sexta-feira, 2 de agosto de 2024
Sarapintando
Ele era um extraordinário ciclista e não fazia caso à gramática. Dizia que gostava de correr "isolado, sozinho, sem mais ninguém", porque depois, na meta, "cada cal é cada cal e cada um sarapinta como pode". Não fazer caso da gramática fazia parte de ser ciclista antigamente. Ele venceu uma Volta a Portugal e era do meu FC Porto e das minhas memórias. Carlos Carvalho. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente anos mais tarde, eu moço, ele já reformado do pelotão mas não das bicicletas. E então o meu gigante das estradas era aquele homenzinho? Aquilo é que era o colosso de rodas? Era. E fiquei a admirá-lo ainda mais, como quem admira um fazedor de impossíveis.
Em 1976 a AD Fafe resolveu de repente montar de raiz uma equipa de ciclismo e apresentar-se à Volta a Portugal. Não terá sido bem a AD Fafe, mas algumas pessoas ligadas à AD Fafe e amantes das bicicletas, e tudo foi feito em cima do joelho, como convém às grandes empreitadas. Foi-se ao refugo do pelotão nacional e arranjaram-se dois ciclistas e mais dois ou três acompanhantes e desistentes garantidos. Os ciclistas eram o jovem António Alves, que posteriormente brilharia ao serviço do FC Porto, do Coimbrões de mestre Emídio Pinto, se não me engano, e do Boavista, entre outros clubes, e Manuel Martins, fafense de Golães e irmão mais novo do campeão José Martins. Dos outros, infelizmente, não reza a história. Foi-se praticamente à sucata e arranjou-se um velho Mercedes que seria, por assim dizer, recuperado e "preparado" para carro de apoio na garagem do Zé Bastos, ao lado dos antigos Bombeiros. O veículo, que avariava muito bem e parou vezes sem conta nas voltas da Volta, sobretudo quando fazia mais falta aos corredores, era o único acrescento logístico da equipa e seria guiado pelo Fredinho Bastos, condutor experimentadíssimo em corridas mas de automóveis. E foi-se a Pousada de Saramagos, Famalicão, tentar contratar um "treinador".
Uma embaixada fafense deslocou-se à loja-oficina de Carlos Carvalho, que ficava ali à face da estrada nacional, quem depois vira para o campo de futebol do Riopele de má memória pelo menos para nós. Iam talvez o grande Chico Marinho, de quem um dia falarei à parte, o despachado Machadinho, que também já era cobrador da AD Fafe, desse tenho a certeza, não sei se o Fredinho, o David Alves e o seu irmão Gabriel, eventualmente, e por certo alguém da direcção. Posso garantir é que eu fazia parte dessa delegação de alto nível, como modesto observador e porque, tratando-se de Fafe, naquele tempo da minha juventude eu ia com toda a gente para todo o lado. Em Fafe, não sei porquê, estive no meio de tudo ou tudo passou por mim. Fui portanto um espectador privilegiado da história da nossa terra naqueles anos imediatamente antes e após o 25 de Abril de 1974. Ou então, também admito estoutro ponto de vista, fui apenas um considerável emplastro, mas quase sempre a convite, é preciso que se note.
P.S. - A Volta a Portugal chega hoje, mais uma vez, a Fafe. Ontem foi em Paredes. E é curioso, lembro-me agora: naquele ano de 1976, por causa da nossa equipa, fomos ver a chegada precisamente a Paredes, no dia 21 de Agosto, o David, o Gabriel, creio que também o campeão José Martins e eu, evidentemente na pendura.
terça-feira, 30 de julho de 2024
O escalador
domingo, 28 de julho de 2024
O Grosso da Coluna e o Maciço Central
A diferença entre o Grosso da Coluna e o Maciço Central pode resumir-se assim: o primeiro é corredor de bicicletas e o segundo joga no eixo da defesa, como agora se diz. E o que têm em comum o Grosso da Coluna e o Maciço Central? Fisicamente falando, pertencem ambos à família dos Armários.
Não era evidentemente o caso de Herculano Oliveira, no retrato, um poderosíssimo lingrinhas a quem chamavam "Andorinha das Penhas", uma levandisca com pedais, peso-pluma voador, digo eu, capaz até de bater Joaquim Agostinho na subida à serra da Estrela, quer-se dizer, às Penhas da Saúde, e é daí que lhe vem o cognome, o qual, dito assim a quem é, tem tanto de ornitológico como de justo.
Naquele tempo, os ciclistas eram-nos contados pela rádio, com muito emoção e, às vezes, algum atraso. Ouvidos, os ciclistas eram o fim do mundo em cuecas, eram trinta por uma linha, eram tudo e mais capaz alguma coisa e também "ases do pedal", "bravos do pelotão" ou "gigantes da estrada", nome que lhes assentava tão bem e que agora parece que está reservado aos SUV e aos camiões TIR, para além da Brisa e outras mais modestas correntes de ar mensais.
Herculano Oliveira era do Sangalhos, é património do grande Sangalhos - uma potência velocipédica de que decerto os mais novos nem fazem ideia -, mas também passou, entre outras equipas, pela Coelima e fez carreira internacional. Nas décadas de sessenta e setenta, foi 4.º na Volta a Portugal, 22.º na Volta a Espanha e 45.º na Volta a França. Posso dizer, só para me gabar, que, em mocico, estive às vezes à beira dele?...
sábado, 27 de julho de 2024
O Velho Lau e o Lausperene
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| Foto Tony Dias/Movephoto |
sexta-feira, 26 de julho de 2024
A felicidade das galinhas
quinta-feira, 25 de julho de 2024
Volta a Portugal em bicicleta!
quinta-feira, 3 de junho de 2021
O Velho Lau e o Lausperene
Volta a Portugal em bicicleta
A arte do sarapint
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Vai uma voltinha?...
Volta a Portugal em bicicleta
- Volta a Portugal em bicicleta! - recomendaram-lhe de casa. E ele voltou. Estava sem gasolina no carro e sem dinheiro no cartão e na carteira. Em Tui. Foi um tirinho...
A arte do sarapint
Era um extraordinário ciclista e não fazia caso à gramática. Dizia que gostava de correr "isolado, sozinho, sem mais ninguém", porque depois, na meta, "cada cal é cada cal e cada um sarapinta como pode". Venceu uma Volta a Portugal e era do meu FC Porto e das minhas memórias. Carlos Carvalho. Tive o privilégio de conhecê-lo anos mais tarde, eu moço, ele já reformado do pelotão mas não das bicicletas. E então o meu gigante das estradas era aquele homenzinho? Aquilo é que era o colosso de rodas? Era. E fiquei a admirá-lo ainda mais, como quem admira um deus de impossíveis.
Golo de bicicleta
Que extraordinário golo de bicicleta! Um golo estratosférico, sensacional, fabuloso, espectacular, fenomenal, incrível, magnífico, maravilhoso, brutal - consoante os comentadores. Mas não valeu. "Futebol é uma coisa e ciclismo é outra" , explicou o árbitro, sinaleticamente falando, e nem precisou do VAR.
O Grosso da Coluna e o Maciço Central
A diferença entre o Grosso da Coluna e o Maciço Central pode resumir-se-se assim: o primeiro é corredor de bicicletas e o segundo joga no eixo da defesa, como agora se diz. E o que têm em comum? Fisicamente falando, pertencem ambos à família dos Armários.
Espírito de contradição
Ao contrário de todos os outros ciclistas, ele gostava de correr da frente para trás. Provocava muita confusão e inúmeros acidentes, realmente, mas, lá está, cada um é como cada qual.
O primeiro pódio
Era a primeira vez que subia ao pódio. Chegou-se ao microfone e disse, pigarreando, "Chape, chape, um, dois; um, dois, três; um, dois, três, quatro, experiência". Que pena ser num comício...
Mal comparando
A lampreia é um ciclóstomo. O Amaro Antunes é um ciclístomo.
O Velho Lau e o Lausperene
Que fique assente de uma vez por todas: o Velho Lau e o Lausperene não são uma única e mesma pessoa, como muito boa gente cuida, e, aliás, Lausperene nem sequer é pessoa. O Lausperene, ou Sagrado Lausperene, é a exposição e adoração permanente do Santíssimo Sacramento nas igrejas ou capelas. O Velho Lau é Venceslau Fernandes, ex-ciclista realmente de longeva carreira e pai da triatleta Vanessa Fernandes, Velho porque ganhou a Volta a Portugal de 1984, tinha então 39 anos, e correu até aos 46, derivando talvez daí a compreensível confusão...
As despesas da corrida
Fez todas as despesas da corrida. Quando no fim lhe apresentaram a conta, ia morrendo do coração...
A volta ao quarteirão
Por mais voltas que desse ao quarteirão, eram sempre vinte e cinco, e não saía dali.
O ciclista isolado
Era um ciclista que se isolava com frequência. E também com fita preta Advance desde 1,44 sem IVA.
O fugitivo
Era um atacador nato, o primeiro a arrancar e a assumir a liderança de todas as etapas em que participava, apenas uma por prova. Na meta, 170 km depois, tinha desistido 169 km antes.
sexta-feira, 3 de julho de 2020
Volta a Portugal em bicicleta
domingo, 7 de junho de 2020
A arte do sarapint
domingo, 5 de agosto de 2018
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
domingo, 19 de agosto de 2012
Mulher, anda ver Fafe na televisão
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Isto ontem foi assim: a Volta chegava a Fafe e eu chamei a minha mulher para vermos a minha terra na televisão. O ciclismo ao vivo, à beira da estrada e do suor, comove-me, comove-nos, faz-me tanta impressão aquele poder, aquele esforço, ainda que vitaminados, que só me dá para tremer e chorar ao vê-los passar rasantes. E não vejo nada. Cuidam que estou a gozar? Não estou. Para já, não. Pegámos nas bandeirinhas e fomos, portanto, para o sofá. É mais seguro. E de homem.
Faltavam 17 quilómetros para o fim da etapa e a televisão informava que os corredores já estavam no circuito de Fafe. Eu expliquei à minha mulher que não podia ser, era engano, andei naquelas vidas, sei como estes desculpáveis lapsos acontecem, aquela via-rápida parecia-me mais a entrada em Sobral de Monte Agraço, quem vem de cima. "Vila Verde. Vila Verde, quem vem de baixo", contrariou-me ela, que me contraria sempre por uma questão de princípio. E, sim, de facto aquela estrada sem nada que a recomendasse nem bilhete de identidade podia muito bem ser nas bordas de Vila Verde. Ou de Sobral de Monte Agraço. Ou de Moimenta da Beira.
Os corredores umas vezes desciam não sei de onde e outras vezes subiam não sei para onde. Fafe era alcatrão e rails de protecção. Da minha terra, nada. No sofá discutíamos ipês e circulares e já íamos em Mértola, eu, e em Bragança, a minha mulher. A estrada impessoal e tão pau para toda a colher estava quase a acabar com o meu casamento quando finalmente dei fé da que já foi a Ponte de Golães. "Agora é que é", sobressaltei-me de alegria, "é mesmo Fafe, não é a Volta à Polónia". E os ciclistas pedalaram Santo Ovídio acima, deixaram a Cisterna para trás, passaram a Rua de Baixo e nós os dois a vermos aquilo na televisão todos vaidosos e a beliscarmo-nos, e nisto, às portas da Sacor, o programa da RTP avariou porque deu a chegada a uma meta em Vila Verde. Ou em Sobral de Monte Agraço. Ou em Moimenta da Beira. Ou em Mértola. Ou em Bragança, não sei bem. Sem o Largo, sem a Arcada e sem o Jardim do Calvário ao fundo, podia ser numa terra qualquer. Mas a televisão insistia que era Fafe.
E se calhar era. Porque apareceu o presidente da Câmara, que foi ao palco ser cumprimentado pelo vencedor da tirada. (Porque para isso é que estas coisas são feitas.) E era um palco de luxo: o presidente da Câmara, o João Baião e o Paulo Futre. Dinheiro bem gasto.
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