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domingo, 3 de maio de 2026

A invenção da cruz

Hoje, 3 de Maio, a Igreja Católica celebra o Dia da Invenção da Santa Cruz. Da invenção, valha-me Deus! Convenhamos que, assim de repente, o nome da efeméride não parece lá grande espingarda, pois não? Quero dizer: não é de confiança. Então a cruz foi inventada? E, ainda por cima, um mês e picos depois da Páscoa, altura em que ela, a cruz, segundo a tradição, teria sido realmente precisa? Acho isto tudo muito suspeito. Cheira a batota, trafulhice...

P.S. - Hoje é Dia da Invenção da Santa Cruz. Também é Dia da GNR, Dia da Liberdade de Imprensa, Dia do Riso e Dia da Mãe, que isto anda tudo ligado.

sábado, 14 de setembro de 2024

Cada um tinha a sua cruz

Macaquinhos no sótão
Ele tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.

Levava um banquinho de madeira e sentava-se em Cima da Arcada, de guarda-sol aberto, em dias assim-assim, geralmente pouco nublados, e um caderninho de folhas quadriculadas, todos os dias. Se por acaso invernasse, o guarda-sol chamava-se guarda-chuva. Mas ele. Ele espertava os olhos cansados, via sair, e tomava nota. Saíam do Mário da Louça, do Damião Monteiro, do Império, do Fernando da Sede, do Foto Jóia, do Talho Novo, do Romeu, da Caixa, do Martins da Avenida, do Rabeca, da Câmara, do Café Avenida, da Peninsular, do Moniz Rebelo, das camionetas do João Carlos Soares, da Juditinha, do Sanica, do Casinhas, da Senhora Eufémia, do Américo das Bicicletas, do Alfredo Sapateiro, das Lobas, do Club, da Pacata, da Loja Nova, da Casa da Cera, dos Armazéns Cunha, do Banco, do Martins Relojoeiro, da Electra, do Manel do Campo, até saíam do Escondidinho. Saíam, e ele registava a lápis lambido, mão trémula porém infalível.
Analfabeto de nascença, utilizava a técnica estatística do Miguel Cantoneiro, ecumenicamente adaptada. O nosso extraordinário Miguel, fardado e de pistolo à cinta, anotava o trânsito com uma rodinha, um círculo pequeno, para cada carro ligeiro que passava na estrada nacional, e uma rodela, um círculo grande, para cada camião, não sei como era para as furgonetas e motorizadas, já não me lembro, mas devia haver uma escala qualquer, círculos intermédios, uma tabuada de rodinhas, rodas e rodelas que topava a tudo e batia sempre certo. Uma espécie de Excel mais de vinte anos antes de ser inventado. No Largo, o guardador de saídas, por seu turno, botava uma cruzinha pequenina para os fregueses pobres e desiludidos como ele, uma cruzinha maior para os menos mal da vida e um cruzeiro para a dúzia e meia de cagões locais. Como costumava dizer, cada um tinha a sua cruz. E era eficaz o processo. À noite, em casa, depois da sopa e antes da reza do terço, solitária e apressada, fazia a soma das cruzes, por escalões, comparava com os dias anteriores, os períodos homólogos, as contas todas certinhas, noves fora nada, particularizava as variáveis, indexava à inflação, descontava o algoritmo e arquivava tudo no saco de serapilheira debaixo da cama. Aos domingos de manhã, em vez de ir à missa, fazia uma pequena fogueira e queimava a papelada enquanto assobiava vigorosamente o hino de Fafe, "Fafe querido", mas de trás para a frente. Chamavam-lhe o Toma-Conta, o Vigilante. Talvez vigilante da natureza. Da natureza humana. Chamavam-lhe também outros nomes. Diziam que ele tinha um parafuso a menos, que era doudo, para o que lhe havia de dar, ser contador de pessoas. Ele dizia, porém, que era contador de anedotas...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Santa Cruz.)

Quién es aquel Caballero herido por tantas partes?

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 9 de abril de 2024

Então Ele não ressuscitou?

Gosto de entrar em igrejas e capelas. Igrejas e capelas vazias, silenciosas, fora dos horários de expediente. E abertas, o que é cada vez mais raro. Entro. Como ainda há bocado, na funcional capelinha da Obra do Padre Grilo, que frequento amiúde aqui em Matosinhos, ao pé da porta. Entrei, sentei-me, olhei em frente, e o que vi eu, para meu espanto, meu máximo espanto? O Jesus Cristo da Sexta-Feira Santa, seviciado, ferido, pregado à cruz e morto, como de costume em cima do sacrário vagamente dourado e embutido na parede de mármore, como se nada fosse, como se entretanto mais nada tivesse acontecido, como se não tivesse havido Domingo de Páscoa, como se a história tivesse morrido ali. - Ó diabo! - pensei, desconfiado -, mas então Ele não ressuscitou ao terceiro dia?...

É em situações assim, creio, que a fé de uma pessoa vacila.

domingo, 8 de abril de 2012

Roubaram o sino da igreja

Um dos sinos da antiga igreja paroquial de São Clemente de Silvares desapareceu. À moda da "velha escola", eu gostaria de dizer que se tratou de obra de larápios audaciosos, que, a coberto da noite e por meio de estroncamento, se atiraram ao bronze, à falta de ouro e pratas. Mas não tenho informação para tanto. De acordo com o blogue Falaf - revista cultural de Fafe, onde ontem apanhei a notícia, o sumiço terá acontecido no passado dia 18 de Março, quando o povo desceu à cidade para assistir à recriação da visita do rei D. Carlos, ponto alto das Jornadas Literárias concelhias.
A vida está difícil. Compulsivamente de costas ao alto e cotão nos bolsos, a meliantagem anda a aboletar-se ao que calha e dê algum: carris de comboios, carrinhos de linhas, fios e cabos eléctricos, campainhas de bicicletas e bicicletas ainda que sem campainhas. Um destes dias o País fica completamente às escuras, pára de vez, não há Volta a Portugal, e nós já sabemos porquê. Agora, o sino eu cuido que seja outra história. Para mim, foi um daqueles beatos que gostam de ser mais do que os outros e que faz questão de ter, mais logo, quando sair com a Cruz, um compasso em grande, um compasso maior do que o compasso da concorrência.
Se alguém vir por aí o miúdo da sineta enfiado num sino, a dar ao badalo, é fazer o favor de avisar as autoridades. O sino é de São Clemente e tem o campanário à espera.

Guardo boas recordações de São Clemente de Silvares. No Ademar, tão caro quanto excelente, eu costumava encontrar o Zé Cão, que tinha trabalhado com o meu pai na Fábrica do Ferro e era o homem mais alto do mundo. Pelo menos era o homem mais alto de Fafe e arredores. O Zé Cão, sentado, os joelhos batiam-lhe nos queixos. Era altíssimo, vagaroso, comovido, desengonçado, bom, decilitrado, pobre, criança em corpo descomunal, com uns sapatões de palhaço e umas mãozonas sempre agarradas à caneca de verde tinto, que mingava até parecer uma xícara. Era um Homem.
O Valença, uma das glórias do futebol local, gostava de se meter com o Zé Cão. Na verdade, o Valença gostava de se meter com toda a gente, mas o que aqui interessa é o Zé Cão. E o Valença "obrigava-o" a contar vezes sem conta as vindas ao Porto, ao Royal e ao Derby, para despejar as bolsas, e daquela ocasião em que ele teve que se haver com um "boxevista", um "boxevista" a sério - a piada era mesmo o Zé Cão dizer "boxevista" -, na parte de cima da Ponte de Luís I, exactamente por causa do putedo. E o Zé Cão ganhou. O Zé Cão fazia os gestos como foi, a mando do Valença, disparava ganchos e uppercuts, era um campeão sem sair do seu canto, a lutar por merecer mais um quartilho.
O Zé Cão de São Clemente, o nosso gigante. Penso agora que não é nada Zé Cão: passa a ser Zecão, de Zeca grande, tão grande como o seu imenso coração.