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quinta-feira, 20 de abril de 2023

O diplomata

Hoje é Dia do Diplomata. No Brasil. O diplomata é, por definição, um homem reservado e de fino trato, um indivíduo circunspecto, grave, cortês, cauteloso, prudente, ponderado, sensato, distinto, elegante, delicado, conciliador. "Ser diplomata é discordar sem ser discordante", sentenciou um dia Millôr Fernandes. E, a este propósito, vem-me à cabeça o nome do embaixador aposentado Seixas da Costa, antigo secretário de Estado em dois governos do socialista António Guterres, quase quatro décadas de altos serviços diplomáticos, em Oslo, em Luanda, em Londres, em Brasília e em Paris, representante permanente de Portugal junto das Nações Unidas, da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, da Unesco e da União Latina. Francisco Seixas da Costa, oficial da Ordem do Infante D. Henrique, cavaleiro da Ordem Militar de Cristo, grande-oficial da Ordem de Mérito, grã-cruz da Ordem Militar de Cristo e com mais uma carrada de condecorações do Reino Unido, Espanha, França, Bélgica, Polónia, Grécia, Roménia, Noruega e Brasil, Francisco Seixas da Costa, dizia eu, que, comentador encartado de mundo e de mundos, escrevendo no Twitter sobre o que realmente interessa à Humanidade, chamou "javardo" a Sérgio Conceição, treinador da equipa principal de futebol do FC Porto. "Javardo", isso. E foi levado a tribunal. E foi condenado. O diplomata.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

O Senhor Manuel Duarte

Foto Carlos Barroso/Record

Quero contar-vos duas ou três coisas sobre um fafense excelentíssimo. Manuel Almeida Duarte chegou a Fafe em 1972, andaria pelos seus 27 anos de idade. Vinha do Varzim para jogar pela nossa AD Fafe, por nós, e era uma lenda. Formara-se na Académica, jogara também no Leixões, no Sporting e no FC Porto, mas a grande aura que o rodeava derivava do facto de ele ter integrado a célebre selecção portuguesa que conquistou o terceiro lugar no Mundial de 1966, em Inglaterra. Ao lado de Eusébio, Coluna, Vicente, Simões, Hilário, Torres, José Augusto e outros colossos. Sim, Manuel Duarte era Magriço.
E era um jogador caro, para as modestas posses da AD Fafe. Apesar de ter vindo do Varzim, Manuel Duarte mantinha vínculo contratual com o FC Porto, que suportava parte do seu ordenado. Quando a ligação aos portistas cessou, o equilíbrio financeiro foi encontrado com um segundo emprego. A grande estrela de futebol começou a trabalhar como "fiel de armazém" na estamparia Marigam, de Moisés Teixeira, que era então o presidente da AD Fafe. E não lhe caíram os parentes na lama.
Posso estar enganado, mas creio que foi assim que as coisas se passaram.
Com o seu invejável currículo debaixo do braço, Manuel Duarte poderia ter sido um indivíduo vaidoso, sobranceiro, inatingível, intratável, um estoura-vergas, um bronco. Mas era exactamente o contrário. Era uma pessoa culta, educada, elegante, recatada, gentil, modesta, um homem de família, marido e pai. Tinha classe.
O estilo nervoso do seu futebol contrastava flagrantemente com a pessoa calma que ele fazia questão de ser, ainda que às vezes lhe custasse. E ao juízo da generalidade dos fafenses, digo-o porque a sua memória merece que se diga a verdade, Manuel Duarte era muito mais consensual como pessoa, isto é, como cidadão, do que como jogador de futebol, amiúde mal-amado. Em todo o caso, devo acrescentar que nunca na vida vi em campo alguém mais generoso, mais esforçado, mais disponível, mais entregue ao jogo e à sua equipa do que Manuel Duarte no meu Fafe. Era um profissional de mão cheia, um exemplo para os colegas, novos ou velhos. Tanto que, no tempo em que não havia adjuntos, foi ele o escolhido para começar a dar os treinos, diariamente ao fim da tarde, enquanto o o velho mestre Nelo Barros não chegava do seu trabalho nos escritórios da Fábrica do Ferro.
E só agora tomo nota desta curiosa coincidência: a fábrica na vida destes dois grandes homens do futebol. Na Marigam, Manuel Duarte era mais um entre as operárias e os operários, que o adoravam. Era competente e atencioso, respeitador, simples, de humildade e bonomia desarmantes. Sei disto tudo porque um dia ele teve de deixar a fábrica, para ir treinar o Limianos, se não me engano, e eu fui substituí-lo.
Conhecíamo-nos da AD Fafe, onde eu biscatara, e coincidimos na Marigam durante um ou dois meses, não me lembro ao certo, para que o Manel me passasse a pasta. Aprendi tudo com ele e vim a perceber mais tarde que ele me ensinara tudo o que havia para ensinar sobre aquele ofício - e nem sempre se encontra este tipo de abertura e lealdade profissional. Dávamo-nos bem, entendíamo-nos às mil maravilhas, acredito que nos fizemos amigos, o Manel fez-me o mapa dos alçapões, orientou-me sobre o sitio e as pessoas, sobre o trabalho, sobre a vida. Tratávamo-nos por você, como se fôssemos iguais, ele era o Manel mas na minha cabeça eu via-o sempre como o grande senhor que ele era, o Senhor Manuel Duarte.
Vim para o Porto e uma vez encontrámo-nos no cinema, no Estúdio Foco, se bem me lembro, e aproveitámos a ocasião única para pormos a conversa em dia. Depois passaram-se os anos. Vi o Manuel Duarte mais três ou quatro vezes, em Fafe, pela Senhora de Antime. Interessante. Íamos ver passar a Senhora no mesmo sítio, no cruzamento com semáforos da minha velha rua, entre o Paredes e o Zé Manco, eu do lado do Palacete, e o Manel, sempre distinto, sempre Senhor Manuel Duarte, do lado do Santo Velho. O meu lado. Nunca atravessei a estrada para o abraçar, como no meu íntimo desejava. E não me atrevia, por pudor e respeito. Também por medo. Receava que o Manel não me reconhecesse, que já não se lembrasse de mim...
Manuel Almeida Duarte nasceu em 1945 na freguesia de Vale de Azares, concelho de Celorico da Beira. E é um fafense excelentíssimo. Um dos fafenses mais excelentíssimos que tive o privilégio de conhecer. Fafense por direito próprio, excelentíssimo com todo o mérito.

Millôr Fernandes dizia: "Morrer é uma coisa que se deve deixar sempre pra depois". E também: "A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu carácter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte". Eu tento alargar o prazo.

domingo, 16 de agosto de 2020

Millôr Fernandes 9

E por último vem a história do ratinho que abraçava a ratinha e dizia: - Querida, quero que sejas minha. Não vamos ficar nesse amor puramente bubónico.
E o casalzinho de ardentes namorados entrou no táxi e ordenou ao motorista: - Por favor, chófer, vai bem devagar que estamos com pressa!

"Pírulas", Millôr Fernandes

(Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Millôr Fernandes 8

Poesia de ausência irreparável

Indo perto da fogueira
Laurinda morreu queimada.
Oh, foi algo de terrível
arranjar outra empregada.

"Pif-Paf", Millôr Fernandes

(Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)

quarta-feira, 27 de março de 2019

Millôr Fernandes 7

Poeminha socialista

Pobre, rico, moço, velho,
Machão, entendido, bicha,
Tudo igualmente feliz
Ao coçar onde comicha.


"Fábulas Fabulosas", Millôr Fernandes

(Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu no dia 27 de Março de 2012.)

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Millôr Fernandes 6

Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor.

"O Homem do Princípio ao Fim", Millôr Fernandes

(Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Millôr Fernandes 5

E, no fim, o decapitado se casa com a perneta. Realmente - uma história sem pé nem cabeça.

Millôr Fernandes

(Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Millôr Fernandes 4

Discurso de Deus a Eva

... Eva, de repente, descobrindo uma bela cascata, resolveu tomar um banho de rio. A criação inteira veio então espiar aquela coisa linda que ninguém conhecia. E quando Eva saiu do banho, toda molhada, naquele mundo inaugural, naquela manhã primeval, estava realmente tão maravilhosa que os anjos, arcanjos e querubins, ao verem a primeira mulher nua sobre a Terra, não se contiveram, começaram a bater palmas e a gritar, entusiasmados: "O AUTOR! O AUTOR! O AUTOR!

P.S. - Este discurso do Todo-Poderoso está sendo divulgado pela primeira vez em todos os tempos, aqui neste livro. Nunca foi publicado antes, nem mesmo pelo seu órgão oficial, A BÍBLIA.

"Minha cara,

eu te criei porque o mundo estava meio vazio, e o homem, solitário. O Paraíso era perfeito e, portanto, sem futuro. As árvores, ninguém para criticá-las; os jardins, ninguém para modificá-los; as cobras, ninguém para ouvi-las. Foi por isso que eu te fiz. Ele nem percebeu e custará os séculos para percebê-lo. É lento, o homenzinho. Mas, hás de compreender, foi a primeira criatura humana que fiz em toda a minha vida. Tive que usar argila, material precário, embora maleável. Já em ti usei a cartilagem de Adão, matéria mais difícil de trabalhar, mais teimosa, porém mais nobre. Caprichei em tuas cordas vocais, poderás falar mais, e mais suavemente. Teu corpo é mais bem acabado, mais liso, mais redondo, mais móvel, e nele coloquei alguns detalhes que, penso, vão fazer muito sucesso pelos tempos afora. Olha Adão enquanto dorme; é teu. Ele pensará que és dele. Tu o dominarás sempre. Como escrava, como mãe, como mulher, concubina, vizinha, mulher do vizinho. Os deuses, meus descendentes; os profetas, meus public-relations, os legisladores, meus advogados; proibir-te-ão como luxúria, como adultério, como crime, e até como atentado ao pudor! Mas eles próprios não resistirão e chorarão como santos depois de pecarem contigo; como hereges, depois de, nos teus braços, negarem as próprias crenças; como traidores, depois de modificarem a Lei para servir-te. E tu, só de meneios, viverás.
Nasces sábia, na certeza de todos os teus recursos, enquanto o Homem, rude e primário, terá que se esforçar a vida inteira para adquirir um pouco de bens que depositará humildemente no teu leito. Vai! Quando perguntei a ele se queria uma Mulher, e lhe expliquei que era um prazer acima de todos os outros, ele perguntou se era um banho de rio ainda melhor. Eu ri. O homem é um simplório. Ou um cínico. Ainda não o entendi bem, eu que o fiz, imagina agora os seus semelhantes.
Olha, ele acorda. Vai. Dá-me um beijo e vai. Hmmmm, eu não pensava que fosse tão bom. Hmmmm, ótimo! Vai, vai! Não é a mim que você deve tentar, menina! Vai, ele acorda. Vem vindo para cá. Olha a cara de espanto que faz. Sorri! Ah, eu vou me divertir muito nestes próximos séculos!"

"Esta É a Verdadeira História do Paraíso", Millôr Fernandes

(Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)

domingo, 16 de agosto de 2015

Millôr Fernandes 3

Chapeuzinho Vermelho

Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios. Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e… (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores - o Lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo que andar na floresta sozinha, natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.).
Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo Lobo, que lhe disse: (Outro parêntesis; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: "Onde vais, linda menina?" Respondeu Chapeuzinho Vermelho: "Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde”.
Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: "Psychopathology Of Everiday Life", The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez - o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado - e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó.
Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o Lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque, afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrênica, débil mental e paranóica, pequenas doenças que dão no cérebro, parte súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em "Sexual Behavior in the Human Female". W. B. Saunders Company, Publishers.) Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranqüila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.

"Lições de Um Ignorante", Millôr Fernandes

(Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)

sábado, 16 de agosto de 2014

Millôr Fernandes 2

Tinha cabelos longos como trigo, pele da cor da avelã, um pescoço de ânfora, um andar de gazela. Que mulher ridícula e horrenda.

Millôr Fernandes

(Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Millôr Fernandes

O aldeão e o demónio

Pois um dia o aldeão dormitava depois do almoço, enquanto as ovelhas pastavam lá fora, quando o demónio lhe surgiu em carne e osso: "Aldeão - tonitroou ele -, você deve morrer!!! É chegada a tua hora! Mas eu vim aqui para te dar uma grande oportunidade. Escolhe uma destas três coisas: bate em teu criado, mata tua mulher ou bebe deste vinho".
O aldeão, aterrorizado por aquela visão, mal teve tempo de pensar. Mas foi talvez sua sabedoria ancestral que fez com que dissesse: "Bater em meu criado jamais poderei fazer, porque através dos anos ele me tem sido sempre fiel. Matar minha mulher jamais poderei matar, porque ela vive comigo também há muitos anos. Deixa que eu bebo o vinho".
O diabo deu uma gargalhada e lhe entregou o vinho. O homem bebeu, se embriagou, bateu no criado, matou a mulher, e, desde então, abandonou o campo e vive nos bares da cidade, conhecido como um dos mais prestigiosos playboys de nossa sociedade.

Moral: O diabo não é tão feio quanto se pinta.

"Fábulas Fabulosas", Millôr Fernandes

(Milton Viola Fernandes, conhecido como Millôr Fernandes, nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)