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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Aí para as curvas

Foto Tarrenego!

O chamado calo no cu
A sabedoria vem com a idade. Os problemas na próstata também.

Uma vez, em 1991, Basílio Horta foi candidato à Presidência da República e fazia frio em Portugal, porque era Janeiro e o tempo naquela altura não era ainda tão tolo e incerto como é agora. O tempo. O Doutor Horta, que já vai nos oitenta e, entre outros afazeres, é um filósofo, quero dizer, um filósofo praticamente como eu, explicou em entrevista ao Expresso que realmente "há quem olhe para a vida como uma linha reta", mas ele não. "Eu não abdiquei das curvas", enfatizou o ex-União Nacional do tempo do fascismo, fundador do CDS e actual militante do PS, ministro em quatro governos, pela direita, conselheiro de Estado, deputado, embaixador na OCDE, presidente da AICEP, pela esquerda, e hoje em dia presidente da Câmara de Sintra em final do terceiro e último mandato, dizia eu, enfatizou, como quem não quer a coisa, como quem oferece ao jornalista o título para a prosa e não se fala mais nisso.
Quanto à fotografia, bem, Basílio Horta, ao centro, avança determinado para o comício nocturno na cidade de Braga, por entre meia dúzia de bandeiras da AD, da AD verdadeira, mas que naquela altura já não havia nem o apoiava, e o jornalista a vê-los passar, a tomar conta, bem à direita, o que não deixa de ser paradoxal e embaraçoso, mãos nos bolsos, estantio, olhar enfastiado e bem agasalhado, porque, é o que eu digo, o tempo naquele tempo ainda era de confiança, e fazia frio em Portugal. Frio à moda de Fafe.
A seguir, se bem me lembro, abandonei discretamente a "caravana" basilista e fui ao velho Restaurante Maia, no Sameiro, comer por minha conta e consolar-me com o inevitável bacalhau com natas, que era então uma verdadeira especialidade.

Para que conste. A comida oficial da política portuguesa é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma desgraça. Canja, lombo e musse de chocolate. Assim. Se calhar até em Fafe, terra da melhor vitela assada do mundo. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu lombo todos os dias, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar. Lombo assado, e é um pau. Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhai, por exemplo, o Professor Marcelo. Também já comi lombo de porco com ele, diga-se em abono da verdade, mas logo que pulou para Presidente a coisa passou a fiar mais fino. No almoço cerimonial da tomada de posse, a primeira, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado. E no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, em 2016, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também um desconsolo, realmente, mas ao menos não é lombo de porco.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Grande momento de televisão

Pedimos desculpa por esta interrupção
Às vezes pergunto-me como seria o mundo sem televisão. E acho que provavelmente seria um bocadinho melhor.

Uma vez à noite, na TVI, Janeiro de 2012, como se fosse ontem. Marcelo Rebelo de Sousa pregava aos peixes, na sua habitual homilia dominical. Ele era ainda apenas comentador ou, vá lá, pitoniso oficial do regime. Falava da troika e de Cavaco Silva, que lhe estava a aquecer o lugar, de Pedro Passos Coelho e de António José Seguro, da UGT e da CGTP, da Grécia e da Alemanha, do Benfica e do Sporting, de carecas e de cabeludos, da fome e da fartura, de tudo e de nada. O costume. Como hoje em dia. De repente, lá atrás no cenário da redacção vazia, passa a dona Alice das limpezas, de aspirador pela trela, logo seguida pela dona Amélia, com um caixote de lixo na mão, e da dona Matilde, que não resiste e acaricia com o pano do pó o tampo de uma das mesas de trabalho por assim dizer. Grande momento de televisão! Esqueci-me da arenga do Professor (na verdade os seus comentários nunca me interessaram realmente), e concentrei-me no desfile em fundo. Fiquei cliente do programa de variedades, mas infelizmente elas nunca mais apareceram...

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Televisão.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Marcelo, tão papista como o papa

Por falar em umbiguismo. Marcelo Rebelo de Sousa disse hoje, à chegada a Roma, que o Papa Francisco "deixou um traço único que vai durar muito tempo" e considerou que isso "torna muito difícil a escolha do sucessor". Evidentemente, o Presidente da República não estava a falar do Papa. Falava de si, do seu "traço" e da sua própria sucessão.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Grande momento de televisão

Uma vez à noite, na TVI, Janeiro de 2012, como se fosse ontem. Marcelo Rebelo de Sousa pregava aos peixes, na sua habitual homilia dominical. Ele era ainda apenas comentador ou, vá lá, pitoniso oficial do regime. Falava da troika e de Cavaco Silva, que lhe estava a aquecer o lugar, de Pedro Passos Coelho e de António José Seguro, da UGT e da CGTP, da Grécia e da Alemanha, do Benfica e do Sporting, de carecas e de cabeludos, da fome e da fartura, de tudo e de nada. O costume. Como hoje em dia. De repente, lá atrás no cenário da redacção vazia, passa a dona Alice das limpezas, de aspirador pela trela, logo seguida pela dona Amélia, com um caixote de lixo na mão, e da dona Matilde, que não resiste e acaricia com o pano do pó o tampo de uma das mesas de trabalho por assim dizer. Grande momento de televisão! Esqueci-me da arenga do Professor (na verdade os seus comentários nunca me interessaram realmente), e concentrei-me no desfile em fundo. Fiquei cliente do programa de variedades, mas infelizmente elas nunca mais apareceram...

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Televisão.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O terramoto

O Governo diz que reagiu muito bem ao terramoto. E o Presidente da República também está bastante satisfeito. Não se passou nada, mas podia ter sido uma tragédia. Quer-se dizer: foi realmente um êxito.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

A filha do pai

Foto Miguel A. Lopes/Lusa

Leonor de Borbón y Ortiz, 18 anos, princesa das Astúrias e herdeira da coroa espanhola, foi condecorada pelo nosso Presidente da República com a grã-cruz da Ordem Militar de Cristo.
"É uma homenagem a vossa alteza, ao Reino de Espanha, à nossa amizade para sempre", declarou Marcelo Rebelo de Sousa, na ocasião, explicando o penduricalho à infanta.
A Ordem Militar de Cristo destina-se a distinguir destacados serviços prestados ao País no exercício de funções de soberania.
Tanto quanto percebo, Leonor foi condecorada porque é espanhola e filha do pai dela. Sinceramente, não me parece um serviço por aí além...

quinta-feira, 23 de maio de 2024

O senhor de gravata à beira do Bergiguinha

Foto Ivo Borges / O Minho

Imperdoável. Só hoje dei com esta sensacional fotografia, por acaso, quando andava à procura de memórias do Café Chinês, de Fafe. E não pensem que o extraordinário do retrato tirado com toda a oportunidade pelo Ivo Borges é o Presidente da República bebendo um fininho, não, o importante mesmo é o Jorge, em primeiro plano, o grande Bergiga ou Bergiguinha, meu inseparável companheiro de infância, ele e o Abílio, o Bilinho, esse Bilinho exactamente, éramos três como os mosqueteiros, um por todos e noves fora nada, unha com carne, inocentes e terríveis, fazedores não premiados de trinta por uma linha. Marcelo Rebelo de Sousa, aqui, é apenas o gajo de fato e gravata azul que está à beira do nosso Jorge, nada mais do que um simples adereço, talvez uma espécie de emplastro.
Isto reporta a Julho de 2022, numa ocasião em que Marcelo foi falar a Fafe, a convite da Câmara. Do encontro que aqui verdadeiramente interessa, o jornal O Minho deu então notícia, assim:

"Jorge, um conhecido fafense, contou: "O Senhor Presidente parou aqui no Café Chinês, onde eu estou várias vezes, e eu disse-lhe que um dos melhores finos de Fafe é no Café Chinês. E o Presidente disse que alinhava no fininho, mas que não podia beber muito, porque ia fazer um discurso. É uma pessoa muito comunicativa e simpática, até fiquei impressionado."

Estiveste bem, Jorge! Marcelo não podia ter encontrado melhor companhia para molhar a palavra. Ele nem sabe a sorte que teve por estar-te ao lado. Para mim, tu é que devias ser presidente da república, porque mereces, mereces tudo, mas é o país que temos. Para além do mais, és "um conhecido fafense", mais conhecido que os tremoços, que também teriam dado jeito com a cervejinha.
Da última vez que nos encontrámos e nos rimos, caro amigo, já há uns anos e ainda no Peixoto, ao balcão, pagaste tu, sem me dar hipótese, lembro-me bem, e não te saiu barata a brincadeira. Estou, portanto, a dever-te uns fininhos. Mas devo-te muito mais do que isso...

(Publicado originalmente no meu blogue Fafismos)

P.S. (15 de Julho de 2024) - O Bergiguinha tratou de saber o meu número e ligou-me ontem, dia da Senhora de Antime - grande pontaria! Foi porreiro, fiquei todo contente. E apalavrámos uns fininhos sem data no Café Chinês...

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Por qué no te callas, Marcelo?

Lembro-me muito bem. Em Abril de 2012, Marcelo Rebelo de Sousa, isto é, o comentador Marcelo Rebelo de Sousa, andava muito preocupado com Pedro Passos Coelho, que era primeiro-ministro. O Professor achava que Passos Coelho falava demais. E que quem muito fala pouco acerta. E que cada vez que o Pedro abria a boca, ou entrava mosca ou saía asneira. E que mais vale calado do que ser contraditado.
Marcelo sabia muito bem do que falava: de falar demais, de desbocamento. E dizia que Passos "não podia" andar por aí a bitaitar "de manhã, à tarde e à noite".
Ou por outra, o comentador Marcelo Rebelo de Sousa mandou o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho fechar a matraca. Ora bem. Porque é que Marcelo, agora Presidente da República e por maioria de razão, não segue o seu próprio conselho, ganha juízo e deixa também de andar por aí armado em Pinto da Costa, a dizer asneiras a tordo e a direito?...

terça-feira, 17 de outubro de 2023

O comentador que o país inteiro consagrou

Fala-se no "comentador que o país inteiro consagrou", e os antigos pensamos logo em Alves dos Santos. Os modernos cuidam que é Marcelo Rebelo de Sousa.

P.S. - O jornalista e comentador desportivo Alves dos Santos morreu no dia 17 de Outubro de 1996. Contava 82 anos.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

A culpa é sempre do povo

Já não bastava tudo o que lhe chamam e tudo o que lhe fazem e desfazem, tudo o que lhe atiram e tiram, o tratamento de merda que lhe dão desde que isto começou a ser Portugal. Agora acusam o povo de ser a pátria...

domingo, 16 de janeiro de 2022

Enquanto o pau vai e vem, descansa o lombo

Não sei se sabem, a comida oficial da política em Portugal (in rima veritas) é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma merda. Canja, lombo e musse de chocolate. Assim. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu todos os dias lombo, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar (mais uma vez, e peço desculpa, mas a verdade é que sou de verso fácil, in rima veritas). Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhem por exemplo o Professor Marcelo. Também já comi lombo de porco com ele, diga-se em abono da verdade, mas logo que pulou para Presidente: no almoço cerimonial da tomada de posse, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado; e no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, em 2016, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também um desconsolo, realmente, mas de alto gabarito.

P.S. - Publicado originalmente no dia 2 de Abril de 2016. Como o País esborda em dinheiro e não tem mais nada que fazer, arranca hoje mais uma campanha eleitoral, e que me conste não vai haver lombo de porco, dizem que derivado à pandemia. Enfim, mais uma tradição que se perde...

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Fartos de lombo de porco

Não sei se sabem, a comida oficial da política em Portugal (in rima veritas) é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma merda. Canja, lombo e musse de chocolate. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu todos os dias lombo, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar (mais uma vez, e peço desculpa, mas a verdade é que sou de verso fácil, in rima veritas). Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhem por exemplo o Professor Marcelo. Também já comi lombo de porco com ele, diga-se em abono da verdade, mas logo que pulou para Presidente: no almoço cerimonial da tomada de posse, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado; e no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, em 2016, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também um desconsolo, realmente, mas de alto gabarito.

P.S. - Publicado originalmente no dia 2 de Abril de 2016. E saia mais uma campanha eleitoral! O País segue dentro de momentos...

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Fartos de lombo de porco

Não sei se sabem, a comida oficial da política em Portugal (in rima veritas) é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma merda. Canja, lombo e musse de chocolate. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu todos os dias lombo, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar (mais uma vez, e peço desculpa, mas a verdade é que sou de verso fácil, in rima veritas). Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhem por exemplo o Professor Marcelo. Também já comi lombo de porco com ele, diga-se em abono da verdade, mas agora que é Presidente: no almoço cerimonial da tomada de posse, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado; e no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, em 2016, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também um desconsolo, realmente, mas de alto gabarito.

sábado, 26 de setembro de 2020

Quando chorei por Marcelo

Junho de 1973. De visita a Londres, Marcelo é recebido por uma manifestação de protesto contra a presença de Portugal nas então chamadas províncias ultramarinas e, de uma forma geral, contra a política africana do Governo português. "Portugal no more massacres. Get out of Africa now!", lê-se em alguns cartazes. Eu nem queria acreditar. Os meus olhos viam a preto-e-branco o que se passava no televisor do bar dos Bombeiros de Fafe, que eu tinha só para mim naquela hora do meio-dia, e a revolta transformava-se-me em choro. Chorei de raiva. Como se atreviam?! Que vergonha! Que falta de respeito! Angola é nossa e ponto final.
No regresso a Lisboa, Marcelo foi graças a Deus surpreendido por uma manifestação espontânea muito bem preparada, uma manifestação a bem da Nação, de desagravo pessoal e de apoio às políticas africanas do Governo, uma manifestação contra a manifestação de Londres, mas com muito mais povo, muitas mais camionetas, muitos mais letreiros, muitos mais garrafões de vinho e salpicões e muitos mais Vivas!, toma lá ò camone a ver se gostas...
Marcelo dizia, da varanda do Palácio de São Bento, rodeado pelos pândegos mandadores de Vivas!: - Não esperava esta manifestação, mas compreendo-a. - E depois falou de política, mas isso já não me interessava. Eu estava outra vez comovido, agora de auto-satisfação patriótica, de respeitoso respeito a Sua Excelência. Quem me dera estar lá também com o garrafão. Ainda por cima eu nunca tinha ido a Lisboa. Chorei, pois claro que chorei, e as lágrimas já me toldavam o preto-e-branco do aparelho, mas saí dali de alma lavada e, se querem que lhes diga (e ainda que não queiram), também eu algo desagravado.
Junho de 1973. O Marcelo era Caetano e eu era um palerma.

P.S. -
Marcello José das Neves Alves Caetano, jurista, professor universitário, delfim do Estado Novo, sucessor de Salazar e último chefe do Governo antes do 25 de Abril de 1974, foi nomeado presidente do Conselho de Ministros no dia 26 de Setembro de 1968.

domingo, 10 de maio de 2020

O Astro (ou quando me mandaram atrás dele)

Sou fã de Marcelo Rebelo de Sousa, já disse. Gosto daquele ar cartomante com que o Professor nos revela tudo aquilo que nós já sabíamos. Gosto daquele sorrisinho matreiro, sorrisinho marca já-te-fodi. Gosto da forma como o Professor vai à televisão vender pedaços de nada como se fossem o mundo inteiro. O truque está no poder de concentração e nos embrulhos. Marcelo usa papel de embrulho do melhor: papel de lustro, manobrista e recadeiro. E os fregueses adoram. Marcelo sabe mais que o Papa. Sabe mais que a Irmã Lúcia. Sabe o passado e o futuro. Marcelo é o nosso presente.
A omnisciência sempre me seduziu. Desde miúdo, quando, ainda em Fafe, eu ia a casa do Bertinho Dantas (o sobrinho) jogar O Sabichão. Depois, ao longo da vida, tive a sorte de encontrar sábios a sério em velhos lavradores, em professores, em camaradas de profissão, em três ou quatro amigos, gente que muito respeito e continuo a admirar. Hoje, porém, no negócio dos que tudo sabem, só me contento com Deus. Deus no Céu e Marcelo Rebelo de Sousa na Terra.

Era uma vez 2005, ano de eleições legislativas em Portugal. Luís Filipe Menezes chefiava a lista do PSD por Braga e foi em pré-campanha a Celorico de Basto. O cabeça de cartaz do jantar-comício era Marcelo Rebelo de Sousa. O meu jornal mandou-me atrás dele. Na ementa, "lombo assado" evidentemente.

Dos discursos, lembro-me apenas que Menezes "lançou" a candidatura de Marcelo à Presidência da República (as voltas que a vida dá!), oferecendo-lhe um quadro já não sei com que motivos. No final das intervenções, Marcelo andou de mesa em mesa, como noivo em dia de casamento, distribuindo bacalhauzada àquela gente toda a quem fazia questão de fazer de conta que conhecia.
Eu aproveitei a confusão para dizer ao que ia:
- Sr. Professor, eu sou o...
- Eu sei - cortou simpaticamente Marcelo, estendendo-me a mão e um sorriso de orelha a orelha.
- ... o Hernâni Doellinger, do...
- Sei muito bem quem é - insistiu Marcelo, retirando a mão e reduzindo o sorriso.
- ... jornal 24horas - consegui informar, enfim.
- Exactamente, eu sei, sei muito bem, Hernâni, 24horas, eu sabia - concluiu Marcelo, metendo o resto de sorriso no bolso das calças e pedindo licença para continuar com os cumprimentos, que ainda havia muitas mesas para bacalhauzar no salão de cima e que falávamos no fim.
Claro que não falámos. Marcelo Rebelo de Sousa foi-se embora como quem não quer a coisa, sem me dar uma segunda oportunidade e se calhar até fez bem, o 24horas não se recomendava. Também não interessa. O importante é isto: o Professor não me conhecia de lado nenhum, nunca me tinha visto mais gordo nem mais magro, mas apareci-lhe à frente e ele "soube" logo quem eu era. Não é extraordinário? Agora que penso nisso, devia ter-lhe pedido que me lesse a sina. E que me desse os números do Euromilhões.

Ainda hoje guardo religiosamente a mão com que cumprimentei Marcelo Rebelo de Sousa naquele encontro histórico de Celorico de Basto. Os nossos contactos seguintes, tal como os anteriores, resumiram-se ao telefone. Ligava eu, por dever de ofício. O Professor atendeu-me quase sempre. E foi sempre amável e útil.


P.S. - Publicado originalmente no dia 28 de Agosto de 2012. Sobre O Astro - "Pensar, Professor, pensar..." -, quem tiver idade para se lembrar da telenovela de Janete Clair e do desempenho do actor Francisco Cuoco percebe a história do cartomante, quem for mais novo que se informe. E reparem: em 2005, portanto há quinze anos, ainda as selfies em Portugal eram geralmente outra coisa, Luís Filipe Menezes também lia a sina, adivinhava a candidatura do Professor, exactamente em Celorico, mas não era assim tão difícil - Marcelo, estava-lhe nas linhas das mãos, trabalha no assunto desde que nasceu. Com efeito, Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente da República desde pequeninho.
Pequeninho, que é como se diz pequenino lá para os nossos lados galegos de Fafe e Basto. Ou pequerricho...

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Uma campanha sem lombo de porco

Dizem os jornais que o PS diz que vai fazer dieta durante a campanha eleitoral que vem aí como quem não quer a coisa. Os socialistas prometem cortar no número de iniciativas, nos gastos e na pegada ecológica, nos almoços e nos jantares. E sobretudo garantem que vão acabar com a famosa rota da "carne assada", que na verdade era assada só de nome, lombo de porco estufado no forno, melhor diriam os jornalistas e os políticos se por acaso percebessem alguma coisa do que comem.
Sobre o até agora incontornável e deslavado lombo de porco de campanha, no pré-PAN, escrevi o seguinte, no dia 2 de Abril de 2016:
Não sei se sabem, a comida oficial da política em Portugal (in rima veritas) é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma merda. Canja, lombo e musse de chocolate. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu todos os dias lombo, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar (mais uma vez, e peço desculpa, mas a verdade é que sou de verso fácil, in rima veritas). Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhem o Professor Marcelo (também já comi lombo de porco com ele), agora que é Presidente: no almoço cerimonial da tomada de posse, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado; hoje, no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também uma merda, mas cheia de classe.

P.S. - António Costa continuará, no entanto, a comer sílabas. Aguardo a posição do PAN a esse respeito.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Marcelo, presidente da república desde pequeninho

Sou fã de Marcelo Rebelo de Sousa, já disse. Gosto daquele ar cartomante com que o Professor nos revela tudo aquilo que nós já sabíamos. Gosto daquele sorrisinho matreiro, sorrisinho marca já-te-fodi. Gosto da forma como o Professor vai à televisão vender pedaços de nada como se fossem o mundo inteiro. O truque está no poder de concentração e nos embrulhos. Marcelo usa papel de embrulho do melhor: papel de lustro, manobrista e recadeiro. E os fregueses adoram. Marcelo sabe mais que o Papa. Sabe mais que a Irmã Lúcia. Sabe o passado e o futuro. Marcelo é o nosso presente.
A omnisciência sempre me seduziu. Desde miúdo, quando, ainda em Fafe, eu ia a casa do Bertinho Dantas (o sobrinho) jogar O Sabichão. Depois, ao longo da vida, tive a sorte de encontrar sábios a sério em velhos lavradores, em professores, em camaradas de profissão, em três ou quatro amigos, gente que muito respeito e continuo a admirar. Hoje, porém, no negócio dos que tudo sabem, só me contento com Deus. Deus no Céu e Marcelo Rebelo de Sousa na Terra.

Era uma vez 2005, ano de eleições legislativas em Portugal. Luís Filipe Menezes chefiava a lista do PSD por Braga e foi em pré-campanha a Celorico de Basto. O cabeça de cartaz do jantar-comício era Marcelo Rebelo de Sousa. O meu jornal mandou-me atrás dele.

Dos discursos, lembro-me apenas que Menezes "lançou" a candidatura de Marcelo à Presidência da República (as voltas que a vida dá!), oferecendo-lhe um quadro já não sei com que motivos. No final das intervenções, Marcelo andou de mesa em mesa, como noivo em dia de casamento, distribuindo bacalhauzada àquela gente toda a quem fazia questão de fazer de conta que conhecia.
Eu aproveitei a confusão para dizer ao que ia:
- Sr. Professor, eu sou o...
- Eu sei - cortou simpaticamente Marcelo, estendendo-me a mão e um sorriso de orelha a orelha.
- ... o Hernâni Doellinger, do...
- Sei muito bem quem é - insistiu Marcelo, retirando a mão e reduzindo o sorriso.
- ... jornal 24horas - consegui informar, enfim.
- Exactamente, eu sei, sei muito bem, Hernâni, 24horas, eu sabia - concluiu Marcelo, metendo o resto de sorriso no bolso das calças e pedindo licença para continuar com os cumprimentos, que ainda havia muitas mesas para bacalhauzar no salão de cima e que falávamos no fim.
Claro que não falámos. Marcelo Rebelo de Sousa foi-se embora como quem não quer a coisa, sem me dar uma segunda oportunidade e se calhar até fez bem, o 24horas não se recomendava. Também não interessa. O importante é isto: o Professor não me conhecia de lado nenhum, nunca me tinha visto mais gordo nem mais magro, mas apareci-lhe à frente e ele "soube" logo quem eu era. Não é extraordinário? Agora que penso nisso, devia ter-lhe pedido que me lesse a sina. E que me desse os números do Euromilhões.

Ainda hoje guardo religiosamente a mão com que cumprimentei Marcelo Rebelo de Sousa naquele encontro histórico de Celorico de Basto. Os nossos contactos seguintes, tal como os anteriores, resumiram-se ao telefone. Ligava eu, por dever de ofício. O Professor atendeu-me quase sempre. E foi sempre amável e útil.


(Texto escrito e publicado originalmente no dia 28 de Agosto de 2012, com o título "O Astro". Quem tiver idade para se lembrar da telenovela de Janete Clair e do desempenho do actor Francisco Cuoco percebe a história do cartomante, quem for mais novo que se informe. E reparem: em 2005, portanto há treze anos, ainda as selfies em Portugal eram geralmente outra coisa, Luís Filipe Menezes também lia a sina, adivinhava a candidatura do Professor, exactamente em Celorico, mas não era assim tão difícil - Marcelo, estava-lhe nas linhas das mãos, trabalha no assunto desde que nasceu.

Marcelo Rebelo de Sousa faz hoje dois anos de Presidente e pequeninho é como se diz pequenino lá para os nossos lados galegos de Fafe e Basto.)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Os pobres

Foto Hernâni Von Doellinger

Ser pobre é fodido. Mas, para quem não sabe o que é a pobreza, "pobre" é apenas título de jornal, cinco caracteres sem pessoas dentro. Pessoas de pele e osso. O Público diz que os "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Vejam bem o que se escreve em Portugal e já vamos no século vinte e um, o tal que nem deveria existir se houvesse respeito pelas profecias: os "pobres" têm outra vez direito à senhazinha da sopa dos ditos. Se os pobres morrerem de fome é porque não deram o nome. Ou então porque não sabem o que quer dizer take away. Problema deles. Os pobres não são leitores do Público.

Havia o clero, havia a nobreza e havia o povo. E isto estava muito bem percebido. Depois apareceu a burguesia, que meteu um bocado de nojo, amantizando-se com o clero, com a nobreza e com o povo, consoante, porque a burguesia é muito dada a certas e determinadas promiscuidades. E a seguir, mas isto já foi um a seguir que demorou muito tempo e ainda está a doer, veio o proletariado, lá do fundo do fundo do clero, da nobreza, do povo e da burguesia que estava distraída a chá e torradas. E do sarro dos pés do proletariado, tipo cogumelos, renasceram os pobres, que aqui atrasado eram uns desgraçados que em dias certos batiam à porta da nossa casa, em Fafe, a pedirem "uma esmolinha, por alma de quem lá tem". Porque nós éramos pobres, mas menos pobres do que eles.
O Público titula que "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Os pobres. Nós. Os que, hoje em dia, não somos nem clero, nem nobreza, nem burguesia, nem povo, nem sequer proletariado, nem jornalistas. Nem somos os pobres que damos esmola. Somos os pobres que a pedimos. Somos outra vez os pobres de papel passado e, isto sim é notícia, vítimas do insulto patarata que também já esbordou da política para o alegado jornalismo.
Eu sou pobre e estou aqui, deste lado. A rapaziada que escreve as tolices que a mandam escrever e os tituladores que acham que são mais finos do que os outros, essa é gente que não sabe de que lado está. Um destes dias cortam-lhes as respectivas comissões de serviço de três meses, escravidão, recibo verde, pouca vergonha e pouca conversa. Talvez então a rapaziada e os tituladores pataratas percebam que afinal somos todos do mesmo: portugueses, pobres, na fila da sopa, apesar de uma vez na vida termos sido serralheiro especializado ou jornalista simpatizante.
 
(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, hoje com este desabafo escrito e publicado originalmente no dia 16 de Fevereiro de 2012.)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

De volta à casa de partida

Foto Hernâni Von Doellinger

Em Portugal há 450 mil casas sobrelotadas e 2,5 milhões de casas subaproveitadas. Há mais de 735 mil casas vazias, umas caindo de velhas, outras ainda por estrear. Em Portugal há cada vez mais portugueses sem dinheiro para pagarem ao banco a prestação da casa. Os portugueses devolvem a casa ao banco, sem ondas e sem suicídios. Em Portugal não há dinheiro. E há cada vez mais portugueses morando no olho da rua. O subsídio por morte também não compensa. O BES anda na China, na Rússia e no Brasil a vender as casas devolvidas em Portugal. E a Caixa Geral de Depósitos prontifica-se a pagar os impostos da transacção a quem lhe comprar casas devolvidas.
O meu banco manda-me mensagens para o telemóvel, assediando-me com a oferta de casas ao preço da uva mijona. São casas devolvidas por portugueses à rasca como eu. As casas que eram de pessoas vão a leilão. E eu sinto-me insultado com as SMS que me convidam a ser cúmplice no aproveitamento da desgraça alheia. Logo à primeira fui imediatamente ao balcão protestar o meu incómodo e exigir que a coisa acabasse ali. Que "Sim, senhor, tem toda a razão, vamos já tratar do assunto", foi o que diligentemente me responderam. E as mensagens continuam.
Também comprei casa, no meu tempo. Fui chulado durante 25 anos e sei de que lado estou. Não devo nada ao banco, não devo nada a ninguém. Decerto por causa disto é que o banco cuida que eu agora sou um dos seus. Não sou. Sou um dos outros. 

(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, hoje com esta notazinha escrita e publicada no dia 27 de Novembro de 2012.)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Portugal de luxo, Portugal de lixo

Foto Hernâni Von Doellinger

Leio num site oficial do Governo de Portugal: "A Pousada do Porto, instalada no Palácio do Freixo, acabou de entrar na prestigiada e exclusiva rede The Leading Hotels of the World. Só os mais luxuosos, prestigiados e sofisticados hotéis são admitidos na referida listagem de apenas 430 unidades em todo o mundo."
Cheguei à exclusiva, luxuosa, sofisticada e duas vezes prestigiada novidade com meia dúzia de dias de atraso. Mas sei que em Janeiro as notícias diziam que Portugal tinha cinco hotéis na lista dos 100 melhores do mundo, e que, em 2012, era português o melhor hotel da Península Ibérica e o melhor pequeno hotel de luxo da Europa era em Lisboa. Em Portugal há mais de 40 hotéis de luxo.
Há também mais de três milhões de pobres, meio milhão de trabalhadores a salário mínimo, um milhão e meio de desempregados e milhares e milhares e milhares de sem-abrigo. No Portugal de lixo multiplicam-se os chalés de luxo como o da foto acima. Ontem, no espaço de menos de cem metros, passei por três. E só espero que os deixem ficar. É o que resta a estes desgraçados: a ilusão de terem um tecto.

(O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não sabia que havia tantos sem-abrigo em Portugal. Mas devia saber, porque ele sabe tudo. E saberia se lesse o Tarrenego!, ele que lê tudo. Marquei-lhe falta. Mas, como sou boa alma, vamos lá recapitular, hoje com este textinho escrito e publicado no dia 12 de Junho de 2014.)