Há uma auto-estrada no nortinho de Portugal que se chama Auto-Estrada Daniel Campelo ou Auto-Estrada do Queijo Limiano. Liga Viana do Castelo a Ponte de Lima e não é bem uma auto-estrada: é apenas um pedaço de via rápida, vinte quilómetros de quase nada e com o piso a desfazer-se. Por causa destas vergonhas é que vulgarmente lhe dão o nome de código de A27, para proteger a pessoa e o queijo em questão.
A A27 foi dada por António Guterres a Daniel Campelo. Um pagamento pelo voto que viabilizou dois orçamentos de
Estado do Governo socialista. Estão lembrados? Exactamente: o famoso "negócio do
queijo limiano".
Guterres era primeiro-ministro e no Parlamento faltava-lhe um deputado
para ter a maioria absoluta. Campelo era presidente da Câmara de Ponte de
Lima e estava na Assembleia da República pelo CDS. Em nome dos superiores interesses das populações do seu concelho e do seu distrito, o autarca-deputado mandou a disciplina partidária dar uma curva, votou com o PS e a coisa fez-se. Daniel Campelo ganhou uma auto-estrada de borla para o seu povo, entre outras importantes contrapartidas que ajudaram a desencravar a região, e foi sempre, sempre, sempre contra a introdução de portagens nas SCUT.
Agora Daniel Campelo está no Governo. É secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural. E a sua auto-estrada gratuita parece que vai ser portajada. Será que ele deixa? Será que ele se fica? Será que ele fica?
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Cuidado com o que se deseja!
Do actual Governo é que Pereira Júnior ainda não obteve respostas. Hoje, no jornal Público, o autarca lamenta e diz temer que os actuais "12 quilómetros de más ligações" entre o nó de Sapardos e a vila sejam um entrave à instalação de novas indústrias no concelho. E garante que vai continuar à espera, "não pacientemente, mas a contragosto", até porque está seguro de que a ligação à A3 acabará por se concretizar: "Temos a certeza, só não sabemos quando".
Compreendo os anseios de António Pereira Júnior, que muito provavelmente até serão comungados pela esmagadora maioria dos courenses. Afinal, hoje em dia já são poucas, e consideradas esquisitas, as pessoas que não querem ficar "ligados ao mundo". Eu, no entanto, gosto de Paredes de Coura tal qual é e está. Eu, se fosse presidente da Câmara, nunca falaria de "12 quilómetros de más ligações", mas realçaria a beleza incomparável das várias estradas (incluindo os tais 12 quilómetros) que levam até àquele paraíso. Porque Paredes de Coura é um paraíso. Tal qual é e está. Tal qual como eu gosto: pacato, quase deserto, quase só para mim. Mas eu não sou presidente da Câmara. Sou apenas uma visita e, por isso, posso dar-me ao luxo destes egoísmos. E, sim, sou esquisito: gostava bem de ir para lá morar, mas só se me garantissem que poderia ficar desligado do mundo.
O desejo do presidente da Câmara de Paredes de Coura é, porém, a ligação à A3 e mais fábricas. Pereira Júnior diz que tem muito espaço de vago e quer industrializá-lo. Assim seja! Certamente que o autarca tem também bem ponderado tudo o que o concelho poderá vir a perder quando (e se) ganhar os seus 12 quilómetros de auto-estrada. Espero que a troca valha a pena! Porque é preciso ter sempre muito cuidado com o que se deseja. É que, às vezes, os desejos concretizam-se. E convém não esquecer que foi por causa de um desejo que Adão e Eva deram cabo do paraíso original.
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terça-feira, 5 de julho de 2011
O peneirento
Há que tempos que não me vinha à cabeça a palavra peneirento. Veio-me ontem, com acento na penúltima sílaba e tudo - "peneirénto" -, como se diz na minha terra. E devo o momento de tocante nostalgia ao Dr. Fernando Nobre e à sua mais que esperada renúncia ao cargo de deputado. Muito obrigado, senhor doutor.
Arrumado contra-vontade no baú das expressões populares, o adjectivo peneirento tem vindo a ser substituído por sinónimos tão modernos como vaidoso, presumido, pretensioso, presunçoso ou pedante. Também estão bem para o caso em apreço, mas não são a mesma coisa.
Fernando Nobre, o antipolítico que apoiou Durão Barroso na ressaca pós-guterrista e depois se arrependeu, que apoiou Mário Soares, que apoiou o Bloco de Esquerda, que apoiou António Capucho (PSD) à Câmara de Cascais, que se apoiou a si próprio à Presidência da República, contra todos os partidos, e que logo a seguir teve uma recaída social-democrata para ser "candidato" à presidência da Assembleia da República, não vai deixar saudades, mas mete pena.
Este percurso aos ziguezagues, que acabou da pior forma com o tremendo estampanço no Parlamento, é o triste retrato de um homem de 59 anos que parece que nunca soube o que quer ser quando for grande. A não ser, ser importante, ser mais que os outros, como o poeta de Florbela.
Ser deputado da Nação é ocupação menor para o fundador da AMI. Nobre, que sonhara ser a primeira figura do Estado e avisou logo que nunca aceitaria ser menos do que o segundo na hierarquia nacional, saiu do Parlamento pela porta pequena e já sem o seu halo de santidade, deixado para trás das costas em estilhaços.
Ironicamente, a Wikipédia regista Fernando Nobre como "médico, activista, professor universitário e político português". Político português! A vaidade, o desastre que foi a sua breve passagem pela arena política, não pode apagar nem prejudicar sobretudo o seu trabalho humanitário de anos e anos. Foi uma pena, de facto, tudo o que ele se fez passar para tentar chegar ao poleiro mais alto. Nobre não merecia isto de si próprio. Até porque é certamente uma pessoa estimável, um português excelentíssimo. Mas peneirento.
Arrumado contra-vontade no baú das expressões populares, o adjectivo peneirento tem vindo a ser substituído por sinónimos tão modernos como vaidoso, presumido, pretensioso, presunçoso ou pedante. Também estão bem para o caso em apreço, mas não são a mesma coisa.
Fernando Nobre, o antipolítico que apoiou Durão Barroso na ressaca pós-guterrista e depois se arrependeu, que apoiou Mário Soares, que apoiou o Bloco de Esquerda, que apoiou António Capucho (PSD) à Câmara de Cascais, que se apoiou a si próprio à Presidência da República, contra todos os partidos, e que logo a seguir teve uma recaída social-democrata para ser "candidato" à presidência da Assembleia da República, não vai deixar saudades, mas mete pena.
Este percurso aos ziguezagues, que acabou da pior forma com o tremendo estampanço no Parlamento, é o triste retrato de um homem de 59 anos que parece que nunca soube o que quer ser quando for grande. A não ser, ser importante, ser mais que os outros, como o poeta de Florbela.
Ser deputado da Nação é ocupação menor para o fundador da AMI. Nobre, que sonhara ser a primeira figura do Estado e avisou logo que nunca aceitaria ser menos do que o segundo na hierarquia nacional, saiu do Parlamento pela porta pequena e já sem o seu halo de santidade, deixado para trás das costas em estilhaços.
Ironicamente, a Wikipédia regista Fernando Nobre como "médico, activista, professor universitário e político português". Político português! A vaidade, o desastre que foi a sua breve passagem pela arena política, não pode apagar nem prejudicar sobretudo o seu trabalho humanitário de anos e anos. Foi uma pena, de facto, tudo o que ele se fez passar para tentar chegar ao poleiro mais alto. Nobre não merecia isto de si próprio. Até porque é certamente uma pessoa estimável, um português excelentíssimo. Mas peneirento.
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