Quando a religião bate à porta
Bateram à porta e Dona Amélia abriu. Pensava que era o carteiro. Eram
duas senhoras muito simpáticas com uma revista nas mãos. A revista
chamava-se A Sentinela e as duas senhoras muito simpáticas queriam
falar, mas Dona Amélia não as queria ouvir. Que não tinha vagar para
revistas nem para jornais, que fizessem o favor de ir andando, que ela
tinha mais que fazer. As pessoas com 84 anos e sós são mesmo assim,
estão sempre muito ocupadas. As duas senhoras muito simpáticas, e
pacientes, insistiam de pé enfiado na porta e revista em riste, falavam
do fim do mundo, da Bíblia, de profecias, do Reino de Deus, de Jesus
Cristo, de religião, e aqui, alto e pára o baile, Dona Amélia arrebitou
as orelhas e perguntou: - Ai vocês são da religião?...
- Somos Testemunhas de Jeová - responderam as duas senhoras muito simpáticas e pacientes.
-
Olha, ainda por cima jeovás! Rua, andor daqui para fora! - mandou Dona
Amélia, sacando do toco de vassoura, mais rápida que a própria sombra. -
Eu não acredito nessas lérias. Eu não acredito na religião católica,
que é a verdadeira, e ia agora... Xô, xô, xô, já disse!
E diz o preguiçoso ateu
A minha religião é o trabalho.
O Velho Lau e o Lausperene
Que fique assente de uma vez por todas: o Velho Lau e o Lausperene não
são uma única e mesma pessoa, como muito boa gente cuida, e, aliás,
Lausperene nem sequer é pessoa. O Lausperene, ou Sagrado Lausperene, é a
exposição e adoração permanente do Santíssimo Sacramento nas igrejas ou
capelas. O Velho Lau é Venceslau Fernandes, ex-ciclista realmente de
longeva carreira e pai da triatleta Vanessa Fernandes, Velho porque
ganhou a Volta a Portugal de 1984, tinha então 39 anos, e correu até aos
46, derivando talvez daí a compreensível confusão...
O fim do Inferno é mau para o negócio
Evidentemente o Inferno não existe. O Papa Francisco tinha razão quando o
disse, e se calhar
ouviu-me ou leu-me antes, não sei quando nem onde. Mas a Igreja - que se
apressou a desmentir o chefe, dizendo que ele não disse o que disse -
não pode
admitir semelhante franqueza: porque o Inferno é a bomba atómica do
catolicismo. Sem Inferno, o que é que a Igreja em sotaina tem para
ameaçar ou dissuadir os seus fiéis? "Olhai, amai-vos uns aos outros"?
Seria de rir, se não fosse obsceno. Para além disso, o fim do Inferno é
mau para o negócio.
Ben-u-ron, uma questão de fé
A minha sogra gosta muito do Ben-u-ron. Reclama "o meu Banuronzinho"
por tudo e por nada, geralmente só para marcar posição de doente
diplomada, inscrita na ordem e com as cotas em dia, questão de
princípio, mas também para a insónia ou para a sonolência, para a
garganta seca ou molhada, para o frio e para o calor, para as correntes
de ar e para o mau-olhado, para a diarreia ou para a prisão de ventre,
para os arrotos e para os espirros, para a flatulência ou para a surdez
ou para a anosmia, para as unhas encravadas ou para os pêlos do nariz. A
minha sogra só não quer Ben-u-ron para as dores de que se queixa como
quem reza o terço em latim ou para a febre que nunca tem por mais que
meta o termómetro. Para o resto - isto é, para aquilo que não diz
respeito ao Ben-u-ron - a miraculosa pastilha é trigo limpo, farinha
amparo. "Tenho muito fé no Banuron!", justifica a minha sogra. E eu,
verdade seja dita, questões de fé não discuto.
P.S. - Este texto não teve o patrocínio da Bene Farmacêutica, Ld.ª. Infelizmente.
O preço da fé
No tempo em que a fé era de graça, copo e vela dez tostões.
O reino dos céus por uma mobília de sala de jantar
Andam aos pares, como o Senhor mandou para a arca, aos pares e de Bíblia
na mão, e vê-se logo que são boas pessoas. Missionam a bom missionar,
de porta em porta, no meio da rua, sujeitam-se a malcriadezas em nome
da fé que têm para dar e vender, e dou-lhes valor por isso. Um par
interpelou-me um destes dias, ali em baixo, no passeio à beira-mar onde
às vezes montam banca:
- Um minutinho, por favor, já pensou no que
lhe acontecerá quando morrer? E porque morremos? Não quer saber a
verdade acerca da morte?
Eu, que achei a abordagem um bocado
desajeitada e tétrica, desnecessariamente radical, resolvi dar-lhes uma
ajuda, recentrando o assunto:
- Não é nada da morte que me querem falar, pois não? A morte até poderia ser um bom princípio, em termos de marketing,
de aproximação tablóide à clientela, quero dizer, mas vocês querem é
falar-me da vossa Igreja, querem converter-me à vossa Igreja, querem
anunciar-me Deus, o único verdadeiro, Jeová, é ou não é?
Era.
-
Então, em verdade vos digo, assim será feito - disse eu, com voz de
sarça ardente ditando leis -, ouço-vos, vocês falam-me da vossa Igreja e
de Jeová, mas só se também me derem tempo de antena para eu vos falar
de uma mobília de sala de jantar muito jeitosa que tenho para vender.
-
Mas para que queremos nós ouvi-lo falar acerca da mobília de sala de
jantar, se temos uma praticamente nova, estamos tão bem servidos e não
precisamos de mudar? - respondeu o par em coro e percebi logo que, para
além de par, formava também casal.
A resposta era mesmo a que me calhava, portanto sentenciei:
-
Pois, caríssimos irmãos, eu e Deus é a mesma coisa: já tenho um e
estou muito contente com Ele. Vou agora trocar, porquê?
Moral da história: vendi-lhes duas mobílias de sala de jantar. E amém.
À capela
Cantava muito bem à capela. Pediram-lhe que cantasse à igreja. Disse que ainda não estava preparado...
O distraído
Quando deu fé, já era ateu.
Judas
Sejamos direitos: sem Judas não haveria salvação.
P.S. - Hoje, 21 de Janeiro, é Dia Mundial da Religião. Há quem diga que deve ser celebrado no terceiro domingo de Janeiro.