domingo, 3 de maio de 2026
A invenção da cruz
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
sábado, 14 de setembro de 2024
Cada um tinha a sua cruz
Macaquinhos no sótãoEle tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.
terça-feira, 9 de abril de 2024
Então Ele não ressuscitou?
Gosto de entrar em igrejas e capelas. Igrejas e capelas vazias, silenciosas, fora dos horários de expediente. E abertas, o que é cada vez mais raro. Entro. Como ainda há bocado, na funcional capelinha da Obra do Padre Grilo, que frequento amiúde aqui em Matosinhos, ao pé da porta. Entrei, sentei-me, olhei em frente, e o que vi eu, para meu espanto, meu máximo espanto? O Jesus Cristo da Sexta-Feira Santa, seviciado, ferido, pregado à cruz e morto, como de costume em cima do sacrário vagamente dourado e embutido na parede de mármore, como se nada fosse, como se entretanto mais nada tivesse acontecido, como se não tivesse havido Domingo de Páscoa, como se a história tivesse morrido ali. - Ó diabo! - pensei, desconfiado -, mas então Ele não ressuscitou ao terceiro dia?...
É em situações assim, creio, que a fé de uma pessoa vacila.
terça-feira, 3 de maio de 2022
sábado, 3 de abril de 2021
terça-feira, 30 de março de 2021
domingo, 25 de março de 2018
sexta-feira, 23 de março de 2018
sexta-feira, 16 de março de 2018
domingo, 8 de abril de 2012
Roubaram o sino da igreja
A vida está difícil. Compulsivamente de costas ao alto e cotão nos bolsos, a meliantagem anda a aboletar-se ao que calha e dê algum: carris de comboios, carrinhos de linhas, fios e cabos eléctricos, campainhas de bicicletas e bicicletas ainda que sem campainhas. Um destes dias o País fica completamente às escuras, pára de vez, não há Volta a Portugal, e nós já sabemos porquê. Agora, o sino eu cuido que seja outra história. Para mim, foi um daqueles beatos que gostam de ser mais do que os outros e que faz questão de ter, mais logo, quando sair com a Cruz, um compasso em grande, um compasso maior do que o compasso da concorrência.
Se alguém vir por aí o miúdo da sineta enfiado num sino, a dar ao badalo, é fazer o favor de avisar as autoridades. O sino é de São Clemente e tem o campanário à espera.
Guardo boas recordações de São Clemente de Silvares. No Ademar, tão caro quanto excelente, eu costumava encontrar o Zé Cão, que tinha trabalhado com o meu pai na Fábrica do Ferro e era o homem mais alto do mundo. Pelo menos era o homem mais alto de Fafe e arredores. O Zé Cão, sentado, os joelhos batiam-lhe nos queixos. Era altíssimo, vagaroso, comovido, desengonçado, bom, decilitrado, pobre, criança em corpo descomunal, com uns sapatões de palhaço e umas mãozonas sempre agarradas à caneca de verde tinto, que mingava até parecer uma xícara. Era um Homem.
O Valença, uma das glórias do futebol local, gostava de se meter com o Zé Cão. Na verdade, o Valença gostava de se meter com toda a gente, mas o que aqui interessa é o Zé Cão. E o Valença "obrigava-o" a contar vezes sem conta as vindas ao Porto, ao Royal e ao Derby, para despejar as bolsas, e daquela ocasião em que ele teve que se haver com um "boxevista", um "boxevista" a sério - a piada era mesmo o Zé Cão dizer "boxevista" -, na parte de cima da Ponte de Luís I, exactamente por causa do putedo. E o Zé Cão ganhou. O Zé Cão fazia os gestos como foi, a mando do Valença, disparava ganchos e uppercuts, era um campeão sem sair do seu canto, a lutar por merecer mais um quartilho.
O Zé Cão de São Clemente, o nosso gigante. Penso agora que não é nada Zé Cão: passa a ser Zecão, de Zeca grande, tão grande como o seu imenso coração.