quarta-feira, 1 de maio de 2024
Por causa do anúncio
domingo, 1 de maio de 2022
O país que temos
sábado, 1 de maio de 2021
O Mais-valia
O Oliveira
Era de abraços
Eles não sabem que o sono
Dormia, por norma, dezasseis ou dezassete horas, consoante fossem dias ímpares ou pares, respectivamente. Ia ao emprego marcar o ponto de saída e era alvo de todas as críticas, atacado por patrões, colegas e até pelo sindicato. Defendia-se, filosoficamente: - Vocês não sabem que o sono é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer?...
Fundo do desemprego
Funcionário brilhoso
Profissional de mão-cheia, empenhava-se a cem por cento no emprego. Fazia tudo e fazia tudo bem. "Tenho muito brilho no meu trabalho", costumava dizer.
Ponto de honra
Teledesemprego
"Isto sem público nos estádios, o teledesemprego é uma seca!", queixava-se o Acúrsio, e suponho que com razão.
Teletrabalho
Os restaurantes reabriram e o arrumador de automóveis
saltou imediatamente para a rua, apresentando-se ao serviço. Estava
farto de orientar estacionamentos a partir de casa...
Teledesemprego 2
Está em casa em
teledesemprego. Faz horário das dez da manhã às oito da noite.
Perguntem-lhe sobre programação da RTP1! Sabe tudo.
Telessexo
É muito à frente, ele. Não esperou pela pandemia nem precisou das indicações do Governo. Há mais de trinta anos que pratica, e com resultados francamente satisfatórios.
Quando o 1.º de Maio era no dia 28 do mesmo
Antigamente o 1.º Maio era no dia 28 do mesmo. Quando digo antigamente
quero dizer antes do 25 de Abril de 1974, que já é antigamente que
chegue - que o confirmem os deputados da nação, cujos mais de um terço
ainda não tinham nascido quando a coisa se deu. Um por exemplo: o
estádio do SC Braga na Ponte, antes da extraordinária Pedreira do
arquitecto Souto Moura, chamava-se Estádio 28 de Maio. Por questões
políticas e não de calendário litúrgico, rito bracarense: chamava-se 28
de Maio glorificando o golpe militar que naquela data, em 1926, derrubou
a Primeira República e abriu caminho à ditadura do Estado Novo. De
corte fascista, o Estádio 28 de Maio, que ainda está de pé, tentava
aparentar-se e rivalizar com o Estádio Nacional, no Jamor, ou em
Oeiras, consoante a dor de cotovelo de cada qual, e foi inaugurado, em
1950, por Salazar e Carmona, que assim dito até parecem uma alegre
sociedade de costureiros. Veio a revolução dos cravos e o estádio mudou
de nome, passou a chamar-se Estádio 1.º de Maio, viva o Dia dos
Trabalhadores, viva a classe operária!, mais ajuizado seria que se
tivesse chamado sempre Campo da Quinta da Mitra.
Em todo o caso, como já escrevi aqui, mudar o nome do velho estádio de
Braga, de 28 de Maio para 1.º de Maio, só demonstra (num raciocínio
assumidamente palerma e suinamente fascistóide) que a Outra Senhora
levava 27 dias de avanço em relação a Esta Senhora e que as revoluções
cometem-se sobretudo e quase só para mudar os nomes das ruas, praças,
pontes, estádios e outro imobiliário.
Querem outro por exemplo? O Estádio 25 de Abril, de Penafiel. Antes da
"política", aquele terreiro chamava-se Campo das Leiras. Que mal é que
tinha o nome?
O 28 de Maio de 1926 foi praticamente como o 25 de Abril de 1974, mas em
versão fascista. Começou em Braga e chegou a Lisboa atrás do cavalo
branco de Gomes da Costa, uma espécie de chaimite daquele tempo.
Antes do 25 de Abril, os 28 de Maio eram celebrados com desfiles, por
assim dizer, militares: Mocidade Portuguesa, Legião Portuguesa,
certamente bombeiros e escuteiros, provavelmente ranchos folclóricos e
evidentemente soldados propriamente ditos. A Veneranda Figura lá estava,
mas o de Santa Comba se calhar não, porque constipava muito de saísse à
rua e o povo fazia-lhe espécie. Havia discursos, condecorações e
sobretudo muitas fanfarras, a bem da Nação. O bom povo português
assistia a tudo patrioticamente embebecido, se não me engano com
aguardente, porque as cerimónias eram de manhã.
Uma vez eu também lá fui. Estava no seminário, em Braga, e os padres
levaram-nos. Fomos portanto levados. Gostei muito, porque o meu tio Zé
de Basto era corneteiro na fanfarra do Regimento de Infantaria 8 e eu já
não o via há uma temporada. Pusemos a conversa em dia.
Resumindo e concluindo: Portugal continua a ser o mesmo, só o tio Zé é que já não anda na tropa...
segunda-feira, 25 de maio de 2020
E se?
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Quando o 1.º de Maio era no dia 28
Em todo o caso, como já escrevi aqui, mudar o nome do velho estádio de Braga, de 28 de Maio para 1.º de Maio, só demonstra (num raciocínio assumidamente palerma e suinamente fascistóide) que a Outra Senhora levava 27 dias de avanço em relação a Esta Senhora e que as revoluções cometem-se sobretudo e quase só para mudar os nomes das ruas, praças, pontes, estádios e outro imobiliário.
Querem outro por exemplo? O Estádio 25 de Abril, de Penafiel. Antes da "política", aquele terreiro chamava-se Campo das Leiras. Que mal é que tinha o nome?
O 28 de Maio de 1926 foi praticamente como o 25 de Abril de 1974, mas em versão fascista. Começou em Braga e chegou a Lisboa atrás do cavalo branco de Gomes da Costa, uma espécie de chaimite daquele tempo.
Antes do 25 de Abril, os 28 de Maio eram celebrados com desfiles, por assim dizer, militares: Mocidade Portuguesa, Legião Portuguesa, certamente bombeiros e escuteiros, provavelmente ranchos folclóricos e evidentemente soldados propriamente ditos. A Veneranda Figura lá estava, mas o de Santa Comba se calhar não, porque constipava muito de saísse à rua e o povo fazia-lhe espécie. Havia discursos, condecorações e sobretudo muitas fanfarras, a bem da Nação. O bom povo português assistia a tudo patrioticamente embebecido, se não me engano com aguardente, porque as cerimónias eram de manhã.
Uma vez eu também lá fui. Estava no seminário, em Braga, e os padres levaram-nos. Fomos portanto levados. Gostei muito, porque o meu tio Zé de Basto era corneteiro na fanfarra do Regimento de Infantaria 8 e eu já não o via há uma temporada. Pusemos a conversa em dia.
Resumindo e concluindo: Portugal continua a ser o mesmo, só o tio Zé é que já não anda na tropa...
sábado, 25 de abril de 2020
Inconvenientes de uma "manif" inexistente
O 25 de Abril correu muito bem. Vintecincodeabrilou-se ali com grande pertinácia e depois acabou. Acabou, mas eu, que sou de lágrima fácil, estava com uma vontade de mijar que já não era só vontade, era um estado de emergência, e desatei a correr como um tolinho para o WC sob as escadinhas da Rua 31 de Janeiro com a Estação de São Bento e com a polícia de choque atrás de mim como se eu levasse um engenho explosivo na braguilha. Não levava. Estava apenas à rasca. À rasquíssima. E a retrete estava de portas fechadas. Por causa do feriado.
Que se segue: eu bem não queria, mas tive de ir, com uma mão à frente e outra atrás, às casas de banho da estação propriamente dita. Às tais, às míticas, às suspeitíssimas. O que se passou lá dentro não interessa, apenas faço questão de garantir que saí daqueles apertos com a honra invicta. A polícia, entretanto, desinteressou-me de mim e passou a perseguir um casal de lavradores do Marco de Canaveses que tinha vindo a uma consulta de otorrinolaringologia, ela com a infelizmência de um xaile vermelho às costas e ele com um saco de plástico na mão, sotaque da terra e "cara de marroquino". Nas varandas (ou sacadas, como se diz em Fafe) cantava-se "Grândola, vila morena" com uma afinação de oficina de automóveis. O relógio exterior de São Bento batia as quinze e quinze. A polícia também. Após a sova da ordem, as autoridades verteram nos autos que o perigoso saco continha um cartucho com 250 gramas de sementes de pepino compradas sem guia de remessa na Casa Hortícola do velho Bolhão, um toquinho de chouriço de colorau, meia sêmea, um taparuer com uma cebola da monda rachada em quatro e metida em sal grosso e vinagre tinto e dois olhos de azeite, uma garrafa de cerveja quase vazia de vinho, duas pastilhas avulsas para o enjoo e um canivete belga com seis centímetros de lâmina. Os dois indivíduos, um do sexo masculino e o outro não, entre os sessenta e os setenta anos, foram detidos por posse de arma branca. Os peritos em minas e armadilhas fizeram explodir o resto.
P.S. - Contava-se que havia um padre, famoso pregador, que fazia sempre o mesmo sermão. Só mudava o nome do santo. Ora bem: o grosso do texto acima foi publicado no dia 23 de Março de 2012 e para uma greve geral. Já o adaptei a um 1.º de Maio e hoje ponho-lhe o 25 de Abril. Palpita-me que não vou ficar por aqui...
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Apertos de um 1.º de Maio
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Fui ver o Dia dos Trabalhadores ao Porto. Porque, para quem não tem mais nada que fazer e é teso, o Porto é um sítio porreiro para se ver Dias dos Trabalhadores e não é preciso comprar bilhete. No Porto há muito desemprego e uma praça e uma avenida destinadas ao 25 de Abril, às greves gerais, ao Dia dos Trabalhadores, aos camones, aos carteiristas e aos vadios em geral, as quais, praça e avenida, são emprestadas pelo Pinto da Costa quando o Futebol Clube se esquece de ser campeão - o que é raro... e altamente suspeito.
O Dia dos Trabalhadores correu muito bem. Primeirodemaiou-se ali com grande pertinácia e depois acabou. Acabou, mas eu, que sou de lágrima fácil, estava com uma vontade de mijar que já não era só vontade, era uma emergência nacional, e desatei a correr como um tolinho para o WC sob as escadinhas da Rua 31 de Janeiro com a Estação de São Bento e com a polícia de choque atrás de mim como se eu levasse um engenho explosivo na braguilha. Não levava. Estava apenas à rasca. À rasquíssima. E a retrete estava de portas fechadas. Por causa do feriado.
Que se segue: eu bem não queria, mas tive de ir, com uma mão à frente e outra atrás, às casas de banho da estação propriamente dita. Às tais, às míticas, às suspeitíssimas. O que se passou lá dentro não interessa, apenas faço questão de garantir que saí daqueles apertos com a honra invicta. A polícia, entretanto, desinteressou-me de mim e passou a perseguir um casal de lavradores do Marco de Canaveses que tinha vindo a uma consulta de otorrinolaringologia, ela com a infelizmência de um xaile vermelho às costas e ele com um saco de plástico na mão, sotaque da terra e "cara de marroquino". O relógio exterior de São Bento batia as quinze e quinze. A polícia também. Após a sova da ordem, as autoridades verteram nos autos que o perigoso saco continha um cartucho com 250 gramas de sementes de pepino compradas sem guia de remessa na Casa Hortícola do velho Bolhão, um toquinho de chouriço de colorau, meia sêmea, um taparuer com uma cebola da monda rachada em quatro e metida em sal grosso e vinagre tinto, uma garrafa de cerveja quase vazia de vinho e um canivete belga com seis centímetros de lâmina. Os dois indivíduos, um do sexo masculino e o outro não, entre os sessenta e os setenta anos, foram detidos por posse de arma branca. Os peritos em minas e armadilhas fizeram explodir o resto.
P.S. - Contava-se que havia um padre, famoso pregador, que fazia sempre o mesmo sermão. Só mudava o nome do santo. Ora bem: o grosso do texto acima foi escrito para uma greve geral, adapto-o hoje mais uma vez ao 1.º de Maio e palpita-me que não vou ficar por aqui...