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sábado, 31 de outubro de 2026

Estava-se bem ao lume

Pensamento
- Gosto muito de pensar.
- O mundo?
- O gado.

Vêm-me à cabeça palavras assim, antigas, palavras que cheiram a terra, a chuva, a fumo, a infância. Engaço, ancinho, mangual, malho, arado, grade, enxada, sachola, forquilha, alvião, picareta, sacho, foice, gadanha, gadanho, padiola, rodo, espadela, roca, dobadoira, pipa, dorna, lagar, eira, eido, meda, braseira, lareira, cântaro, infusa, malga, pote, forno. Sem mais nem menos, não sei o que me dá, lembro-me delas, sou um rústico e pronto. Vêm-me palavras como roçada, vessada, monda, debulha, esfolhada, segada, pisada, merenda, presigo, penso, estrume, lavadura, sulfato. Acordo de mim, bruscamente, estão a atirar-me palavras como streaming, bullying, mainstream e primetime, empoderamento, visualizar, experienciar, vivenciar, recepcionar, percepcionar, metaverso, impactante, resiliência ou ecoansiedade - e escangalham-me tudo. Estafermos! Que bem que eu estava ao lume...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial das Cidades.)

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O tipo do mito urbano e o mito do tipo rústico

- Faz favor de desculpar, o senhor é o tipo do mito urbano, não é?
- Mito quê?
- Mito urbano. Urbano. Citadino, civilizado, cortês, polido, gafonha, urbanita, urbícola, correcto, afável, aprazível, fruitivo, lisonjeiro, mavioso, amorável, charmoso, peralta, lhano, tirone, refinado, esticadinho, delicioso, educado...
- O que são as palavras, veja lá o senhor. Não, não sou o tipo do mito urbano. Na verdade fiz-me homem em Pedraído, Fafe, sou portanto e pelo contrário, se me está a acompanhar, o mito do tipo rústico.
- Tipo quê?
- Tipo rústico. Rústico. Rusticano, rural, aldeão, camponês, campino, campesino, campesinho, campestre, campónio, agrário, simples, simplório, casca-grossa, labrego, parolo, lavrador, grosseiro, bruto, boçal, besta, bronco, grunho, labrego, malcriado...
- Realmente o que são as palavras. Mas é tão parecido com ele...
- Com quem?
- Com o tipo.
- Mas sou o mito.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Música Country.)

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A reinvenção das galochas

Quem vê caras
Quem vê caras também vê lux. E nova gente, vip, ana, maria, mariana e cristina, telenovelas, tv7dias, tv mais, tv guia e ¡hola, "por supuesto".

As mulheres do campo, as lavradeiras, sempre andaram de galochas. Era assim em Fafe, era assim o mundo. Antigamente, para os demais, uma mulher de galochas era de rir, era parola. Agora andar de galochas é moda, as mulheres vão de galochas para o escritório e para o café. Fico à espera do avental. Ainda hei-de ver as madamas a tomarem chá de mindinho esticado e com um molho de couves à cabeça.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

De vaquinha

De vaquinha para o emprego? No campo, isto é, na lavoura, estou como o outro, faz algum sentido, é a ordem natural das coisas. Agora, na cidade não me parece nada prático. Nem higiénico, verdade seja dita.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

As galochas, da parolice à passarela

As mulheres do campo, as lavradeiras, sempre andaram de galochas. Era assim em Fafe, era assim o mundo. Antigamente, para os demais, uma mulher de galochas era de rir, era parola. Agora andar de galochas é moda, as mulheres vão de galochas para o escritório e para o café. Fico à espera do avental. Ainda hei-de ver as madamas a tomarem chá de mindinho esticado e com um molho de couves à cabeça.

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Mulher Rural.

sábado, 24 de agosto de 2024

Campos de férias

Todos os meses de Agosto de todos os anos, o aviso lá estava bem visível à porta de entrada, para orientação de pessoal, clientes e público em geral: "Campos de férias!", dizia o letreiro. E fazia todo o sentido, porque a verdade é só uma - o Campos era a alma daquela empresa, passava-lhe tudo pelas mãos. Na ausência do Campos, o serviço ressentia-se, era como se estivessem fechados, o próprio Campos não se cansava de o repetir.
Lembram-se daquele ilustre industrial fafense que veio de férias do Ultramar e a guerra teve de parar até que ele regressasse ao mato? O Campos também era assim, essencial e insubstituível. E um bocado mentiroso.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Eu quero um céu com estrelas

O Minho cheira a Natal, sabiam? O Alentejo e Trás-os-Montes decerto também cheiram, as Beiras e o Ribatejo lá terão os seus aromas, mas a mim o que me interessa é o meu Minho e quanto mais alto melhor. E por estes dias o Minho começa a cheirar a Natal. Ao Natal antigo, já posso dizê-lo. Os últimos lavradores do Minho fazem fogueiras nos campos como fizeram os seus pais e os pais dos seus pais, queimando folhas secas e gravetos velhos, emprestando ao ar um perfume doce de lareira. De lar. Dá uma vontade tola de abrir a janela do carro, largar a cabeça ao frio e fechar os olhos. E eu abro e largo e fecho. A janela, a cabeça, os olhos. Sou pendura graças a Deus, não sei conduzir, vamos em segurança.
A memória também vem ao cheiro: a querida avó de Basto, pequerricha, resmungona e bondosa, aquecendo o vinho na infusa fanada que tem dentro uma maçã acabadinha de assar no borralho. O fumo das giestas molhadas e que, apesar, ajudam a espertar o braseiro. Os malabarismos a toque de caixa do testo da velha chocolateira desbordante de café que não passava de cevada. A garrafa da aguardente do avô que bastava aliviar-lhe a rolha para logo sarar constipações e até unhas encravadas. A luz bailarina da candeia fazendo filmes mudos e de terror nas paredes da cozinha, negras de fumo e do luto da vida. E a canela. Sim, as queimadas agrícolas de Novembro e Dezembro, no Minho, são temperadas com canela. Quem disser o contrário, está muito mal informado.
De novo na estrada de um carro só, o fumo, os fumos, aqui, ali, mais adiante, novelos que sobem letra a letra inventando palavras de faz de conta. São os índios a mandar recados, gosto de pensar, e rio-me outra vez moço. O fumo acinzenta o verde que cresce ao abandono e as leiras lavradas e cada vez mais raras. Acinzenta a paisagem mas limpa a alma. Este fumo aconchega-nos, abraça-nos, obriga-nos a abraçarmo-nos. Por causa do fumo, o céu é mais baixo, estamos mais perto do Céu, estamos mais perto uns dos outros, e apetece-me inspirar a plenos pulmões a ver se consigo guardar este fumo e este cheiro, esta paz, para o resto do ano, para o resto da vida. Quem me dera aqui à noite, toda as noites, com este cheiro, com este céu. Este céu cheio de estrelas, que eu bem as sei. E tenho a certeza: devia ser proibido morrer sem um céu assim para olhar.

P.S. - Hoje é Dia Mundial das Cidades. E eu já tenho a minha conta...

sábado, 2 de julho de 2022

Campos de férias

Todos os meses de Julho de todos os anos, o aviso lá estava bem visível à porta de entrada, para orientação de pessoal, clientes e público em geral: Campos de férias! E fazia todo o sentido, porque a verdade é só uma - o Campos era a alma daquela empresa, passava-lhe tudo pelas mãos. Na sua ausência, o serviço ressentia-se... 

terça-feira, 10 de maio de 2022

As galochas, da parolice à passarela

As mulheres do campo sempre andaram de galochas. Antigamente uma mulher de galochas era de rir, era parola. Agora andar de galochas é moda, as mulheres vão de galochas para o escritório e para o café. Fico à espera do avental. Ainda hei-de ver as madamas a tomarem chá de mindinho esticado e com um molho de couves à cabeça.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

As galochas, da parolice à passarela

As mulheres do campo sempre andaram de galochas. Antigamente uma mulher de galochas era de rir, era parola. Agora andar de galochas é moda, as mulheres vão de galochas para o escritório e para o café. Fico à espera do avental. Ainda hei-de ver as madamas a tomarem chá de mindinho esticado e com um molho de couves à cabeça.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

As galochas, da parolice à passarela

As mulheres do campo sempre andaram de galochas. Antigamente uma mulher de galochas era de rir, era parola. Agora andar de galochas é moda, as mulheres vão de galochas para o escritório e para o café. Fico à espera do avental. Ainda hei-de ver as madamas a tomarem chá de mindinho esticado e com um molho de couves à cabeça.