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sábado, 3 de agosto de 2024

Nietzsche passou por Fafe, de bicicleta

A vila de Fafe fervilhava de tascos na segunda metade do século passado. Eram porta sim, porta não, provavelmente caso único a nível mundial, coisa talvez digna do Guinness - casinos e hotéis em Las Vegas, tascos e tascas em Fafe. Tascos, tabernas, casas de pasto e quatro ou cinco pensões-restaurantes do melhor que existia em Portugal para quem percebesse realmente do assunto, porque em Fafe comia-se e come-se bem e bom. E quanto a beber, então nem se fala. À mesa, portanto, nada a apontar - antes pelo contrário. Já no que diz respeito à cama, isto é, a locais para pernoita, naquele tempo estávamos muito mal servidos. Se aparecesse assim algum acontecimento em grande, fora do ramerrame quotidiano, um evento que trouxesse gente de fora com intenção ou obrigação de ficar por cá de um dia para o outro, não havia onde meter o povo todo, a não ser que se inventasse. E inventava-se.
Com a Volta a Portugal em Bicicleta tinha de ser. Antigamente as etapas da Volta costumavam começar na mesma terra onde tinha terminado a etapa do dia anterior, e Fafe fazia parte do roteiro. Os fafenses recebiam muito bem os ciclistas e toda a caravana de uma forma geral. Os prémios eram muitos e oferecidos pelo comércio e pela indústria locais. Taças, medalhas, electrodomésticos, bicicletas, cortes de tecido, cortes de cabelo, peças de roupa e de louça, chapéus de palha, guarda-chuvas, produtos de higiene e limpeza, canetas, envelopes com dinheiro e múltiplas inutilidades, que passavam para aí uma semana em exibição na montra da Electra, se não estou em erro. Em Fafe, se um ciclista da Volta não chegasse, vamos lá, nos dez primeiros lugares, então mais valia cortar a meta em último. O último ciclista a chegar a Fafe ganhava uma magnífica candeia novinha em folha com uma certa quantia metida lá dentro. E os meus olhos ficavam-se todos os anos na candeia tão brilhante e propícia a sonhos. Se eu fosse ciclista, palavra de honra, havia de dar sempre o máximo para ser o último!...
Os prémios eram entregues aos responsáveis das equipas numa aprazível sessão nocturna, no Jardim do Calvário, porventura com um ou outro "apontamento musical" e decerto garbosamente apresentada pelo Landinho Bacalhau ou pelo Zé Fala-Barato, ou se calhar por ambos, com umas larachas pelo meio, não devo estar a dizer asneira nenhuma.
E onde ficavam a dormir os ciclistas? Algumas equipas, mais exigentes e endinheiradas, desciam até Guimarães, gabo-lhes o gosto. Em Fafe, esgotadas as poucas camas da hotelaria convencional, e aqui é que entra a invenção, instalações mais ou menos públicas eram requisitadas e, se necessário, transformadas em dormitórios para acolher atletas e acompanhantes. Por exemplo, a camarata dos Bombeiros, na Rua José Cardoso Vieira de Castro, serviu de pouso, em anos diferentes, às equipas do Baixo da Banheira e do Académico do Porto, do nosso Chico Marinho. E eu andando por lá.
Em 1967, os belgas da Flandria vieram à Volta a Portugal e Fafe instalou-os no palacete ao lado dos Bombeiros, em frente aos Medons, e que já serviu de museu da imprensa mas na altura não servia para nada. O Palacete com maiúscula era o outro, o dos Dantas, do outro lado dos Bombeiros, este era apenas um palacete. Era um casarão abandonado, uma espécie de casa assombrada, decadente inclusive em sentido literal, com o espaço exterior, dentro dos portões e do alto gradeamento, entusiasticamente entregue ao capim descontrolado, à folhagem podre e fedorenta e às silvas amazónicas que assustavam. Não era normal os estrangeiros virem correr à nossa Volta, e decerto por isso a mordomia. O interior do edifício terá sido sacudido e arejado, despejado de ratos e limpo das teias de aranha, só foi preciso meter camas, trigo limpo, farinha amparo.
A Volta a Portugal acabou e nós tínhamos de ir lá dentro, ao palacete, ver como é que aquilo era. Nós, quero dizer, o nosso grupo de miúdos, ali do Santo Velho e das redondezas, comandados pelo intrépido Daniel Carcereiro, que era apenas um pouco mais velho mas tinha um enorme carisma e sentido de liderança, embora eu na altura não soubesse o que isso queria dizer e nem sequer conhecesse estas palavras.

O Daniel, é preciso que que note, chamava-se Carcereiro por causa do pai, que era o responsável pela cadeia de Fafe. A cadeia mesmo, o velho edifício granítico com grossas grades de ferro quase ao nível do chão através das quais os presos conversavam com familiares, amigos ou simples passantes, com espaço até para enfiarem as pernas cá para fora, para a rua, as pernas em liberdade, balançando-se, eventualmente também as mãos e o nariz, às vezes as orelhas, uma de cada vez, mas o resto do corpo não. Senão, nem era cadeia nem era nada.
O sítio é exactamente o mesmo onde está hoje o Palácio da Justiça, inaugurado a 13 de Outubro de 1963, dia em que também abriu portas a nova cadeia comarcã, com entrada pela actual Rua Prof. Manuel José da Costa, nas traseiras do estádio e junto à piscina municipal. E a família do Daniel mudou-se para lá também. O edifício já serviu entretanto como posto da GNR e agora não sei para que serve, mas essa parte sabem vocês muito melhor do que eu.

Portanto, deixámos passar uns dias, para disfarçar, e invadimos o palacete. O Daniel tomava conta de nós, nunca permitiria que algo de mal nos acontecesse. O Daniel tinha isto, tão singular: apesar de aventureiro, brigão e valente, desafiando sem medo os maiores do que ele, fossem quantos fossem, era de uma inesperada e desarmante bondade em relação aos miúdos mais novos. Ele era o nosso capitão e o nosso protector. Sempre atento e cuidadoso. E a invasão foi um sucesso.
Fizemos trinta por uma linha, deixámos tudo em pantanas, corremos todas as divisões de todos os andares até à mansarda, subindo e descendo escadas que faziam lembrar castelos, destruímos almofadas em guerras sem quartel, desengonçámos irremediavelmente camas e divãs, inutilizámos lençóis para fazermos de fantasmas, tudo a uma velocidade alucinante, com milhares de trambolhões à mistura, mas felizmente sem vítimas a lamentar. Na verdade, não foi tanto assim, mas assim contado tem muito mais piada. E a invasão foi mesmo um sucesso.
Ainda por cima encontrámos espalhados pelo chão imundo restos da alimentação dos ciclistas. Cubos de açúcar, quadradinhos de marmelada e outros doces e geleias, muito bem cobertos por milhões de formigas, que desbaratámos organicamente, isto é, ao pontapé e chibatada, seguindo as rigorosas orientações higiossanitárias do Daniel, que cheirou aquilo e decidiu, dando o exemplo: - Ainda está bom. Bora lá comer, que o que não mata, engorda! - E não podia ser mais sábio. Quase tão sábio como Nietzsche, o Friedrich, que dizia "O que não nos mata torna-nos mais fortes", isto certamente depois de ter passado por Fafe.

O Daniel foi um razoável jogador de futebol, dos de barba rija, porém fez carreira como oficial de justiça, estou em dizer. Não convivemos há mais de trinta ou talvez quarenta anos, mas nunca me desapontou, isso é garantido. Estou-lhe grato, tenho por ele uma admiração antiga, e nunca lho disse. Confidenciam-me que o Daniel Carcereiro continua como era, um ser humano especial, com o seu feitio, cuidado!, mas disponível e leal, fiável, generoso, atento às injustiças e presente aos amigos, ainda e sempre sportinguista, o seu ponto de imperfeição, e possivelmente um pouco mais manso. Enfim, um comandante na reforma.
Moral da história: Tony Houbrechts, o belga da Flandria, ganhou a Volta a Portugal em Bicicleta de 1967. E eu comi-lhe o almoço.

P.S. - Texto publicado originalmente no meu blogue Fafismos e repetido no Tarrenego! no dia 28 de Agosto de 2023, sob o título "Era uma vez Fafe e a Volta a Portugal". Entretanto, o Pedro Dantas teve a amabilidade de informar-me de que o palacete aqui contado tem dono, actualmente, e que "é um lugar belíssimo". Antes assim. Quanto à Volta, parou ontem em Fafe, mais uma vez, e foi um fim de mundo de povo. A romaria de antigamente, mas agora em moderno...

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Sarapintando


Ele era um extraordinário ciclista e não fazia caso à gramática. Dizia que gostava de correr "isolado, sozinho, sem mais ninguém", porque depois, na meta, "cada cal é cada cal e cada um sarapinta como pode". Não fazer caso da gramática fazia parte de ser ciclista antigamente. Ele venceu uma Volta a Portugal e era do meu FC Porto e das minhas memórias. Carlos Carvalho. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente anos mais tarde, eu moço, ele já reformado do pelotão mas não das bicicletas. E então o meu gigante das estradas era aquele homenzinho? Aquilo é que era o colosso de rodas? Era. E fiquei a admirá-lo ainda mais, como quem admira um fazedor de impossíveis.

Em 1976 a AD Fafe resolveu de repente montar de raiz uma equipa de ciclismo e apresentar-se à Volta a Portugal. Não terá sido bem a AD Fafe, mas algumas pessoas ligadas à AD Fafe e amantes das bicicletas, e tudo foi feito em cima do joelho, como convém às grandes empreitadas. Foi-se ao refugo do pelotão nacional e arranjaram-se dois ciclistas e mais dois ou três acompanhantes e desistentes garantidos. Os ciclistas eram o jovem António Alves, que posteriormente brilharia ao serviço do FC Porto, do Coimbrões de mestre Emídio Pinto, se não me engano, e do Boavista, entre outros clubes, e Manuel Martins, fafense de Golães e irmão mais novo do campeão José Martins. Dos outros, infelizmente, não reza a história. Foi-se praticamente à sucata e arranjou-se um velho Mercedes que seria, por assim dizer, recuperado e "preparado" para carro de apoio na garagem do Zé Bastos, ao lado dos antigos Bombeiros. O veículo, que avariava muito bem e parou vezes sem conta nas voltas da Volta, sobretudo quando fazia mais falta aos corredores, era o único acrescento logístico da equipa e seria guiado pelo Fredinho Bastos, condutor experimentadíssimo em corridas mas de automóveis. E foi-se a Pousada de Saramagos, Famalicão, tentar contratar um "treinador".
Uma embaixada fafense deslocou-se à loja-oficina de Carlos Carvalho, que ficava ali à face da estrada nacional, quem depois vira para o campo de futebol do Riopele de má memória pelo menos para nós. Iam talvez o grande Chico Marinho, de quem um dia falarei à parte, o despachado Machadinho, que também já era cobrador da AD Fafe, desse tenho a certeza, não sei se o Fredinho, o David Alves e o seu irmão Gabriel, eventualmente, e por certo alguém da direcção. Posso garantir é que eu fazia parte dessa delegação de alto nível, como modesto observador e porque, tratando-se de Fafe, naquele tempo da minha juventude eu ia com toda a gente para todo o lado. Em Fafe, não sei porquê, estive no meio de tudo ou tudo passou por mim. Fui portanto um espectador privilegiado da história da nossa terra naqueles anos imediatamente antes e após o 25 de Abril de 1974. Ou então, também admito estoutro ponto de vista, fui apenas um considerável emplastro, mas quase sempre a convite, é preciso que se note.

P.S. - A Volta a Portugal chega hoje, mais uma vez, a Fafe. Ontem foi em Paredes. E é curioso, lembro-me agora: naquele ano de 1976, por causa da nossa equipa, fomos ver a chegada precisamente a Paredes, no dia 21 de Agosto, o David, o Gabriel, creio que também o campeão José Martins e eu, evidentemente na pendura.

terça-feira, 30 de julho de 2024

O escalador

Os expertos apontavam-no como o grande escalador para esta Volta a Portugal. Mas a verdade é só uma: passaram-lhe para as mãos um robalo, e ele nada, entregaram-lhe um rodovalho, e ele nicles, deram-lhe até um chicharro, e ele sem saber que volta dar-lhe. A montanha parira um rato. Ele, disse ele, afinal era mais douradinhos da Iglo... 

domingo, 28 de julho de 2024

O Grosso da Coluna e o Maciço Central


A diferença entre o Grosso da Coluna e o Maciço Central pode resumir-se assim: o primeiro é corredor de bicicletas e o segundo joga no eixo da defesa, como agora se diz. E o que têm em comum o Grosso da Coluna e o Maciço Central? Fisicamente falando, pertencem ambos à família dos Armários.

Não era evidentemente o caso de Herculano Oliveira, no retrato, um poderosíssimo lingrinhas a quem chamavam "Andorinha das Penhas", uma levandisca com pedais, peso-pluma voador, digo eu, capaz até de bater Joaquim Agostinho na subida à serra da Estrela, quer-se dizer, às Penhas da Saúde, e é daí que lhe vem o cognome, o qual, dito assim a quem é, tem tanto de ornitológico como de justo.
Naquele tempo, os ciclistas eram-nos contados pela rádio, com muito emoção e, às vezes, algum atraso. Ouvidos, os ciclistas eram o fim do mundo em cuecas, eram trinta por uma linha, eram tudo e mais capaz alguma coisa e também "ases do pedal", "bravos do pelotão" ou "gigantes da estrada", nome que lhes assentava tão bem e que agora parece que está reservado aos SUV e aos camiões TIR, para além da Brisa e outras mais modestas correntes de ar mensais.
Herculano Oliveira era do Sangalhos, é património do grande Sangalhos - uma potência velocipédica de que decerto os mais novos nem fazem ideia -, mas também passou, entre outras equipas, pela Coelima e fez carreira internacional. Nas décadas de sessenta e setenta, foi 4.º na Volta a Portugal, 22.º na Volta a Espanha e 45.º na Volta a França. Posso dizer, só para me gabar, que, em mocico, estive às vezes à beira dele?...

Os gigantes da estrada

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 27 de julho de 2024

O Velho Lau e o Lausperene

Foto Tony Dias/Movephoto

Que fique assente de uma vez por todas: o Velho Lau e o Lausperene não são uma única e mesma pessoa, como muito boa gente cuida, e, aliás, Lausperene nem sequer é pessoa. O Lausperene, ou Sagrado Lausperene, é a exposição e adoração permanente do Santíssimo Sacramento nas igrejas ou capelas. O Velho Lau é Venceslau Fernandes, ex-ciclista realmente de longeva carreira e pai da triatleta Vanessa Fernandes, Velho porque ganhou a Volta a Portugal de 1984, tinha então 39 anos, e correu até aos 46, derivando talvez daí, de tanta perenidade, a compreensível confusão...

Claro que vi Venceslau Fernandes em acção. Com as camisolas da Ambar, do Sangalhos, do Benfica, do FC Porto, da Ajacto e outras de que menos reza a história. E lembro-me até do Cedemi, embora a minha memória não consiga fazer a ligação ao Velho Lau. Evidentemente também frequentei Sagrados Lausperenes no meu tempo, mas isso, se fosse a contar, já seriam outros quinhentos...

sexta-feira, 26 de julho de 2024

A felicidade das galinhas

Nos intervalos das transmissões da Volta a Portugal em Bicicleta, na RTP, passa muito um reclame aos Ovos Matinados, ditos "os ovos das galinhas mais felizes de Portugal". Felizes? As galinhas? Aos engraçados autores da tirada publicitária, proponho um breve exercício. Tentem pôr um ovo XL com um cu do tamanho de um cu de galinha, ou mesmo com um cu do tamanho do cu que têm, se não for escandalosamente exorbitante, e depois venham-me falar de felicidade...

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Volta a Portugal em bicicleta!

- Volta a Portugal! Volta a Portugal em bicicleta! - pediu-lhe insistentemente a mulher, num derradeiro telefonema de aflição. E ele voltou. Mas veio de carro.