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domingo, 18 de outubro de 2026

Chester, para todo o serviço

Lembrais-vos do futebol de salão? O que é que me vinha à cabeça quando se falava de futebol de salão? O salão. Uns cavalheiros vestidos de fraque e com um número nas costas e umas cavalheiras despidas nas costas e no resto, agarrados uns às outras e rodopiando pelo salão nobre do Teatro-Cinema como Fred Astaire e Ginger Rogers e uma bola pequenina no meio, um árbitro e o apito, um júri e tabuletas com pontuações. Para evitar ambiguidades, o futebol de salão passou a chamar-se futsal, joga-se em polidesportivos, como, por exemplo, no pavilhão do Grupo Nun'Álvares, e é o sucesso que se sabe...

Matt Dillon era o xerife de Dodge City, e Chester o seu leal escudeiro. Naquele tempo todos queriam ser Tarzan ou Mandrake, Buck Jones ou Fantasma, Mascarilha ou Cisco Kid. Os "artistas". Mas o Álvaro escolheu modestamente ser Chester, actor secundário, e assim se rebaptizou num involuntário equívoco cheio de ironia: na verdade, Álvaro Moreira Mendes nasceu para ser primeira figura, protagonista. E foi. No seu ofício de indústria, no movimento associativo, na intervenção cívica, na amizade fraterna e íntegra, foi sempre dos melhores, um fafense excelentíssimo, um homem maior do que o próprio nome, maior do que a alcunha sacada dos livrinhos de cobóis, maior do que o lugar que lhe queiram dar os menestréis da história recente de Fafe, tão desperdiçada em umbiguismos, capelinhas e bagatelas, maior do que melhor ou pior pensem dele. Acerca da opinião dos outros a seu respeito, creio, aliás, que o Chester, ajudante do xerife, não se coibiria de dizer, alto e bom som: caguei!!! E diria alto e bom som e assim com três pontos de exclamação porque ele não sabia falar de outra maneira.
Onde o Álvaro chegasse, constava. Ele encarregava-se de avisar logo à entrada, por entre raios e coriscos, avançando como um tornado de grau cinco, a enorme mão calejada e aberta desbravando caminho, oferecendo-se para um abraço, para uma palmada nas costas à moda antiga. Ser imperfeito como todos nós, mas menos imperfeito do que a maioria de nós, e muito menos imperfeito do que eu, por exemplo, o Chester tinha um coração enorme, desmesurado, e uma boca do tamanho do coração. Tinha o raio de um feitio, o homem, fazia inimigos com o dobro da facilidade com que fazia amigos. E também deu alguns pontapés na vida.
O Chester era generoso, impulsivo, excessivo e puro. E amiúde foi a primeira e principal vítima da sua generosidade sem peso nem medida. Era um bom selvagem, uma força da natureza, pau para toda a obra.
Era meu amigo. Forjámos a nossa cumplicidade no tasco, evidentemente. Nas tardadas de Inverno passadas à volta da braseira na cozinha da Dona Isabel, no Toninho Nacor, onde eu, com os bolsos cheios de cotão, ia levado pelo tio Américo. Em 1976, Barcelos acolheu o Campeonato da Europa de Hóquei Patins Sub-21 (juniores, chamavam-se então). O Chester falou do assunto. Comprámos duas assinaturas para o torneiro inteiro, e todas as noites lá íamos de Vauxhall até Barcelos por estrada nacional, que era o que havia, víamos os dois ou três jogos do programa, regressávamos a Fafe e eu chegava a casa já de madrugada. Fomos campeões.
Mais ou menos por essa altura, o Grupo Nun'Álvares estava instalado no edifício que fora posto da GNR, em frente à Igreja Matriz, e que hoje é, creio não estar enganado, casa paroquial. Ali foi construído um rinque em cimento e organizado, em 1977, o primeiro torneiro de futebol de salão em Fafe. Salão ao ar livre, é preciso que se note. Nunca falhei um jogo. Um dia vou à bilheteira comprar o bilhete do costume, está lá o Chester (o Chester tinha o seu quê de Deus, também estava em toda a parte) e entregou-me um livre-trânsito passado em meu nome e que dizia "Convidado da Organização - Prémio Assiduidade". Coisa inventada por ele, que era a alma daquilo tudo. Resultado: deixei de pagar para entrar e guardo religiosamente aquele cartão, como se fosse um santinho, uma relíquia da Terra Santa.
Quando terminei a minha felizmente efémera passagem pela tropa, o Álvaro foi a primeira pessoa a oferecer-me um emprego a sério e até já tinha tratado de tudo para eu tirar a carta de condução. Apareceu-me melhor, o Álvaro incentivou-me a aceitar a outra proposta, e ainda hoje não tenho carta nem sei conduzir.
O Chester alegrava-se quando me via em Fafe. Fazia questão que se soubesse que gostava muito de mim. E a verdade é que eu também gostava muito dele. E no entanto falhei-lhe miseravelmente na altura da vida em que por certo ele mais precisou dos amigos...
O Álvaro era, regra geral, do contra. Era um inquieto espírito de contradição. Tanto que, só para chatear, resolveu deixar-me a falar sozinho, quando tínhamos ainda tanto para conversar.

Felizes os ignorantes: quem não conheceu o Chester, não sabe o que perdeu. Trabalhador incansável, empreendedor contumaz, homem dos sete instrumentos e de mil causas, o Chester é uma história extraordinária e isto aqui é apenas um humilde lembrete, um quase nada. Grande, grande era ele. Álvaro Moreira Mendes. Chester, para todos os efeitos e para todo o serviço. Uma vida que dava um livro, um nome que merece rua. Em Dodge City já teria.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional da Banda Desenhada Portuguesa.)

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Perguntai-me por Ceuta, que eu sei tudo

O Magalhães da Circunvalação
Ouço amiúde a pergunta, entre o Porto e Matosinhos, à porta dos liceus, nas galerias de arte, nos cafés, nas esquinas, nas praias, nos autocarros, no metro e até nas trotinetas partilhadas: - Mas afinal quem foi esse Fernando Magalhães?...
Vou então esclarecer. O navegador Fernão de Magalhães, nascido provavelmente em Ponte da Barca, Alto Minho, no dia 3 de Fevereiro de 1480, morreu no dia 27 de Abril de 1521, nas Filipinas. Entre uma coisa e outra, descobriu a Circunvalação, e a Circunvalação, minhas senhoras e meus senhores, passo por lá todos os dias, é realmente um mundo.

Ceuta foi tema da minha tese de doutoramento no exame da Quarta Classe. Na prova oral, depois de meia dúzia de contas no quadro, recitação de duas ou três tabuadas e uma ida aos mapas para identificar províncias, apontar linhas de caminhos de ferro e cantar rios e seus afluentes, calhou-me a lição de D. Fernando, o Infante Santo. E eu sabia tudo na ponta da língua. Sabia de D. João I e Dona Filipa de Lencastre, sabia da Ínclita Geração, dos infantes, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, mas também Dona Isabel, D. João e, por maioria de razão, do desgraçado D. Fernando. Sabia da bandeira. Sabia de mouros, infiéis. Sabia de Ceuta, Arzila, Tânger, Fez e Alcácer-Ceguer. Sabia também de Alcácer Quibir, mas isso foi só azar. Sabia realmente de tudo. E tudo conforme me ensinaram: a versão vigente, heróica e santa, épica como convinha, A Bem da Nação. E fiz um figuraço, dei show.
Isto passou-se na velha Escola Conde Ferreira, em Fafe, andaríamos pelos finais da década de sessenta. Éramos da sala da frente, um grupo porreiro, alunos do magnífico Toninho da Cafelândia, que nos tinha muito bem preparados. O examinador foi o professor Costa Brasileiro, da sala das traseiras, moçarada com um ou dois anos de avanço, parecia um grande brincalhão e ficou razoavelmente impressionado com o nosso desempenho.
O professor Costa Brasileiro era português de Fafe e morava num tasco, vamos dizer assim, mesmo no centro da vila, em frente à Loja Nova, e eu dava-lhe muito valor por isso. Gostava de o ver entrar e sair de casa, consoante o horário, como se fosse para os copos ou viesse dos copos, mas não era nada disso, ele não tinha culpa nenhuma, eram coisas de família. Vestia fato leve, quase sempre azul ou porventura cinzento, era um homem largo mas ágil, pesado mas elástico, tanto que até jogava voleibol pelo Grupo Nun'Álvares, o qual, aproveitai mais esta, terá sido o primeiro campeão distrital da modalidade, em 65/66, e se calhar ele fazia parte dessa histórica equipa, com óculos e tudo, ou então estaria para a guerra, mas isso não sei, a sério.
O Grupo Nun'Álvares tinha então a sua sede atrás do Jardim do Calvário, no casarão fidalgo da hoje chamada Casa do Calvário, na Rua Visconde Moreira de Rei, onde, se não estou em erro, a Misericórdia de Fafe veio a instalar-se com o seu primeiro lar de idosos. O voleibol jogava-se num campo de terra batida inventado mesmo ao lado direito do vetusto edifício, quem o olhasse de frente, com uma bela ramada-alameda a servir-lhe de bancada central sem degraus. Os jogos eram geralmente nocturnos, à média luz, à luz que havia, como se fosse para fados, se não chovesse, mas o que se ouvia era o conjunto Pimpinela, que ensaiava lá em cima...

Que é como quem diz. Não garanto nada do que aqui recordo. Isto não é História, são as minhas histórias. Os meus arquivos sou eu, falível e tendencioso, imperfeito que até dá gosto. Escrevo de cabeça e de coração, decerto às vezes também com os pés. Mas é tudo verdade. Ou por outra. Uma coisa é a verdade que eu conto, a minha verdade, a verdade de que gosto e quero, outra coisa poderá ser a verdade verdadeira, a verdade de como as coisas de passaram, independentemente da minha memória.
Se me provarem que estou redondamente enganado, prometo que tornarei aqui e onde for preciso para repor a verdade dos factos. Mas, insisto, só se me provarem que estou redondamente enganado. Redondamente! Quadradamente não serve. E se, em todo o caso, a verdade dos factos for demasiado desinteressante e me desengraçar a prosa, então ficamos mesmo assim, que não estamos mal servidos.

Ora bem. Ceuta está outra vez aí, na ordem do dia. Uma vergonha, uma tristeza, uma tragédia! E era só isto que eu tinha para vos dizer: se quereis saber de Ceuta, perguntai-me, que eu explico. Eu sei tudo de Ceuta e assim.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 11 de janeiro de 2026

Vozes que chegam ao Céu

E sobretudo Deus
Eram dois amigos antigos, amigos do peito, leais, assíduos, generosos, cúmplices, irredutíveis, amigos com agá grande. Ainda por cima tinham Deus em comum: um acreditava, o outro não. 

Lembro-me da voz do Nélson. O Nélson tinha uma loja minúscula e atafulhada mesmo ao lado do consultório do Dr. Antunes, uma montra e pouco mais, na hoje Rua General Humberto Delgado, em Fafe, e gostava de estar à porta a dizer bom dia ou boa tarde às pessoas que passavam, não por interesse de negócio, que a vida lá ia andando, mas porque era assim do seu feitio, dado, gentil, bom. Vendia electrodomésticos. Foi no Nélson que eu comprei a primeira televisão para a minha mãe, foi do Nélson que eu, já casado, trouxe para o Porto a primeira varinha mágica da Mi, parece-me que no nosso primeiro Natal, palermices que os homens faziam antigamente, oferecerem instrumentos de trabalho às mulheres, como se fossem prendas. Hoje em dia, fôramos nós outra vez novos, dava-lhe um Porshe Panamera ou talvez um beijo, muitos beijos, que é com o que nos temos governado estes anos todos sem demasiadas razões de queixa. O Nélson, atenção, muita atenção!, era das electricidades, desses mistérios, portanto devia saber de amplificadores, sabia certamente de altifalantes, às tantas até seria mestre de "instalações sonoras", pelo menos por parte de um sobrinho, homónimo, se não me engano, e suponho que nem será preciso dizer mais nada para que percebais que ele tinha tudo para ser um dos meus heróis.
Coincidíamos às vezes no tasco. O Nélson, o Sr. Nélson, bem mais velho do que eu, não era um bebedor, era um conversador, mas só falava se valesse a pena. Passava calado a maior parte do tempo. E eu lembro-me da voz dele, tão respeitadora, tão amiga, tão mansa, como se pedisse desculpa por se fazer ouvir. E, no entanto, era sábio. O Nélson é certamente uma das pessoas mais decentes que eu tive a sorte de conhecer em toda a minha vida, e há séculos que não sabia dele. Soube em Dezembro, inesperadamente. Morreu.
Nélson Novais, 95 anos, o sócio n.º 2 do Grupo Nun'Álvares, orfeonista de longa data, faleceu no final do ano, vi por acaso numa passagem distraída pelo Facebook da extraordinária colectividade fafense. O Nélson morreu e eu, caramba, foi como se me tivesse caído a noite, fiquei tão triste, tão zangado comigo por me esquecer de tantas e tão boas pessoas de Fafe, por lhes ter perdido o rasto, por nunca mais ter querido saber, por me ter desligado, por já não reconhecer caras que vejo nas fotografias, por estar para aqui fechado em mim e nas minhas coisinhas, que merda, que merda!...
... Até que me lembrei da voz do Nélson, ouvi-a de repente, juro, sem palavras certas, definidas, mas numa espécie de relambório sem sentido, era apenas aquele som calmo, meigo, agradável, sensível, voz de anjo, pensei. Felizmente há vozes assim, confidenciais, íntimas, vozes que apaziguam corações. Isso, se os anjos falassem, haveriam de falar com a voz do Nélson. Quer-se dizer, afinal o Nélson esteve cá em baixo apenas emprestado e outro dia finalmente regressou a casa, ao Céu, ao sítio aonde deveras sempre pertenceu. Que descanse em paz.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Lembro-me da voz do Nélson


Lembro-me da voz do Nélson. O Nélson tinha uma loja muito pequenina mesmo ao lado do consultório do Dr. Antunes, uma montra e pouco mais, e gostava de estar à porta a dizer bom dia ou boa tarde às pessoas que passavam, não por interesse de negócio, coisa rara, mas porque era assim do seu feitio, dado, gentil, bom. Vendia electrodomésticos. Foi no Nélson que eu comprei a primeira televisão para a minha mãe, foi do Nélson que eu, já casado, trouxe para o Porto a primeira varinha mágica da Mi, talvez no nosso primeiro Natal, palermices que os homens faziam antigamente, oferecerem instrumentos de trabalho às mulheres, como se fossem prendas. Hoje em dia, fôramos nós outra vez novos, dava-lhe um Porshe Panamera ou talvez um beijo, que é com o que nos temos governado. O Nélson, atenção, muita atenção!, sabia de amplificadores, sabia de altifalantes, era mestre de "instalações sonoras", tinha sido esse o seu princípio, e suponho que nem será preciso dizer mais nada para que saibais que ele era um dos meus heróis.
Coincidíamos às vezes no tasco. O Nélson, o Sr. Nélson, não era um bebedor, era um conversador, mas só falava se valesse a pena. E eu lembro-me da voz dele, tão respeitadora, tão amiga, tão mansa, como se pedisse desculpa por se fazer ouvir. E, no entanto, era sábio. O Nélson é certamente uma das pessoas mais decentes que eu tive a sorte de conhecer em toda a minha vida, e há séculos que não sabia dele. Soube hoje. Morreu.
Nélson Novais, 95 anos, o sócio n.º 2 do Grupo Nun'Álvares, faleceu há uma semana, acabei de saber, por acaso, numa passagem distraída pelo Facebook da colectividade fafense. O Nélson morreu e eu, caramba, foi como se me tivesse caído a noite, fiquei tão triste... Até que me lembrei da voz do Nélson, ouvi-a de repente, juro, sem palavras certas, numa espécie de relambório sem sentido, era apenas aquele som calmo, meigo, agradável, apaziguador, voz de anjo, pensei. Isso, se os anjos falassem, haveriam de falar com a voz do Nélson. Quer-se dizer, afinal o Nélson esteve cá em baixo apenas emprestado e agora finalmente regressa a casa, ao Céu, ao sítio aonde deveras sempre pertenceu. Que descanse em paz.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Meu caro Chester: aqui na terra estão jogando futsal

Foto Tarrenego!

Matt Dillon era o xerife de Dodge City, e Chester o seu leal ajudante. Naquele tempo todos queriam ser Tarzan ou Mandrake, Buck Jones ou Fantasma, Mascarilha ou Cisco Kid. Os "artistas". Mas o Álvaro escolheu modestamente ser Chester, actor secundário, e assim se rebaptizou num involuntário equívoco cheio de ironia: na verdade, Álvaro Moreira Mendes nasceu para ser primeira figura, protagonista. E foi. No seu ofício de indústria, no movimento associativo, na intervenção cívica, na amizade fraterna e íntegra, foi sempre dos melhores, um fafense excelentíssimo, um homem maior do que o próprio nome, maior do que a alcunha sacada dos livrinhos de cobóis, maior do que o lugar que lhe queiram dar os menestréis da história recente de Fafe, tão desperdiçada em umbiguismos e bagatelas, maior do que melhor ou pior pensem dele. Acerca da opinião dos outros a seu respeito, creio, aliás, que o Chester não se coibiria de dizer, alto e bom som: caguei!!! E diria alto e bom som porque ele não sabia falar de outra maneira.
Onde o Álvaro chegasse, constava. Ele encarregava-se de avisar logo à entrada, por entre raios e coriscos, avançando como um tornado de grau cinco, a enorme mão calejada e aberta desbravando caminho, oferecendo-se para um abraço, para uma palmada nas costas à moda antiga. Ser imperfeito como todos nós, mas menos imperfeito do que a maioria de nós, e muito menos imperfeito do que eu, por exemplo, o Chester tinha um coração enorme, desmesurado, e uma boca do tamanho do coração. Fazia amigos com o dobro da facilidade com que fazia inimigos. E também deu alguns pontapés na vida.
O Chester era generoso, impulsivo, excessivo e puro. E amiúde foi a primeira e principal vítima da sua generosidade sem peso nem medida. Era um bom selvagem, uma força da natureza.
Era meu amigo. Forjámos a nossa cumplicidade no tasco, evidentemente. Nas tardadas de Inverno passadas à volta da braseira na cozinha da Dona Isabel, no Toninho Nacor, onde eu, com os bolsos cheios de cotão, ia levado pelo tio Américo. Em 1976, Barcelos acolheu o Campeonato da Europa de Hóquei Patins Sub-21 (juniores, chamavam-se então). O Chester falou do assunto. Comprámos duas assinaturas para o torneiro inteiro, e todas as noites lá íamos de Vauxhall até Barcelos por estrada nacional, que era o que havia, víamos os dois ou três jogos do programa, regressávamos a Fafe e eu chegava a casa já de madrugada. Fomos campeões.
Mais ou menos por essa altura o Grupo Nun'Álvares estava instalado no edifício que fora posto da GNR, em frente à Igreja Matriz, e que hoje é, creio não estar enganado, casa paroquial. Ali foi construído um rinque em cimento e organizado, em 1977, o primeiro torneiro de futebol de salão em Fafe. Salão ao ar livre, é preciso que se note. Nunca falhei um jogo. Um dia vou à bilheteira comprar o bilhete do costume, está lá o Chester (o Chester tinha o seu quê de Deus, também estava em toda a parte) e entregou-me um livre-trânsito passado em meu nome e que dizia "Convidado da Organização - Prémio Assiduidade". Coisa inventada por ele. Resultado: deixei de pagar para entrar e guardo religiosamente aquele cartão, como se fosse um santinho. E hoje por ser hoje, mostro-o ao fim destes anos todos, o que, se querem saber, me viola um bocado a intimidade...
Quando terminei a minha felizmente efémera passagem pela tropa, o Álvaro foi a primeira pessoa a oferecer-me um emprego a sério e até já tinha tratado de tudo para eu tirar a carta de condução. Apareceu-me melhor, o Álvaro incentivou-me a aceitar a outra proposta, e ainda hoje não tenho carta.
O Chester alegrava-se quando me via em Fafe. Fazia questão que se soubesse que gostava muito de mim. E a verdade é que eu também gostava muito dele. E no entanto falhei-lhe miseravelmente na altura da vida em que por certo ele mais precisou dos amigos...
O Álvaro era, regra geral, do contra. Era um inquieto espírito de contradição. Tanto que, só para chatear, resolveu deixar-me a falar sozinho, quando tínhamos ainda tanto para conversar. 
Felizes os ignorantes: quem não conheceu o Chester, não sabe o que perdeu. Trabalhador incansável, empreendedor contumaz, o Chester é uma história extraordinária e isto aqui é apenas um humilde lembrete. Álvaro Moreira Mendes. Uma vida que dava um livro, um nome que merece rua. Em Dodge City já teria.

P.S. - Publicado originalmente no dia 22 de Outubro de 2017. O Grupo Nun'Álvares inventou o "futebol de salão" em Fafe e o Chester era a alma daquilo tudo. 

As meninas... dançam?

Foto Grupo Nun'Álvares

Lembram-se do futebol de salão? O que é que nos vinha à cabeça quando se falava de futebol de salão? O salão. Uns cavalheiros vestidos de fraque e com um número nas costas e umas cavalheiras despidas nas costas e no resto, agarrados um ao outro e rodopiando pelo rinque árabe do Palácio da Bolsa como Fred Astaire e Ginger Rogers e uma bola pequenina no meio, um árbitro e o apito, um júri e tabuletas. Para evitar confusões, o futebol de salão passou a chamar-se futsal. E é o sucesso que se sabe...

P.S. - Publicado originalmente no dia 20 de Julho de 2015 e, repetido com todo o a-propósito, no passado dia 28 de Fevereiro. Pois bem. As moças do futsal do Grupo Nun'Álvares, de Fafe, repetiram ontem a façanha, agora ainda mais extraordinária, conquistaram a Taça de Portugal, e portanto viro o disco e toco o mesmo.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Meu caro Chester: aqui na terra estão jogando futsal

Matt Dillon era o xerife de Dodge City, e Chester o seu leal ajudante. Naquele tempo todos queriam ser Tarzan ou Mandrake, Buck Jones ou Fantasma, Mascarilha ou Cisco Kid. Os "artistas". Mas o Álvaro escolheu modestamente ser Chester, actor secundário, e assim se rebaptizou num involuntário equívoco cheio de ironia: na verdade, Álvaro Moreira Mendes nasceu para ser primeira figura, protagonista. E foi. No seu ofício de indústria, no movimento associativo, na intervenção cívica, na amizade fraterna e íntegra, foi sempre dos melhores, um fafense excelentíssimo, um homem maior do que o próprio nome, maior do que a alcunha sacada dos livrinhos de cobóis, maior do que o lugar que lhe queiram dar os menestréis da história recente de Fafe, tão desperdiçada em umbiguismos e bagatelas, maior do que melhor ou pior pensem dele. Acerca da opinião dos outros a seu respeito, creio, aliás, que o Chester não se coibiria de dizer, alto e bom som: caguei!!! E diria alto e bom som porque ele não sabia falar de outra maneira.
Onde o Álvaro chegasse, constava. Ele encarregava-se de avisar logo à entrada, por entre raios e coriscos, avançando como um tornado de grau cinco, a enorme mão calejada e aberta desbravando caminho, oferecendo-se para um abraço, para uma palmada nas costas à moda antiga. Ser imperfeito como todos nós, mas menos imperfeito do que a maioria de nós, e muito menos imperfeito do que eu, por exemplo, o Chester tinha um coração enorme, desmesurado, e uma boca do tamanho do coração. Fazia amigos com a mesma facilidade com que fazia inimigos. E também deu alguns pontapés na vida.
O Chester era generoso, impulsivo, excessivo e puro. E amiúde foi a primeira e principal vítima da sua generosidade sem peso nem medida. Era um bom selvagem, uma força da natureza.
Era meu amigo. Forjámos a nossa cumplicidade no tasco, evidentemente. Nas tardadas de Inverno passadas à volta da braseira na cozinha da Dona Isabel, no Toninho Nacor, onde eu, com os bolsos cheios de cotão, ia levado pelo tio Américo. Em 1976, Barcelos acolheu o Campeonato da Europa de Hóquei Patins Sub-21 (juniores, chamavam-se então). O Chester falou do assunto. Comprámos duas assinaturas para o torneiro inteiro, e todas as noites lá íamos de Vauxhall até Barcelos por estrada nacional, que era o que havia, víamos os dois ou três jogos do programa, regressávamos a Fafe e eu chegava a casa já de madrugada. Fomos campeões.
Mais ou menos por essa altura o Grupo Nun'Álvares estava instalado no edifício que fora posto da GNR, em frente à Igreja Matriz, e que hoje é, creio não estar enganado, casa paroquial. Ali foi construído um rinque em cimento e organizado, em 1977, o primeiro torneiro de futebol de salão em Fafe. Salão ao ar livre, é preciso que se note. Nunca falhei um jogo. Um dia vou à bilheteira comprar o bilhete do costume, está lá o Chester (o Chester tinha o seu quê de Deus, também estava em toda a parte) e entregou-me um livre-trânsito passado em meu nome e que dizia "Convidado da Organização - Prémio Assiduidade". Resultado: deixei de pagar para entrar e guardo religiosamente aquele cartão, como se fosse um santinho...
Quando terminei a minha felizmente efémera passagem pela tropa, o Álvaro foi a primeira pessoa a oferecer-me um emprego a sério e até já tinha tratado de tudo para eu tirar a carta de condução. Apareceu-me melhor, o Álvaro incentivou-me a aceitar a outra proposta, e ainda hoje não tenho carta.
O Chester alegrava-se quando me via em Fafe. Fazia questão que se soubesse que gostava muito de mim. E a verdade é que eu também gostava muito dele. E no entanto falhei-lhe miseravelmente na altura da vida em que por certo ele mais precisou dos amigos...
O Álvaro era, regra geral, do contra. Era um inquieto espírito de contradição. Tanto que, só para chatear, resolveu deixar-me a falar sozinho, quando tínhamos ainda tanto para conversar. 
Felizes os ignorantes: quem não conheceu o Chester, não sabe o que perdeu. Trabalhador incansável, empreendedor contumaz, o Chester é uma história extraordinária e isto aqui é apenas um humilde lembrete. Álvaro Moreira Mendes. Uma vida que dava um livro, um nome que merece rua. Em Dodge City já teria.

P.S. - Publicado originalmente no dia 22 de Outubro de 2017. O Grupo Nun'Álvares inventou o "futebol de salão" em Fafe e o Chester era a alma daquilo tudo. Ontem à tarde, na alegria da conquista da Taça da Liga Feminina de Futsal, lembrei-me dele. Agradeço às meninas. O Álvaro também há-de estar contente...

As meninas... dançam?

Foto Grupo Nun'Álvares

Lembram-se do futebol de salão? O que é que nos vinha à cabeça quando se falava de futebol de salão? O salão. Uns cavalheiros vestidos de fraque e com um número nas costas e umas cavalheiras despidas nas costas e no resto, agarrados um ao outro e rodopiando pelo rinque árabe do Palácio da Bolsa como Fred Astaire e Ginger Rogers e uma bola pequenina no meio, um árbitro e o apito, um júri e tabuletas. Para evitar confusões, o futebol de salão passou a chamar-se futsal. E é o sucesso que se sabe...

P.S. - Publicado originalmente no dia 20 de Julho de 2015. As meninas do Grupo Nun'Álvares, de Fafe, conquistaram ontem a Taça da Liga Feminina de Futsal, vencendo o Benfica, por 2-1, na final disputa em Loulé. Acreditem no que lhes digo: é um feito extraordinário!

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Festas da Senhora de Antime 2019

Foto Hernâni Von Doellinger

Festas do Concelho de Fafe, em honra de Nossa Senhora de Antime. De 11 a 15 de Julho. Mais informação e programa, aqui e aqui.

P.S. - Por lapso porventura ou por ignorância contumaz certamente, a Câmara de Fafe (des)informa que os Amor Electro são cabeça de cartaz das festas. Não liguem, que eles não sabem o que dizem. A procissão é que é. Sempre.