quarta-feira, 10 de junho de 2026
Dia de Portugal, por António Arnaut
Dia de Portugal. Dia de Camões
e das Comunidades.
O Presidente distribui condecorações
na feira das vaidades.
País de heróis e de santos
à beira mar enterrado.
Nunca outra Pátria teve tantos,
assim, por atacado.
António Arnaut
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Os livros de Jorge Luis Borges
Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.
"A Rosa Profunda", Jorge Luis Borges
(Hoje é Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor)
sábado, 21 de março de 2026
Quando, de Sophia
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
"Dia do Mar", Sophia de Mello Breyner Andresen
(Embora não pareça, hoje, 21 de Março, é Dia Mundial da Poesia)
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Noventa mil quilómetros quadrados
Noventa mil quilómetros quadrados
de ousadia e sofrimento:
A oriente, a Espanha,
A norte, a terra galega.
A sul e ocidente, a dor tamanha
Do mar que já não chega,
Mas onde ainda ficaram,
Talhadas em rocha dura,
As ilhas que semearam
as pegadas da aventura.
"Recolha Poética (1954-2017)", António Arnaut
Queria que os portugueses
Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor
sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal
todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler
teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura
e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale
até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião
que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira
alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto
se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia
deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.
"Poemas", Agostinho da Silva
P.S. - Hoje é Dia da Geografia Portuguesa.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Lembrando David Mourão-Ferreira
Ó grande plenitude!
E a tudo
a tudo alheio,
saboreio.
Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras...
Este cacho de curvas que é o teu corpo.
David Mourão-Ferreira
(David Mourão-Ferreira nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1927)
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Um homem e seu carnaval, segundo Drummond
Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.
"Brejo das Almas", Carlos Drummond de Andrade
sábado, 3 de janeiro de 2026
Receita de Ano Novo, segundo Drummond
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Ano Novo, segundo Fernando Pessoa
Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.
"Poesia 1918-1930", Fernando Pessoa
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Ano Novo, segundo Ferreira Gullar
Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).
"Barulhos", Ferreira Gullar
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
Passagem do ano, segundo Drummond de Andrade
O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,
Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
"A Rosa do Povo", Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 16 de julho de 2021
Mário Dionísio 8
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
- e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
quinta-feira, 15 de julho de 2021
Luísa Villalta 6
debuxa o lento amañecer sobre o teu corpo,
a mesma man que onte á noite un a un
baixou os doces degraus da tua camisa,
descorreu a cortina do artifício,
puxo o tempo a brillar na tua pel
e no teu sexo, agora tan sereo.
A man, esta man, conten-no todo,
o balcón do teu dormir sobre o meu leito,
o teu soño de onte e de desexo
e a selva de mañá, a incógnita, a cegueira.
Ela fabrica o teu molde desde o saúdo
con que te vin perto de min por vez primeira,
co tacto doutros corpos e os seus buques
de adeuses, guerras, leviandades
xoguetes rotos de risas desafiadas
De ti recebe o gozo de mover-se, esta man,
artesá da matéria dunha vida
e tamén do vacio impreso en lume
con que te volverá a formar despois, no frio.
[...]
"Apresados Sen Presa", Luísa Villalta
(Luísa Villalta nasceu no dia 15 de Julho de 1957. Morreu em 2004.)
segunda-feira, 12 de julho de 2021
Manuel Antonio 5
Intencións
Encheremos as velas
coa luz náufraga da madrugada
Pendurando en dous puntos cardinais
a randeeira esguía
do pailebote branco.
Coas suas mans loiras
acenan mil adeuses as estrelas.
Inventaremos frustradas descubertas
a barlovento dos horizontes
para acelerar os abolidos corazóns
dos nosos veleiros defraudados.
Halaremos polo chicote
dun meridiano innumerado
Na illa anónima
de cada singradura
esculcaremos o remorso da cidade
Ela noctámbula desfollará
como unha margarida prostibularia
a Rosa dos Ventos do noso corazón.
Encadearemos adeuses de escuma
pra tódalas prayas perdidas
Xuntaremos cuardernos en branco
d' a novela errante do vento
Pescaremos na rede dos atlas
ronseles de Simbad
E cazaremos a vela
sobre o torso rebelde das tormentas
pra trincar a escota dunha ilusión.
"De Catro a Catro", Manuel Antonio
(Manuel Antonio nasceu no dia 12 de Julho de 1900. Morreu em 1930.)
quarta-feira, 30 de junho de 2021
Joaquim Namorado 5
Fábrica
Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto liso e frio dos metais,
a segura confiança
do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:
é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento;
como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.
Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;
as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a fábrica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.
(Joaquim Namorado nasceu no dia 30 de Junho de 1914. Morreu em 1986.)
domingo, 27 de junho de 2021
Rui Caeiro 4
Rui Caeiro
(Rui Caeiro nasceu no dia 27 de Junho de 1943. Morreu em 2019.)
Guimarães Rosa 10
Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio:
ele não traz âncora…
"Magma", Guimarães Rosa
(Guimarães Rosa nasceu no dia 27 de Junho de 1908. Morreu em 1967.)
sábado, 26 de junho de 2021
Maria Velho da Costa 2
Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.
[...]
"Cravo", Maria Velho da Costa
(Maria Velho da Costa nasceu no dia 26 de Junho de 1938. Morreu em 2020.)
sexta-feira, 25 de junho de 2021
Ruy Barata 8
pelos dias que vivi.
Espelho, diz-me em que jaça
mais fiel me refleti.
Quarenta anos correram
e neles também corri.
Quantos mais inda virão?
Morrerei hoje de infarto
ou amanhã de solidão?
Serei pasto da malária?
Serei presa do avião?
A morte sabe fingir.
A morte apaga a lembrança
da morte que vai ferir.
E em cada instante que passa
a morte pode surgir.
Quem pode um homem julgar?
Um homem é terra de sonhos,
sonho é mundo a decifrar.
Naveguei ontem no vento,
hoje cavalgo no mar.
Amanhã de quem serei?
Um homem é sempre segredos.
Por qual deles purgarei?
Dos meus netos, qual o neto
em que me repetirei?
Que pecados confessar?
Que territórios de enganos
a meus filhos vou legar?
A quem passarei meu canto
quando meu canto passar?
Ah! Como a vida é ligeira!
Ah! Como o tempo deflui!
Esse espelho não mais fala
da criança que já fui.
Das minhas rugas ruindo
apenas um nome rui.
Quedê peixinhos do mar?
Quedê figo da figueira
pro passarinho bicar?
E o anel que tu me deste
em que dedo foi parar?
Fevereiro irá chamar?
Monte-Cristo se me visse
não iria acreditar.
Como está velho, diria
a donzela Dagmar.
o reino em que foi feliz.
Onde Athos? Porthos?
Onde o tímido Aramis?
Um homem cresce querendo
e cresce quando não quis.
mas também é de morrer.
Crescer é terna ferida
que só dói no entardecer.
Em cada raiz da morte
há sempre um verbo crescer.
Subo em linha, volto em cor.
Cresço violentamente.
Cresço em rajadas de amor.
Cresço nos filhos crescendo.
Cresço depois que me for.
cresço em luta, cresço em dor,
não fiz meu verso castrado
nem me rendo ao opressor.
Cresço no povo crescendo,
cresço depois que me for.
galopando esse corcel.
Cresço no verso espumando
entre as linhas do papel.
Cresço rubro de esperança
na barba de Don Fidel.
E nem sequer percebi.
Quarenta anos correram
e neles também corri.
E nesses quarenta anos,
oitenta de amor por ti.
(Ruy Barata nasceu no dia 25 de Junho de 1920. Morreu em 1990.)
quinta-feira, 24 de junho de 2021
José Luis Sucasas 5
A confesión do criado Ensión
[...]
O tal Ensión abanou os brazos dun lado a outro catro ou cinco veces, coma se quixera gañar propulsión, e logo desapareceu da taberna dun chimpo. Ou iso crin ver. Igual fixo outra cousa que eu non vin. Estaba alí sentado enfronte miña na mesa, a un metro escaso dos meu nariz; e de socate esvaeceu coma zugado por unha forza descoñecida, incontrolable. Sentíame estraño, moi esgotado. Arrimeime ao mostrador para pagar, pero o taberneiro díxome que xa pagara o home que estaba comigo. "Pero cando?", ía preguntarlle, pero penseino mellor e botei porta fóra.
[...]
José Luis Sucasas, em Praza Pública
(José Luis Sucasas nasceu no dia 24 de Junho de 1959. Morreu em 2017.)