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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Quando os médicos fumavam

Impressionante!
É impressionante a quantidade de gente que se junta à porta do IPO-Porto para... fumar. À porta do IPO, Instituto Português de Oncologia. Para fumar. Impressionante...

Sou do tempo em que os médicos fumavam. Fumavam durante as consultas, quero dizer, ostensivamente, abundantemente, como chaminés, cigarro atrás de cigarro, cinzeiros cheios, dedos castanhos de nicotina, auscultavam, palpavam, mediam a tensão, espiavam as costas, espreitavam os olhos, os ouvidos e a garganta, martelavam os joelhos, desciam aos tornozelos, engasgavam-se no fumo, tossiam e lançavam cinza para cima do paciente, mas o Dr. Antunes não, o nosso bom Dr. Antunes fumava cachimbo, exibia aliás uma pequena colecção de bonitos cachimbos em cima da secretária de trabalho no consultório da Rua General Humberto Delgado, por baixo da residência, ao lado da loja do Nélson, que tinha uma voz mansa e vendia electrodomésticos. Com o Dr. Antunes, em Fafe, era realmente outro asseio, outra categoria.
E que se segue. Os médicos fumavam e isso, a mim, parecia-me bom sinal. Eu acreditava na imortalidade dos médicos e na santidade dos padres.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 11 de janeiro de 2026

Vozes que chegam ao Céu

E sobretudo Deus
Eram dois amigos antigos, amigos do peito, leais, assíduos, generosos, cúmplices, irredutíveis, amigos com agá grande. Ainda por cima tinham Deus em comum: um acreditava, o outro não. 

Lembro-me da voz do Nélson. O Nélson tinha uma loja minúscula e atafulhada mesmo ao lado do consultório do Dr. Antunes, uma montra e pouco mais, na hoje Rua General Humberto Delgado, em Fafe, e gostava de estar à porta a dizer bom dia ou boa tarde às pessoas que passavam, não por interesse de negócio, que a vida lá ia andando, mas porque era assim do seu feitio, dado, gentil, bom. Vendia electrodomésticos. Foi no Nélson que eu comprei a primeira televisão para a minha mãe, foi do Nélson que eu, já casado, trouxe para o Porto a primeira varinha mágica da Mi, parece-me que no nosso primeiro Natal, palermices que os homens faziam antigamente, oferecerem instrumentos de trabalho às mulheres, como se fossem prendas. Hoje em dia, fôramos nós outra vez novos, dava-lhe um Porshe Panamera ou talvez um beijo, muitos beijos, que é com o que nos temos governado estes anos todos sem demasiadas razões de queixa. O Nélson, atenção, muita atenção!, era das electricidades, desses mistérios, portanto devia saber de amplificadores, sabia certamente de altifalantes, às tantas até seria mestre de "instalações sonoras", pelo menos por parte de um sobrinho, homónimo, se não me engano, e suponho que nem será preciso dizer mais nada para que percebais que ele tinha tudo para ser um dos meus heróis.
Coincidíamos às vezes no tasco. O Nélson, o Sr. Nélson, bem mais velho do que eu, não era um bebedor, era um conversador, mas só falava se valesse a pena. Passava calado a maior parte do tempo. E eu lembro-me da voz dele, tão respeitadora, tão amiga, tão mansa, como se pedisse desculpa por se fazer ouvir. E, no entanto, era sábio. O Nélson é certamente uma das pessoas mais decentes que eu tive a sorte de conhecer em toda a minha vida, e há séculos que não sabia dele. Soube em Dezembro, inesperadamente. Morreu.
Nélson Novais, 95 anos, o sócio n.º 2 do Grupo Nun'Álvares, orfeonista de longa data, faleceu no final do ano, vi por acaso numa passagem distraída pelo Facebook da extraordinária colectividade fafense. O Nélson morreu e eu, caramba, foi como se me tivesse caído a noite, fiquei tão triste, tão zangado comigo por me esquecer de tantas e tão boas pessoas de Fafe, por lhes ter perdido o rasto, por nunca mais ter querido saber, por me ter desligado, por já não reconhecer caras que vejo nas fotografias, por estar para aqui fechado em mim e nas minhas coisinhas, que merda, que merda!...
... Até que me lembrei da voz do Nélson, ouvi-a de repente, juro, sem palavras certas, definidas, mas numa espécie de relambório sem sentido, era apenas aquele som calmo, meigo, agradável, sensível, voz de anjo, pensei. Felizmente há vozes assim, confidenciais, íntimas, vozes que apaziguam corações. Isso, se os anjos falassem, haveriam de falar com a voz do Nélson. Quer-se dizer, afinal o Nélson esteve cá em baixo apenas emprestado e outro dia finalmente regressou a casa, ao Céu, ao sítio aonde deveras sempre pertenceu. Que descanse em paz.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Lembro-me da voz do Nélson


Lembro-me da voz do Nélson. O Nélson tinha uma loja muito pequenina mesmo ao lado do consultório do Dr. Antunes, uma montra e pouco mais, e gostava de estar à porta a dizer bom dia ou boa tarde às pessoas que passavam, não por interesse de negócio, coisa rara, mas porque era assim do seu feitio, dado, gentil, bom. Vendia electrodomésticos. Foi no Nélson que eu comprei a primeira televisão para a minha mãe, foi do Nélson que eu, já casado, trouxe para o Porto a primeira varinha mágica da Mi, talvez no nosso primeiro Natal, palermices que os homens faziam antigamente, oferecerem instrumentos de trabalho às mulheres, como se fossem prendas. Hoje em dia, fôramos nós outra vez novos, dava-lhe um Porshe Panamera ou talvez um beijo, que é com o que nos temos governado. O Nélson, atenção, muita atenção!, sabia de amplificadores, sabia de altifalantes, era mestre de "instalações sonoras", tinha sido esse o seu princípio, e suponho que nem será preciso dizer mais nada para que saibais que ele era um dos meus heróis.
Coincidíamos às vezes no tasco. O Nélson, o Sr. Nélson, não era um bebedor, era um conversador, mas só falava se valesse a pena. E eu lembro-me da voz dele, tão respeitadora, tão amiga, tão mansa, como se pedisse desculpa por se fazer ouvir. E, no entanto, era sábio. O Nélson é certamente uma das pessoas mais decentes que eu tive a sorte de conhecer em toda a minha vida, e há séculos que não sabia dele. Soube hoje. Morreu.
Nélson Novais, 95 anos, o sócio n.º 2 do Grupo Nun'Álvares, faleceu há uma semana, acabei de saber, por acaso, numa passagem distraída pelo Facebook da colectividade fafense. O Nélson morreu e eu, caramba, foi como se me tivesse caído a noite, fiquei tão triste... Até que me lembrei da voz do Nélson, ouvi-a de repente, juro, sem palavras certas, numa espécie de relambório sem sentido, era apenas aquele som calmo, meigo, agradável, apaziguador, voz de anjo, pensei. Isso, se os anjos falassem, haveriam de falar com a voz do Nélson. Quer-se dizer, afinal o Nélson esteve cá em baixo apenas emprestado e agora finalmente regressa a casa, ao Céu, ao sítio aonde deveras sempre pertenceu. Que descanse em paz.