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quarta-feira, 21 de agosto de 2024

O segredo da Albertininha da Lameira

Foto Hernâni Von Doellinger

Os melhores bolinhos de bacalhau do mundo eram os da Albertininha da Lameira, em Fafe. Contava a lenda que estes maravilhosos bolinhos eram moldados no sovaco da prendada cozinheira, o que lhes emprestaria aquele gosto tão peculiar. A vila antiga dava-se muito a estas lendas: dizia-se também, por exemplo, que os tremoços da Marrequinha da Recta eram a especialidade que eram porque a boa senhora lhes mijava na demolha.
A verdade é esta: ainda cheguei a ver a Albertininha, numa tarde de sábado, a fazer a massa dos famosos bolinhos, de alguidar entre as pernas, junto ao fogo da lareira, na cozinha asseada e sombria, mas a história do sovaco enformador afinal era uma treta - isso posso jurar, e tive pena.
Os bolinhos do Manel do Campo também eram de se lhes tirar o chapéu. E, de um modo geral, as pensões e os tascos de Fafe faziam gala de confeccionar e servir um produto, como agora se diz, fiel às origens e de altíssima qualidade. Esta tradição local creio que se mantém, em sítios como, veio-me agora a ideia à boca, o Fernando da Sede (Adega Popular). Os bolinhos de bacalhau com salada de feijão-fradinho e arroz do Fernando surpreendiam e encantavam os visitantes, e, para os da terra, eram uma esplêndida entrada para a vitelinha que haveria de vir. Mas isso, nos dias que correm, seria já refeição a pedir uma segunda hipoteca da casa.
É. Os bolinhos "de morrer por mais" são no Minho - bem o sabia mestre Aquilino. Em Fafe, é claro, mas também no Manuel Padeiro e no Gaio, em Ponte de Lima e em dias sim, ou no desaparecido Conselheiro, em Paredes de Coura, no tempo do saudoso amigo Vilaça Pinto, sempre. Em sítios assim, que os havia bons e tantos, e cá em casa também nos ajeitamos, mas não servimos para fora...

Os piores bolinhos de bacalhau do mundo eram em Penafiel, num pequeno café cujo nome não interessa. Três mesas, dois jornais, um balcão sumário e a simpatia imensa do dono. Os bolinhos eram tão maus, tão esplendidamente maus, que eu nunca falhava quando por lá passava a horas de aperitivar. Metia o pé no degrau da entrada, ao baixo, e saía logo meia dúzia de pedras de gelo directamente da arca frigorífica para a fritadeira de óleo cansado, que é "Para o senhor, para serem fresquinhos". Eu agradecia a deferência e reservava-me. Cinco minutos, não mais. As pedras de gelo vinham para a mesa a ferver e a pingar, agora em forma aparentada com a dos verdadeiros bolinhos de bacalhau, queimavam-me a boca e antes assim, que enganavam o paladar. Não sabiam ao bacalhau que não tinham, mas também não sabiam à batata que eram só. Escangalhavam-se ao toque. Eram extraordinariamente intragáveis e eu comia-os. Já disse: o patrão era gente boa e tinha três mesas e dois jornais diários no estabelecimento. Sei dar valor às coisas verdadeiramente importantes. Para apagar o incêndio, bebia uma taça de um obscuro vinho branco de cápsula que sabia a remédio mas não me fazia bem.
A minha mulher e eu descobrimos o cafezinho por acaso e levei lá três ou quatro amigos. Para provarem "os piores bolinhos de bacalhau do mundo", era o que lhes prometia, e os amigos depois concordavam comigo. Aqueles bolinhos nunca me deixaram ficar mal. Mereciam um prémio.
Até porque nos abriam horizontes. A seguir, íamos à Pita Arisca, em Lousada, comer talvez o melhor cabrito assado do mundo...

Os de Lisboa, lisboetas de gema ou simpatizantes, têm a mania de chamar "pastéis de bacalhau" aos bolinhos de bacalhau. Néscios! É como os pândegos dos franceses chamarem "fromage" a uma coisa que toda a gente sabe que é queijo e foi inventada em Ponte do Lima. Aqui atrasado, o Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre bolinhos de bacalhau no jornal Público. O bom do Miguel nasceu na capital, estudou em Inglaterra e confessa que só muito recentemente é que descobriu a sério o Minho. Também ele chama "pastéis de bacalhau" aos bolinhos do mesmo, mas é o Miguel, está desculpado.
O jornal é que não. Lembro-me de uma vez em que o periódico da Sonae reuniu "dois painéis de jornalistas" da casa e "especialistas em gastronomia", um painel em Lisboa e outro painel no Porto, para provarem bolinhos de bacalhau comprados fresquinhos "em diferentes pastelarias nas duas cidades". A notícia dizia que o resultado foi uma desilusão completa: as amostras recolhidas revelaram-se todas incompetentes.
Mas de que é que estariam à espera os ilustres paineleiros? Bolinhos de bacalhau em Lisboa e no Porto? E em pastelarias e cafés, percebi bem? Panikes e croissants com chocolate, isso é que os dois comités de sábios deviam ter provado. Pedissem eles arroz de grelos, pastelões de petinga, pataniscas ou caldo de nabos, e seria o mesmo desastre. Os cafés e as pastelarias do Porto e de Lisboa não são para esses preparos. Vá lá, o caldo de nabos... talvez.

Agora. Hoje são "os 21", em pleno Agosto, dia maior das Festas em Honra de Nossa Senhora da Saúde, ou Festa da Lameira, "Lameira de Agosto" ou simplesmente Lameira, que pertence à freguesia do Rego, ou São Bartolomeu do Rego, Celorico de Basto, mas para os velhos fafenses era e é como se fosse Fafe. Antigamente, neste dia, havia por lá uma valente feira de gado, e uma vez uma vaca espantou-se não sei com quê, soltou-se do sítio onde estava a guardar e correu o arraial inteiro de uma ponta a outra a espalhar o pânico e o caos em direcção à Pica, escornando e escoiceando a torto e a direito, desfazendo tendas, barracas e ornamentações, invadindo tascos e casas sérias, saltando para cima de carros e outros veículos mais ou menos motorizados e levando à frente aquele povo todo, aflito e tolo que não sabia aonde se havia de meter, anjinhos e mordomos incluídos. Eu, muito bem entrincheirado, ri-me como um perdido. Quer-se dizer: a coisa não constava do programa, mas foi uma bonita tourada...

sábado, 8 de julho de 2023

Fafe, a las cinco de la tarde

Foto Juan Carlos Cardenas/Lusa

E quem cuidava que não, pois que se desengane: Fafe também foi aos touros. No Campo da Granja, em 1963, provavelmente por ocasião das Festas da Senhora de Antime, que é o mais certo, mas também poderá ter sido por alturas das Feiras Francas, lembro-me é que era um belo dia de sol e, agora que penso nisso com mais vagar, não faço a mínima ideia de como é possível lembrar-me. Uma tourada que terá sido a primeira realizada em terras de Fafe e que, se não me engano, foi igualmente a única, até hoje, com touros propriamente ditos. O redondel não era assim tão redondo como o nome poderia indicar à partida: digamos que foi construída, com robustos troncos de madeira, uma espécie de lua cheia fanada, cortada em linha recta na zona da bancada, que era para o excelentíssimo público poder estar em cima do acontecimento. As digníssimas autoridades locais e a nossa mais distinta burguesia, orgulhosamente alapadas na bancada de cimento com tecto de zinco, quero crer que com umas discretas almofadinhas aliviando os respectivos traseiros, e o povo a pé, no meio do campo da bola, encostado às tábuas, mas seria muito pouco, meio dúzia de gatos-pingados, se tanto, e eventualmente já razoavelmente decilitrados, porque os bilhetes, mesmo os bilhetes mais baratos, eram caros como o caralho. Foram certamente ao engano e, diga-se em sua defesa, o calor era realmente muito e a situação deveras incómoda e eventualmente perigosa. Se naquele tempo já havia praças de toiros desmontáveis e alugáveis, não foi daquela vez que uma delas chegou a Fafe.
A tourada, segundo me lembro, e confesso que continuo sem perceber como é que me lembro, foi uma merda. Compreendo portanto que a autarquia fafense vire as suas modernas prioridades para outras lides. Para as chegas de bois, para as largadas de perdizes, para as montarias ao javali, para as exposições e concursos de beleza canina ou columbófila, para as corridas de cavalo a passo travado e de salto alto, para as batidas à raposa, que é o que nos faz falta. Um destes dias ainda tornaremos, se Deus quiser, à nossa ancestral porém nunca desmentida caça aos gambozinos, com organização camarária, estacionamento gratuito, pequeno-almoço, almoço, merenda, jantar e tudo. Tenho uma fé muito grande nos nossos conspícuos guiadores e guiadoras, quem dera que não chova, e olé!

Por outro lado. A malta mais nova se calhar não faz ideia da revolução que é ter espectáculos à borla, como acontece hoje em dia, nomeadamente nas Festas da Cidade, e só tenho a elogiar a autarquia por isso. Antigamente, e naquele tempo a pobreza era modo de vida, regra geral, em Fafe pagava-se por tudo e por nada. Só faltava andarem os fiscais da Câmara a passar bilhete, no Largo e em Cima da Arcada, a quem fosse apanhado a olhar para o fogo-preso do Jardim do Calvário...

P.S. - "A las cinco de la tarde", agora assunto sério, é um dos mais conhecidos textos de Federico García Lorca. "La cogida y la muerte", assim se chama de origem o poema, no livro "Llanto por Ignacio Sánchez Mejías".

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Bravo!, bravo!, bravo!, gritou-se na ópera

O São Carlos rebentando pelas costuras, o público, conhecedor, finíssimo, lisboeta, num delírio de palmas compassadas e gritos comedidos (os chamados gritinhos): - Bravo!, bravo!, bravo!...
O touro, um Miura rondando os 650 quilos, assomou à boca de cena e agradeceu, composto e patriótico: - Gracias, muchas gracias!...

P.S. - O Teatro Nacional de São Carlos, a nossa Ópera, começou a ser construído no dia 8 de Dezembro de 1792. 

domingo, 11 de julho de 2021

Os toureiros protestam. E os touros?

Junho de 2020. Três cavaleiros tauromáquicos e um antigo forcado acorrentaram-se às grades do Campo Pequeno, Lisboa, em protesto contra o Governo, que não havia maneira de autorizar a "reabertura" das touradas. E cá voltamos ao mesmo: e os touros o que é que tinham a dizer sobre o assunto? Foram ouvidos como parte interessada? O direito ao contraditório foi respeitado e exercido em toda a sua plenitude?

domingo, 16 de maio de 2021

Os toureiros protestam. E os touros?

Três cavaleiros e um antigo forcado acorrentaram-se às grades do Campo Pequeno, Lisboa, em protesto contra o Governo, que não havia meio de autorizar a "reabertura" das touradas, informava o jornal em tempo de pandemia. E cá voltamos ao mesmo: e os touros o que é que têm a dizer sobre o assunto? Foram ouvidos como parte interessada? O direito ao contraditório foi respeitado e exercido em toda a sua plenitude?

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Bravo!, bravo!, bravo!, gritou-se na ópera

O São Carlos rebentando pelas costuras, o público, conhecedor, finíssimo, lisboeta, num delírio de palmas compassadas e gritos comedidos (os chamados gritinhos): - Bravo!, bravo!, bravo!...
O touro, um Miura rondando os 650 quilos, assomou à boca de cena e agradeceu, composto e patriótico: - Gracias, muchas gracias!...

P.S. - O Teatro Nacional de São Carlos, a nossa Ópera, começou a ser construído no dia 8 de Dezembro de 1792.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Bravo!, bravo!, bravo!, gritou-se na ópera

O São Carlos rebentando pelas costuras, o público, conhecedor, finíssimo, lisboeta, num delírio de palmas compassadas e gritos comedidos (os chamados gritinhos): - Bravo!, bravo!, bravo!...
O touro, um Miura rondando os 650 quilos, assomou à boca de cena e agradeceu, composto e patriótico: - Gracias, muchas gracias!...

P.S. - Publicado originalmente no dia 20 de Fevereiro de 2017. O Teatro Nacional de São Carlos, a nossa Ópera, foi inaugurado no dia 30 de Junho de 1793.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Passodoblando

Quando o poeta disse "Entram velhas doidas e turistas, entram excursões, entram benefícios e cronistas, entram aldrabões, entram marialvas e coristas, entram galifões de crista", alguém perguntou: - Mas quem caralho é o porteiro?...

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Tourada em Fafe

Campo da Granja, 1963. Uma tourada que terá sido a primeira realizada em terras de Fafe e que, se não me engano, foi a única, até hoje, com touros. Fui lá com o meu vizinho Zé da SIF "ajudar" a instalar os altifalantes. O redondel não era assim tão redondo como o próprio nome poderia indicar: digamos que foi montada uma espécie de lua cheia fanada, cortada em linha recta na zona da bancada, que era para o excelentíssimo público poder estar em cima do acontecimento. Pronto. Lembram-se da bancada do Campo da Granja? Lembram-se sequer do Campo da Granja? Sabem onde era o Campo da Granja? Sabem ao menos o que era o Campo da Granja, para além da óbvia redundância? Ai a memória...
E era isto. Se, por causa do título e da lamentável agenda política local, pensavam que era outra coisa é porque confundem as prioridades da vida. Já agora: a tourada foi igualmente uma merda. E olé!...

P.S. (nem de propósito) - Escrevi e publiquei este texto no dia 7 de Outubro de 2013, mas hoje também está bem...

sábado, 21 de julho de 2012

As minhas férias

As minhas férias foram ontem. Peguei na mulher e ala para a Póvoa! Saíamos depois de almoço, mas para mim o almoço já conta como férias. Comemos dois bijus, um para cada, levantámos a mesa, varremos a sala, lavámos a louça, regámos os vasos, desligámos a água, a luz e o gás, fechámos a porta com três chaves e uma tranca, pedimos à vizinha que deitasse os olhos às janelas e lá fomos apanhar o metro. A viagem correu muito bem. Correu é uma forma de dizer, porque tem transbordo e muitas paragens, mas viagens de férias são mesmo assim. Para entreter, contámos com a inesperada companhia e animação do mediático Fernando Alves, o artista que está sempre onde a televisão estiver. Pensei primeiro: com quem é que joga o Varzim? Mas qual Varzim?, pensei depois. E afinal era por causa da tourada. Ia dar à noite na RTP1.
A Póvoa estava cheia, como costuma acontecer nesta época do ano, certamente por causa do tempo. Mas há cada vez mais andares e apartamentos para vender e quartos por alugar. A língua oficial da Póvoa de Varzim, entre os meses de Junho e Agosto, é o francês com caralhos no meio. Eu e a minha mulher foi como se estivéssemos no estrangeiro, embora com caralhos no meio, e ainda há um bocadinho tínhamos saído de casa. Por falar nisso, liguei à vizinha para saber se estava tudo bem. E estava. Mais logo vou pagar-lhe o roaming.
Aproveitámos as férias em cheio. Olhámos para o casino e para o Cego do Maio, fomos espreitar as montras com bolos, a praia, os banhos e as banhas. Fomos às piscinas, ao museu, à biblioteca e ao estádio, sempre pelo lado de fora, para não incomodar. Já que era dia de corrida, demos um salto às traseiras da praça de touros e vimos os cavalos. Reparei: os cavalos de toureio são tratados com todos os mimos e cuidados, como se fossem da família. Um dos animais até estava a levar uma injecção no pescoço.
Não percebo quem diz que não tem dinheiro para ir de férias. Eu e a minha mulher fomos e às 18h30 já estávamos outra vez em casa. Mais: resolvi fazer um prolongamento extraordinário das férias e demo-nos ao luxo de jantar. Dois bijus, um para cada.
As minhas férias ficaram-me por 10,65 euros. Ora portanto, 24 cêntimos dos dois pães do almoço, dez euros de dois andantes Z5 (cartões incluídos) para as viagens Matosinhos-Póvoa de Varzim e Póvoa de Varzim-Matosinhos, mais os 24 cêntimos dos papos-secos do jantar, uma extravagância, e 17 cêntimos da chamada para a vizinha. Total: 10,65 euros, com todas as taxas incluídas. Foi um bocado puxado, é verdade, e não dá para descontar no IRS, mas é uma questão de nos organizarmos durante o resto do ano. O que é preciso é saber fazer "uma boa aplicação dos recursos" que temos, como muito bem disse, em devido tempo, o senhor primeiro-ministro.
A minha mulher queria ir a uma agência de viagens, para ver se a coisa nos saía mais em conta. Como se nós fôssemos uns necessitados! Mandei-a dar uma volta e ela passou as férias todas sem me falar. Está agora a ver a tourada da Póvoa na televisão. Eu não, mas gostei muito das minhas férias, que até meteram celebridades e cavalos. Para o ano, se Deus quiser e o metro e o pão não encarecerem, lá estamos outra vez.

Tenho agora muito gosto em partilhar as fotos das minhas férias:

Foto Hernâni Von Doellinger - o almoço
Foto Hernâni Von Doellinger - o metro
Foto Hernâni Von Doellinger - a viagem

Foto Hernâni Von Doellinger - o Dr. Fernando Alves
Foto Hernâni Von Doellinger - a praia da Póvoa
Foto Hernâni Von Doellinger - a injecção