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terça-feira, 14 de julho de 2026

As lambanas

Atrás de um grande homem
Atrás de um grande homem às vezes vem a polícia.

As lambanas são pequenas fadas aladas, parece que vindas da mitologia filipina. Lambana é também, como acabo de descobrir, nome de um resort na Índia. Em Fafe, porém, lambana era o feminino acusativo de lambão, portanto queria dizer o mesmo que lambona ou lambareira, talvez com um significado mais abrangente e desdenhoso. Mas era lambana que dizíamos, é lambana que eu ainda digo. Lambana. Comilona, glutã, gulosa, tolinha por doces ou simplesmente açúcar, larpeira, alarve, egoísta, regalona, interesseira, invejosa, sovina, açambarcadora, lavajona, sebastião come, tudo, tudo, tudo, mas em sebastiana. "Fulana é uma lambana", "És muito lambana", "Naquela casa é só lambanas". A lambana, as lambanas. Mas cuidado, muita atenção: é preciso não confundir lambanas com begueiras. As begueiras, que também as há, são outro assunto.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 28 de abril de 2026

Flores ao solheiro

A invenção da sogra
Consta que os muçulmanos introduziram a nora em Portugal. Gostaria de saber: e quem terão sido os espertinhos que nos introduziram a sogra?

Um restinho de sol e lá se sentavam elas comparando doenças e façanhas de netos havidos ou inventados. Rosa, Violeta, Hortênsia, Camélia, Margarida, Dália, Açucena - evidentemente no jardim imaginário, ao entardecer da vida.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Sogra.)

sábado, 14 de março de 2026

As begueiras

Dia da Mulher
No Dia da Mulher, a minha leva-me a almoçar fora, para eu não ter de cozinhar. À noite volto para o fogão.

Conheceis aquelas mulheres que andam sempre na rua e passam a vida no café a dizer mal dos homens que andam sempre na rua e passam a vida no café? Sim, essas. São as begueiras. É certo que o termo original é masculino e minhoto, begueiro, referindo-se preferencialmente a um jumento novo, pequeno, ou a uma qualquer besta de carga, e pode também servir para descrever um mulo ou, pejorativamente, uma pessoa de pouca inteligência e/ou com qualidades negativas ou malandra, mas em Fafe o conceito afeminou-se, não sei em que altura do século passado, e mudou completamente de sentido. Temos então a begueira, as begueiras, linguarudas, opinativas, independentes, soalheiras, as que "não têm que fazer em casa". As begueiras funcionam em grupo, em vários grupos, assíduos, independentes e fechados, às vezes inimigos uns dos outros, células militantes de escrutínio alheio e maledicência, municiadas estatutariamente a chá e torradas, amiúde um panachê. No seu conjunto, elas, as begueiras, os diversos núcleos de begueiras, formam o chamado begueirame.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 4 de março de 2025

Já não há mulheres com bigode

Foto Hernâni Von Doellinger

Sempre gostei de ir a Ponte de Lima por causa do arroz de sarrabulho e dos bigodes das mulheres. Mulheres feias é ali. Feias e bigodudas. Basta um raio de sol espreitar por entre as nuvens e elas saltam todas não se sabe donde para as bordas do rio a arejar as carantonhas e respectivas piaçabas. Palavra de honra, é um espectáculo digno de ser visto. Comprar um cartucho de jornal cheio de castanhas assadas e comê-las, ainda quentes, enquanto observamos o mulherio, picadeiro acima, picadeiro abaixo, como num desfile de moda mas para bigodes fêmeos, nove pontos para aquela, treze para a das suíças, há lá melhor maneira de passar um pedaço de tarde! Não sei o que a bela vila alto-minhota tem, mas é assim que as coisas são.
Cuidado. Antes de me soltarem os cães, façam o favor de perceber que eu não disse que as mulheres limianas são bigodadas e feias. Não. O que eu digo é que, sobretudo aos fins-de-semana e feriados, elas, as bigodadas e feias, concentram-se todas ali, à beira-Lima, como se fosse um congresso de camafeus ou um concurso de feieza. Numa dessas ocasiões, eu próprio fui confundido com a cantadeira de um rancho folclórico derivado às minhas barbas. De resto, não sei de onde elas vêm, as mulheres abigodadas, nunca perguntei.

Vou a Ponte de Lima desde pequenino, desde o tempo das excursões ao Alto Minho organizadas pelo meu avô da Bomba, sobrevivente dos sete ofícios. Aqui atrasado tornei lá todo contente e tive um desgosto muito grande. A vila mais antiga de Portugal, Ponte de Lima monumental e histórica, bela, tradicional, está mais pobre. As mulheres continuam particularmente feias, honra lhes seja, mas deitaram abaixo os bigodes. Sentei-me no banco do costume, junto à vendedeira de castanhas, queimei os dedos a comê-las, mas bigodes de mulheres, que era ao que eu ia, nem um para amostra. É lamentável. Os cremes depilatórios estão a dar cabo do nosso património.
Não sei se volto a Ponte de Lima. Ainda por cima, o arroz de sarrabulho também não estava grande coisa. Mas as castanhas eram bem boas.

P.S. - Publicado originalmente no dia 3 de Novembro de 2011. Ponte de Lima festeja hoje os seus 900 anos de vila. Muitos parabéns!

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Mulher amiga...

Com aquela caloraça, a mulher comprou-lhe um pijama de Verão, por acaso bem jeitoso. Chamou-o ao quarto, abriu o gavetão e disse-lhe: - Estás a ver? Gostas? Fica aqui guardadinho para quando fores para o hospital... 

P.S. - Hoje é Dia Nacional do Pijama.

The woman

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 19 de novembro de 2024

domingo, 3 de novembro de 2024

Crónica Feminina

Vieram as calças, e ela nada. Os movimentos libertários, o divórcio, o voto, a canasta, os empregos, os carros, os cigarros, as gravatas, os sapatos de salto baixo e os sapatões também vieram, e ela nada. Em casa, sempre em casa, de uma virgindade absoluta em relação ao amantíssimo esposo e demais, bordava, falava francês e tocava piano. Ouvia os discos pedidos e lia Corín Tellado. E dava alpista ao canário. E regava os vasinhos, ela própria uma flor de estufa, no larguinho da vila antiga. E compunha almofadinhas e peluches e corações por sobre o delicado leito conjugal. Muito cor-de-rosa, muita renda na roupa interior que só ela sabia, muito tafetá, muitos lacinhos e sabonetinhos. Tanto pó de talco e perfume! Queimou uma vez um sutiã, é verdade, mas foi sem querer, passando a ferro, quando a serviçal lhe faltou. Tirando isso, nada. Parecia doença. Crónica. As vizinhas, que nem lhe conheciam o nome, chamavam-lhe, por graça, Crónica Feminina.

P.S. - Hoje é Dia da Dona de Casa.

domingo, 18 de agosto de 2024

Ela gostava de se apernaltar

Ela, vaidosa, gostava de se apernaltar. Não é que ela fosse irremediavelmente baixa no seu magnífico metro e cinquenta e sete, na verdade os seus pés chegavam quase sempre ao chão, pelo menos quando andava, mas ela gostava de sentir-se nas nuvens. Só calçava carrinhos de choque e recorria a todos os expedientes para crescer a olhos vistos. E metia tudo o que podia: cunhas, calços, avançados, médios defensivos, rampas, plataformas, saltos, tacões e até palmilhas em camadas, como bolo recheado. Era de rir vê-la caminhar naqueles preparos altaneiros e amiúde circenses, e ao riso dos outros ela chamava inveja, sentimento rasteiro, coisa de gente pequena. Portanto era isso, não é erro, não há engano - ela gostava mesmo de se apernaltar.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Comida, carros e gajas

Nós, os do Norte, somos acusados de falarmos constantemente de comida. E não é justo! Na verdade, nós, os do Norte, somos tão capazes de manter conversas interessantes e profundas sobre gajas e carros como o resto dos portugueses. Para além disso, ninguém nos bate numa boa discussão sobre motorizadas...

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Pizza.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Batem leve, levemente

São cada vez mais os casos sabidos de violência contra mulheres e crianças. Uma vez, aqui há uns anos, Deolinda Barata, da Sociedade Portuguesa de Pediatria, disse na televisão que a culpa é da crise. Os homens ficam desempregados e portanto batem nas mulheres. Os filhos levam por tabela.
Eu também sou contra o governo, por uma questão de princípio. Mas, palavra de honra, esperava dos alegados entendidos uma conclusão sensata e minimamente articulada sobre o assunto - e esta não é. O que a doutora Deolinda disse é o fácil, está à mão e é de esquerda, podia até ser dito por mim, esquerdista às vezes e incorrigível cultor do lugar-comum a tempo inteiro. Infelizmente, a questão da violência doméstica, sobre adultos ou menores, tem muito mais que se lhe diga. A crise não explica tudo. E não desculpa tudo. Falamos de filhosdaputa e isso é apenas o princípio da conversa...

P.S. - Hoje é Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres.

A murro

Batata a murro apresentou queixa por violência doméstica.

Chamem a polícia!

Chegou a casa e, como de costume, bateu à porta. Desta vez, a porta da vizinha chamou a polícia.

Ó mãezinha!

Bateu à porta e disse: agora vai fazer queixa à tua mãezinha.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

segunda-feira, 7 de março de 2022

Batem leve, levemente

São cada vez mais os casos sabidos de violência contra mulheres e crianças. Uma vez, corria Agosto de 2013, Deolinda Barata, da Sociedade Portuguesa de Pediatria, disse na televisão que a culpa é da crise. Os homens ficam desempregados e portanto batem nas mulheres. Os filhos levam por tabela.
Eu também sou contra o governo. Mas, palavra de honra, esperava dos alegados entendidos uma conclusão sensata e minimamente articulada sobre o assunto - e esta não é. O que a doutora Deolinda disse é o fácil, está à mão e é de esquerda, podia até ser dito por mim, esquerdista às vezes e incorrigível cultor do lugar-comum a tempo inteiro. Infelizmente, a questão da violência doméstica, sobre adultos ou menores, tem muito mais que se lhe diga. A crise não explica tudo. E não desculpa tudo. Falamos de filhosdaputa e isso é apenas o princípio da conversa...

P.S. - Hoje, 7 de Março, é Dia de Luto Nacional pelas Vítimas de Violência Doméstica.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Atchim!

Um estudo de aqui atrasado revelava que 28 por cento das mulheres portuguesas ainda acreditavam que a sida se transmite pela saliva, suor e espirros. Santinhas!...

P.S. - Hoje, 1 de Dezembro, é Dia Mundial de Luta Contra a Sida.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Já não há mulheres com bigode

Sempre gostei de ir a Ponte de Lima por causa do arroz de sarrabulho e dos bigodes das mulheres. Mulheres feias é ali. Feias e bigodudas. Basta um raio de sol espreitar por entre as nuvens e elas saltam todas não se sabe donde para as bordas do rio a arejar as carantonhas e respectivas piaçabas. Palavra de honra, é um espectáculo digno de ser visto. Comprar um cartucho de jornal cheio de castanhas assadas e comê-las, ainda quentes, enquanto observamos o mulherio, picadeiro acima, picadeiro abaixo, como num desfile de moda mas para bigodes fêmeos, nove pontos para aquela, treze para a das suíças, há lá melhor maneira de passar um pedaço de tarde! Não sei o que a bela vila alto-minhota tem, mas é assim que as coisas são.
Cuidado. Antes de me soltarem os cães, façam o favor de perceber que eu não disse que as mulheres limianas são bigodadas e estafermas. Não. O que eu digo é que, aos fins-de-semana e feriados, elas, as bigodadas e estafermas, concentram-se todas ali, à beira-Lima, como se fosse um congresso de camafeus ou um concurso de feieza. Numa dessas ocasiões, eu próprio fui confundido com a cantadeira de um rancho folclórico derivado às minhas barbas. De resto, insisto, não sei de onde elas vêm, as mulheres abigodadas, nunca perguntei.

No outro dia, aproveitando o bendito feriado de Todos-os-Santos, fui a Ponte de Lima e tive um desgosto muito grande. A vila mais antiga de Portugal, Ponte de Lima monumental e histórica, donairosa, está mais pobre. As mulheres continuam particularmente feias, honra lhes seja, mas deitaram abaixo os bigodes. Sentei-me no banco do costume, junto à vendedeira de castanhas, queimei os dedos a comê-las, mas bigodes de mulheres, que era ao que eu ia, nem um para amostra. É lamentável. Os cremes depilatórios estão a dar cabo do nosso património.
Não sei se volto a Ponte de Lima. Ainda por cima, o arroz de sarrabulho também não estava grande coisa. Mas as castanhas eram bem boas.

P.S. - Publicado originalmente no dia 3 de Novembro de 2011.