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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A vida aprende-se de ouvido

Já dizia Salomão
Nem oito nem oitenta. Digamos, trinta e seis.

"Doze, rebaldoze, vinte e quatro com catorze, dezasseis mais vinte e um - faz um cento menos um." Esta ensinou-ma o meu avô da Bomba, sem mais tempero. Eu teria sete, oito anos e não sabia de Alves Redol e de "Gaibéus". O Bô decerto também não. Mas é assim. A vida aprende-se de ouvido.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Alves Redol 8

Naquela noite, na praia de areia fina, onde os avieiros pelo Inverno vêm puxar as redes, só se ouvia o marulhar brando do Tejo a acariciá-la.
Estava noite de luar. Um luar brando de Outono que vestia as coisas de penumbra triste. Piscavam luzes na outra margem, dispersas aqui e além, mais ali reunidas, como num concílio de estrelas. Eram constelações de vidas, todas iguais vistas de longe.
A luz que iluminava o senhor não brilhava mais do que a outra que alumiava o servo. Ali não havia casebres, nem palácios. Todas eram irmãs, como ar; estrelas da Estrada de Santiago que polvilhavam de oiro o azul-negro.

"Gaibéus", Alves Redol 
 
(Alves Redol nasceu no dia 29 de Dezembro de 1911. Morreu em1969.)

domingo, 29 de dezembro de 2019

Alves Redol 7

O meu amor disse à mãe
que me havia de deixar.
Agora deixo-o eu;
tome lá, vá-se gabar!

Alves Redol

(Alves Redol nasceu no dia 29 de Dezembro de 1911. Morreu em 1969.)

sábado, 29 de dezembro de 2018

Alves Redol 6

Caminhavam aos grupos, aturdidos. De fatos assolapados por remendos, de barretes e chapéus puxados para os olhos, ficava-lhes mais sombrio o parecer dos rostos tisnados pelas soalheiras da vindima.
Enrolavam-se alguns em gabões desbotados, trazendo ao ombro sacos e foices, paus e caldeiras.
E as mulheres, embrulhadas em xailes desfiados ou saias de casteleta pelos ombros, marchavam silenciosas, de pés descalços.
Sentiam saudades da terra que lhes negava o pão. Saudades bem fundas, catano! Vir de tão longe...
E se lá havia pão para todos! Mal tinham acabado os dias fadigosos das vindimas, ainda o vinho saía ao pipo, já as aldeias se despovoavam para a Borda-d'Água. Era um êxodo de desgraça e susto. Que iriam encontrar por ali?!...
Alguns alugados desde há muito; outros vencidos, finalmente, pela escassez dos últimos dois anos.
- Nunca se viu coisa assim!... A terra parece praguejada.
E sempre a pior. Todos os anos esperanças novas e a resposta matava-as.

"Gaibéus", Alves Redol

(Alves Redol nasceu no dia 29 de Dezembro de 1911. Morreu em 1969.)

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Alves Redol 5

O ar viciado entontecia-o à entrada, mas depois acabava por se habituar, procedendo em tudo como no tempo em que conferenciava com o avô. Adivinhava que o espreitavam por toda a parte, donde se podia avistar o mirante. E ali se conservava durante uma hora, pelo menos, sempre de pé, em atitude respeitosa, junto da mesa onde Diogo Relvas permanecia embalsamado e jovial.
Tirava-lhe o chapéu, dava-lhe uns borrifos de éter e escovava-lhe as barbas e o cabelo, de maneira a evitar que tomassem aquele aspecto de juta velha. Depois abria as cortinas para que todos assistissem ao encontro, deixando cerrada a janela que deitava para o poente, não se desse o caso de o sol lhe queimar o velho.


"Barranco de Cegos", Alves Redol

(Alves Redol nasceu no dia 29 de Dezembro de 1911. Morreu em 1969.)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Alves Redol 4

Viajar

Viajar é correr mundo,
voar mais alto que os pássaros
ou pisar o chão da terra
ou as ondas do mar alto...
É ver bichos
de muitas cores e feitios,
montanhas,
rios,
e ribeiros
e pessoas
e lugares...
Conhecer e descobrir,
inventar e duvidar,
sabendo cada vez mais,
sem nunca pensar que basta
o mundo que se conhece.
E alargá-lo com amor
dentro de nós e dos outros.


"Uma Flor Chamada Maria", Alves Redol

(Alves Redol nasceu no dia 29 de Dezembro de 1911. Morreu em 1969.)

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Alves Redol 3

Tem doze anos, mas não deitou muito corpo para a idade. Ainda está a tempo. Um homem cresce até ao fim da vida, se não em altura, pelo menos em obras e ambições. E nisso promete.
Por voto do padrinho e assentimento dos pais, recebeu no registo o nome de Constantino. É um nome bonito, sim senhor. Na aldeia não há outro igual, e isso é bom, pensou a mãe; escusa uma pessoa de matar a cabeça como em certas casas em que os homens usam o mesmo nome e ninguém se entende. Na Chamboeira conheceu ela uma mulher, a Ti Pirralha, metida num inferno de portas adentro por causa de o marido, o filho e o neto se chamarem António.
Enquanto o rapaz foi pitorro, tudo correu bem. Um era o António Grande, o outro só António e o mais novo o António Pequeno. O rapaz, porém, deitou muito corpo, e depressa, enquanto o avô continuou cartaxinho, cartaxinho e melindroso, pois começou a pôr-se de vidro fino quando a mulher lhe chamava Grande, vendo nisso uma artimanha dela para se vingar de certas desfeitas que lhe fazia quando bebia um copo a mais.
"Grandes são os burros", refilava então o velho, muito rezingão, com reumático nas cruzes, umas dores parvas como dentadas de lobo. Mas andou tudo raso naquele casal quando a Ti Pirralha o tratou por António Velho para chamar Novo ao neto, o que incendiou o marido, e de tal jeito que a mulher teve de se esconder três dias em casa duma vizinha.
"Velhos são os trapos!", gritava o António Pirralha chamando corja ao povo inteiro da sua aldeia - que não gostava muito dele, valha a verdade.
Foi isto mais ou menos o que a mãe do Constantino lembrou ao marido para defender o nome escolhido pelo compadre. Constantino era um nome bonito para rapaz.

"Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos", Alves Redol

(Alves Redol nasceu no dia 29 de Dezembro de 1911. Morreu em1969.)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Alves Redol 2

Ia já para três dias que o tractor parara e a regadeira não via pinga de água trasfegada do Tejo. 
O arrozeiro, apertado pelo patrão, andava numa dobadoura, por marachas e linhas, a deitar olho aos canteiros de espiga mais loira, fazendo piques, agora aqui, agora ali, para que as águas fossem caminhando para a vala de esgoto e os ranchos pudessem meter foices no arrozal. 
De pá ao alto, descansada no ombro, o "seu Arriques" já pensava na volta a casa, pois da sangria à recolha do bago poucas semanas iam. 
- Que rica seara! Andei-me nela que nem sombra atrás d’alma penada, mas o patrão arrinca para cima de quarenta sementes. Se os outros a pudessem comer côa inveja... 
E lançava a vista sobre o manto de panículas aloiradas, que os camalhões percintavam e a aragem branda enrugava, como mareta em oceano de oiro. 
Mais além e aqui, uma mancha ou outra de verde a denunciar o cromo que o sol lhe arrancava, indício de algum cabeço que as enxadas, no armar da terra, não haviam derrubado. 
- S’o patrão não andasse de fogo no rabo por mor do rancho, seis dias de molho davam-lhe uns saquitos bem bons. Assim... ainda adrega uma seara como por aqui não há outra. 
Andava por oito meses que corria aqueles combros de alto a baixo. Primeiro, de bandeirolas a tirar miras para o erguer das travessas e a mandar homens na rebaixa, até os tabuleiros poderem receber uma lâmina de água para a sementeira; depois, a dirigir aquele caudal que todos os dias entrava Lezíria dentro, pela regadeira mestra, não fossem afogar-se os pés de arroz ou morrer alguns por míngua. 
Quantas noites não pregara olho a traçar planos para os canteiros da ponta de baixo que pareciam avessos a receber frescura? Então, erguia-se da esteira para percorrer o arrozal, levando as estrelas por camaradas mais a endecha da água e o zangarreio das rãs.

"Gaibéus", Alves Redol

 (Alves Redol nasceu no dia 29 de Dezembro de 1911. Morreu em1969.)

domingo, 29 de dezembro de 2013

Alves Redol

Não era por seu gosto que o funeral se encaminhava para o cemitério de Aldebarã. Nem todos os mortos merecem a mesma sepultura, essa é que é a verdade, por muito que doa aos vivos. Na morte não somos não, não somos todos iguais. Nem sequer perante Deus, tinha a certeza. Se Deus não dorme...
A terra daquele cemitério era sua, como a aldeia e tudo o que lhe ficava à volta. E ali era ele quem mandava, não precisara de o lembrar à filha. Já marcara o lugar para o genro - seria metido num dos jazigos da família, no dos aparentados ao pé das mulheres, das crianças e dos homens; de certos homens que disso pouco mais tinham do que o corpo. De cova aberta no chão, bem funda, só os que davam à terra o que ela merecia. Tradição herdada do avô, não seria ele quem iria traí-la, porque ali estava, sozinho podia dizê-lo, desde os quinze anos, de dentes cerrados e corpo jogado para diante na mesma luta sem quartel.
Sabia que lhe cumpria vencer; não desconhecia os inimigos, mas sentia os pés firmes no chão que pisava. Tinha de os pôr firmes, bem assentes: Ah! sim, abdicara de muita coisa que um jovem pode desejar quando lhe levam o pão à boca! Arcara com horas terríveis e amargas, bebera muitas lágrimas, sem deixar verter uma só, desde o dia em que o pai entrara ao portão da quinta, pronto a morrer, às costas do Manel Fandango, sem queixa que se lhe ouvisse do corpo esfrangalhado.
Matara-o uma égua de pêlo-rato, desenfreada, ao atirar com ele de encontro a uma oliveira, na fúria dum galope. Exactamente em Janeiro, a 13 de Janeiro, às cinco e vinte e cinco da tarde. Há vinte e nove anos que era ele, pois, o chefe da casa. E, enquanto assim fosse, naquele talhão mais alto do cemitério, donde se viam chãs aleziriadas e a veia do Tejo, só entrariam patrões e criados, sem distinção de coval, quando o quinhão oferecido por eles à terra merecesse que esta os guardasse. Esses, sim, ficariam todos iguais na morte, quase de ombro com ombro no sossego eterno, em campa rasa. Menos de um palmo de terra a marcar, em lomba, a linha do esquife, uma cruz de madeira, uma legenda simples, mais aprimorada para o servo afeiçoado do que para o senhor. E os vivos que lhe dessem améns no coração.
"Essa é a única e boa maneira de o homem se alongar para além da morte", concluía Diogo Relvas, sempre que alguém lhe falava do panteão da casa.
Agora caminhava logo atrás da urna com o corpo de Rui Portela Araújo, seu genro. Seguia-a de cabeça erguida, quase arrogante, como se buscasse no céu, lá longe, algum sinal desejado para adivinhar o que se seguiria àquela semana trágica.
A corrida ao dinheiro prosseguia, alucinada. Lutava-se, a murro, por moedas de oiro à porta dos banqueiros ou por um lugar nas bichas das tesourarias. Todos queriam receber e ninguém pensava em pagar. Num golpe de melodrama, o Freitas dos Cereais - quem não conhecia o Freitinhas? - metera uma bala na cabeça, à porta do gabinete do director de certo banco que lhe recusara o pagamento dum cheque, por falta de numerário na caixa despejada. Fraco de sangue, embora até ali sobranceiro por causa dos seus interesses nos caminhos-de-ferro e na finança, o genro viera morrer-lhe a casa, numa fuga espantada, quando os depositantes fizeram a primeira corrida à caixa do banco de que era director e accionista. Graças a Deus, duas vezes graças, por ter exigido separação de bens em troca do consentimento para que a Emília Adelaide casasse aos dezassete anos. E agora aos vinte era viúva, uma menina ainda. Que mais lhe estaria guardado com dois filhos nascidos e outro no ventre? Poderia ele protegê-los?! Não diria dos azares da fortuna, mas das baldas de sangue dos Araújos, valdevinos e soberbos.
Era nisso que pensava agora.

"Barranco de Cegos", Alves Redol

(Alves Redol nasceu no dia 29 de Dezembro de 1911. Morreu em 1969.)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Lengalenga

Doze, rebaldoze, vinte e quatro com catorze, dezasseis mais vinte e um - faz um cento menos um. Esta ensinou-ma assim o meu avô da Bomba. Eu teria sete, oito anos e não sabia de Alves Redol e de "Gaibéus". O inefável Dezassete decerto também não. A vida aprende-se de ouvido.