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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Era apenas um copo de água

O leitmotiv
O "leitmotiv", por exemplo. Tenho dúvidas. É gordo, magro, meio-gordo, achocolatado, integral, dourado, desnatado, em pó, condensado, vegetal, enriquecido, de soja, de burra, de barata, de camelo, de tigre, de aveia, de amêndoa, de coco, desmaquilhante, adelgaçante, reafirmante, derramado, leite-creme, leite-de-cal, leite-de-galinha, leite-de-pato ou de colónia? E quanto a calorias?

Entrou, sentou-se e pediu um copo de água. Trouxeram-lhe dois croquetes, dois rissóis de camarão, dois rissóis de carne, dois bolinhos de bacalhau, uma empada de vitela, um pratinho de salada russa, um pratinho de salada de feijão fradinho, um pratinho de polvo em molho-verde, um pratinho de moelas de coelho, um pratinho de massa à lavrador, um pires de tremoços, cem gramas de camarão, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta, três asas de frango frito, meia cabeça de leitão, quatro fatias de lombo de porco assado, meia dose de rojões com arroz de sarrabulho, uma canja, uma fatia de bolo, meia dúzia de amendoins, um par de noivos, uma intoxicação alimentar, um café e um bagaço. "Ó faxavor, eu só pedi um copo de água - copo de água", disse ele, atrapalhado. "Ai desculpe, eu percebi um copo-d'água - copo-d'água", assumiu o diligente funcionário, por certo doutorado em semântica, arrumando imediatamente o hífen e o apóstrofe e dirigindo-se à torneira.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ironia nupcial

Foto Hernâni Von Doellinger

Dramática alteração na correlação de forças em presença no Parque da Cidade, do Porto. O mirante dos espreitas, de que aqui já dei nota, estava ontem ocupado por um casal de noivos em sessão fotográfica pré-nupcial. Ironia do caraças: o sítio habitualmente ocupado pelos badalhocos da mironagem fora tomado de assalto por duas das suas potenciais vítimas, com a ajuda de uma dupla de pacientes profissionais do só-mais-uma-é-a-última-um-sorrisinho-por-favor. Aos viciosos de algibeira não terá restado eventualmente outra saída senão dispersarem, para mais tarde reagruparem. Mas esta parte eu já não vi.
Os espreitas, de binóculos e tudo, eram donos e senhores do miradouro mais alto e mais abrangente do Parque da Cidade. Era dali de cima, com a cumplicidade e às vezes a companhia do pessoal de serviço, que eles se babavam à procura de casalinhos mal escondidos no truca-truca. Foi isto o que eu contei.
Mas a coisa começou a mudar de figura mais ou menos na maré em que eu escrevi "Os espreitas do Parque", no passado dia 1 de Agosto. Longe de mim, no entanto, presumir que os mirones foram expulsos do seu paraíso e a pouca vergonha acabou por causa da denúncia deste farol da moral e dos bons costume que é o Tarrenego!, longe de mim. Primeiro, porque a pouca vergonha não acabou, apenas intervalou, depois de uns dias de abstinência mironal absoluta, mera coincidência. Depois, porque agora há quase sempre quem chegue lá primeiro e tome conta do miradouro. E quem são eles, os novos senhores do Parque? Jovens pares de namorados que se marmelam como gente grande e querem lá saber de quem olha, ou então uma rapaziada toda simpática e bem disposta que fuma ali umas coisas que só lhes dá para rir. Antes assim.