sexta-feira, 26 de junho de 2026
Somos pó
terça-feira, 26 de maio de 2026
Uma pedra na sapatilha
Gorilas da BrunaBruna é uma "youtuber" bastante "influencer". Elegante, bonita, regularmente recauchutada, famosa por ser famosa, esbanja sensualidade por tudo e por nada e enriqueceu por causa disso. Bruna mal pode sair à rua como as outras pessoas, isto é, põe um pé fora da porta a caminho da piscina por exemplo em Ibiza e multidões de adoradores caem-lhe em cima. Bruna tem milhões de seguidores. De perseguidores. Para fazer uma vida normal, viu-se até obrigada a contratar dois possantes seguranças, ou guarda-costas, à Kevin Costner, ou gorilas, como também se diz, que não a largam um segundo e vão com ela a todo o lado, inclusive à casa de banho por exemplo nas Maldivas. São conhecidos como os gorilas da Bruna.
Dia seguinte à mesma hora, lá estão elas outra vez. As duas novamente cochichando, aninhadas, movendo-se de cócoras pelo meio do restolho como melros assustadiços ou talvez David Attenborough amoitado no coração das florestas tropicais de Bornéu e, alto e pára o baile, isso já me autoriza a não desviar o olhar. Isso de as mulheres se moverem e estarem afinal completamente vestidas e compostas, digo bem, mais o facto de cada uma delas arrastar consigo de vez em quando uma daquelas enormes sacas de supermercado que custavam 50 cêntimos nos dias em que não eram dadas. Entretanto acabaram-se as borlas. Aproximo-me, como quem não quer a coisa. "É pala chá. Só pala chá. Só chá!", diz-me de jacto a senhora mais velha, veemente, incomodada e, parece-me, desconfiada, se não mesmo receosa, da minha inocente curiosidade.
Percebo. As duas mulheres com feições e conversa orientais catam flores de madressilva, que já esbordam, brancas e amarelas, das sacas de supermercado. Voltam lá todos os dias, na época, vejo-as pelas cinco da tarde, às vezes com reforços, um rancho depenicando muros anões e fartos naquela zona mais recatada do parque. Cheira que consola! O ar é doce como mel...
Consulto o Dr. Google, que me explica tudo ou quase tudo. A flor de madressilva é altamente valorizada na medicina tradicional chinesa, que lhe reconhece propriedades adstringente, antibacteriana, antifúngica, anti-séptica, antiespasmódica, antitumor, diaforética, diurética, expectorante, febrífuga, hipoglicémica, laxante e refrigerante. A madressilva, mãe de todas as curas, usa-se para tratar a asma, o colesterol alto, a congestão linfática, a diarreia, a disenteria, a dor de cabeça, a dor de garganta, erupções cutâneas, febre, gripe, inchaços, infecção bacteriana, intoxicação gastrintestinal, laringite, queimadura do sol, sumagre-venenoso, tosse e úlceras. Se lhe conseguirmos acrescentar as unhas encravadas a sida e a covid, como chegou a ser sugerido na China, estaremos então na presença de uma panaceia ao nível da nossa famosa banha da cobra, misteriosamente desaparecida das feiras mas ainda à venda em mercados sorrateiros ou alternativos, que eu bem sei.
Por outro lado: a avaliar pela posição em que é apanhada, o mais certo é que a flor de madressilva faça muito mal às costas - é o que penso. E então lembro-me da querida Bó de Basto, que sabia de lendas, de mouras encantadas e de penedos de morar, que distinguia cogumelos, que conhecia plantas, chás para dores de barriga ou outras maleitas assim a atirarem mais para o pataqueiro, aflições comezinhas, nada comparável com a multifuncionalidade e potência da flor de madressilva, remédio capaz de afrontar as mais medonhas e sofisticadas pestes e pragas, existentes ou por inventar. Lembro-me dos curandeiros, talhadores e endireitas de Fafe e arredores, mulheres e homens honrados e competentes, abençoados por saberes antigos e generosos aliviadores de corpos e espíritos, fui cliente frequente, levado pelas orelhas, lembro-me de me consertarem maus jeitos e trasorelhos, ossos desviados, rachadelas, comichões diversas, uma e outra vez, era eu miúdo e arisco, pobre e feliz, saltando alegremente de desastre em desastre, à falta de outros brinquedos. O nosso bruxo, diga-se em abono da verdade, chegou alguns anos mais tarde, já não veio a tempo de mim.
terça-feira, 30 de novembro de 2021
terça-feira, 26 de outubro de 2021
Canábis ao pé da porta
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Passou-se uma semana e a lojinha encerrou de vez: veio uma carrinha limpar as escanzeladas prateleiras, três sacos de plástico bastaram e lá se foi mais um posto de trabalho, por assim dizer, que é o que a mim me importa. Fico infeliz por ter razão: o conceito era realmente uma treta. Esta gente não sabe o que é massa com bacalhau e o prato a esbordar...
Entretanto. Antes e depois da sua lastimável fase "regional gourmet", a lojinha do outro lado da minha rua foi quase tudo, por breves temporadas e com fracasso garantido. Butique de média costura, sapataria fina, loja de animais, bijuteria e outras inutilidades, escritório, despensa, garrafeira e outros souvenirs, recepção de alojamento local e até agência de viagens que nunca abriu, mas a mim cheirou-me sempre ao mesmo: lavandaria.
Nem de propósito, a lojinha é agora um posto de lavagem self-service para cães. E na porta ao lado acaba de abrir um estabelecimento para venda de "cannabis legal" e outros "produtos derivados de cânhamo", como, por exemplo, "creme de avelãs para barrar". Reconheço a mudança de paradigma: são dois negócios com irreprimíveis potencialidades. Vejo-lhes futuro. Principalmente ao dos cães, porque nasceu no tempo e no país certos. Um tempo e um país em que os animais são de estimação, mas as pessoas não. Já quanto à canábis, vamos lá ver: não sei se o pessoal aqui da zona não andará de momento mais interessado em algo, como é que se diz, mais pesado e ilegal, vá lá...
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
A super-heroína
Era realmente uma super-heroína. Com uma pureza a rondar os noventa e cinco por cento.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Diz que o Metro do Porto está entregue aos bichos
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Contam-me que a Linha Azul (A) do Metro do Porto (Estádio do Dragão-Senhor de Matosinhos) é cada vez mais o Expresso do Drogódromo do Viso. Porto, 1 - Lisboa, 0. Nem o Casal Ventoso, nos seus tempos de glória, esteve assim tão bem servido de transportes públicos.
A fauna toxicodependente tem de tudo, como as farmácias e as lojas dos chineses. Há os mansos, que vão no seu canto e querem é que os deixem em paz, e ninguém tem nada com isso, mas também há uma perigosa corja de rufias, provocadores e ameaçadores em plena luz do dia e em horas de ponta e mola. Dizem-me que a minoria não toxicodependente dos passageiros da Linha Azul (A) anda cheia de medo desta gente.
E os seguranças também. Consta que ninguém os vê na Linha Azul (A) do Metro do Porto desde o princípio do ano. Será um exagero, mas quer-se dizer: os drogados tomaram conta, e a segurança desertou.
Atenção, esta parte eu não critico. Eu se fosse segurança também me fazia de ceguinho, ou pelo menos olhava para o outro lado, ou saía quando eles entrassem, porque sou cobarde e não tenho músculos que se vejam nem corte de cabelo nazi, e por isso é que não sou segurança. Eu se fosse segurança, palavra de honra, nem sequer me metia com os gandulos que agora viajam na esplanada das traseiras do metro sem que uma farda qualquer os arranque dali para fora pelas orelhas e, já agora, com um par de estalos. E antes que se aleijem.
domingo, 6 de maio de 2012
Com certos alegados, todo o cuidado é pouco
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Ironia nupcial
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Dramática alteração na correlação de forças em presença no Parque da Cidade, do Porto. O mirante dos espreitas, de que aqui já dei nota, estava ontem ocupado por um casal de noivos em sessão fotográfica pré-nupcial. Ironia do caraças: o sítio habitualmente ocupado pelos badalhocos da mironagem fora tomado de assalto por duas das suas potenciais vítimas, com a ajuda de uma dupla de pacientes profissionais do só-mais-uma-é-a-última-um-sorrisinho-por-favor. Aos viciosos de algibeira não terá restado eventualmente outra saída senão dispersarem, para mais tarde reagruparem. Mas esta parte eu já não vi.
Os espreitas, de binóculos e tudo, eram donos e senhores do miradouro mais alto e mais abrangente do Parque da Cidade. Era dali de cima, com a cumplicidade e às vezes a companhia do pessoal de serviço, que eles se babavam à procura de casalinhos mal escondidos no truca-truca. Foi isto o que eu contei.
Mas a coisa começou a mudar de figura mais ou menos na maré em que eu escrevi "Os espreitas do Parque", no passado dia 1 de Agosto. Longe de mim, no entanto, presumir que os mirones foram expulsos do seu paraíso e a pouca vergonha acabou por causa da denúncia deste farol da moral e dos bons costume que é o Tarrenego!, longe de mim. Primeiro, porque a pouca vergonha não acabou, apenas intervalou, depois de uns dias de abstinência mironal absoluta, mera coincidência. Depois, porque agora há quase sempre quem chegue lá primeiro e tome conta do miradouro. E quem são eles, os novos senhores do Parque? Jovens pares de namorados que se marmelam como gente grande e querem lá saber de quem olha, ou então uma rapaziada toda simpática e bem disposta que fuma ali umas coisas que só lhes dá para rir. Antes assim.