhau do meu cunhado Álvaro, as trutas "do Coura" do querido amigo Vilaça Pinto, que, palavra de honra, era como se fossem marítimas, polvo de molho-verde, as lulas recheadas da minha sogra, as sardinhas da Dona Dina, navalhas na chapa, arroz de tomate com petinga, ou com jaquinzinhos, ou arroz de grelos com, ou arroz de feijão com, mas malandro, malandro, malandro, ou, supra-sumo dos supra-sumos, o arroz de feijão vermelho com grelos e bacalhau frito da minha cunhada Isabel, fanecas, biqueirão, marmotinha de rabo na boca, filetes de peixe-galo, a raia frita no Salta o Muro aqui à porta, a lagosta na ilha de São Jorge comida à ganância e à moina, as percebes na ilha do Sal, as bandejas nas rias galegas, carapaus grelhados no quintal do meu sogro, ostras de Setúbal degustadas em Bordéus, a mastodôntica cabeça de pescada que vou cozer para o jantar, os tremoços da Marrequinha da Recta. Isto são delícias do mar. Outra coisa não:
Fitas de nastro tingidas de cor-de-rosa gomitado, cortadas em palitos empacotados e refrigerados em vácuo e vendidos à babuge nos supermercados não são, por mais que lhes chamem, delícias do mar! Não, não e não! Serão tudo o que quiserem - delícias do mar, não!

P.S. - Publicado originalmente no dia 17 de Dezembro de 2017. Hoje, 5 de Agosto, é Dia Mundial da Ostra.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Sempre a dar-lhe!

Esteve de baixa em Janeiro e Fevereiro, pelo seguro em Março e Abril, de quarentena em Maio, dispensado sem perda de salário em Junho, sob lay-off em Julho, chegou a Agosto e meteu férias.

Please do not disturb

Foto Hernâni Von Doellinger

Recomendações para o Verão

Agosto já aí a bombar e o Borda D'Água recomenda a sementeira, em local definitivo, do agrião, espinafre, feijão, nabo, rabanete, repolho de Inverno e salsa. Em canteiro, semear acelga, alface e couve-nabo. Cavar e sachar o milheiral e as hortaliças, e regar bem, antes das sementeiras e das transplantações. Mondar os arrozais. No jardim, regar as plantas com bastante frequência. Mudar as cinerárias e amores-perfeitos; colheita matinal de rosas e flores. É o tempo, senhores. O tempo.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Praiomasoquistas

Areia a escaldar e a voar, um sol a pique e impiedoso, o ar parado, pesado. Sua-se em bica, sufoca-se, leva-se com boladas no nariz e nos tomates, a pele derrete e dói, a cabeça estala, a areia cega, pica, mete-se nos dentes, incomoda o rego do cu. E aquela gente parece que gosta, guincha de prazer. Gente esquisita. O que a praia lhes faz...