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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O Menino Jesus morreu sozinho. Tinha 84 anos.

E se o Natal for mentira?
Era uma vez a notícia: "Idoso morreu sozinho em casa com hipotermia. Morreu Fulano de Tal, 68 anos, deficiente motor, residente em Pombal, Alfândega da Fé, que há vários meses vinha pedindo a institucionalização num lar de idosos. Perdeu a vida, na sexta-feira, após ter dado entrada no hospital em situação de hipotermia."

O Menino Jesus morreu. Tinha 84 anos e era o mês de Maio de 2012. O corpo do indivíduo do sexo masculino foi encontrado por acaso, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolvera fechar-se ninguém soube dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem do vocabulário e da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido pelo menos cinco dias antes da macabra descoberta. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estais a ver? Estais a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos como agora se usam, mas eram à boca-de-sino? O senhor que apanhava o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa do Porto? Estais a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Parecia-me uma figura de Fafe, um dos meus cromos antigos. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas pequeninas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias, por deveres ou opções que não vêm aqui ao caso. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo e melhorado muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no mês de Maio de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho, sem uma mão dada, uma palavra mansa ao ouvido, um céu com estrelas para olhar. Já basta o que basta: morrer, ainda que de velho, já deve ser fodido que chegue, regra geral. E confesso que não sei se o Menino Jesus tinha precisamente 84 anos, foi o que me constou. Os jornais do dia seguinte talvez tivessem dado a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas, breves. Ou então morreu apenas mais um octogenário, em contramão com a vida.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Versão revista e aumentada do texto escrito e publicado originalmente aqui no dia 9 de Maio de 2012.)

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

O Menino Jesus morreu

O Menino Jesus morreu. Tinha 84 anos e era o mês de Maio de 2012. O corpo foi encontrado por acaso, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolvera fechar-se ninguém soube dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem do vocabulário e da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido pelo menos cinco dias antes da macabra descoberta. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estais a ver? Estais a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos como agora se usam, mas eram à boca-de-sino? O senhor que apanhava o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa do Porto? Estão a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às crianças criancinhas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Digamos que era um com-abrigo. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no mês de Maio de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho. Já basta o que basta, morrer já deve ser fodido que chegue. E tenho de confessar que não sei se o Menino Jesus tinha exactamente 84 anos. Os jornais do dia seguinte decerto deram a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas. Ou então morreu apenas mais um octogenário, em contramão com a vida.

P.S. - Hoje é Dia Internacional dos Direitos Humanos.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Polícia para todo o serviço

Agora imaginem que iam a entrar no Parque da Cidade do Porto, ali junto ao Sea Life, e viam o buggy da Polícia Municipal parado às portas escarrapachadas das casas de banho públicas e ouviam de lá de dentro duas ou três daquelas potentes descargas de limpeza. O que é que pensavam? Eu ajudo. Pensavam: ao que isto chegou! Os nossos agentes da autoridade a passarem as retretes a pano... Razão têm eles quando vêm para a rua protestar "contra a degradação das condições de trabalho". Foi também o que eu pensei.
E tinha lógica. Porque a Polícia Municipal do Porto, embora seja um destacamento da PSP, actua, "para efeitos de serviço", na dependência directa do presidente da autarquia, que é Rui Moreira, e Rui Moreira tem de vez em quando assim umas saídas que valha-me Deus!...
Mas depois saiu do WC uma senhora toda fardada de verde da Câmara, e que eu sei que não é cívica, e então percebi. Acho que percebi. Se calhar não havia mais nenhum veículo disponível, e o pessoal das limpezas do Parque pegou no carro da Polícia, com os dizeres oficiais, a fitinha axadrezada a toda a volta e o pirilampo azul mas desligado, e lá foi para o servicinho. Uf!, fiquei mais descansado.
Já se sabia que os nossos polícias têm de levar papel higiénico para as esquadras se não quiserem limpar o cu às meias, mas ainda bem que ninguém os obriga a lavar as sentinas. Pelo menos para já. E que se saiba.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Brothers in arms

Foto Hernâni Von Doellinger

Alta Autoridade

Era agente da Polícia de Segurança Pública e media quase dois metros. Chamavam-lhe Alta Autoridade.

Achei uma carteira

Achei uma carteira e dirigi-me ao polícia mais próximo. O polícia disse-me educadamente mas para que é que eu quero esta merda, ó excelentíssimo indivíduo? Para acender o caralho do cigarro, ó ilustre autoridade, expliquei eu não menos cortês. Efectivamente a carteira era de fósforos. 

P.S. - Hoje, 2 de Julho, é Dia da Polícia de Segurança Pública.

A ronda da cavalaria ligeira

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O Menino Jesus morreu sozinho. Tinha 84 anos.

Morreu o Menino Jesus. Tinha 84 anos. O corpo foi encontrado ontem, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolveu fechar-se ninguém sabe dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido há pelo menos cinco dias. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estão a ver? Estão a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos? O que apanhava, em Nevogilde, o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa? Estão a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas criancinhas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, há mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passo lá quase todos os dias. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho. Já basta o que basta. E tenho de confessar que não sei se o Menino Jesus tinha exactamente 84 anos. Os jornais de mais logo darão a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas. Ou então morreu apenas mais um octogenário.

(Texto escrito e publicado originalmente no dia 9 de Maio de 2012)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Aguiar-Tinto

Imagem TVI

O advogado António Vilar foi detido e identificado, no Porto, após fotografar um carro que anda ao serviço do ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco. A notícia é da TVI, replicada pelo jornal Público.
O carro era um Alfa Romeo preto da PSP, descaracterizado, e estacionava no sítio do costume, em cima do passeio da rua do escritório de advocacia de Aguiar-Branco, onde o governante vai despachar assuntos particulares às segundas e sextas-feiras. Às terças, quartas e quintas, o advogado-ministro dá lições de moral ao País. Está tudo bêbado, não está?

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Perseguir sim, mas devagar

O PCP diz que inspectores da PJ por todo o país estão a ser multados e constituídos arguidos por excesso de velocidade no exercício das suas funções, nomeadamente em casos de vigilância e perseguição de suspeitos. E há dias pareceu-me ter ouvido na TVI o "criminologista" Barra da Costa ("criminologista" quer dizer ex-polícia que vai à televisão) afirmar que as perseguições policiais até estarão proibidas por quem manda, de maneira a poupar combustível e viaturas. As viaturas que ainda andam. Não é um descanso para todos nós?

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Há uma nova rotunda em Matosinhos Sul

Começou por ser um buraco, um pequeno aluimento no asfalto. Na sexta-feira e no sítio do costume. Depois vieram a Protecção Civil e a PSP, a Indaqua com duas viaturas, um trabalhador e quatro olhadores, e anteontem o buraco já era uma rotunda. Uma magnífica rotunda tapa-buracos no cruzamento de Tomás Ribeiro com Heróis de França, melhoramento que só visto. Em Matosinhos é assim: as coisas medram. Lamenta-se apenas que, quase uma semana decorrida, o Senhor Presidente da Câmara ainda não tenha tido tempo para inaugurar e baptizar a obra. A nova rotunda da zona turística da cidade merecia um nome. Um nome feio.

Foto Hernâni Von Doellinger
Foto Hernâni Von Doellinger