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domingo, 11 de outubro de 2026

Ai rapariga, rapariga, rapariga

A jovem mãe aproveitou o inesperado bocanho da manhã farrusca e incerta para descer até ao passeio da praia com a filhinha pela mão. Que bonitas, as duas, tão frescas e mimosas, mas que belas raparigas! A jovem mãe apontou o areal e disse naquela maneira pateta de falar às criancinhas, como se as criancinhas fossem atrasadas mentais ou, vá lá, cãezinhos de colo:
- Ei!, tantas pombinhas, tantas pombinhas! Eeeiii! Ó pombinhas, ó pombinhas!...
A menina, pouco convencida porém obediente, correspondeu com um económico e timorato:
- Ei.
Tinha razão a pequena. Já suficientemente grande para saber a verdade das coisas. Eram gaivotas.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Rapariga. Ou da Menina, no Brasil.)

Passagem de testemunho

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Que é que tinha o Barnabé?

Foto Hernâni Von Doellinger

A medida do homem
Os homens não se medem aos palmos. Medem-se aos furcos.

Que é que tinha o Barnabé, que era diferente do outro? Para começar, este Barnabé era baixinho, abreviado como estampa. Por isso o Senhor Barnabé, ele próprio, resumia-se numa sílaba, humilde, e dizia que o povo todo o conhecia por Bé, e era assim que gostava de ser chamado, contou-me ele. Bé. Estais a ver aquele homenzinho gentil, doce, dez-réis de gente num ar pândego de pinto-calçudo, sacola de merenda a tiracolo, sempre mortinho por concordar com tudo e com todos, estaca aqui para falar com um, estaciona ali para conversar com outro, e na cara, em vez de cara, um sorriso maroto, cândido, inextinguível? Estais a ver? Era o meu Senhor Bé. Eu e Senhor Bé partilhávamos todas as manhãs o Passeio Atlântico de Matosinhos e suponho que fomos amigos. Havia também quem o conhecesse por "São Pedro da Cova", porque era de lá que ele vinha diariamente de autocarro para passear vagaroso a borda do mar. Nos seus oitenta e picos bem medidos, eram quase duas horas de viagem para cada lado, com transbordo, todos os dias ou quase, mas sem lamúrias. O Senhor Bé - que também se lembrava, como eu, de quando Fafe e São Pedro da Cova andaram à pancada por causa da bola - faltou-me ao convívio no tempo de estado de emergência, da merda da pandemia, mas logo que pôde tirou outra vez o passe dos transportes e voltou. Procurou-me e disse-me que estava cheio de saudades.
Eu contei-lhe do outro Barnabé, que dava dois dele, ou três. O Senhor Barnabé de Fafe, funileiro de alto gabarito, morador e estabelecido naquele escondidinho do Santo Velho e músico vitalício da Banda de Revelhe. O Senhor Barnabé fafense devia ser uma enorme despesa em farda e tocava tuba porque não havia instrumento maior, tirando talvez o bombo, e a tuba vinha-lhe realmente por medida. Quanto ao Senhor Bé, que certamente não gastaria metro e meio para um fato, eu às vezes até me ria imaginando-o, pequenino e gaiato, a tocar pífaro nos intervalos.
Que se segue? De repente, aqui há coisa de três anos, o Senhor Bé tornou a faltar-me e eu, confesso, escarmentado com o desaparecimento da minha abençoadora das 7h30, fiquei com medo de perguntar por ele. Para más notícias, já basta o Correio da Manhã. Mas passados alguns meses, estávamos a chegar ao Natal, ganhei finalmente coragem, fui tirar nabos do púcaro junto de outro dos habitués do Passeio, e ouvi o que não queria. O Senhor Bé não vem mais. Morreu. De vez. Foi mudar uma válvula ao coração "e ficou na máquina", disse-me o amigo. Quer-se dizer. Ficou na máquina, assim, isso é lá alguma maneira?
Resultado. O Senhor Bé morreu e eu, palavra de honra, zanguei-me um bocado com o acontecimento. Às vezes, Deus me perdoe, acho isto da vida muito mal organizado.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia de São Barnabé.)

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Turistas de natureza

Mal rompeu o dia, e não foi bem um romper, foi um aparecer pé ante pé, saltaram aos magotes para o Passeio Atlântico, ali em baixo. São fáceis de identificar, famílias inteiras vestidas de fato-treino de domingo e telemóvel armado em máquina fotográfica, só lhes falta o merendeiro. Querem saber com os próprios olhos se a Praia de Matosinhos foi engolida pelo temporal que deu nas televisões, se pura e simplesmente desapareceu do mapa. Ficam desiludidos: a praia ali estava normalíssima da silva, descansada da vida, inteira, cheia de areia e de gente a jogar beach tennis, que é o que está a dar. Os magotes desmobilizam, as famílias tornam a casa, telemóveis murchos, num desgosto que só visto. Vão comer frango de churrasco, comprado a meio caminho, e assistir à desgraça como deve ser nas televisões. As televisões não falham. Para a semana, se Deus quiser, vão de bicicleta visitar um eucaliptal que é uma categoria. São turistas de natureza. Quero dizer: de natureza... duvidosa.

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Biodiversidade.