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| Foto Hernâni Von Doellinger |
Se as minhas contas andarem certas e Deus também, o meu amigo Senhor Hernâni estará prestes a fazer 85 anos, e eu
tenho-lhe saudades. Eu e ele, o Homem da Música, ou o Senhor Feliz, como
prefere chamar-lhe a minha mulher, eu e ele, dizia, éramos accionistas
maioritários de um banco no Parque da Cidade do Porto, alameda de
entrada-saída da Avenida da Boavista, quase em frente às bombas da Galp,
quem vai para a igreja de Nevogilde, mas as voltas da vida desviaram-me
à falsa fé
dos nossos encontros
ecuménicos de fim de tarde. Ele adventista militante e eu católico
acomodado,
falávamos de artes, de paz, das crianças e dos velhos, de afectos, da
memória, do mundo, de tudo e de nada, de Deus, da alegria de viver com
Deus. O Senhor Hernâni tentava missionar-me, converter-me, contava-me da
sua Igreja,
cantava-me hinos de louvor à vida e ao "Senhor Jesus". Enfeitava-os com
um
trejeitinho de fado, às vezes de
folk, palavra de honra. Eu tinha
para a troca o "Tantum Ergo" e o "Queremos Deus", mas guardava-os para
mim, e creio que era sensato, o meu amigo não merecia semelhante
castigo...
O Homem da Música fez o favor de me deixar começar a ser seu amigo
parece-me que há coisa de sete ou oito anos. Calhava perdermo-nos de
vista por umas temporadas, mas felizmente lá tornávamos ao reencontro no
banco do costume - um banco bom. Uma vez o Senhor Hernâni apareceu-me
com instrumental novo e a superbicicleta cada vez mais artilhada: até já
tinha
relógio-despertador, peça fundamental em bicicleta que se preze. Pusemos a conversa em dia. Contou-me que o jeito
para as engenhocas lhe vinha do ofício
antigo, mais de trinta anos como afinador de máquinas numa grande
fábrica em Rio Tinto. E que o amor pela música era de sempre, desde que
se
lembra de começar a contar os 77 que então levava.
Falou-me da mulher, que tinha "menos dez anos" do que ele e doenças que
chegassem para os dois. Dos filhos, três, um dos quais "trabalha numa
agência e sabe as línguas todas". Da ventura de alma que lhe é "louvar e
amar o Senhor". Do seu Bairro da Fonte da Moura. Da lambreta
cor-de-laranja em avançado processo de
tuning caseiro. Das
viagens em bicicleta até Arcozelo, em Gaia, ou até São Mamede de
Infesta, para tocar. E pelo caminho já cantava e tocava - o que houvesse
a resolver com o trânsito era "pelos retrovisores"...
Há meses que não o via. Contou-me que passou a ir alegrar as tardes da
rapaziada da idade
dele que frequentava o centro de dia da então Junta de Aldoar.
Levava-lhes música, porque lhe apetecia e fazia gosto. Ninguém lhe
encomendara o serviço, nada disso. Era bondade em estado puro. "Eles vêm cá para fora e eu toco", diz-me,
quase envergonhado da felicidade serena que lhe baila nos olhos. "Quer ver?
Quer ver?", e rapa da harmónica e do pandeiro e oferece-me uma modinha
americana que, na verdade, é um hino religioso. Agradeço-lhe. Digo
"Muito bem!", para esconder a comoção que
também me embaraça. (Lembro-me do verso de António Gancho, que diziam louco:
A música vinha duma mansidão de consciência, e ali vinha, meu Deus!) Conto-lhe como tenho sentido a falta dele no banco do
Parque e que andava preocupado. Não estou a mentir. O Homem da Música
percebe, ri, rouba duas ou três notas ao teclado que tem em cima
dos joelhos, para que eu saiba que a coisa funciona. E funciona.
Ele quer que eu fique mais um bocado. Fico. Gosto do Homem da Música.
Ainda por cima tem um nome próprio que, não desfazendo, lhe calha muito bem - é
Hernâni como eu. Senhor Hernâni. Senhor, que eu não sou.
P.S. - Publicado originalmente no dia 6 de Agosto de 2013. Mas há muito que
eu e o Senhor Hernâni nos voltámos a perder de vista. Soube dele creio que há três anos, mais ou menos por esta altura. O Senhor Hernâni
estava bem. Isto é: assaltaram-no, roubaram-lhe os documentos e andava a
tratar dos papéis novos, sobretudo da carta de condução, que era o
que mais o afligia. Teve de ir à Junta de Aldoar e a minha mulher fez
questão de apresentar-se-lhe. O meu amigo aproveitou para mandar-me um
recado, - que continua a cantar, e um abraço que me soube pela vida. Dias depois tornou a encontrar a minha mulher e agraciou-me com mais um abraço,
que me mandou outra vez por ela e me fez ainda mais feliz.