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quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Um país sem tintins

Tintim fez 92 anos em Janeiro. E bem fodido estaria se fosse português. Provavelmente com uma reforma de miséria e esmolada ao cêntimo, encaixotado num lar de idosos clandestino, proibido de ir estorvar para a hemodiálise ou de sequer bater à porta das urgências. Teria certamente fome e vergonha por ver o seu país entregue à banca corrupta e a escritórios de advogados e contabilistas estrangeiros e mentecaptos. Choraria com o triste espectáculo dado pelos mal-amanhados títeres que fazem de conta que são governo e oposição em Lisboa e nem um orçamento conseguem parir. Pediria a morte medicamente assistida, se pudesse pagar, mas não pode.
A sorte de Tintim é que ele é belga. Em Portugal não há tintins. 

sábado, 23 de outubro de 2021

Chamam-lhe Protocolo de Manchester

Aqui atrasado passei dois dias na Urgência de um dos nossos maiores hospitais públicos. E fiquei com esta impressão, que preferi deixar amadurecer até hoje: no caos em que "funciona", a Urgência é uma indignidade para os doentes, incluindo os que vão só para o lanche ou os hipocondríacos com assinatura; é uma indignidade para os acompanhantes dos doentes, incluindo os mirones e outros estorvadores; é uma indignidade para as enfermeiras e para os enfermeiros que lá trabalham até à exaustão; é uma indignidade para as médicas e para os médicos que fazem o que podem e sabem, espreitam cortinas à procura de uma cadeira vaga e parecem baratas tontas no meio daquele circo; é uma indignidade para o hospital (um dos nossos maiores, já disse), para Portugal e para a Humanidade. Uma indignidade e uma violência. Entre mortos e feridos, salvam-se as auxiliares, que cantam e dançam, contam telenovelas e anedotas umas às outras e ao público em geral, destratam toda a gente e mandam naquilo tudo.

Sei que tenho o melhor serviço nacional de saúde do mundo. Dou-lhe uso em último caso, mas frequento-o de olhos abertos e coração grato. Querem saber o que é o nosso Serviço Nacional de Saúde? Não são taxas moderadoras e isenções. São exactamente as pessoas: os auxiliares, os médicos e os enfermeiros, que todos os dias trabalham no arame e sem rede, que já lhes tiraram há muito, e fazem "funcionar" uma coisa que na verdade já nem existe, ou, se quisermos ser bondosos, vai morrendo aos bocadinhos. 

A passada quarta-feira deveria ter servido para assinalar o Dia Global da Dignidade. Não sei se serviu nem sei se assinalou, mas lembrou-me o textinho acima, que publiquei originalmente no dia 17 de Abril de 2014. Já se morria nas urgências - eu vi -, e mais não havia pandemia, nem "epidemia de gripe", nem "surto gripal", nem o "caos" com aspas com que os políticos gostam tanto de jigajogar. (Os políticos e os jornalistas pelam-se por brincar às escondidas atrás das aspas.) Era apenas o caos normal, o caos do dia-a-dia numa Urgência de carne e osso - em exibição num hospital perto de si.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Os velhos têm sempre razão

- Estou um velho - disse o velho.
- Não está nada - disse a visita.
- Um caco - disse o velho.
- Está cada vez mais novo - disse a visita.
- Já não duro muito - disse o velho.
- Daqui a vinte anos ainda nos havemos de rir - disse a visita.
- Estou fodido, estou como hei-de ir - insistiu o velho.
- Por acaso até o acho com muito bom aspecto, melhor do que da outra vez - insistiu a visita.
- Dói-me tudo - disse o velho.
- Pois também é da idade, quem andou não tem para andar, o que é que queria? - disse a visita.
- É o que eu digo, caralho: estou um velho - insistiu o velho.
- Por acaso não acho nada, quem me dera a mim - insistiu a visita.

Para acabar de vez com a conversa de merda, o velho resolveu morrer. E morreu.

- Olha, o filho da puta do velho tinha razão - disse a visita, aliás acompanhante, e comeu-lhe a maçã assada. Que é o que servem para salvar os doentinhos nos corredores da urgência do hospital. E bolachas.

(Escrevi e publiquei este texto no dia 13 de Abril de 2015 e pus-lhe hoje um pequeno acrescento. O título era também outro, mas parecido.)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O mal do doente foi ter passado a paciente

Como um alho era o famoso gajo, não sei quem, que inventou a palavra paciente para substituir a palavra doente. O finório sabia tudo sobre listas e tempos de espera.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Chamam-lhe Protocolo de Manchester

Aqui atrasado passei dois dias na Urgência de um dos nossos maiores hospitais públicos. Não por mim, nem feliz nem infelizmente. E fiquei com esta impressão, que preferi amadurecer até hoje: no caos em que "funciona", a Urgência é uma indignidade para os doentes, incluindo os que vão só para o lanche ou os hipocondríacos com assinatura; é uma indignidade para os acompanhantes dos doentes, incluindo os mirones e outros estorvadores; é uma indignidade para as enfermeiras e para os enfermeiros que lá trabalham até à exaustão e sem rede; é uma indignidade para as médicas e para os médicos que fazem o que podem e sabem, espreitam cortinas à procura de uma cadeira vaga e parecem baratas tontas no meio daquele circo; é uma indignidade para o hospital (um dos nossos maiores, já disse), para Portugal e para a Humanidade. Uma indignidade e uma violência. Entre mortos e feridos, salvam-se as auxiliares, que cantam e dançam, contam telenovelas e anedotas umas às outras e ao público em geral, destratam toda a gente e mandam naquilo tudo.

Claro que não tem nada a ver (falecer acontece a qualquer um e em todo o lado), mas: um cirurgião morreu ontem, no Hospital de Aveiro, quando estava a operar um paciente.

(Texto escrito e publicado no dia 17 de Abril de 2014. Já se morria nas urgências - eu vi -, e mais não havia "epidemia de gripe", nem "surto gripal", nem o "caos" com aspas com que os políticos gostam tanto de jigajogar. (Os políticos e os jornalistas pelam-se por brincar às escondidas atrás das aspas.) Era apenas o caos normal, o caos do dia-a-dia numa Urgência de carne e osso - em exibição num hospital perto de si.)

sábado, 27 de setembro de 2014

Eu só queria ir à farmácia

17h15. Fui à farmácia e perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim, assim, e queria ver se me podiam dar qualquer coisa". O meu problema era no olho. Direito. "Ora mostre lá o olho", e eu mostrei, "ui, vai ter de ir ao médico", e eu fui. A pé, da Rua Brito Capelo até ao Centro de Saúde de Matosinhos, que é um pedaço acima da Câmara Municipal.
No centro de saúde fui atendido em menos de uma hora. Perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim, assim, fui à farmácia, na farmácia mandaram-me ao médico, e eu vim". "Ora mostre lá o olho", e eu mostrei, "vai ter de ir imediatamente ao oftalmologista, mas, como no Hospital Pedro Hispano não há urgência da especialidade, pegue lá esta carta e vá ao Hospital de Santo António", e eu fui. A pé até à Avenida Serpa Pinto, apanhei o 500 até ao Castelo do Queijo, esperei uma hora pelo 200 e lá cheguei ao Santo António quando o trânsito me deixou.
Na urgência fui atendido em menos de um quarto de hora. Perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim, assim, fui à farmácia, na farmácia mandaram-me ao médico, o médico mandou-me aqui, e eu vim". "Ora mostre lá o olho, encoste aí o queixo e olhe para esta luzinha", e eu mostrei, encostei e olhei. "Tome lá esta receita, são umas gotas para colocar de duas em duas horas, vá já à farmácia", e eu fui. Estava de volta à casa de partida, passava pouco das 21h45.
E tudo isto pelos cinco euros da taxa moderadora que paguei no centro de saúde, mais as viagens e os quase catorze euros das gotas, que afinal nem precisavam de receita médica, e que estou a pensar meter como despesas de representação.

Sei que tenho o melhor serviço nacional de saúde do mundo. Raramente lhe dou uso, mas frequento-o assiduamente e vivo de olhos abertos. Querem saber o que é o nosso Serviço Nacional de Saúde? Não são taxas e isenções. São as pessoas: os auxiliares, os médicos e os enfermeiros, que todos os dias trabalham no arame e sem rede, que já lhes tiraram há muito, e fazem funcionar uma coisa que na verdade já nem existe, ou, se quisermos ser bondosos, vai morrendo aos bocadinhos. A minha urgência pareceu-me uma desnecessidade, mas as pessoas quiseram fazer bem - são profissionais. E faço figas para que me tratem sempre assim mas palminhas. Em todo o caso, palavra de honra, eu só queria ir à farmácia.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Chamam-lhe Protocolo de Manchester

Aqui atrasado passei dois dias na Urgência de um dos nossos maiores hospitais públicos. Não por mim, nem feliz nem infelizmente. E fiquei com esta impressão, que preferi amadurecer até hoje: no caos em que "funciona", a Urgência é uma indignidade para os doentes, incluindo os que vão só para o lanche; é uma indignidade para os acompanhantes dos doentes, incluindo os mirones e outros estorvadores; é uma indignidade para as enfermeiras e para os enfermeiros que lá trabalham até à exaustão e sem rede; é uma indignidade para as médicas e para os médicos que fazem o que podem e sabem, espreitam cortinas à procura de uma cadeira vaga e parecem baratas tontas no meio daquele circo; é uma indignidade para o hospital (um dos nossos maiores, já disse), para Portugal e para a Humanidade. Uma indignidade e uma violência. Entre mortos e feridos, salvam-se as auxiliares, que cantam e dançam, contam telenovelas e anedotas umas às outras e ao público em geral, destratam toda a gente e mandam naquilo tudo.

Claro que não tem nada a ver (falecer acontece a qualquer um e em todo o lado), mas: um cirurgião morreu ontem, no Hospital de Aveiro, quando estava a operar um paciente.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Um país sem tintins

Tintim faz hoje 84 anos. E bem fodido estaria se fosse português. Provavelmente com a reforma cortada e esmolada a conta-gotas, encaixotado num lar de idosos clandestino, proibido de ir estorvar para a hemodiálise ou de sequer bater à porta das urgências. Teria certamente fome e vergonha por ver o seu país entregue à banca internacional e a um escritório de contabilistas estrangeiros e mentecaptos. Choraria com o triste espectáculo dado pelos mal-amanhados títeres que fazem de conta que são governo e oposição em Lisboa. Pediria a morte.
A sorte de Tintim é que ele é belga. Em Portugal não há tintins.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Só por cima de muitos cadáveres

A denúncia é feita pelo jornal Público: "Porto ficará com mais urgências polivalentes à noite do que Lisboa". Ou, dito de outra forma: "Se a reorganização hospitalar avançar nos moldes previstos, a região de Lisboa vai passar a ter menos serviços de urgência polivalentes a funcionar à noite do que a do Porto."
Mas é claro que não pode ser. Há por aí engano e do grosso. O melhor é mandar fazer tudo de novo, para evitar o escândalo. O Porto "com mais" do que Lisboa? Só por cima de muitos cadáveres.