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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Um indivíduo decente

Foto Hernâni Von Doellinger

Gostava de Nuno Cardoso (1961-2026). Parecia-me um tipo porreiro, um indivíduo decente. Generoso, prático, simples, gentil, optimista, voluntarioso e às vezes ingénuo, eventualmente também convencido ou idealista, era a impressão que me dava. Tinha lá a sua mania de homem providencial para o Porto, apresentava-se a eleições por conta própria, porque "as pessoas" lhe pediam muito, via ondas de apoio onde nem sequer havia água, e depois apanhava banhadas a seco nas urnas, umas atrás das outras, recolhendo votações humilhantes, normalmente abaixo dos dois por cento, Dom Quixote se calhar também não faria melhor. Foi assim em 2013, foi assim em 2025.
Lembro-me muito bem da campanha de 2013, porque nos encontrámos por acaso na Praia Internacional, junto ao Edifício Transparente, onde o candidato montara o estaminé um certo dia. E mostrava-se em preparos elementares, aproveitando o Verão, de calções, descalço e um enorme sorriso, porque o que é preciso é descontracção. Achei-lhe piada à pose. Fiz-lhe um retrato.

Tirei a fotografia e desejei-lhe boa sorte. Nuno Cardoso ofereceu-me uma mãozada e os seus colaboradores acorreram, simpaticamente, prontos para me pegarem na máquina: - Quer tirar uma à beira do engenheiro?
- Não. Porquê? - disse eu.
- Podia querer... - disseram eles.
- Mas não. E o engenheiro quer o meu autógrafo? - perguntei.
- Não, obrigado... - respondeu-me o engenheiro.
E ficámos assim. Quites. Eu sem o retrato com o engenheiro e o engenheiro sem o meu autógrafo. Nenhum de nós perdeu grande coisa, foi o que pensei na altura. O Porto acaba de perder um dos seus melhores, é o que penso agora.

Millôr Fernandes dizia: "Morrer é uma coisa que se deve deixar sempre pra depois". E também: "A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu carácter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte". Eu tento alargar o prazo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Céu pode esperar

Para falar com Deus
Tomou horas, foi para a fila, tirou senha, esperou vez, chamaram-lhe o número, acostou finalmente ao balcão das informações e perguntou: - Para falar com Deus, falo com quem?...

Manhã cinzenta de Outono a ameaçar chuva. No chão de cimento do pequeno cemitério, bem varrido, jaz, abandonada e fria, uma senha de vez. Aos meus pés, o famigerado ticket, ou tiquê, como nos dá muito mais jeito dizer, e dá-nos sempre muito mais jeito dizer mal. Vergo-me e apanho. "Sua vez", avisa a senha número E29, como se soubesse alguma coisa da minha vida que eu não sei. Da minha vida ou da minha morte. E manda, "Puxe". Puxei, quero dizer, pensei: poderia dar-se o caso de ser esta a solução desenterrada por espertos sepultadores para organizar as dezenas ou centenas de defuntos que diariamente se acotovelam aos portões dos cemitérios sobrelotados, à espera de vez, à espera de vaga. (Os mortos portugueses têm geralmente medo de serem queimados vivos e, como resultado, num país com uns económicos 92 mil quilómetros quadrados, os nossos campos-santos rebentam pelas costuras, as campas não chegam para as encomendas.) Mas não: a coisa não é assim tão terrena, pensei melhor, isto vem, upa, upa, lá de cima. É assunto de almas e não de corpos. É. O Céu está equipado com pelo menos um dispensador de senhas de vez, tive a certeza e tinha a prova na palma da mão. Percebi tudo. Queres a salvação eterna? Tira o número e vai para a fila, essa é que é essa! "Mas que bizarra epifania, mas que desgosto tão grande, lá se me foram os fundamentos" - lamuriei-me, rangendo os dentes. - "Até Tu, meu Deus?! Que tristeza! Onde o negócio e a burocracia já chegaram"...
O meu número é o E29, calhou-me, não sei em que número vai, mas, palavra de honra, estou sem pressa. Dou a vez.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Senha.)

sábado, 25 de abril de 2026

Os bois chamam-se pelos nomes

Sete vidas
Cada vez que morria, o gato sabia que era a brincar. Chegou à sétima... e lerpou.

O porco é Ruço. A porca Vadia. A vaca Amarela. O boi Barrão. O touro Osborne. A turina Malhada. A vitela À Moda de Fafe. O cão Bobi. O elefante Dumbo. A cadela Laika. A Santa preguiça. O cachorro Kent. O gato Maltês. A gata Borralheira. A cabra Cega. A ovelha Dolly. O cabrito Montês. O cavalo Silva. O burro Velho. O rato Mique. O coelho Branco. O macaco Adriano. O leopardo Negro. O urso Teddy. O teddy Boy. A chinchila Mila. O furão Furão. A tartaruga Ninja. A cobra Dora. A mulher Alheia. O homem Erecto. O peixe Dourado. O surfista Prateado. A sardinha Biba. A pita Arisca. A periquita Alegre. A parreca Molhada. A pomba Branca. O crocodilo Dundee. A lontra Badocha. O pato Patola. O galo Badalo, a galinha Balbina, o pinto Jacinto e o peru Gluglu.
Assim se chamam os bois pelos nomes.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Medicina Veterinária.)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O Menino Jesus morreu sozinho. Tinha 84 anos.

E se o Natal for mentira?
Era uma vez a notícia: "Idoso morreu sozinho em casa com hipotermia. Morreu Fulano de Tal, 68 anos, deficiente motor, residente em Pombal, Alfândega da Fé, que há vários meses vinha pedindo a institucionalização num lar de idosos. Perdeu a vida, na sexta-feira, após ter dado entrada no hospital em situação de hipotermia."

O Menino Jesus morreu. Tinha 84 anos e era o mês de Maio de 2012. O corpo do indivíduo do sexo masculino foi encontrado por acaso, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolvera fechar-se ninguém soube dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem do vocabulário e da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido pelo menos cinco dias antes da macabra descoberta. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estais a ver? Estais a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos como agora se usam, mas eram à boca-de-sino? O senhor que apanhava o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa do Porto? Estais a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Parecia-me uma figura de Fafe, um dos meus cromos antigos. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas pequeninas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias, por deveres ou opções que não vêm aqui ao caso. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo e melhorado muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no mês de Maio de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho, sem uma mão dada, uma palavra mansa ao ouvido, um céu com estrelas para olhar. Já basta o que basta: morrer, ainda que de velho, já deve ser fodido que chegue, regra geral. E confesso que não sei se o Menino Jesus tinha precisamente 84 anos, foi o que me constou. Os jornais do dia seguinte talvez tivessem dado a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas, breves. Ou então morreu apenas mais um octogenário, em contramão com a vida.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Versão revista e aumentada do texto escrito e publicado originalmente aqui no dia 9 de Maio de 2012.)

domingo, 2 de novembro de 2025

Era tão fácil a morte em Fafe

O testamento
O notário vacilou. Mas leu. O defunto deixava beijos e abraços. Distribuídos pelos inúmeros herdeiros em fracções de zero a 145, consoante o julgado merecimento de cada qual. Dinheiro não havia. Tinha ido todo em putas e vinho verde. Isto é, em beijos e abraços.

Um folheto que me foi metido na caixa do correio convidava-me a escolher "um Plano Funerário adequado". Adequado a quê e para quem?, se conto estar morto quando for o meu funeral e quero lá saber de mordomias póstumas - foi o que então pensei, e já lá vão alguns anos. O papel dizia que havia um "Plano Magno", praticamente como o gelado, um "Plano Essencial", que não faz bem nem mal, e um "Plano Popular", como o ex-CDS. Em qualquer dos casos, eram garantidos "serviço personalizado a partir de 995 euros" e uma vasta "experiência", o que também deixa muito mais descansado o defunto mais exigente. "Florista, Campas e Lápides, Documentação Oficial, Serviço Internacional, Música na Cerimónia, Medalha Impressão Digital, Cinzas ao Mar, Financiamento sem Juros, Contrato de Funeral em Vida", estava tudo previsto.
A caixa do correio mete-me medo. Não tanto pelas contas da luz, da água ou do condomínio, tampouco pelos avisos das Finanças ou do Tribunal, mas principalmente pelos que me perguntam pelo meu ouro e eu não os conheço de lado nenhum, pelos que me pedem o meu voto e não me conhecem de lado nenhum, pelos que querem comprar a minha casa que eu não quero vender, pelos que me querem vender uma casa que eu não quero comprar, pelos que querem que eu mude de Deus, e agora até pelos que me querem vender a minha morte como se soubessem alguma coisa da minha vida que eu não sei, ainda por cima aliciando-me com extras e regalias redundantes, luxos próprios para defuntos vaidosos, como se por acaso eu estivesse mortinho por fazer figura.
Vamos lá com calma. Eu sei que ninguém fica cá para a semente e que se alguém ficar sou eu (mas não é isto que aqui interessa). Sei que fatalmente já por cá andei mais tempo do que aquele que me resta para andar. Mas, com franqueza, a vida é tão boa e dá-me tantas consumições, que tenho mais que fazer do que pensar na morte, do que organizar a minha morte. Quando eu morrer (se morrer), logo se verá. Eu é que já não verei, e não me faz diferença nenhuma. Que se amanhem! Essa é a herança que deixo de bom grado a quem me sobreviver. Se alguém houver.

Era tão fácil a morte em Fafe. Morria-se e tínhamos logo à porta, como se estivessem à espera, de fita métrica na mão, patrões ou emissários, o Albano da Costa ou o Damião Monteiro, que dividiam o mercado talvez ela por ela, cada qual já sabia quem eram os seus, e, mais tarde, também o Baptista de Antime, que alugava altifalantes e fazia funerais "de categoria", como afiançava o Zé Maria Sapateiro, e nunca ninguém o desmentiu. Na hora da morte, a escolha da funerária, para os fafenses, era simples: baseava-se nas amizades, nas ligações familiares e, definitivamente, em favores devidos a este ou àquele cangalheiro, homens importantes, influentes, e com negócios e interesses vários e poderosos na vida da vila antiga.
Às vezes, para enterros nas aldeias à volta, algumas delas, por aquela altura, ainda sem estradas de lei ou sequer caminhos transitáveis, os agentes funerários requisitavam a carreta dos Bombeiros, puxada e manobrada à mão por um piquete fardado de gala, com luvas brancas e capacetes dourados reluzindo ao sol, coisa bonita de se ver. Nestas infaustas e solenes ocasiões, os bombeiros de serviço recebiam uma pequena gratificação, a bem dizer simbólica, decerto saída do pagamento da funerária à corporação, e, após as exéquias, no regresso do cemitério, eram amiúde agraciados pela família enlutada com uma generosa merenda, que constava, regra geral, de bacalhau frito, broa e umas boas malgas de verde tinto, evidentemente, nem que fosse apenas manhãzinha.
Publicidade a respeito de funerais, naquela maré, em Fafe, a única que havia era a do gato-pingado biscateiro e apressado que andava de loja em loja, de café em café, de tasco em tasco, a deixar o tradicional aviso em papel do falecimento e do enterro, para colocar nas montras, mas explicando sempre de viva voz, em todos os locais, quem era exactamente o morto, o seu enquadramento familiar, irmãos, pais ou filhos, se fossem mais conhecidos, uma ou outra nota biográfica, empregos, alcunhas, se as houvesse, hora e morada, porque naquele tempo os defuntos saíam de casa, tudo dito muito rapidamente, entrada por saída, uma e outra vez, numa espécie de lengalenga previamente ensaiada, porém aberta a perguntas, e eu gostava muito de ouvir aquilo, como se fosse um teatro, uma récita, eu dava realmente valor ao trabalho do homem. O gato-pingado, para mim, era um artista.

Devo confessar, já agora, que o prospecto que me enfiaram na caixa do correio acabou por aguçar a minha curiosidade. Esse é, afinal, o truque do marketing, mesmo do marketing de trazer por casa. Porta a porta. Admito que estou a pensar pedir um orçamento para a minha morte. Seduziu-me aquela coisa da "Medalha Impressão Digital", que não sei o que é mas deve ser muito bom para o morto. E também quero que me expliquem muito bem explicadinho o "Contrato de Funeral em Vida". Isso é legal? E é saudável? Funeral em vida? Dasse!...

(Publicado ontem no meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 26 de outubro de 2025

São Balsemão

Não me lembro de alguma vez ter falado com Francisco Pinto Balsemão (1937-2025). Nada tenho a contar a meu respeito, a propósito da sua morte. Sei que sou o único, mas é assim. Conheci-o, evidentemente. Sempre me pareceu um político sério e, como pessoa, um tipo porreiro. Sobretudo, eu gostava de o ouvir dizer "tamém" em vez de também, porque berço é berço, que se lixe a gramática. Dizem que era um bom patrão, quem me dera tê-lo tido. Agora, se bem conheço o Francisco Pinto Balsemão com quem parece que nunca falei, não creio que ele aprecie particularmente a canonização bacoca que se lhe sucedeu.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

As rosas do coveiro Gusto Sardão

O caminho da Felicidade
É fácil, facilíssimo. Sempre em frente até ao largo da igreja, vira à direita pela rua com árvores, passa pelo campo da bola e pela sede, torna à esquerda e logo na esquina, encostada ao café e depois do funileiro, há uma casa pequenina com porta vermelha e vasinhos floridos na janela: é aí que ela mora. Ela e os dois filhos. Cuidado com o cão!

No jardim dos meus sogros havia meia dúzia de roseiras razoavelmente produtivas e formiguentas. As flores vinham sempre cá para casa, as formigas às vezes também. Cinco das seis roseiras do jardim dos meus sogros davam rosas vermelhas, mas daquele vermelho sanguíneo, belíssimo, rosas de livro, de cartaz e de filme, e cheiravam a nada, coisa nenhuma, como se fossem de supermercado, de plástico. A outra roseira, exemplar único, logo à entrada, dava umas rosas cor-das-mesmas, numa corzinha envergonhada e pálida, quase pedindo desculpa, e porém manda-me cá para fora um perfume que inebriava a léguas.
Era um cheiro bom que eu já conhecia e me tornava a Fafe, aos meus aromas de infância, enchia-me de saudades. Havia umas rosas assim, selvagens e vibrantes, ao fundo do esmerado quintal da Dona Maria Margarida, na espécie de alameda que descia a propriedade desde a Rua Monsenhor Vieira de Castro, partilhando muro com os terrenos do casarão do Zé de Freitas, que agora é o Aldi, e ia desembocar à Quelha, evidentemente com portão no fim, sempre fechado, quase em frente à velha nora de alcatruzes às vezes movida por boi ou vaca, por inexplicável falta de burros. Que bem que cheiravam aquelas rosas! E logo ali ao lado, na senhorial entrada da Casa do Santo, no pátio empedrado após o portal com brasão, eram as glicínias que emprestavam o seu perfume doce ao ambiente. Que bem que cheirava geralmente a Quelha, sítio de prazeres, amor, pecado e outras necessidades! Que tempos! Entretanto, a casa da Dona Maria Margarida, com vista, foi depois casa do Chiquinho Gonçalves, sem vista, e consta por lá hoje em dia o McDonald's, se não me engano. São outros cheiros...
Mas a nossa roseira. A roseira perfumosa, extraordinária, fora oferecida ao meu sogro, há muitos muitos anos, pelo Gusto Sardão, então coveiro titular do cemitério da então freguesia de Nevogilde, Foz rica, concelho do Porto. Para os registos: Augusto Francisco da Costa Almeida, enterrador de categoria e decilitrador condecorado, creio que uma coisa tem a ver com a outra. O Senhor Augusto - Senhor, para mim, com todo o respeito - era um homem pequeno, queimado, irrequieto, malandro, tinha a voz mais bagaceira que Deus ao mundo botou, muito mais completa do que a do incompreendido disc jockey Bruno de Carvalho ou a do incompreensível actor Joaquim de Almeida, parece que ainda o estou a ouvir, ao coveiro, o que é tecnicamente impossível. Com efeito, um dia o Senhor Augusto resolveu seguir as pisadas da clientela, faleceu ele próprio para não empecilhar o negócio, e actualmente confraterniza com os seus antigos ossos do ofício. Isto é: continua ao serviço, mas agora do lado de dentro. Não sei como nem quem lhe paga a féria. O bom Gusto Sardão era, ou por outra, podia ter sido, penso-o agora, uma figura típica de Fafe, um cromo dos nossos tascos, do Peludo, parece impossível como é que só vim a conhecê-lo no Porto.
Quando o nosso Kiko nasceu, o Senhor Augusto ofereceu logo mil escudos para a conta que a Mi e eu haveríamos de abrir para o menino, e abrimos. O Gusto foi o primeiro dador, no dia 1 de Maio de 1984, antes ainda da Dona Senhorinha Bastos e do abono, está tudo registado no livrinho. Eu não sabia deste uso pós-natal, e, confesso, aquilo, na altura, comoveu-me bastante.
Mas a roseira. A roseira extraordinária, delicada e odorosa, veio exactamente do cemitério, e isso é que eu ainda não tinha contado, e isso é que a torna realmente extraordinária. Do cemitério de Nevogilde, lugar do "santo" Menino Quim, de bruxedos ao portão e de outros espantos. As rosas, por exemplo. Rosas que não alcançavam a exuberância cardiofálica e escandalosa dos antúrios de ficção do fotógrafo Jorge Tadeu, na telenovela brasileira Pedra Sobre Pedra, mas que, na sua modéstia, se ofereciam abertas e feminis, reais, a quem as quisesse e soubesse desfrutar.
Abençoado cemitério que semelhantes rosas deu. Abençoado. Um cemitério assim é uma provocação, um desafio lançado a quem não acredita em nada para além do óbito. Um cemitério como o do coveiro Gusto Sardão dá sentido e utilidade ao serviço pós-morte, mesmo ao pós-vida dos incréus. Deve ser um conforto morrer sabendo que ao menos seremos estrume. E de rosas. Rosas subtis e perfumadas, rosas extraordinárias.

(Versão revista e muito aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 12 de outubro de 2025

Até os mortos se salvaram

Os fiéis defuntos
A vantagem dos fiéis defuntos, com o devido respeito, é que não se armam em mortos-vivos. E isso, hoje em dia, já é um descanso.

Durante uma semana, um alguidar contendo um enorme galo sem cabeça e outras miudezas feiticeiras esteve em exposição no passeio junto ao portão de um dos cemitérios da cidade do Porto, zona chique. O bruxedo apareceu ali da noite para o dia, toda a gente se queixou, toda a gente se desviou e ninguém teve coragem de mexer na coisa, de a mandar para o lixo. Nem o padre da igreja ao lado nem os coveiros propriamente ditos. Trabalhar com almas e mortos está bem, desafiar maus-olhados é que não, faxavor de desculpar.
Passou-se um, passaram-se dois, três, quatro, cinco dias, e o galo ali, possivelmente já com o serviço feito e portanto sem mais poderes para gastar, mas nem assim alguém ousou sequer tocar-lhe. O pessoal da Junta de Freguesia, executivo e funcionários, reuniu extraordinariamente e foi unânime, cada um passou a encomenda para o que vinha atrás, ou abaixo, "Eu não, bruxedos comigo não", até que a vizinhança viva reclamou que já não aguentava com semelhante fedor, ciciando padres-nossos e ave-marias, de terço na mão e muitos sinais da cruz mas feitos ao contrário, não fosse o diabo tecê-las...
Ora, o fedor, como toda a gente sabe, é problemática que sobe a instância superior, à alçada camarária. Em conformidade, foram requisitados os serviços de limpeza da cidade, que chegaram ao local do sinistro tarde e a más horas e resolveram o assunto em três penadas. Isto é: não fizeram nada. "Eu também não, bruxedos comigo não", disseram os almeidas, que no Brasil são garis.
Perante o impasse, alguém tirou a mola de roupa do nariz e alvitrou que o Governo mobilizasse os Comandos da Amadora ou enviasse para o terreno o Grupo de Intervenção de Operações Especiais da GNR, outro pediu a presença da Brigada de Minas e Armadilhas da PSP, o espertalhão do costume recomendou o Putin ou o Netanyahu, se era para rebentar com aquilo tudo, um dos dois chegava e sobrava, e a Ermelindinha, catequista e sacristã derivado à escassez de mão-de-obra qualificada, ainda sugeriu que se mandasse chamar o Bruxo de Fafe para fazer a competente marcha-atrás à coisa, tornando seguro o seu manuseamento. Mas a Junta não dispunha de verba orçamentada para pagar a especialistas.
Foi quando um dos da Câmara se lembrou que o Canil Municipal tem um camião com um gancho hidráulico muito jeitoso, uma espécie de braço mandado que podia solucionar mecanicamente aquele problema bicudo, com os homens ao largo e, portanto, sem risco de contraírem agoiros, porque os agoiros, como é do conhecimento geral, têm um certo e determinado raio de acção, potente mas limitado. E assim foi. Ao sexto dia, o todo-poderoso veículo veio e levou a coisa, para sossego enfim de todos os moradores da zona, vivos e mortos, amém.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 15 de maio de 2025

A última a morrer

Era uma família convencional. Morreram, naturalmente por esta ordem, o Acúrsio, a Adelaide, o Tibério, a Catarina, a Rosa, o Celestino e finalmente a Esperança. É daí que vem.

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Família.

domingo, 23 de março de 2025

Os que dão o tempo

A meteorologia é muito importante porque a meteorologia é que dá o tempo. Se não fosse a meteorologia não teríamos tempo e morríamos todos mais cedo, regra geral, ou nem sequer houvéramos nascido, o que seria ainda pior. Hoje é Dia Mundial da Meteorologia e portanto estamos de parabéns.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Meteorologia.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Ray Charles morreu?

É a minha vida. Divido-me aqui entre o computador e o fogão. Ainda há pouco, bateu-me a lembrança e larguei de repente o teclado para ir a correr lá ao outro lado da casa ver o ponto de um caldo de nabos que por acaso tinha em andamento. O rádio da cozinha estava a dar, sem mais nem menos, a esta hora, Ray Charles. Era, como sempre, a rádio nacional, oficial, a Antena 1, Ray Charles cantava "Hit the road Jack" e eu pensei "ó carago, morreu o Ray Charles, coitadinho..."
Mas não morreu, foi impressão minha. Embora me pareça que Ray Charles (1930-2004) precise de morrer todos os dias para dar na rádio. Mesmo na rádio nacional, oficial, a da necrologia e das efemérides.

(Outro dia foi tal e qual. Cheguei à cozinha e o rádio, na velha Antena 1, para o que lhe havia de dar, falava de Maria Teresa Horta nas notícias da hora de almoço. Coisa estranhíssima. E eu pensei "já fostes"...
Felizmente, também não se confirma.)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Não quer dizer nada

- Este ano o Silva não vem...
- Vem, vem! Vem todos os anos!
- Mas o Silva morreu em Março.
- E o que é que isso tem a ver?

P.S. - Pois é. Está na altura de almoçar ou jantar com os amigos de uma vez por ano.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

O Menino Jesus morreu

O Menino Jesus morreu. Tinha 84 anos e era o mês de Maio de 2012. O corpo foi encontrado por acaso, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolvera fechar-se ninguém soube dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem do vocabulário e da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido pelo menos cinco dias antes da macabra descoberta. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estais a ver? Estais a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos como agora se usam, mas eram à boca-de-sino? O senhor que apanhava o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa do Porto? Estão a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às crianças criancinhas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Digamos que era um com-abrigo. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no mês de Maio de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho. Já basta o que basta, morrer já deve ser fodido que chegue. E tenho de confessar que não sei se o Menino Jesus tinha exactamente 84 anos. Os jornais do dia seguinte decerto deram a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas. Ou então morreu apenas mais um octogenário, em contramão com a vida.

P.S. - Hoje é Dia Internacional dos Direitos Humanos.

sábado, 2 de novembro de 2024

Os ausentes

Sim, ele gostava muito de presentes. Mas os ausentes falam-lhe mais ao coração...

P.S. - Hoje é Dia dos Fiéis Defuntos.

Só para dizer que morri

Após mês e meio de ausência e silêncio, ligou à família a dizer que morreu e que portanto precisava urgentemente de cinco mil euros para o enterro. Lá em casa ninguém se acreditou.

P.S. - Hoje é Dia dos Fiéis Defuntos.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Aos pares é mais barato

- Sou incapaz de matar uma mosca! - disse ele.
- E duas? - perguntei eu.

P.S. - Hoje é Dia Mundial Contra a Pena de Morte. E Dia Mundial da Saúde Mental.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Fazendo pela vida

O médico deu-lhe dois anos. Ele pediu seis. O médico contrapôs três e que não podia dar mais. Ele exigiu cinco, senão nada feito. O médico disse quatro e não se fala mais nisso. Ele, negócio fechado.
 
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Doente.

domingo, 10 de dezembro de 2023

O cadáver do sobrevivente

Mas que grande desgraça! Que tragédia! O dia mais negro daquela terra! O ambiente só aliviou um bocadinho quando os jornalistas encontraram o cadáver do sobrevivente...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Pantominices

Antenor Ferreira da Silva, utente n.º 257974590 e processo n.º 9374566/04, apresentou-se na urgência do hospital e disse - Estou há quinze anos à espera de uma operação a uma hérnia e, é preciso que se note, sou uma tartaruga. Foi operado imediatamente.

P.S. - O PAN, Partido pelos Animais e pela Natureza, foi inscrito no Tribunal Constitucional no dia 13 de Janeiro de 2011. Chama-se actualmente Pessoas - Animais - Natureza.