Queria que os portugueses
Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor
sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal
todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler
teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura
e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale
até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião
que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira
alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto
se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia
deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.
"Poemas", Agostinho da Silva
P.S. - Hoje é Dia da Geografia Portuguesa.
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Queria que os portugueses
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segunda-feira, 14 de março de 2022
O peso da poesia
- Era dois poemas de trinta gramas, se faz favor!
- Os dois?
- Cada.
- Sessenta gramas de poesia, quer dizer...
- Mas em doses separadas.
P.S. - Hoje, 14 de Março, é Dia Nacional da Poesia. No Brasil.
sexta-feira, 16 de julho de 2021
Mário Dionísio 8
Arte poética
A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
- e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
- e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
"Poemas", Mário Dionísio
(Mário Dionísio nasceu no dia 16 de Julho de 1916. Morreu em 1993.)
sexta-feira, 30 de abril de 2021
Alda do Espírito Santo 5
Em torno da minha baía
Em torno da minha baía
Aqui, na areia,
Sentada à beira do cais da minha baía
do cais simbólico, dos fardos,
das malas e da chuva
caindo em torrentes
obre o cais desmantelado,
caindo em ruínas
eu queria ver à volta de mim,
nesta hora morna do entardecer
no mormaço tropical
desta terra de África
à beira do cais a desfazer-se em ruínas,
abrigados por um toldo movediço
uma legião de cabecinhas pequenas,
à roda de mim,
num voo magistral em torno do mundo
desenhando na areia
a senda de todos os destinos
pintando na grande tela da vida
uma história bela
para os homens de todas as terras
ciciando em coro, canções melodiosas
numa toada universal
num cortejo gigante de humana poesia
na mais bela de todas as lições:
Aqui, na areia,
Sentada à beira do cais da minha baía
do cais simbólico, dos fardos,
das malas e da chuva
caindo em torrentes
obre o cais desmantelado,
caindo em ruínas
eu queria ver à volta de mim,
nesta hora morna do entardecer
no mormaço tropical
desta terra de África
à beira do cais a desfazer-se em ruínas,
abrigados por um toldo movediço
uma legião de cabecinhas pequenas,
à roda de mim,
num voo magistral em torno do mundo
desenhando na areia
a senda de todos os destinos
pintando na grande tela da vida
uma história bela
para os homens de todas as terras
ciciando em coro, canções melodiosas
numa toada universal
num cortejo gigante de humana poesia
na mais bela de todas as lições:
HUMANIDADE.
"É Nosso o Solo Sagrado da Terra", Alda do Espírito Santo
(Alda do Espírito Santo nasceu no dia 30 de Abril de 1926. Morreu em 2010.)
(Alda do Espírito Santo nasceu no dia 30 de Abril de 1926. Morreu em 2010.)
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sábado, 23 de janeiro de 2021
João Ubaldo Ribeiro 7
Até a morte eu me atormentarei
Pelo que descobri e não encontrei,
Pelo que, pascaliano como sou,
Eu compreendi, e ainda assim maldigo.
Sou o idiota mais perfeito, aliás,
Por feito mais de carne que de gás.
É esse o fado que me leva adiante,
Num mundo para o qual não sou prestante.
Tudo o que tenho as mulheres me deram,
Consolação, razão para existir.
Benditas Berenices, Beneditas.
Também sejam benditos meus amigos,
Pois gosto deles, tenham longa vida,
E até eu mesmo que não a mereço,
Mas que a observo e sei qual é seu preço.
Pelo que descobri e não encontrei,
Pelo que, pascaliano como sou,
Eu compreendi, e ainda assim maldigo.
Sou o idiota mais perfeito, aliás,
Por feito mais de carne que de gás.
É esse o fado que me leva adiante,
Num mundo para o qual não sou prestante.
Tudo o que tenho as mulheres me deram,
Consolação, razão para existir.
Benditas Berenices, Beneditas.
Também sejam benditos meus amigos,
Pois gosto deles, tenham longa vida,
E até eu mesmo que não a mereço,
Mas que a observo e sei qual é seu preço.
João Ubaldo Ribeiro
(João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 de Janeiro 1941. Morreu em 2014.)
(João Ubaldo Ribeiro nasceu no dia 23 de Janeiro 1941. Morreu em 2014.)
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
Adalgisa Nery 8
Instante
O espanto abriu meu pensamentoCom idioma vindo do delírio,
Dos receios indefesos, dos louvores sem raízes,
No perdão oferecido sem razão.
O espanto abriu meu pensamento
Na noite carregada de lamentos
Em linguagem universal
Fluindo do eco perdido
Com passos de presságio amanhecendo.
Corpos florindo na pele da terra
Acendendo vida nas rosas e nos vermes,
Aumentando a potência do limo,
Preparando a primavera nos campos,
Ventres irrigando secas raízes,
Cogumelos róseos crescendo
Na umidade das faces.
Coagulação de prantos na semente
Das constelações adivinhadas.
E no faminto inconsciente, o tempo
Sorvendo com fúria o seu sustento
No insondável silêncio de mim mesma.
"Erosão", Adalgisa Nery
(Adalgisa Nery nasceu no dia 29 de Outubro de 1905. Morreu em 1980.)
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
Walker Luna 4
Me ressinto de palavras.
Conserva o teu silêncio.
Em mim, os mares e os desertos
súbito se desgastam
só para te dar espaço.
Walker Luna
(Walker Luna nasceu no dia 6 de Agosto de 1925. Morreu em 2007.)
Conserva o teu silêncio.
Em mim, os mares e os desertos
súbito se desgastam
só para te dar espaço.
Walker Luna
(Walker Luna nasceu no dia 6 de Agosto de 1925. Morreu em 2007.)
segunda-feira, 27 de julho de 2020
Salvador Golpe 6
N-un abanico
Teño que escribir uns versos,
sexa de calquer maneira,
no abanico d' unha amiga
que teño na miña aldea.
Ela é unha nena garrida,
moi xeitosa, moi ben feita,
que ten estrelas por ollos
e arreboles na meixelas.
E fresca como unhas rosas
que a brisa d' Abril randea,
y é pura como esa brisa,
e pol-o sol é morena.
E ademais de todo, e boa,
y o decir boa na terra
ten un título mais grande
que se fora unha princesa.
"A Nosa Terra", Salvador Golpe
(Salvador Golpe nasceu no dia 27 de Julho de 1850. Morreu em 1909.)
Teño que escribir uns versos,
sexa de calquer maneira,
no abanico d' unha amiga
que teño na miña aldea.
Ela é unha nena garrida,
moi xeitosa, moi ben feita,
que ten estrelas por ollos
e arreboles na meixelas.
E fresca como unhas rosas
que a brisa d' Abril randea,
y é pura como esa brisa,
e pol-o sol é morena.
E ademais de todo, e boa,
y o decir boa na terra
ten un título mais grande
que se fora unha princesa.
"A Nosa Terra", Salvador Golpe
(Salvador Golpe nasceu no dia 27 de Julho de 1850. Morreu em 1909.)
quinta-feira, 16 de julho de 2020
Mário Dionísio 7
Complicação
As ondas indo, as ondas vindo - as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.
Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.
"Poemas", Mário Dionísio
(Mário Dionísio nasceu no dia 16 de Julho de 1916. Morreu em 1993.)
As ondas indo, as ondas vindo - as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.
Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.
"Poemas", Mário Dionísio
(Mário Dionísio nasceu no dia 16 de Julho de 1916. Morreu em 1993.)
quinta-feira, 30 de abril de 2020
Alda do Espírito Santo 4
Para lá da praia
Baía morena da nossa terra
vem beijar os pezinhos agrestes
das nossas praias sedentas,
e canta, baía minha
os ventres inchados
da minha infância,
sonhos meus, ardentes
da minha gente pequena
lançada na areia
da praia morena
gemendo na areia
da Praia Gamboa.
Canta, criança minha
teu sonho gritante
na areia distante
da praia morena.
Teu teto de andala
à berma da praia
teu ninho deserto
em dias de feira,
mamã tua, menino
na luta da vida.
Gamã pixi à cabeça
na faina do dia
maninho pequeno, no dorso ambulante
e tu, sonho meu, na areia morena
camisa rasgada,
no lote da vida,
na longa espera, duma perna inchada
Mamã caminhando pra venda do peixe
e tu, na canoa das águas marinhas
- Ai peixe à tardinha
na minha baía
mamã minha serena
na venda do peixe
pela luta da fome
da gente pequena.
Alda do Espírito Santo
(Alda do Espírito Santo nasceu no dia 30 de Abril de 1926. Morreu em 2010.)
Baía morena da nossa terra
vem beijar os pezinhos agrestes
das nossas praias sedentas,
e canta, baía minha
os ventres inchados
da minha infância,
sonhos meus, ardentes
da minha gente pequena
lançada na areia
da praia morena
gemendo na areia
da Praia Gamboa.
Canta, criança minha
teu sonho gritante
na areia distante
da praia morena.
Teu teto de andala
à berma da praia
teu ninho deserto
em dias de feira,
mamã tua, menino
na luta da vida.
Gamã pixi à cabeça
na faina do dia
maninho pequeno, no dorso ambulante
e tu, sonho meu, na areia morena
camisa rasgada,
no lote da vida,
na longa espera, duma perna inchada
Mamã caminhando pra venda do peixe
e tu, na canoa das águas marinhas
- Ai peixe à tardinha
na minha baía
mamã minha serena
na venda do peixe
pela luta da fome
da gente pequena.
Alda do Espírito Santo
(Alda do Espírito Santo nasceu no dia 30 de Abril de 1926. Morreu em 2010.)
terça-feira, 29 de outubro de 2019
Adalgisa Nery 7
A um homem
Quando numa rocha porosa
Cansado te encostares
E dela vires surgir a umidade e depois a gota,
Pensa, amado meu, com carinho,
Que aí esta a minha boca.
Se teus olhos ficarem nas praias
E vires o mar ensalivando a areia
Com alegria pensa, amado meu,
Num corpo feliz
Porque é só teu.
Se descansares sob uma árvore frondosa
E além da sombra ela te envolver de ar resinoso
Lembra-te com entorpecência amado meu,
Da delícia do meu ventre amoroso.
Quando olhares o céu
E vires a andorinha tonta na amplidão
Pensa, amado meu, que assim sou eu
Perdida na infindável solidão.
A noite quando as trevas chegarem
E vires do firmamento
Uma estrela cair e se afundar
É sinal, amado meu,
Que o teu amor vai me abandonar.
Na morte, quando perderes o último sentido
E a tua própria voz
Em forma de pensamento
Te subir ao ouvido
Deixa escorrer a derradeira lágrima pelo teu rosto
Nascida do extremo alento do coração
E pensa então, amado meu,
Que ainda é um suave carinho da minha mão!
"A Mulher Ausente", Adalgisa Nery
(Adalgisa Nery nasceu no dia 29 de Outubro de 1905. Morreu em 1980.)
Quando numa rocha porosa
Cansado te encostares
E dela vires surgir a umidade e depois a gota,
Pensa, amado meu, com carinho,
Que aí esta a minha boca.
Se teus olhos ficarem nas praias
E vires o mar ensalivando a areia
Com alegria pensa, amado meu,
Num corpo feliz
Porque é só teu.
Se descansares sob uma árvore frondosa
E além da sombra ela te envolver de ar resinoso
Lembra-te com entorpecência amado meu,
Da delícia do meu ventre amoroso.
Quando olhares o céu
E vires a andorinha tonta na amplidão
Pensa, amado meu, que assim sou eu
Perdida na infindável solidão.
A noite quando as trevas chegarem
E vires do firmamento
Uma estrela cair e se afundar
É sinal, amado meu,
Que o teu amor vai me abandonar.
Na morte, quando perderes o último sentido
E a tua própria voz
Em forma de pensamento
Te subir ao ouvido
Deixa escorrer a derradeira lágrima pelo teu rosto
Nascida do extremo alento do coração
E pensa então, amado meu,
Que ainda é um suave carinho da minha mão!
"A Mulher Ausente", Adalgisa Nery
(Adalgisa Nery nasceu no dia 29 de Outubro de 1905. Morreu em 1980.)
terça-feira, 6 de agosto de 2019
Walker Luna 3
Subirei a mais alta colina
motivado pelo verde
e sob a sombra de um carvalho
esperarei por Deus.
Expondo ao holocausto todos que fui,
me salvarei por um milagre.
Walker Luna
(Walker Luna nasceu no dia 6 de Agosto de 1925. Morreu em 2007.)
motivado pelo verde
e sob a sombra de um carvalho
esperarei por Deus.
Expondo ao holocausto todos que fui,
me salvarei por um milagre.
Walker Luna
(Walker Luna nasceu no dia 6 de Agosto de 1925. Morreu em 2007.)
sábado, 27 de julho de 2019
Salvador Golpe 5
Unha cita
Do crepúsculo â lus nacarada,
Mirando pr'a serra,
No curuto do monte mais alto
Lucía unha estrela.
¿Vel-a estrela da tarde? - lle dixen -
Se lonxe da terra
Os traballos y as loitas do mundo
Con vida me levan,
Mira a estrela que agora ch'amostro,
Que agora contempras,
Cal espello de amor, dos meus ollos
A lus verás n-ela.
E verás n-ese espello, duas almas
N-un solio de estrelas:
A tua alma co a miña, bicandose
Moi lonxe da terra.
"A Nosa Terra", Salvador Golpe
(Salvador Golpe nasceu no dia 27 de Julho de 1850. Morreu em 1909.)
Do crepúsculo â lus nacarada,
Mirando pr'a serra,
No curuto do monte mais alto
Lucía unha estrela.
¿Vel-a estrela da tarde? - lle dixen -
Se lonxe da terra
Os traballos y as loitas do mundo
Con vida me levan,
Mira a estrela que agora ch'amostro,
Que agora contempras,
Cal espello de amor, dos meus ollos
A lus verás n-ela.
E verás n-ese espello, duas almas
N-un solio de estrelas:
A tua alma co a miña, bicandose
Moi lonxe da terra.
"A Nosa Terra", Salvador Golpe
(Salvador Golpe nasceu no dia 27 de Julho de 1850. Morreu em 1909.)
terça-feira, 30 de abril de 2019
Alda do Espírito Santo 3
Lá no "Água Grande"
Lá no "Água Grande" a caminho da roça
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
e põem de branco a roupa lavada.
As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.
E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.
"É Nosso o Solo Sagrado da Terra", Alda do Espírito Santo
(Alda do Espírito Santo nasceu no dia 30 de Abril de 1926. Morreu em 2010.)
(Alda do Espírito Santo nasceu no dia 30 de Abril de 1926. Morreu em 2010.)
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segunda-feira, 29 de outubro de 2018
Adalgisa Nery 6
Poema ao farol da Ilha Rasa
O aviso da vida
Passa a noite inteira dentro do meu quarto
Piscando o olho.
Diz que vigia o meu sono
Lá da escuridão dos mares
E que me pajeia até o sol chegar.
Por isso grita em cores
Sobre meu corpo adormecido ou
Dividindo em compassos coloridos
As minhas longas insônias.
Branco
Vermelho
Branco
Vermelho
O farol é como a vida
Nunca me disse: Verde.
"Poemas", Adalgisa Nery
(Adalgisa Nery nasceu no dia 29 de Outubro de 1905. Morreu em 1980.)
O aviso da vida
Passa a noite inteira dentro do meu quarto
Piscando o olho.
Diz que vigia o meu sono
Lá da escuridão dos mares
E que me pajeia até o sol chegar.
Por isso grita em cores
Sobre meu corpo adormecido ou
Dividindo em compassos coloridos
As minhas longas insônias.
Branco
Vermelho
Branco
Vermelho
O farol é como a vida
Nunca me disse: Verde.
"Poemas", Adalgisa Nery
(Adalgisa Nery nasceu no dia 29 de Outubro de 1905. Morreu em 1980.)
domingo, 26 de agosto de 2018
Joaquim Cardozo 2
Poema do amor sem exagero
Eu não te quero aqui por muitos anos
Nem por muitos meses ou semanas,
Nem mesmo desejo que passes no meu leito
As horas extensas de uma noite.
Para que tanto corpo!
Mas ficaria contente se me desses
Por instantes apenas e bastantes
A nudez longínqua e de pérola
do teu corpo de nuvem.
"Poemas", Joaquim Cardozo
(Joaquim Cardozo nasceu no dia 26 de Agosto de 1897. Morreu em 1978.)
Eu não te quero aqui por muitos anos
Nem por muitos meses ou semanas,
Nem mesmo desejo que passes no meu leito
As horas extensas de uma noite.
Para que tanto corpo!
Mas ficaria contente se me desses
Por instantes apenas e bastantes
A nudez longínqua e de pérola
do teu corpo de nuvem.
"Poemas", Joaquim Cardozo
(Joaquim Cardozo nasceu no dia 26 de Agosto de 1897. Morreu em 1978.)
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
Walker Luna 2
No prumo perdido
desfez-se o remanso.
Bastardo impulso
regido por utopias.
Walker Luna
(Walker Luna nasceu no dia 6 de Agosto de 1925. Morreu em 2007.)
desfez-se o remanso.
Bastardo impulso
regido por utopias.
Walker Luna
(Walker Luna nasceu no dia 6 de Agosto de 1925. Morreu em 2007.)
sexta-feira, 27 de julho de 2018
Salvador Golpe 4
Adios a Galicia
As lixeiras
anduriñas
pra Galicia
vindo van;
veñen ledas
tral-os niños
dos amores
d´outro vrán.
Deixan lonxe
n-outras prayas
os recordos
d´ un amor,
y aquí atopan
amor novo,
doces brisas,
craro sol.
¡Quén poidera
tel-as alas
qu´elas teñen
pra voar!
s´así fora
non sintira
tanta pena
por marchar.
Eu como elas
deixo a terra
dos recordos
da niñez;
deixo a patria
dos amores...
sin espranzas
de volver.
Mais Galicia
se un mal fado
separarme
vai de tí,
leva o corpo
porqu´ a yalma
toda enteira
deixo aquí.
¡Adios casa,
soutos, ríos,
veigas d´ ouro
craro sol...!
¡Adios berce
dos amores...!
¡Hastra sempre...!
¡Voume... ¡adios!
"A Nosa Terra", Salvador Golpe
(Salvador Golpe nasceu no dia 27 de Julho de 1850. Morreu em 1909.)
As lixeiras
anduriñas
pra Galicia
vindo van;
veñen ledas
tral-os niños
dos amores
d´outro vrán.
Deixan lonxe
n-outras prayas
os recordos
d´ un amor,
y aquí atopan
amor novo,
doces brisas,
craro sol.
¡Quén poidera
tel-as alas
qu´elas teñen
pra voar!
s´así fora
non sintira
tanta pena
por marchar.
Eu como elas
deixo a terra
dos recordos
da niñez;
deixo a patria
dos amores...
sin espranzas
de volver.
Mais Galicia
se un mal fado
separarme
vai de tí,
leva o corpo
porqu´ a yalma
toda enteira
deixo aquí.
¡Adios casa,
soutos, ríos,
veigas d´ ouro
craro sol...!
¡Adios berce
dos amores...!
¡Hastra sempre...!
¡Voume... ¡adios!
"A Nosa Terra", Salvador Golpe
(Salvador Golpe nasceu no dia 27 de Julho de 1850. Morreu em 1909.)
sábado, 23 de junho de 2018
António Jacinto 5
Autobiografia
O teu sorriso
espelhado em meus olhos, Mãe;
Um pouco de Poesia
a ilimitar todo o presente;
E a Vida sorrindo também
ao futuro humano que se pressente.
"Poemas", António Jacinto
(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu no dia 23 de Junho de 1991.)
O teu sorriso
espelhado em meus olhos, Mãe;
Um pouco de Poesia
a ilimitar todo o presente;
E a Vida sorrindo também
ao futuro humano que se pressente.
"Poemas", António Jacinto
(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu no dia 23 de Junho de 1991.)
segunda-feira, 30 de abril de 2018
Alda do Espírito Santo 2
Ilha nua
Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras…
"É Nosso o Solo Sagrado da Terra", Alda do Espírito Santo
(Alda do Espírito Santo nasceu no dia 30 de Abril de 1926. Morreu em 2010.)
Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras…
"É Nosso o Solo Sagrado da Terra", Alda do Espírito Santo
(Alda do Espírito Santo nasceu no dia 30 de Abril de 1926. Morreu em 2010.)
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