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sexta-feira, 19 de julho de 2024

Pontes que são pontes

Foto Hernâni Von Doellinger

Tínhamos a bó e tínhamos o bô. Eu e os meus irmãos tivemos bó e bô vezes dois, pela mãe e pelo pai, sorte a nossa! Bozinha era a bisavó, e tínhamos, em Basto, uma, muito velhinha, que certa vez deu-me uma batata assada no borralho que era muito saborosa, e é essa a extraordinária memória que guardo. Bô queria também dizer bom: binho bô; bô moço; estás bô? Depois, se calhar por soar a parolo não sei a que finaços de carregar pela boca, bô mudou para bu. Bu também mete medo, é susto. Buuu! Mas quem caralho teve a ideia?...

Para mim, e defendo-o de graça há muitos anos, o Minho começa em Fafe e acaba em Santiago de Compostela. E a Galiza também. Isto é: Galiza e Minho são-me o mesmo, chamem-lhe o que quiserem, mas Minho decerto fica-lhe melhor derivado ao rio que nos une. Somos a cara chapada uns dos outros, os minhotos e os galegos destes limites, labregos envernizados, crescemos das mesmas raízes, aprendemos de uma literatura comum, padecemos ainda hoje do mesmo ancestral atraso de vida, desfrutamos do mesmo amor à comida e à bebida, à água benta e à festa, partilhamos a maneira de falar, cheia de "ches", de "inhas" e de "inhos", de "xes" em vez de "ses", de "bes" em vez de "ves", não raro falamos até a mesma língua, consoante os sítios e a idade, repetimos nomes, palavras pândegas, debitamos caralhos atrás de caralhos como não há memória de tanto caralhar noutras latitudes deste mundo e de outros. Nós, os galegos do lado de cá, e eles, os minhotos do lado de lá, assim somos.
Em Fafe e nas terras de Basto chegadas a Fafe falava-se esse conversar comum quando eu era pequeno, aprendi-o naturalmente com os meus avós maternos, em Passos, Cabeceiras, com a minha mãe e com os meus tios. A querida tia Margarida ainda hoje o usa a cotio, com uma graça que me encanta e comove, e eu dou-lhe serventia da língua para fora sempre que posso, e hoje em dia, sem obrigações profissionais, posso quase sempre. Este modo de falar faz parte do nosso fafês.
E o fafês é a minha língua. Nasci no fafês, sou do fafês desde pequeninho, agora tanto ou mais do que então.

Imaginem então a minha alegria com o que se passou aqui atrasado, numa das nossas habituais saltadas ao lado do Minho a que outros chamam Galiza. Foi assim. Como de costume, aproveitámos para atestar o depósito do carro, ali à entrada de Tui, logo depois da velha ponte de Valença, a chamada ponte rodoferroviária com desenho Eiffel. "Ga-só-le-o!", digo eu ao senhor gasolineiro. E o senhor gasolineiro, nunca tal nos tinha acontecido, pergunta-me sem mais nem menos, como se anunciasse pipa nova: - Normal ou do bô?...
Caralho! "Do bô", o senhor gasolineiro perguntou-me se o gasóleo era "do bô", palavra de honra, "do bô", perguntou, como fosse a minha avó, o meu avô, a minha mãe ou a tia Margarida a perguntar-me. E eu fiquei tão contente, tão criança, de repente tão outra vez abraçado ao avental da minha mãe a cheirar tão bem a sabão e felicidade, a casa, a nós, a Fafe antigo, fiquei tão comovido que quase me descompus. Apetecia-me abraçar o homem...
Por outro lado, o gasóleo era do normal e fedia indecentemente. Mas o senhor gasolineiro perguntou se era "do bô", foi o que ele disse, e disse tão bem, e eu gostei tanto. "Do bô", caralho!...

P.S. - A "nova" Ponte Internacional Valença-Tui, na A3, foi inaugurada no dia 19 de Julho de 1993.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Um bobsleigh em segunda mão

No tempo dos sonhos eu tive um: comprar um bobsleigh em segunda mão, pegar na mulher, no filho e no futuro e mudarmo-nos os quatro para Santiago de Compostela, que era o estrangeiro que me estava mais à mão e nós gostávamos razoavelmente derivado às ruinhas, às tapas e às cañas e por a bem dizer nem sequer ser estrangeiro. Melhor dito, gostamos muito. Mas hoje em dia: a Galiza anda tão à rasca como a gente, já não é oficialmente estrangeiro e saraiva por mais que saraive, ainda que em galego, não é neve nem embala. Ia fazer o quê com o bobsleigh na Praça do Obradoiro? Do Obradoiro, que nome extraordinário. Ainda por cima, os gandulos do lado de cá cortaram-me as vazas, entesaram-me até ao cutão. Desisti portanto do bobsleigh e tirei o passe do metro para a Senhora da Hora. Segundo julgo saber, na Senhora da Hora não neva há variados anos por uma questão de princípio. Que se segue: de bolsos vazios e sonhos roubados, fico olimpicamente em casa à espera do Verão de que não gosto. Sem bobsleigh, sem ruinhas, sem tapas e sem cañas. Uma seca que só visto.
Sou dado a invernos. Melhor que chova em Santiago. E que neve e que gele. Ou então nada disso, que ao ponto a que chegámos também não interessa, mas Santiago, sempre Santiago, mesmo sem bobsleigh e ainda que faça sol. Um dia destes lá iremos, eu, a mulher, o filho e o futuro - pobres e a pé, se Deus quiser, mas vamos. E tem de ser rápido, antes que uns certos e determinados bandalhos nos matem à fome em primeira mão.

P.S. - Publicado originalmente no dia 9 de Fevereiro de 2014. Entretanto comprei um carrinho de mão praticamente novo e temos dado as nossas voltas por aí.

Vá à Galiza e não pague

Os portugueses vão ser incentivados a deixarem de pagar as contas quando visitarem a Galiza. Trata-se de uma iniciativa no âmbito de um protocolo bilateral que está a ser ultimado pelo Eixo Atlântico, associação transfronteiriça que congrega 34 municípios do noroeste peninsular e que, como se sabe, até ontem não servia para absolutamente nada.
Exactamente ontem, o galego Xóan Vasquez Mão, secretário-geral do Eixo, teve a peregrina ideia de desafiar todos os espanhóis a passarem pelas nossas ex-scut sem pagar portagens e sem medo de multas, dando a entender que o Governo português lhe prometeu que vai continuar a fechar os olhos a esse tipo de infracções quando praticadas por nuestros hermanos. E foi a partir daí que tudo se precipitou.
Numa corrida contra o tempo, uma intensa campanha publicitária está a ser preparada de ambos os lados da fronteira, para explicar às respectivas populações os exactos contornos desta inovadora operação de permuta. Foram imediatamente lançados dois slogans, embora o objectivo seja um só: para cima do rio Minho a campanha tem por título "Portugal é de rir", de Valença para baixo a campanha denomina-se "A Galiza é de graça".
Cá, os espanhóis têm à borla as auto-estradas que nós pagamos, mas lá, em contrapartida, os portugueses passarão a dispor de um interessante portefólio de fiados sem cobrança que inclui, entre outras notáveis instituições galegas, a Zara, o Corte Inglés, as bombas da Cepsa em Tui (logo a seguir à ponte velha), o Hostal de los Reyes Catolicos, o polbo á feira, o lacón con grelos, a empanada, os pementos de Padrón, o albariño e até missas de sétimo dia na Catedral de Santiago de Compostela.
É vestir, abastecer, dormir, comer, beber, rezar e vazar. Português não paga! É tudo para o tecto, para o calo. E, se houver galegos desinformados que não gostem, que vão receber ao BES! Ou, então, que façam o favor de passar pelo posto de turismo mais próximo. Está tudo previsto no protocolo.
Mas atenção, portugueses: as portagens nas auto-estradas espanholas são para continuar a pagar. O contrário seria uma ilegalidade. E uma imoralidade.

P.S. - Publicado originalmente no dia 2 de Agosto de 2011.

Galiza de ida e volta

Fui despedir-me da Galiza. Não sei quando lá torno, não sei se lá tornarei. Não há dinheiro, não há vícios, e a Galiza era um dos meus mais queridos vícios. Estou, na verdade, a pôr em ordem a minha ausência de futuro. Ando a despedir-me de todos os meus sítios. Comecei por cortar no supérfluo, nos prazeres da vida, mas dei comigo já a roer as unhas ao essencial, a questionar a própria subsistência. O mais certo é nunca mais pôr os pés fora de casa, para poupar as solas dos sapatos. Resta-me a varanda e a vista para o mar, se me puser de lado, e a companhia da gaivota cagona. O CRF vai ser substituído por água da torneira com duas gotas de tintura de iodo, em balão previamente aquecido ao sol, e o cachimbo passará ser a fumado com barbas de milho.
Almoço, às terças, quintas, sábados e domingos; jantar, às segundas, quartas e sextas. Entre mim e a minha mulher, quem almoçar não janta no dia seguinte e quem jantar não almoça no dia seguinte. Ementa única para almoço e jantar: meia malga de caldo de couves sem azeite e um papo-seco seco. Quem comer o caldo de couves sem azeite deixa o papo-seco seco para o outro, que fica automaticamente sem direito a caldo. Parece complicado, mas não é. É tudo uma questão de organização e fé. Creio que a coisa vai funcionar, assim nos deixem morrer em paz.
Portanto fui despedir-me da minha Galiza. E sabeis que mais? Paguei portagens. Paga-se portagens nas auto-estradas da Galiza e os portugueses também. Sempre pagaram. Não há excepções nem ofertas. Mas os meus irmãos galegos são uns pândegos e resolveram embirrar com as nossas ex-scut que nos entram a nós, portugueses, pelos bolsos dentro depois de nos terem sido prometidas e entregues como "sem custo para os utilizadores".
Primeiro foi Xóan Vasquez Mao, secretário-geral do Eixo Atlântico, a desafiar todos os espanhóis a passarem pelas nossas ex-scut sem pagarem portagens e sem medo de multas, dando a entender que tinha garantida a cumplicidade do Governo português. Agora são vários hotéis de Vigo a oferecerem aos clientes portugueses o valor das portagens na A28 nos programas especiais de passagem de ano para contrariar a quebra de negócio já sentida no Natal. E sugerem à hotelaria do Norte de Portugal que faça o mesmo com os seus clientes galegos.
Vamos lá ver em que param as modas. Já que ninguém nos dá nada do lado de cá, até pode ser que, por tabela, ainda acabemos por ganhar alguma coisa com os do lado de lá.

P.S. - Publicado originalmente no dia 29 de Dezembro de 2011, não sei como as coisas estão agora, dez anos passados. A Ponte Internacional Valença-Tui foi inaugurada no dia 19 de Julho de 1993.