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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O retrovisor na luta contra a pandemia

Mantendo a distância
Ele levava muito a sério as recomendações das autoridades sanitárias a propósito do afastamento físico. Mantinha a própria sombra a pelo menos metro e meio de distância.

O espelho retrovisor central é um instrumento da máxima importância dentro de um veículo automóvel. Serve para pendurar coisas. Não coisas quaisquer, à sorte, mas coisas próprias de pendurar num retrovisor. Por exemplo, seria impensável pendurar num retrovisor uma gabardina molhada ou um guarda-chuva aberto, porque o retrovisor não é um cabide nem uma banheira, é um retrovisor. E no retrovisor penduraram-se, ao longo da história, terços e senhoras de Fátima fosforescentes, relíquias sagradas da Terra Santa produzidas em série em São Pedro da Cova, árvores mágicas ambientadoras, castanholas, galhardetes dos Bombeiros de Montalegre, da Junta de Canas de Senhorim, da Câmara de Nelas, do Real Madrid e do Benfica, fitinhas amarelas e pretas da AD Fafe, e também azuis, miniaturas de casais minhotos e folclóricos, óculos de sol e óculos de chuva, porta-chaves, porta-aviões, trevos de quatro folhas, estrelas de cinco pontas, cornos de besouro ou escaravelho e cornos em geral, patas de coelho, figas, ferraduras, CD, mesmo séculos após ter passado a novidade, e durante a covid penduraram-se as máscaras. Exactamente: o sítio da máscara higiénica e sanitária que nos protege da peste e da morte é o retrovisor, o que só lhe aumenta a relevância - ao retrovisor.
Ora bem: eu não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. E faço questão de elencar mais uma vez estas três fundamentais asserções, porque elas, as asserções, parecendo sinónimas e redundantes, não o são, não o são. Não o são. Na verdade, há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro; há quem tenha carta de condução, não saiba conduzir e não tenha carro; há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; e até há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro - o que é uma raríssima coincidência. O mais certo é eu não ter esgotado todas as variáveis possíveis, mas desconfio que já percebestes o meu ponto de vista: não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. Portanto, não tenho retrovisor.
Chegados aqui - de transporte público, evidentemente -, a grande dúvida que me sobra é esta: em caso de nova calamidade, Deus nos livre, onde é que eu penduro a máscara? Na cara com certeza que não, porque me corta o ar, impede-me a respiração, confunde-me até o raciocínio, e na testa ou na barbela, como fazem as outras pessoas, já me vi ao espelho e acho que me fica um bocadinho mal. Mas em caso de nova pandemia, insisto, e Deus nos livre, será que poderei substituir a máscara sufocante digamos que por um disco de vinil, um velho single de 7 polegadas, vá lá, com o nariz enfiado no buraco do meio, para ter algum arejo? Poderei? Alguém sabe dizer-me?...

Por outro lado. Retrovisor é notoriamente um visor retro (retrô, se lido no Brasil). Retro, diz a Wikipédia, é um estilo cultural desactualizado ou velho, uma tendência, hábito ou moda do passado pós-moderno global, mas que, com o tempo, se torna funcionalmente ou superficialmente a norma mais uma vez. Visor, diz o velho dicionário da Porto Editora, é um dispositivo dos aparelhos fotográficos que permite apanhar um campo fotográfico ajustado ao enquadramento e composição desejados, e que, em muitos casos, permite também verificar as condições de focagem. Temos portanto que: retrovisor é um dispositivo dos aparelhos fotográficos que permite apanhar um campo fotográfico ajustado ao enquadramento e composição desejados, e que, em muitos casos, permite também verificar as condições de focagem, num estilo cultural desactualizado ou velho, numa tendência, hábito ou moda do passado pós-moderno global, mas que, com o tempo, se torna funcionalmente ou superficialmente a norma mais uma vez. Retrovisor. Porque é que chamam isso ao espelho do carro?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Vamos andando, se Deus quiser

Católico, abstinente e automortificante
É um católico à moda antiga: abstinente, observante, penitente e automortificante. Por isso nunca vai a Fátima no dia 13 de Maio. Ir a Fátima todos os 13 de Maio seria para ele um enorme prazer, mas o prazer é pecado. E na Quaresma? Quarta-Feira de Cinzas e todas as sextas-feiras, só para se castigar, come bife com batatas fritas ao almoço e bife com batatas fritas ao jantar. É que ele gosta mais de peixe. Com batatas cozidas...

Estou numa fase porreira da vida, aquela do "se Deus quiser". É a velhice, suponho. Já cá cheguei, foi rápido, e nem fiquei surpreendido. Passou-se tudo mais ou menos como eu tinha previsto, embora não fizesse a mínima ideia do que realmente me iria acontecer. Do que me está a acontecer. E o que acontece é o seguinte: não tenho razões de queixa, pelo contrário. Sinto-me até bastante confortável com isto de o meu futuro, se o houver, já não estar nas minhas mãos, convém-me este novo sentimento de aprazível irresponsabilidade, não é nada comigo, sei lá bem o que se segue, se quiserdes saber ao certo perguntai-Lhe a Ele, que Ele é que sabe. Ele sabe tudo.
E nisto estamos, "se Deus quiser" acima, "se Deus quiser" abaixo. É o que eu digo. Por mais um segundo, por mais uma vida, não estou a par e não me incomoda, é-me indiferente, dá-me jeito. Todas as manhãs fico satisfeito, isso é certinho. A minha agenda nunca foi tão provisória, tão condicional, quase irrelevante, e eu tenho sempre tudo anotado, que trouxe essa mania do velho ofício de jornalista. É agora uma agenda "se Deus quiser", que costumo comprar todos os anos numa certa livraria da Rua da Junqueira, na Póvoa de Varzim, e a de 2027 vamos lá buscá-la na próxima quarta-feira, eu e a Mi, se Deus quiser. Pode haver greve no metro, estais a ver?
Eu também sabia tudo. Palavra de honra, eu sabia tudo de tudo e nem admitia que me dissessem o contrário. Depois cresci e, com os anos, deixei de saber. Não sei nada. Explicaram-me que me fizera homem, com algum atraso, mas que sim. Não sei. Em todo o caso, dá-me um enorme gozo a indomável ignorância que actualmente me assiste. Estou aqui numa espécie de limbo etário, quentinho mas arejado, já passei a idade das certezas e ainda não cheguei à idade das cismas, ou se calhar já lá cheguei e não as tenho, o que não deixa de ser também uma sorte do caraças. Está-se bem, é o que vos digo.
Acredito em poucas coisas na vida. Acredito no amor, na amizade e na bondade, a que gosto de chamar gentileza e decência. E quer-se dizer: amo e sou amado, tenho três ou quatro bons amigos, um deles é com certeza o melhor amigo do mundo, o melhor amigo que alguém poderia ter, e calhou-me a mim, conheci e conheço algumas pessoas gentis e decentes, tento também ser e amiúde consigo, que mais posso desejar?
Eu e o meu amigo, o meu maior amigo, temos muita tralha em comum - passado, gostos, tolérias, ideias, teorias e sonhos -, quase tudo nos une, inclusive uma incontrolável propensão para discordarmos um do outro em quase tudo o que nos une. Deus, por exemplo: eu acredito e ele não. Devo informar, no entanto, que o meu amigo já não acreditou mais do que não acredita hoje em dia, e isto, se for vitória de alguém, minha não é certamente, será dele e é bem feito.
O meu amigo padece de uma doença palerma que o incomoda de vez em quando, retendo-o em casa, nada de muito grave, para além da chatice, mas a esse respeito, quando lhe pergunto pela saúde, ele é como eu, mente com quantos dentes tem e diz-me invariavelmente que está bem, aliás, "impecável", aliás, "magnífico", aliás, "comoaço". Ele é mesmo assim: há-de estar no caixão e negar, será o morto mais saudável de todos os tempos, se Donald Trump não morrer antes, e é o mais certo. 
Eu e a Mi dizemo-nos "Vai com Deus", "Fica com Deus", e dizemo-lo também ao Kiko, o nosso filho. Também dizemos "Fica bem", "Vai com cuidado", evidentemente, mas metendo Deus ao barulho, chamando-O à responsabilidade, sou sincero, parece-me que o assunto fica melhor entregue, acho que temos mais garantias. Sou talvez um aproveitador descarado, um moina da fé, admito, mas não dou despesa à Igreja, e isso, estou em crer, deve contar a meu favor. 
Eu e Deus, que rica vida! Estou como quero, andando e vendo, tenho muitas graças a dar. Vou, então, queixar-me de quê? Do fígado? E quem foi que o escangalhou?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 25 de outubro de 2026

Massas para todos os gostos

Ele gostava de uma boa massa à lavrador, de uma boa massa de marisco e sobretudo de uma boa massa de bacalhau. Também concordava com a vacinação em massa. Quanto à massa de ar quente, não é que desgostasse, mas afligia-o sobremaneira a flatulência.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial das Massas.)

Testes em massa

Quando, por ocasião da pandemia, o Governo anunciou e promoveu testes em massa, ele pensou e disse: - Sim, evidentemente testes em massa, estou absolutamente de acordo. Mas testes em arroz? E testes em batatas? Que é deles?... 

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial das Massas.)

sábado, 10 de outubro de 2026

Palavras que nunca te direi

Moto mutuatus
Perguntaram-lhe se tinha vindo de moto próprio. Ele disse que não, que era a do filho. 

Há frases assim, de categoria, que eu nunca na vida vou conseguir dizer, pelo menos sem me escangalhar a rir. Frases extraordinárias, antológicas, de filme ou de colecção, frases de classe, de poder, mas que exactamente por isso me ultrapassam, estão muito acima das minhas posses, do meu nível de vida, serão sempre areia demais para a minha modesta camioneta.
"Vou falar com os meus advogados". Mas, ó valha-me Deus, eu não tenho advogado, no singular, quanto mais advogados, no plural. Eu sou um banana, não me meto com ninguém. Se eu tivesse dinheiro para advogados, gastava-o mas era em raspadinhas.
"Os médicos dizem que". Isso é que era bom, quem me dera, e com um, unzinho que me falasse e ouvisse, já eu ficava todo contente. Mas não: estou há mais de dois anos à espera de uma consulta urgente que já me foi adiada por três vezes.
"Isto não é o que parece, eu posso explicar". Com a minha cara quando sou apanhado, tudo é o que parece ou até pior. É, é. Quanto mais explico, mais me enterro.
"Siga-me aquele carro". E dou a ordem a quem? Ao motorista do autocarro? Ao maquinista do metro? Havia de ir longe, havia...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 3 de outubro de 2026

Dá Deus dentes... e é uma chatice

Oh, my dicky ticker!
Eu tinha um cardiologista por acaso porreirinho e visitava-o de quatro em quatro meses. A pagar. Falávamos de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto, que nos interessava a ambos. Acto médico é que nada, mas no intervalo medíamos a tensão, o que é extraordinário! Deixei. Deixei também o urologista, os toques rectais não me seduzem, e fiquei-me somente com o dentista, que me sevicia de meio em meio ano, fora os inopinados, como por exemplo agora mesmo que ando arreliado das gengivas e vou ao castigo de dois em dois meses, lá se me vai o pé-de-meia. É a crise, é a vida. Um destes dias morro de repente, do coração, mas com uma boca que é uma categoria, e ainda vão dizer que foi por por causa de eu ter deixado de falar de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto com o meu ex-cardiologista.

Cheguei muito tarde ao dentista. Logo eu que tomo horas para tudo, cheguei tarde ao dentista. Quero dizer: já passava dos quarenta. Evidentemente não sou exemplo para ninguém, também neste departamento da vida, mas a verdade é que, apesar de tantos anos de aparente desmazelo odontológico, eu tinha uma cremalheira que era um mimo - foi o que me disse o doutor, muito admirado e elogioso, quando lhe arreganhei a tacha pela primeira vez. Palavras para quê? Eu usava Pasta Medicinal Couto. Os meus problemas com os dentes começaram, portanto, quando fui ao dentista.
E estreei-me em grande, numa célebre extracção de um siso, que, não é para me gabar, correu que foi uma desgraça. O dente estava muito apegado a mim, eram décadas de convívio e recusava-se a sair, compreendo-o. Anestesia atrás de anestesia, o dentista escarafunchava e escarafunchava, puxava e puxava, pedia desculpa, que nunca tinha acontecido, inventava alavancas que não alavancavam nada, fazia o pino, o quatro e o oito, trinta por uma linha, tentou o flique-flaque à retaguarda e o mergulho empranchado de braços abertos, escarafunchava e puxava, o homem suava copiosamente e eu sem guarda-chuva nem limpa pára-brisas, parava para se desfazer das cambras, ralhava com as afogueadas assistentes que pareciam baratas tontas, pedia outra vez desculpa, que nunca tinha acontecido, e elas, quase em lágrimas e em coro: nunca tinha acontecido, mandou vir um escadote, a escada Magirus dos Bombeiros, uma marreta da obra em frente, o fogueteiro de Arões, o grupo de zés-pereiras de Regadas e um velho bombista do Verão Quente de 1975, por esta exacta ordem, escarafunchava e escarafunchava, puxava e puxava, desculpe, nunca tinha acontecido, e nada. Que daqui não saio, daqui ninguém me tira, insistia o filho da puta do dente, agarrado à gengiva como uma lapa, e já me estava a meter nervos.
Eu era uma poça de sangue. A minha boca era já duas, derivado ao escarrapacho forçado. Tinha a boca pior que o chapéu de um pobre - e foi ali que eu percebi na carne o significado da infeliz expressão. Se eu pudesse falar, gritaria: "chama-me um carro!", como se dizia em Fafe, mas eu não podia falar, porque não sentia a boca e isso até era do mal o menos.

(Por outro lado, o dentista passa muito bem sem a nossa opinião. Já reparastes que o dentista só faz perguntas depois de nos atafulhar a boca com metade dos móveis do consultório e a mangueira do jardim? Respondemos como? Só se for pelo nariz, mas isso é número arriscado e praticável apenas em caso de profunda constipação. E já destes fé que a gente vai lá queixar-se do dente de baixo e o dentista trata do dente de cima? E que geralmente acerta?)

O dente cedeu, por implosão controlada, ao fim de uma manhã inteira de pancadaria. O dente era eu. E eu era um destroço, um sobrevivente inesperado de Alcácer Quibir. Vi-me ao espelho: tinha os lábios esgaçados de orelha a orelha, parecia o Joker do Jack Nicholson. Para me confortar, o dentista disse-me que ainda ia ficar pior. E ficou. No dia seguinte: os cantos da boca em ferida, a cara inteira feita num bolo, inchada e negra. É. Eu tinha uma cara nova, irreconhecível, parecia que tinha passado pelo programa de protecção de testemunhas do FBI. Ou pelo menos pelo Botched do canal E!...
Por causa da dose cavalar de anestesia, andei semana e meia a babar-me e com um falar esquisito. A minha mulher queria internar-me. Safei-me por uma unha negra à consulta externa do Hospital Magalhães Lemos.
Mas isso passou. A sintomatologia física desapareceu. A memória da carnificina é que não. Padeço de stress pós-traumático. Ainda hoje é uma tortura ir ao barbeiro. Sim, ao barbeiro. Entro em pânico. Estais a ver? A mesma espera, a mesma televisão ligada na Praça da Alegria, a mesma bata branca, a cadeira, a babete, os utensílios cromados, pontiagudos e cortantes, o zzzzzzzzz assobiado do secador que parece o zzzzzzzzz assobiado de uma broca, a televisão desviada para as inundações, estais a ver? Estais a ouvir? Estais a perceber a minha agonia?
Isto é: houve aqui uma transferência qualquer que eu não sei explicar. Porque com o meu dentista corre tudo muito bem, farto-me de o recomendar a toda a gente. Dou-o de conselho.  É, aliás, o meu conselho odontológico, como gosto de dizer. Na verdade, o sanguinolento episódio do dente do siso não passou disso e ganhei esta bonita história para contar aos netos de quem é avô. Na próxima sexta-feira vai lá a minha mulher por mim e portanto adeus até ao meu regresso.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Dentista.)

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O Quinzinho da Farmácia

Azia
O grande problema do engolidor de espadas era a azia. Aliás, mudou de ofício, por indicação médica.

Antigamente, em Fafe, o Serviço Nacional de Saúde chamava-se Quinzinho da Farmácia e funcionava muito bem. O Quinzinho da Farmácia era evidentemente farmacêutico e sobremaneira autodidacta. No seu ofício de boticário, o Quinzinho era o melhor médico do mundo, o médico privativo e gratuito dos pobres da vila e arredores, o verdadeiro médico de família ainda os médicos de família nem sequer tinham sido inventados.
Em caso de fanico arrevesado ou maleita repentina, primeiro ia-se ao Quinzinho, que tratava toda a gente por tu e tinha uma voz arrastada e grossa por baixo de um bigode em forma de bigodinho e lá em cima, para o trabalho, uns óculos muito cómicos de tirar e pôr que me faziam rir. Ir ao Quinzinho era uma espécie de rastreio, uma primeira opinião, que até podia ser definitiva. O Quinzinho, que me apresentou à Pasta Medicinal Couto e mais do que uma vez salvou as minhas desgraçadas amígdalas de irem ao corte, observava cada caso minuciosamente e decidia. Se o assunto fosse da sua competência e não ultrapassasse os seus saberes, a questão ficava ali mesmo remediada sem outras alcavalas senão o preço geralmente módico dos medicamentos logo usados ou aviados para consumo doméstico, e apenas quando tal era necessário. Aos casos mais bicudos, que lhe chegavam frequentemente, às vezes em pressurosos carros de praça que se acotovelavam à porta da Farmácia Moura, impedindo o trânsito na Rua Montenegro, mesmo em frente aos Mercadinhos, o Quinzinho reencaminhava-os na hora para os médicos encartados ali das redondezas, não raramente sugerindo este ou aquele clínico, consoante as sintomatologias averiguadas, ou então despachava-os com urgência directamente para o hospital. E a engrenagem resultava. Eu estou em crer que o homem merecia um nobel! Da medicina, da química, da física, da economia, da literatura - o Quinzinho ensinava bulas a analfabetos -, da paz, da compaixão, não sei bem, mas um nobel de certeza, isso é que eu sei.
E sabeis que mais? Gosto de pensar que foi a partir do nosso Quinzinho que os ingleses inventaram, muitos anos mais tarde, em 1994, o Protocolo de Manchester. E essa é que é essa.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Farmacêutico. Amanhã é Dia Nacional do Farmacêutico.)

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Sejamos pacientes, pois

Hipocondríaco e metódico
Era um autarca hipocondríaco e metódico. Seguindo indicação médica, tomava quatro medidas por dia - uma ao levantar, uma depois de almoço, uma antes de jantar e uma ao deitar. Rigorosamente.

Como um alho era o famoso indivíduo, não sei quem nem de que sexo ou género, mas político certamente, que inventou a palavra "paciente" para substituir a palavra "doente". O finório, ou a finória, ou finórie, vá lá, sabia tudo sobre listas e tempos de espera, greves epidémicas ou cirúrgicas, operações adiadas, consultas anuladas, funerais e missas de sétimo dia, demissões de directores e outras pandemias. Porque a verdade é esta: o doente, regra geral, queixa-se, esperneia, mas o paciente, por definição, aguenta.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 12 de setembro de 2026

As doenças têm dias

Hoje é Dia Europeu da Enxaqueca, amanhã é Dia Mundial da Sépsis, depois de amanhã é Dia Mundial da Dermatite Atópica e terça-feira, se Deus quiser, será Dia Mundial do Linfoma, Dia de Nossa Senhora das Dores e Dia do Serviço Nacional de Saúde. Dá-me jeito assim, as doenças. Como se costuma dizer quando se devia estar calado: um dia de cada vez, cá me vou aguentando...

P.S. - Hoje é Dia Europeu da Enxaqueca.

sábado, 1 de agosto de 2026

Uma coisa ruim

O estresse
"O estresse provoca o câncer!", não se cansava de repetir o clarividente defensor do acordo ortográfico.

Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita. Evidentemente eu não posso dizer se Fafe era uma terra mais ou menos hipócrita do que as outras terras, porque eu só conhecia Fafe, mas que Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita, disso tenho a certeza absoluta, porque eu estava lá e não sou parvo. Provavelmente Portugal completo era um país um bocadinho hipócrita, se calhar inteiramente hipócrita, mas disso eu não sabia ainda, não fazia sequer ideia, porque, é como digo, eu estava em Fafe, e em Fafe desconhecia-se o mundo abaixo de Arões, sobretudo derivado àquilo de que Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita. Mas, verdade seja dita, éramos razoavelmente felizes e saudáveis.
Em Fafe, por exemplo, ninguém padecia de cancro. Ninguém morria de cancro. Porque em Fafe não existia a palavra cancro. Cancro. A palavra cancro não se dizia. O cancro era crime e castigo. Pecado e culpa. Vergonha, tabu. O cancro estava proibido. Dizia-se que Fulano ou Sicrana tinham - aqui baixando a voz ao nível do cicio, do sussurro, do segredo ao ouvido, do cochicho maledicente, da coscuvilhice beata - um bzzzbzzz. Um bzzzbzzz murmurado com sinal da cruz e tudo. Sim, estava no hospital, no Porto, com um bzzzbzzz, muito malzinha ou malzinho, consoante fosse Sicrana ou Sicrano, Deus lhe perdoe. Muitos fafenses morreram, naquele tempo, com bzzzbzzz, mas nunca ninguém morreu com cancro. E não havia Sicranes. E, aliás, nem se morria, falecia-se, que era uma situação muito mais cómoda, muito menos dolorosa, muito menos definitiva...
E mamas? Mamas, dizia-se. Havia mama e havia mamas em Fafe, embora não fosse geral, como já aqui informei com todo o rigor. Tanto quanto me lembro, predominava um certo convencimento de que as raparigas e mulheres de Fafe possuíam realmente mamas, porém nem todas queriam que isso se soubesse. Mas cancro e mamas ou mama é que nunca poderiam coincidir numa mesma frase: cancro da mama, vamos um supor, seria impossível, desde logo porque é obsceno, e a pornografia constava que era só em Guimarães, e, em todo o caso, como se viu, a palavra cancro não existia em Fafe. Bzzzbzzz da mama, com todo o respeito, até admito que possa ter havia, mas eu nunca ouvi dizer, devo confessar.
E depois do cancro, a sida, a mesma hipocrisia, a mesma pequena hipocrisia, a mesma enorme ignorância. Ignorância e indizível maldade. Naquele tempo, o cancro esteve para a sida como João Baptista serviu para Jesus Cristo, mas não adiantou, ninguém acreditou, essa parte não vinha no catecismo de sacristia, rançoso e cruel, e bondade e compaixão eram apenas palavras da boca para fora. Como bzzzbzzz ou, deixemo-nos de merdas, "uma coisa ruim", "uma doença má", "doença prolongada"...
Assim eram as coisas nos bons velhos tempos, e eu limito-me a contá-las tal qual as sei. Fafe está aqui como mero pretexto, mais nada. Fafe é hoje uma terra completamente diferente e absolutamente igual. Porque Fafe, sendo talvez às vezes uma terra um bocadinho hipócrita, é com certeza e sempre a melhor terra do mundo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Cancro do Pulmão.)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Quando os médicos fumavam

Impressionante!
É impressionante a quantidade de gente que se junta à porta do IPO-Porto para... fumar. À porta do IPO, Instituto Português de Oncologia. Para fumar. Impressionante...

Sou do tempo em que os médicos fumavam. Fumavam durante as consultas, quero dizer, ostensivamente, abundantemente, como chaminés, cigarro atrás de cigarro, cinzeiros cheios, dedos castanhos de nicotina, auscultavam, palpavam, mediam a tensão, espiavam as costas, espreitavam os olhos, os ouvidos e a garganta, martelavam os joelhos, desciam aos tornozelos, engasgavam-se no fumo, tossiam e lançavam cinza para cima do paciente, mas o Dr. Antunes não, o nosso bom Dr. Antunes fumava cachimbo, exibia aliás uma pequena colecção de bonitos cachimbos em cima da secretária de trabalho no consultório da Rua General Humberto Delgado, por baixo da residência, ao lado da loja do Nélson, que tinha uma voz mansa e vendia electrodomésticos. Com o Dr. Antunes, em Fafe, era realmente outro asseio, outra categoria.
E que se segue. Os médicos fumavam e isso, a mim, parecia-me bom sinal. Eu acreditava na imortalidade dos médicos e na santidade dos padres.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 26 de maio de 2026

Uma pedra na sapatilha

Gorilas da Bruna
Bruna é uma "youtuber" bastante "influencer". Elegante, bonita, regularmente recauchutada, famosa por ser famosa, esbanja sensualidade por tudo e por nada e enriqueceu por causa disso. Bruna mal pode sair à rua como as outras pessoas, isto é, põe um pé fora da porta a caminho da piscina por exemplo em Ibiza e multidões de adoradores caem-lhe em cima. Bruna tem milhões de seguidores. De perseguidores. Para fazer uma vida normal, viu-se até obrigada a contratar dois possantes seguranças, ou guarda-costas, à Kevin Costner, ou gorilas, como também se diz, que não a largam um segundo e vão com ela a todo o lado, inclusive à casa de banho por exemplo nas Maldivas. São conhecidos como os gorilas da Bruna.

Duas mulheres com feições e conversa orientais, deito-me a adivinhar. Provavelmente chinesas e aparentemente mãe e filha. Ouço-as antes de as ver. Estão agachadas entre os arbustos do Parque da Cidade, em posição de necessidades, acabo por reparar sem intenção. Desolho num relâmpago, cheio de vergonha e culpa por ter olhado, e fujo dali para fora aos solavancos o mais depressa que posso. As sapatilhas que herdei do meu filho para uma segunda vida fazem-me bolhas nos calcanhares e na planta dos pés. Mancam-me. Já é o terceiro par que recebo assim, manhosamente cilicioso, começo a suspeitar que é de propósito. O Kiko anda a praxar-me não sei porquê.
Dia seguinte à mesma hora, lá estão elas outra vez. As duas novamente cochichando, aninhadas, movendo-se de cócoras pelo meio do restolho como melros assustadiços ou talvez David Attenborough amoitado no coração das florestas tropicais de Bornéu e, alto e pára o baile, isso já me autoriza a não desviar o olhar. Isso de as mulheres se moverem e estarem afinal completamente vestidas e compostas, digo bem, mais o facto de cada uma delas arrastar consigo de vez em quando uma daquelas enormes sacas de supermercado que custavam 50 cêntimos nos dias em que não eram dadas. Entretanto acabaram-se as borlas. Aproximo-me, como quem não quer a coisa. "É pala chá. Só pala chá. Só chá!", diz-me de jacto a senhora mais velha, veemente, incomodada e, parece-me, desconfiada, se não mesmo receosa, da minha inocente curiosidade.
Percebo. As duas mulheres com feições e conversa orientais catam flores de madressilva, que já esbordam, brancas e amarelas, das sacas de supermercado. Voltam lá todos os dias, na época, vejo-as pelas cinco da tarde, às vezes com reforços, um rancho depenicando muros anões e fartos naquela zona mais recatada do parque. Cheira que consola! O ar é doce como mel...
Consulto o Dr. Google, que me explica tudo ou quase tudo. A flor de madressilva é altamente valorizada na medicina tradicional chinesa, que lhe reconhece propriedades adstringente, antibacteriana, antifúngica, anti-séptica, antiespasmódica, antitumor, diaforética, diurética, expectorante, febrífuga, hipoglicémica, laxante e refrigerante. A madressilva, mãe de todas as curas, usa-se para tratar a asma, o colesterol alto, a congestão linfática, a diarreia, a disenteria, a dor de cabeça, a dor de garganta, erupções cutâneas, febre, gripe, inchaços, infecção bacteriana, intoxicação gastrintestinal, laringite, queimadura do sol, sumagre-venenoso, tosse e úlceras. Se lhe conseguirmos acrescentar as unhas encravadas a sida e a covid, como chegou a ser sugerido na China, estaremos então na presença de uma panaceia ao nível da nossa famosa banha da cobra, misteriosamente desaparecida das feiras mas ainda à venda em mercados sorrateiros ou alternativos, que eu bem sei.
Por outro lado: a avaliar pela posição em que é apanhada, o mais certo é que a flor de madressilva faça muito mal às costas - é o que penso. E então lembro-me da querida Bó de Basto, que sabia de lendas, de mouras encantadas e de penedos de morar, que distinguia cogumelos, que conhecia plantas, chás para dores de barriga ou outras maleitas assim a atirarem mais para o pataqueiro, aflições comezinhas, nada comparável com a multifuncionalidade e potência da flor de madressilva, remédio capaz de afrontar as mais medonhas e sofisticadas pestes e pragas, existentes ou por inventar. Lembro-me dos curandeiros, talhadores e endireitas de Fafe e arredores, mulheres e homens honrados e competentes, abençoados por saberes antigos e generosos aliviadores de corpos e espíritos, fui cliente frequente, levado pelas orelhas, lembro-me de me consertarem maus jeitos e trasorelhos, ossos desviados, rachadelas, comichões diversas, uma e outra vez, era eu miúdo e arisco, pobre e feliz, saltando alegremente de desastre em desastre, à falta de outros brinquedos. O nosso bruxo, diga-se em abono da verdade, chegou alguns anos mais tarde, já não veio a tempo de mim.
Mas eu e as duas sobressaltadas apanhadoras de flores de madressilva no Parque da Cidade, quereis saber que mais? Reparastes certamente: a mulher mais velha, sem que eu lhe tivesse perguntado, fez questão de dizer-me, enfaticamente, como se estivesse a justificar-se, a defender-se de uma acusação não formulada, que era "só pala chá". Mas porquê? A coisa também se fuma, será? Alegra a disposição? Hummm!... Vim-me embora com essa pedra no sapato. E era realmente escusado. As sacanas das sapatilhas já me dão mau andar que chegue.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Jardins perdidos

Traz uma árvore também
Era uma localidade um bocadinho estranha, naturalmente austera porém exuberantemente moderna e cosmopolita. Nas suas principais entradas, a autarquia colocara frondosas tabuletas que avisavam os forasteiros: "Se quiser sombra, traga a sua própria árvore".

Os jardins era uma coisa que existia antigamente. Como os castelos, as pinturas rupestres, as pirâmides e assim. Era uma coisa muito antiga, do tempo dos romanos, basta ver que Deus, quando criou o mundo, o mundo era um jardim, mais ou menos como a Madeira, mas chamava-se Éden, como o velho cinema de Lisboa, ou Jardim do Éden ou Jardim das Delícias ou Paraíso Terreal ou simplesmente Paraíso, como o novo cinema de Palazzo Adriano. O plural de Éden é édenes, convém não esquecer.
E corria tudo bem no Paraíso. Quer-se dizer: corria tudo na paz do Senhor. Poder-se-ia até afirmar, creio que sem forçar demasiado a nota, que o Paraíso era, naquele tempo, um autêntico paraíso. Estava escrito, porém, que Adão e Eva tinham de asnear. Podiam ter cometido um pecado qualquer, um pecadinho de nada, um pecado repetido, copiado, um que estivesse na moda. Mas não! - quiseram ser originais. E foram. Adão e Eva cometeram o pecado original e deu na merda que deu. Até hoje.
Eu sou desse tempo. Do tempo em que ainda havia jardins. Não se sabe bem se foi por causa dos traques dos dinossauros ou derivado ao impacto de um asteróide gigante, eventualmente do tamanho de uma cidade, a verdade é que coisas antigas como os castelos, as pinturas rupestres, as pirâmides, os jardins e assim foram regra geral varridas da face da Terra, restando hoje em dia apenas algumas amostras assumidamente raras e razoavelmente arqueológicas.
Para que a Humanidade tenha pelo menos uma vaga ideia de como era o mundo em Portugal antes do apocalipse é que Portugal descobriu Vila Nova de Foz Côa, por exemplo, e Fafe mantém às vezes de porta aberta o vetusto Jardim do Calvário, que nos seus tempos mais pré-históricos até teve crocodilos, e bem barulhentos, isso toda a gente sabe.
Os jardins antigos, os jardins entretanto desaparecidos, foram substituídos por urbanismo, é assim que se chama a nova coisa. E como é que isso se fez? Como é que isso se faz?

Desta maneira simples. Pegue-se num bom pedaço de terreno relvado, com árvores e com sombras, e arrase-se tudo. O terreno, a relva, as árvores e as sombras. O urbanismo não quer sombras. Encha-se o espaço de alcatrão, cimento, placas de granito e mármore, pedregulhos aparelhados fazendo de conta de bancos e estacas de alumínio a imitarem árvores ou, quem sabe, a imitarem esculturas muito inteligentes e indecifráveis, de preferência com esguichos mas sem água derivado à seca e à poupança. Isto é urbanismo! Pegue-se no jardim da cidade, arranquem-se as flores e os arbustos, envenene-se o verde, construam-se desertos em forma de praça e mandem-se as pessoas para casa. Isto é urbanismo! Pegue-se num monte, sítio de memórias, de brincadeiras da infância, santuário de locais secretos e míticos, reserva de saúde e natureza, e corte-se-lhe a crista, cape-se, desarborize-se, desfaune-se, terraplene-se, enxote-se a bicharada, cale-se o incómodo do chilreio dos pássaros, ergam-se moradias de preferência com feitio de caixote, altas, pegadas e muitas, fechadas, e muros e portões e alarmes e estradas e carros e escapes e buzinas e estampanços e atropelamentos e antenas parabólicas e fios e postes de alta ou remediada tensão. Isto é urbanismo!

Resumindo e concluindo: roubam-nos os jardins e dão-nos esplanadas desamparadas e escaldantes, arrancam-nos as árvores e impingem-nos guarda-sóis publicitários. E, se nos queixamos, dizem-nos que não percebemos nada do assunto. Mas qual assunto? Viver?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional dos Jardins.)

As árvores

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 19 de maio de 2026

Quem sai aos seus

Ele era médico, de família. Quer-se dizer, seguiu os passos do pai, do avô também e o bisavô até nem tinha sido o primeiro, todos médicos, que remédio, geração atrás de geração. Entre tios, sobrinhos e primos, formavam, com efeito, um considerável corpo clínico. Dizia-se que eram descendentes directos de William Osler, por parte da mãe, e, regra geral, do próprio Hipócrates em pessoa. Mas essa parte não posso jurar...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Médico de Família.)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O remédio das bichas

O remédio das bichas antigamente era vendido em frascos tipo xarope e tomado às colheradas. Comprava-se na farmácia com recomendações adequadas ou era dado na escola por ordem do delegado de saúde, dizia-se que era eficaz, uma limpeza. Belos tempos. O negócio está hoje em dia nas mãos de exorcistas de contrabando, vendedores de banha da cobra e outros aldrabões, especialistas do Chega e parece que também do PSD.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O povo ouviu dizer

Eram aos milhares à porta do centro de saúde, nunca se vira uma coisa assim. Chegavam de ambulâncias, camionetas de caixa aberta, motorizadas e até carros de bois, em macas, padiolas e camas de casal, com a ajuda de bengalas, cajados, muletas, andarilhos, bandarilhas, cadeiras de rodas e patins em linha, cegos, mancos, cardíacos, asmáticos e furunculosos, os padecimentos do mundo inteiro ali estavam a céu aberto, acotovelando-se. Sendo 13 de Maio, até parecia Fátima em peso à espera da bênção dos enfermos. Mas nada disso. Ouviram dizer, constou-lhes, que era "Dia do Doente" e, pronto, tomaram horas e apareceram todos à consulta.

P.S. - Hoje é Dia do Duende. Do Duende, porra!

terça-feira, 28 de abril de 2026

Ben-u-ron, uma questão de fé

Viciado em pastilhas
Tomava pastilhas atrás de pastilhas, mas não havia maneira de melhorar. Eram pastilhas de travão e ainda por cima davam-lhe gases. 

A minha sogra gosta muito do Ben-u-ron. Reclama "o meu Banuronzinho" por tudo e por nada, geralmente só para marcar posição de doente diplomada, inscrita na ordem e com as quotas em dia, questão de princípio, mas também para a insónia ou para a sonolência, para a garganta seca ou molhada, para o frio e para o calor, para as correntes de ar e para o mau-olhado, para a diarreia ou para a prisão de ventre, para os arrotos, soluços e espirros, para a flatulência ou para a surdez ou para a anosmia, para as unhas encravadas ou para os pêlos do nariz. A minha sogra só não quer Ben-u-ron para as dores de que se queixa como quem reza o terço em latim ou para a febre que felizmente quase nunca tem, por mais que meta o termómetro. Mas para o resto - isto é, para aquilo que não diz respeito ao Ben-u-ron -, a miraculosa pastilha é trigo limpo, farinha amparo. "Tenho muito fé no Banuron!", justifica a minha sogra. A Joaquininha decerto tem razão, vai a caminho dos 94 anos e, portanto, só pode ter razão. E eu, verdade seja dita, questões de fé não discuto...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Sogra.)