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terça-feira, 30 de abril de 2024

Sexofone, saxofome, aqui jazz a humanidade

Os sopranos têm, por definição, o tom de voz mais agudo e com mais alcance de mulher ou de rapaz muito novo. Se os sopranos forem homens, os puristas preferem chamar-lhes contratenores, que há quem confunda com contentores. Os sopranos dividem-se essencialmente em sete partes: soprano ligeiro, soprano lírico-ligeiro, soprano lírico, soprano lírico-spinto, soprano lírico-dramático, soprano dramático e soprano ultraligeiro. Também podem ser saxofones ou clarinetes, por exemplo, amiúde utilizados no jazz. Nos Estados Unidos, os Sopranos ainda piam mais fino: são mais que as mães, maus como as cobras e convictos frequentadores de meretrizes. São extremamente mafiosos e profundos conhecedores, estes sim, de contentores, blocos de cimento, peixes e rios, para além de cabeças de cavalo, que há quem confunda com cabeças de cavala. De escabeche. Quando inadvertidamente apanhados por famílias inimigas, liquidados e desmembrados como manda a lei, os Sopranos são chamados, por divertimento, meios-sopranos. Os Sopranos americanos fizeram uma excelente série de televisão e posteriormente derem em filme, que deveria ter por título, corrigido, digo eu, "Os Contratenores". O melhor Soprano do mundo (portanto, o pior) chamava-se Tony e padecia de ansiedade.

domingo, 17 de dezembro de 2023

Quando o homem quiser

Se o Natal fosse todos os dias, decerto perdia a graça, seria talvez uma chatice. Uma canseira. E era uma despesa muito grande...

sábado, 31 de julho de 2021

Poesia o que tem de ser é orgasmo

A senhora sentada à minha frente faz croché - que raro. Eu leio um livro. O resto do metro espreita o telemóvel, fala para o telemóvel, escreve no telemóvel, joga no telemóvel, tira selfies com o telemóvel, põe o telemóvel entre pernas, aconchegadíssimo às intimidades, em alarmante modo de vibração. O metro inteiro é um telemóvel amarelo de duas carruagens, dois refractários e razoáveis orgasmos. Como quem não quer a coisa, a senhora sentada ao lado da senhora sentada à minha frente que faz croché desvia um olho do telemóvel e procura-me a capa do livro. Chega lá. Abana a cabeça, sentenciosa, faz cara de caso, deita-me uns olhos, ambos, num misto de decepção e de censura. Percebo-a: não leio José Rodrigues dos Santos. Leio "Poesias Completas & Dispersos", de Alexandre O'Neill, calhamaço como os do outro, mas calhamaço sem culpa de autor, calhamaço que dá gosto. Folheio-o com o respeito e o cuidado de quem folheia uma bíblia. E é. Vou naquela parte em que O'Neill me diz "A estouvaca": deitada atravessada / na estrada / a malhada / vai ser atropelada / foi. Palavra do senhor.

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Julho de 2018, então sob o título "Há palavras que nos beijam como se tivessem boca", segundo Alexandre O'Neill. Desta vez rapinei o título a Ary dos Santos, em "Poesia-orgasmo". O'Neill e Ary, curiosamente ambos publicitários e dois dos meus poetas mais preferidos. Mais preferidos, disse bem! Hoje, 31 de Julho, é Dia Mundial do Orgasmo. Tenham muitos!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Ary dos Santos 10

Poeta castrado, não! 

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lanzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!


"Resumo", Ary dos Santos

(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu no dia 18 de Janeiro de 1984.) 

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A poesia o que tem de ser é orgasmo

A senhora sentada à minha frente faz croché - que raro. Eu leio um livro. O resto do metro espreita o telemóvel, fala para o telemóvel, escreve no telemóvel, joga no telemóvel, tira selfies com o telemóvel, põe o telemóvel entre pernas, aconchegadíssimo às intimidades, em alarmante modo de vibração. O metro inteiro é um telemóvel amarelo de duas carruagens, dois refractários e razoáveis orgasmos. Como quem não quer a coisa, a senhora sentada ao lado da senhora sentada à minha frente que faz croché desvia um olho do telemóvel e procura-me a capa do livro. Chega lá. Abana a cabeça, sentenciosa, faz cara de caso, deita-me uns olhos, ambos, num misto de decepção e de censura. Percebo-a: não leio José Rodrigues dos Santos. Leio "Poesias Completas & Dispersos", de Alexandre O'Neill, calhamaço como os do outro, mas calhamaço sem culpa de autor, calhamaço que dá gosto. Folheio-o com o respeito e o cuidado de quem folheia uma bíblia. E é. Vou naquela parte em que O'Neill me diz "A estouvaca": deitada atravessada / na estrada / a malhada / vai ser atropelada / foi. Palavra do senhor.

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Julho de 2018, então sob o título "Há palavras que nos beijam como se tivessem boca", segundo Alexandre O'Neill. Desta vez rapinei o título a Ary dos Santos, em "Poesia-orgasmo". O'Neill e Ary, curiosamente ambos publicitários e dois nos meus poetas mais preferidos. Mais preferidos, disse bem! Hoje, 31 de Julho, é Dia Mundial do Orgasmo. Tenham muitos!

sábado, 18 de janeiro de 2020

Ary dos Santos 9

World’s news

A Rainha de Inglaterra faz uma gaifona
vai à sua
diz o pirata da perna de pau
o espumante francês faz borbulhas na cona
o marechal reformado bate a pala ao mau-mau.

A avó do general partiu uma costela
o filho do ministro anda a roer a corda
não há pai para ele não há pau para ela
o Eufrates secou e o Tejo transborda.

O Senhor Reticências tem o nome suspenso
durante cinco anos por ter votado em falso
o povo come papa o Papa come incenso
Maria Antonieta sobe ao cadafalso.

O chulo da corista também subiu na vida
cortem-lhe o caralho cortem-lhe o pescoço
é preciso dinheiro é preciso comida
é preciso pagar-se a fome do grosso.

A Duquesa Larocas toca pandeireta
o Barão do Balão toca xilofone
a Marquesa da Aorta toca uma punheta
a menina Decoro morreu ao telefone.

Os jornais imorais anunciam que um bispo
tem um filho na mitra e outro na barriga
São Vicente de Dentro foi operado a um quisto
a Madre Superiora usa faca na liga.

Hiroxima Hiroxima meu amor gaseado
uma bomba rebenta na cabeça dum rei
a Senhora Camelo tem o sexo mudado
sabia o que fazia o que fará não sei.

O Cordeiro de Deus foi assado no espeto
extraíram-lhe o bedum esfregaram-no com sal
comeram-lhe os colhões deixaram-lhe o esqueleto
tiraram-lhe o retrato para pôr num missal.

Itae missa itae missa itété ou não é
itótó itátá a Titi não está cá
o Tutu dá o cu a Tété dá o pé
o Senhor dá o pão que o fermento não dá.

Meus Irmãos Meus Irmãos somos filhos da Virgem
somos filhos das putas que nunca se casaram
nosso pai é o tempo nossa mãe a vertigem
somos feitos dos trapos que nunca se juntaram.

Nascemos da orgia dos artigos de fundo
do minete dos padres nas bordas dos ricaços
do cuspo das beatas no Redentor do Mundo
do gozo masoquista do Senhor dos Passos.

Meus Irmãos Meus Irmãos é urgente lavarmos
no bidé das palavras a uretra dos nobres
mijarmos nos salões e depois ensaiarmos
a reacção dos poetas na gazeta dos pobres.

Meus Irmãos Meus Irmãos ensaiemos agora
antes que seja tarde antes que seja cedo
não há parto sem dor não há tempo sem hora
é urgente rompermos a vagina do medo.


Ary dos Santos

(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu no dia 18 de Janeiro de 1984.)

sábado, 7 de dezembro de 2019

Ary dos Santos 8

Nona Sinfonia

É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.


"O Sangue das Palavras", Ary dos Santos

(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu em 1984.)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Ary dos Santos 7

Ao meu falecido irmão Manuel Maria Barbosa du Bocage

Meu sacana de versos! Meu vadio.
Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola.
Lisboa é uma sarjeta. E um vazio.
E é raro o poeta que entre nós faz escola.

Mastigam ruminando o desafio.
São uns merdosos que nos pedem esmola.
Aos vinte anos cheiram a bafio
têm joanetes culturais na tola.

Que diria Camões, nosso padrinho
ou o Primo Fernando que acarinho
como Pessoa viva à cabeceira?

O que me vale é que não estou sozinho
ainda se encontram alguns pés de linho
crescendo não sei como na estrumeira!

Ary dos Santos

(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu no dia 18 de Janeiro de 1984.)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Ary dos Santos 6

O poema original

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.


"Resumo", Ary dos Santos

(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu em 1984.)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Passodoblando

Quando o poeta disse "Entram velhas doidas e turistas, entram excursões, entram benefícios e cronistas, entram aldrabões, entram marialvas e coristas, entram galifões de crista", alguém perguntou: - Mas quem caralho é o porteiro?...

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Ary dos Santos 5

Ecce Homo 

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.

Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos. 

"A Liturgia do Sangue", Ary dos Santos 

 (Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu em 1984.)