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segunda-feira, 19 de julho de 2021

Vá à Galiza e não pague

Os portugueses vão ser incentivados a deixarem de pagar as contas quando visitarem a Galiza. Trata-se de uma iniciativa no âmbito de um protocolo bilateral que está a ser ultimado pelo Eixo Atlântico, associação transfronteiriça que congrega 34 municípios do noroeste peninsular e que, como se sabe, até ontem não servia para absolutamente nada.
Exactamente ontem, o galego Xóan Vasquez Mão, secretário-geral do Eixo, teve a peregrina ideia de desafiar todos os espanhóis a passarem pelas nossas ex-scut sem pagar portagens e sem medo de multas, dando a entender que o Governo português lhe prometeu que vai continuar a fechar os olhos a esse tipo de infracções quando praticadas por nuestros hermanos. E foi a partir daí que tudo se precipitou.
Numa corrida contra o tempo, uma intensa campanha publicitária está a ser preparada de ambos os lados da fronteira, para explicar às respectivas populações os exactos contornos desta inovadora operação de permuta. Foram imediatamente lançados dois slogans, embora o objectivo seja um só: para cima do rio Minho a campanha tem por título "Portugal é de rir", de Valença para baixo a campanha denomina-se "A Galiza é de graça".
Cá, os espanhóis têm à borla as auto-estradas que nós pagamos, mas lá, em contrapartida, os portugueses passarão a dispor de um interessante portefólio de fiados sem cobrança que inclui, entre outras notáveis instituições galegas, a Zara, o Corte Inglés, as bombas da Cepsa em Tui (logo a seguir à ponte velha), o Hostal de los Reyes Catolicos, o polbo á feira, o lacón con grelos, a empanada, os pementos de Padrón, o albariño e até missas de sétimo dia na Catedral de Santiago de Compostela.
É vestir, abastecer, dormir, comer, beber, rezar e vazar. Português não paga! É tudo para o tecto, para o calo. E, se houver galegos desinformados que não gostem, que vão receber ao BES! Ou, então, que façam o favor de passar pelo posto de turismo mais próximo. Está tudo previsto no protocolo.
Mas atenção, portugueses: as portagens nas auto-estradas espanholas são para continuar a pagar. O contrário seria uma ilegalidade. E uma imoralidade.

P.S. - Publicado originalmente no dia 2 de Agosto de 2011.

Galiza de ida e volta

Fui despedir-me da Galiza. Não sei quando lá torno, não sei se lá tornarei. Não há dinheiro, não há vícios, e a Galiza era um dos meus mais queridos vícios. Estou, na verdade, a pôr em ordem a minha ausência de futuro. Ando a despedir-me de todos os meus sítios. Comecei por cortar no supérfluo, nos prazeres da vida, mas dei comigo já a roer as unhas ao essencial, a questionar a própria subsistência. O mais certo é nunca mais pôr os pés fora de casa, para poupar as solas dos sapatos. Resta-me a varanda e a vista para o mar, se me puser de lado, e a companhia da gaivota cagona. O CRF vai ser substituído por água da torneira com duas gotas de tintura de iodo, em balão previamente aquecido ao sol, e o cachimbo passará ser a fumado com barbas de milho.
Almoço, às terças, quintas, sábados e domingos; jantar, às segundas, quartas e sextas. Entre mim e a minha mulher, quem almoçar não janta no dia seguinte e quem jantar não almoça no dia seguinte. Ementa única para almoço e jantar: meia malga de caldo de couves sem azeite e um papo-seco seco. Quem comer o caldo de couves sem azeite deixa o papo-seco seco para o outro, que fica automaticamente sem direito a caldo. Parece complicado, mas não é. É tudo uma questão de organização e fé. Creio que a coisa vai funcionar, assim nos deixem morrer em paz.
Portanto fui despedir-me da minha Galiza. E sabeis que mais? Paguei portagens. Paga-se portagens nas auto-estradas da Galiza e os portugueses também. Sempre pagaram. Não há excepções nem ofertas. Mas os meus irmãos galegos são uns pândegos e resolveram embirrar com as nossas ex-scut que nos entram a nós, portugueses, pelos bolsos dentro depois de nos terem sido prometidas e entregues como "sem custo para os utilizadores".
Primeiro foi Xóan Vasquez Mao, secretário-geral do Eixo Atlântico, a desafiar todos os espanhóis a passarem pelas nossas ex-scut sem pagarem portagens e sem medo de multas, dando a entender que tinha garantida a cumplicidade do Governo português. Agora são vários hotéis de Vigo a oferecerem aos clientes portugueses o valor das portagens na A28 nos programas especiais de passagem de ano para contrariar a quebra de negócio já sentida no Natal. E sugerem à hotelaria do Norte de Portugal que faça o mesmo com os seus clientes galegos.
Vamos lá ver em que param as modas. Já que ninguém nos dá nada do lado de cá, até pode ser que, por tabela, ainda acabemos por ganhar alguma coisa com os do lado de lá.

P.S. - Publicado originalmente no dia 29 de Dezembro de 2011, não sei como as coisas estão agora, dez anos passados. A Ponte Internacional Valença-Tui foi inaugurada no dia 19 de Julho de 1993.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Daniel Campelo sai do Governo

O Governo anda hoje às voltas com uma espécie de remodelação envolvendo alguns secretários de Estado. Daniel Campelo está de saída, isso já é certo. A informação é de que sai por motivos de saúde.

(Ler mais em E Daniel Campelo deixa?)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

E Daniel Campelo deixa?

Há uma auto-estrada no nortinho de Portugal que se chama Auto-Estrada Daniel Campelo ou Auto-Estrada do Queijo Limiano. Liga Viana do Castelo a Ponte de Lima e não é bem uma auto-estrada: é apenas um pedaço de via rápida, vinte quilómetros de quase nada e com o piso a desfazer-se. Por causa destas vergonhas é que vulgarmente lhe dão o nome de código de A27, para proteger a pessoa e o queijo em questão.
A A27 foi dada por António Guterres a Daniel Campelo. Um pagamento pelo voto que viabilizou dois orçamentos de Estado do Governo socialista. Estão lembrados? Exactamente: o famoso "negócio do queijo limiano".
Guterres era primeiro-ministro e no Parlamento faltava-lhe um deputado para ter a maioria absoluta. Campelo era presidente da Câmara de Ponte de Lima e estava na Assembleia da República pelo CDS. Em nome dos superiores interesses das populações do seu concelho e do seu distrito, o autarca-deputado mandou a disciplina partidária dar uma curva, votou com o PS e a coisa fez-se. Daniel Campelo ganhou uma auto-estrada de borla para o seu povo, entre outras importantes contrapartidas que ajudaram a desencravar a região, e foi sempre, sempre, sempre contra a introdução de portagens nas SCUT.
Agora Daniel Campelo está no Governo. É secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural. E a sua auto-estrada gratuita parece que vai ser portajada. Será que ele deixa? Será que ele se fica? Será que ele fica?

terça-feira, 19 de junho de 2012

Sim, é vigarice. E já alguém foi preso?

O professor Nunes da Silva foi hoje ao Parlamento e disse, na comissão de inquérito às parcerias público-privadas, que a transferência do risco de tráfego das concessões rodoviárias para o Estado, em troca da disponibilidade das infra-estruturas, é uma "das maiores vigarices" que já viu em toda a sua vida. E eu volto a perguntar: e ninguém vai preso?

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Assaltos na A28, agora é oficial!

Denunciei-o aqui em Setembro do ano passado. Os automobilistas aderentes às isenções e descontos na A28, entre Viana do Castelo e o Porto, andavam a ser roubados por um sistema de controlo de portagens que era tudo menos de confiança. Os assaltos eram uns atrás dos outros. Mais de meio ano depois, a Estradas de Portugal veio hoje confirmar a "anomalia".
Diz a Estradas de Portugal que a Via Livre, concessionária da A28, já terá "resolvido" o problema e estará "neste momento a analisar a forma mais célere e eficaz de rectificar as incidências ocorridas".
Lamento informar a Estradas de Portugal de que, infelizmente, não é bem assim. Neste mal contado caso há ainda muitas pontas soltas, diversos esclarecimentos a fornecer, algumas contas a acertar. A ele voltarei, e à Via Livre, mas deixemos primeiro passar a Páscoa.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Galiza de ida e volta

Foto ORLANDO VON DOELLINGER

Fui despedir-me da Galiza. Não sei quando lá torno, não sei se lá tornarei. Não há dinheiro, não há vícios, e a Galiza era um dos meus mais queridos vícios. Estou, na verdade, a pôr em ordem a minha ausência de futuro. Ando a despedir-me de todos os meus sítios. Comecei por cortar no supérfluo, nos prazeres da vida, mas dei comigo já a roer as unhas ao essencial, a questionar a própria subsistência. O mais certo é nunca mais pôr os pés fora de casa, para poupar as solas dos sapatos. Resta-me a varanda e a vista para o mar, se me puser de lado, e a companhia da gaivota cagona. O CRF vai ser substituído por água da torneira com duas gotas de tintura de iodo, em balão previamente aquecido ao sol, e o cachimbo passará ser a fumado com barbas de milho.
Almoço, às terças, quintas, sábados e domingos; jantar, às segundas, quartas e sextas. Entre mim e a minha mulher, quem almoçar não janta no dia seguinte e quem jantar não almoça no dia seguinte. Ementa única para almoço e jantar: meia malga de caldo de couves sem azeite e um papo-seco seco. Quem comer o caldo de couves sem azeite deixa o papo-seco seco para o outro, que fica automaticamente sem direito a caldo. Parece complicado, mas não é. É tudo uma questão de confiança, como explicou o primeiro-ministro na sua mensagem de Natal. Creio que a coisa vai funcionar, assim nos deixem morrer em paz.
Portanto fui despedir-me da minha Galiza. E sabem que mais? Paguei portagens. Paga-se portagens nas auto-estradas da Galiza e os portugueses também. Sempre pagaram. Não há excepções nem ofertas. Mas os meus irmãos galegos são uns pândegos e resolveram embirrar com as nossas ex-SCUT que nos entram a nós, portugueses, pelos bolsos dentro depois de nos terem sido prometidas e entregues como "sem custo para os utilizadores".
Primeiro foi Xóan Vasquez Mao, secretário-geral do Eixo Atlântico, a desafiar todos os espanhóis a passarem pelas nossas ex-SCUT sem pagarem portagens e sem medo de multas, dando a entender que tinha garantida a cumplicidade do Governo português. Agora são vários hotéis de Vigo a oferecerem aos clientes portugueses o valor das portagens na A28 nos programas especiais de passagem de ano para contrariar a quebra de negócio já sentida no Natal. E sugerem à hotelaria do Norte de Portugal que faça o mesmo com os seus clientes galegos.
Vamos lá ver em que param as modas. Já que ninguém nos dá nada do lado de cá, até pode ser que, por tabela, ainda acabemos por ganhar alguma coisa com os do lado de lá.