sábado, 15 de agosto de 2026
Caracol
Riminha
leva a casa
a tiracol.
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Dia de Portugal, por António Arnaut
Dia de Portugal. Dia de Camões
e das Comunidades.
O Presidente distribui condecorações
na feira das vaidades.
País de heróis e de santos
à beira mar enterrado.
Nunca outra Pátria teve tantos,
assim, por atacado.
António Arnaut
sábado, 21 de março de 2026
Quando, de Sophia
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
"Dia do Mar", Sophia de Mello Breyner Andresen
(Embora não pareça, hoje, 21 de Março, é Dia Mundial da Poesia)
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Noventa mil quilómetros quadrados
Noventa mil quilómetros quadrados
de ousadia e sofrimento:
A oriente, a Espanha,
A norte, a terra galega.
A sul e ocidente, a dor tamanha
Do mar que já não chega,
Mas onde ainda ficaram,
Talhadas em rocha dura,
As ilhas que semearam
as pegadas da aventura.
"Recolha Poética (1954-2017)", António Arnaut
Queria que os portugueses
Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor
sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal
todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler
teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura
e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale
até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião
que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira
alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto
se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia
deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.
"Poemas", Agostinho da Silva
P.S. - Hoje é Dia da Geografia Portuguesa.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Lembrando David Mourão-Ferreira
Ó grande plenitude!
E a tudo
a tudo alheio,
saboreio.
Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras...
Este cacho de curvas que é o teu corpo.
David Mourão-Ferreira
(David Mourão-Ferreira nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1927)
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Um homem e seu carnaval, segundo Drummond
Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.
"Brejo das Almas", Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
Passagem do ano, segundo Drummond de Andrade
O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,
Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
"A Rosa do Povo", Carlos Drummond de Andrade
sábado, 8 de junho de 2024
Sete mares e mais um
Mar Telo
Mar Celo
Mar Mita
Mar Mota
Mar Sapo
Mar Fim
Mar Ibela e Seu Rola-Rola.
domingo, 14 de abril de 2024
O poeta do sol
quarta-feira, 9 de agosto de 2023
Mário Cesariny ó meu deus de Vasconcelos
Se fosse vivo, Mário Cesariny festejaria hoje o seu centenário. O que, apesar de tudo, não deixa de ser extraordinário.
quinta-feira, 20 de outubro de 2022
Guia de marcha
Esquerdo direito ope dois
Esquerdo
Esquerdo
Esquerdo
Esquerdo direito ope dois
Esquerdo direito ope dois
Erdo
Erdo
Erdo
A raiz ao pensamento
quinta-feira, 17 de março de 2022
Mudam-se os tempos, mudam-se as vaidades
segunda-feira, 14 de março de 2022
O peso da poesia
- Era dois poemas de trinta gramas, se faz favor!
- Os dois?
- Cada.
- Sessenta gramas de poesia, quer dizer...
- Mas em doses separadas.
P.S. - Hoje, 14 de Março, é Dia Nacional da Poesia. No Brasil.
sexta-feira, 16 de julho de 2021
Mário Dionísio 8
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
- e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
quinta-feira, 15 de julho de 2021
Luísa Villalta 6
debuxa o lento amañecer sobre o teu corpo,
a mesma man que onte á noite un a un
baixou os doces degraus da tua camisa,
descorreu a cortina do artifício,
puxo o tempo a brillar na tua pel
e no teu sexo, agora tan sereo.
A man, esta man, conten-no todo,
o balcón do teu dormir sobre o meu leito,
o teu soño de onte e de desexo
e a selva de mañá, a incógnita, a cegueira.
Ela fabrica o teu molde desde o saúdo
con que te vin perto de min por vez primeira,
co tacto doutros corpos e os seus buques
de adeuses, guerras, leviandades
xoguetes rotos de risas desafiadas
De ti recebe o gozo de mover-se, esta man,
artesá da matéria dunha vida
e tamén do vacio impreso en lume
con que te volverá a formar despois, no frio.
[...]
"Apresados Sen Presa", Luísa Villalta
(Luísa Villalta nasceu no dia 15 de Julho de 1957. Morreu em 2004.)
segunda-feira, 12 de julho de 2021
Manuel Antonio 5
Intencións
Encheremos as velas
coa luz náufraga da madrugada
Pendurando en dous puntos cardinais
a randeeira esguía
do pailebote branco.
Coas suas mans loiras
acenan mil adeuses as estrelas.
Inventaremos frustradas descubertas
a barlovento dos horizontes
para acelerar os abolidos corazóns
dos nosos veleiros defraudados.
Halaremos polo chicote
dun meridiano innumerado
Na illa anónima
de cada singradura
esculcaremos o remorso da cidade
Ela noctámbula desfollará
como unha margarida prostibularia
a Rosa dos Ventos do noso corazón.
Encadearemos adeuses de escuma
pra tódalas prayas perdidas
Xuntaremos cuardernos en branco
d' a novela errante do vento
Pescaremos na rede dos atlas
ronseles de Simbad
E cazaremos a vela
sobre o torso rebelde das tormentas
pra trincar a escota dunha ilusión.
"De Catro a Catro", Manuel Antonio
(Manuel Antonio nasceu no dia 12 de Julho de 1900. Morreu em 1930.)
quarta-feira, 30 de junho de 2021
Joaquim Namorado 5
Fábrica
Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto liso e frio dos metais,
a segura confiança
do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:
é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento;
como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.
Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;
as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a fábrica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.
(Joaquim Namorado nasceu no dia 30 de Junho de 1914. Morreu em 1986.)