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sábado, 3 de janeiro de 2026

Receita de Ano Novo, segundo Drummond

Receita de Ano Novo
 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Ano Novo, segundo Fernando Pessoa

Ano Novo
 
Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.


Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.


"Poesia 1918-1930", Fernando Pessoa

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Ano Novo, segundo Ferreira Gullar

Ano Novo

Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.


Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.
 

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
 

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).

"Barulhos", Ferreira Gullar

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Dia de São Silvestre

Hoje é Dia de São Silvestre, derivado às inúmeras provas de atletismo que ocorrem nesta altura do ano em Portugal e por esse mundo fora.

P.S. - Hoje é Dia de São Silvestre.

Passagem do ano, segundo Drummond de Andrade

Passagem do ano

O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


"A Rosa do Povo", Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Bais à passage?

A ordem dos factores
Deitou as canas e apanhou os foguetes. Agora chamam-lhe Maneta.

A passagem de ano em Fafe era bem porreira no meu tempo. As motas juntavam-se e andavam sem escape à meia-noite, no Largo, como baratas tontas, sem rei nem roque, bebia-se Magos no velho café Peludo e, regra geral, vomitava-se abundantemente. Uma coisa verdadeiramente constada, uma festa inegavelmente de arromba! Vinha povo de fora, até de Guimarães como se fossem espanhóis, a Arcada enchia-se como um ovo, por baixo e por cima, por dentro e por fora. Era o delírio! Tremens. As motas eram sobretudo Zundapp e Sachs, faziam um cagaçal desgraçado e os tombos sem capacete eram saudados como se fossem golo do Benfica! Às vezes a festa metia também ambulância, num extraordinário espectáculo de som, luz e cor. O Magos era uma merda, mas naquela altura eu não sabia, faltava-me ainda o termo de comparação. Fazia também muito frio na rua, que era onde o ano passava, um frio literalmente de rachar, e já era uma sorte do caraças chegar a casa com o nariz e as orelhas inteiras, isto para não falar de outros acessórios corporais por norma mais recatados e indispensáveis. Na manhã do dia seguinte, que só começava, a bem dizer, à noite, o ano novo metia baixa.
Portanto, ia-se ao Largo ver o fim do ano, ia-se à "passage". O ano passava em Fafe apenas uma vez por ano, como no resto do mundo, embora no resto do mundo o ano não passe sempre à mesma hora, mas, não sei porquê, em Fafe parecia que o ano passava todos os dias, isto é, todas as noites. Os de agora podeis não acreditar, mas era assim a vida na nossa terra, e, garanto-vos, era de categoria.

A passagem de ano em Fafe actualmente chama-se Réveillon e é um certame, porque em Fafe hoje em dia tudo é certame, até uma festa profundamente religiosa como a Senhora de Antime, e se não é certame, pelo menos é evento e de certeza é icónica, a passagem de ano, porque em Fafe agora tudo é icónico. De acordo com os anúncios, o Réveillon 2025-2026 sucede no quentinho do Pavilhão Multiusos e apresenta uma série de peripécias com nomes estrangeiros, incluindo os artistas, tem área gold, área premium, área vip e área white, que deve ser o antigo peão, e todos os utentes, talvez prevenindo, devem usar pulseiras de cores diferenciadas como nas urgências dos hospitais. Motas a desbundar e ambulâncias em tinoni é que nada, em princípio, mas até pode ser que se arranje. Com efeito, está também prometida uma coisa chamada "pirotecnia de interiores", Deus queira que ninguém se aleije.

(Versão revista, actualizada e aumentada, publicada ontem no meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Boas entradas!

Cem gramas de camarão da costa, duas ou três pataniscas ainda quentes, uma posta de bacalhau frito da parte da asa, fria, uma cebola da monda avinhada em verde tinto e sal grosso, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta bem puxada, meia dúzia de azeitonas pequenas, pretas, assassinas, moelas se possível de coelho, polvo em molho verde, navalhas na plancha, iscas de fígado de cebolada, petinga de escabeche, uma mancheia de percebes ainda prenhes de mar, cracas, lapas, um bom verde branco do Minho mais alto e não demasiado fresco, isto sim são boas entradas, o resto é treta. E era a continha, se faz favor.

Bem passado

Um ano bem passado precisa de pelo menos dois minutos de cada lado.

Chama o Gregório!

O dia 1 de Janeiro foi inventado no dia 24 de Fevereiro de 1582 pelo papa Gregório XIII. Daí é que vem, em homenagem, a mais famosa expressão da noite de passagem de ano - Com licença, vou só ali chamar o Gregório...

As coincidências nunca são por acaso

Esta extraordinária e suspeitíssima coincidência de 31 de Dezembro ser todos os anos o último dia do ano e anteceder sistematicamente o primeiro dia do ano seguinte deveria levar-nos a pensar. Mas não, embebedamo-nos.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

O Natal já era

Quando se apercebeu que faltavam apenas seis dias para o Natal e cinco para a Consoada, ele pensou, aflito: - Meu Deus, estamos quase no fim do ano! E escangalhou o pinheiro, e desfez o presépio, e deitou fora a água e o bacalhau, e tirou as luzinhas e as estrelinhas e os anjinhos e as anjinhas, e dependurou a bola de espelhos no meio do tecto e pôs Quim Barreiros na aparelhagem e lançou serpentinas e espalhou confetes e encheu balões e preparou a sala inteira, um brinquinho, para o réveillon...

domingo, 1 de janeiro de 2023

Boas entradas, o raio que vos parta!

Perguntaram-me se eu tinha tido "boas entradas". Por acaso até estava a ter, quando fui acordado pela morteirada do fogo-de-artifício da meia-noite, que ainda por cima foi às duas da manhã e ribombou por todos os lados, solavancando-me o coração e a casa. Rais parta o foguetório! Com este tempo de merda, com este primeiro-ministro abstracto, com este governo arranjista, com este país desgraçado, com o Benfica ainda à frente, estão a festejar o quê, caralho?! Depois vi-me à rasca para tornar a adormecer...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Chama o Gregório!

O dia 1 de Janeiro foi inventado no dia 24 de Fevereiro de 1582 pelo papa Gregório XIII. Daí é que vem a mais famosa expressão da noite de passagem de ano - Com licença, vou só ali chamar o Gregório...  

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

As coincidências nunca são por acaso

Esta extraordinária e suspeitíssima coincidência de 31 de Dezembro anteceder sistematicamente o primeiro dia do ano seguinte deveria levar-nos a pensar. Mas não, embebedamo-nos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Período homólogo

- Boa tarde...
- E o que vai ser?...
- Queria meio ano.
- Novo ou usado?
- Novo, se faz favor.
- Da parte do primeiro semestre, portanto...
- Se houver...

terça-feira, 29 de dezembro de 2020