(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Médico de Família.)
terça-feira, 19 de maio de 2026
Quem sai aos seus
terça-feira, 17 de março de 2026
A tensão, muita a tensão!
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe, da série Diálogos fafenses. Hoje é Dia da Confiança Entre Médico e Paciente.)
O dia em que envelheci
Já não vamos para velhos
A verdade é esta: biblicamente falando, Moisés viveu até aos 120 anos, Jacob até aos 147, Abraão até aos 175, Adão até aos 930, Noé até aos 950, e Matusalém, filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, faleceu de repente aos 969 anos. Antigamente era assim. E agora? Agora andamos à rasca para chegarmos aos 60 e damos graças a Deus se alcançarmos os 70, embora a esperança média de vida na Europa ronde os 82. Regra geral, metemos os papéis para a reforma e morremos logo a seguir. O que estará por trás desta alteração tão radical? Glaciares, asteróides, falta de médicos de família ou tão-só falta de fé, não tenho a certeza, mas creio que a segurança social também já não aguentava tanto profeta...
Sei muito bem o dia em que envelheci. Foi de repente. Sei o ano, sei o mês, sei o dia e até sei a hora, mas tanta exactidão não vem aqui ao caso. Sei o local e sei as circunstâncias. Foi de manhã. Foi no Hospital de Gaia, numa consulta de medicina do sono, creio que a coisa se chamava ou chama assim. A dado passo da bateria de exames e do minucioso inquérito, a médica perguntou-me, surpreendentemente: - Quando era novo, o Sr. Américo já sentia este cansaço?...
Mas não adiantou. Pelo contrário. A doutora insistia, parecia-me agora que com algum prazer, com uma certa maldade, "quando era novo" para aqui, "quando era novo" para ali, "quando era novo" acima, "quando era novo" abaixo, e quem sou eu para contrariar o veredicto da medicina, a sábia decisão da ciência?
E foi assim. Nesse dia, naquele preciso momento, fiquei velho para toda a vida, por indicação médica e sem remédio. Eu acabara de fazer 41 anos.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
Quem com ferros ferros, com ferros ferros
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Fazendo pela vida
quarta-feira, 14 de agosto de 2024
Oh, my dicky ticker!
P.S. - Hoje é Dia do Cardiologista. Pelo menos no Brasil.
domingo, 11 de fevereiro de 2024
Fazendo pela vida
quinta-feira, 26 de outubro de 2023
Desenganado pelo médico
A este respeito, e continuo a citar o Público, um dirigente sindical respondeu que a medicina "não é um sacerdócio". E eu, confesso, pensava que era - sacerdócio: missão nobre, profissão honrosa - , e ainda ontem vim tão satisfeito e crente da consulta semestral com a minha médica excelentíssima, sempre presente e interessada, obstinada sacerdotisa do Serviço Nacional de Saúde, mas bem enganadinho que eu andava, e a doutora Joana aparentemente também. Hoje já sei: a medicina, afinal, é apenas uma profissão particularmente liberal, um gancho, um tacho, uma caixa registadora, um negócio como outro qualquer - o médico do sindicato desenganou-me...
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
O milagre do vinho
sábado, 29 de janeiro de 2022
Educado e exemplar tomador de medicações
- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.
P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Dezembro de 2012. A Faculdade de Medicina do Porto (chamando-se Régia Escola de Cirurgia) foi fundada no dia 29 de Janeiro de 1825.
quinta-feira, 11 de março de 2021
O milagre do vinho
sábado, 30 de janeiro de 2021
Notícias da retaguarda
Encontrei ontem por acaso o Asdrúbal, o velho Asdrúbal, o grande Asdrúbal - aos anos que não nos víamos! Recordámos os tempos antigos, falámos das nossas vidas, da família, dos filhos, dos netos, dos amigos que já morreram, do coronavírus, do velho Marega, dos novos fascistas-racistas, de projectos para o futuro. Enfim, pusemos a conversa em dia e à distância. Despedimo-nos calorosamente trocando abraços da boca para fora e números de telemóvel e apalavrando a marcação de um almoço para quando se Deus quiser. Cada qual seguiu para o seu lado, e só então é que eu reparei que aquele não é o Asdrúbal, nem sequer é parecido com o Asdrúbal, apesar da máscara. Na verdade, tenho agora a certeza absoluta de que não conheço este indivíduo de lado nenhum. Em todo o caso, gostei muito de falar com o Asdrúbal.
Pratico quarentena há três anos e quinze dias, faz hoje exactamente. E não sabia que estava a fazer uma coisa extraordinária...
O fim do mundo
Quando lhe disseram que vinha aí o fim do mundo, comprou setecentos e noventa e três rolos de papel higiénico e declarou: - Estou preparada!
Denunciado por ter tossido em casa, foi detido pela polícia, presente ao juiz e metido em prisão preventiva. O vizinho delator morreu de caganeira naquele mesmo dia.
Um gajo anda mais ou menos porreiro, uma dorzita aqui, uma pontada acolá, um bocadinho de falta de ar, ouras e fastio às vezes, coisas de nada, coisas da vida, se calhar do tempo ou, vá lá, da idade. Um gajo anda mais ou menos porreiro. Até que um dia, empurrado ou de livre vontade, vai ao médico. Análises, exames, diagnósticos, prognósticos, agnósticos, cancro, coração, rins, fígado, coluna, internamento, cirurgia, hemodiálise, quimioterapia, antipatia, utente, paciente, despistagem, despessoamento, isolamento, transferência, circunferência, alta, baixa, alta, baixa, piso 1, piso 2, piso 10, piso 1, doente da cama 13, bactérias, vírus, infecção, pneumonia, silêncio, cave. Um gajo andava mais ou menos porreiro. No competente certificado há-de constar, obitamente e por ser verdade: "Causa provável de morte - ida ao médico"...
Na sombra
Fechou-se em casa, com medo de ser contaminado. E manda a sombra fazer-lhe os recados.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
No país dos setores
Há o setor público e o setor privado. O setor público ensina sobretudo em escolas do Estado e o setor privado em colégios fardados e universidades altamente propinadas. Há também, por exemplo, o setor da saúde, que, regra geral, é médico. O setor da saúde também pode ser público ou privado. Ou público e privado...
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
Tomar até ao fim
O médico deu-lhe dois anos. Ele pediu seis. O médico contrapôs três e que não podia dar mais. Ele exigiu cinco senão nada feito. O médico disse quatro e não se fala mais nisso. Ele, negócio fechado.
Os médicos disseram-lhe que nunca mais poderia beber. E no entanto ele conseguiu beber até ao fim, apanhando carraspanas de caixão à cova. Foi considerado um milagre.
- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove? - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro"...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema "deles" não é o mesmo sistema das farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial.
Por indicação médica, tomava quatro medidas por dia - uma ao levantar, uma depois de almoço, uma antes de jantar e uma ao deitar. Rigorosamente.
Há uma longa e honrosa tradição familiar no nosso lado Von Doellinger: somos umas pessoas muito doentes, que foi a única herança que o meu avô da Bomba nos deixou. De resto, nem um tostão, nem um penico partido e colado com adesivo, nem um peido-engarrafado, tampouco uma corrente de ar! A minha mãe costuma dizer que, em questão de doenças, "não damos vez uns aos outros". A minha mãe, é preciso que se note, é do lado Pereira, que lamentavelmente não me chegou ao nome, Pereira do meu avô de Basto, que nunca aceitou copo dado e levava tudo à frente na hora da pancadaria. Este meu querido avô, antigo mineiro e mestre pedreiro de primeira água, era, pelo seu lado, um mãos-largas. Tudo o que tinha, dava. E se o que tinha à mão era o varapau de lódão, então era de esgaça-pessegueiro. A mim, deu-me o meu primeiro relógio de pulso e, numa noite de Natal, ofereceu-me inesperadamente o seu próprio relógio de bolso, um magnífico e infalível Omega que me escangalhou em lágrimas e que há coisa de quinze anos passei ao meu filho, que bem o merece e não lhe dá corda. Eu? Fiquei-me com as memórias. Do choro também...
Já agora. O meu rijo avô de Basto, se não me engano, esteve doente uma
vez. E morreu. Com os pulmões vagarosamente estraçalhados pelos anos
longínquos do trabalho nas minas.
Mas o lado Bomba. As doenças. Neste campo, como em mais um ou dois, ou
três, sou a ovelha negra da família. Doentemente falando, sou uma treta,
uma nódoa, um ignorante, uma vergonha para a classe dos doentes em
geral e da minha família em particular. Às vezes até penso que devia ser
expulso. Da classe e da família.
Os Bombas, por definição, eram (são?) entusiásticos consumidores de
medicamentos e canjas de galinha. Conheciam (conhecem?) todas as doenças
e os dois volumosos tomos da Farmacopeia Portuguesa por ordem
alfabética, de cor e salteado, da frente para trás e de trás para a
frente, índices e apêndices incluídos, automedicavam-se
(automedicam-se?) e só precisavam (precisam?) da consulta e da
assinatura do médico - "especialista!", sempre "especialista!"- para
autenticar o internamento a troco de quilo e meio da melhor vitela de
Fafe, traço seleccionado e cortada pelas sábias mãos do Senhor Abreu do
Talho Novo, embrulhado em imaculado papel costaneira e impecavelmente
atado e laçada com fio norte de qualidade superior. Justificava-se a
despesa dos unhas-de-fome: o internamento em hospital era a sorte
grande, a realização de um sonho. Recorrente. Para que o povo soubesse
que!
Os meus avós da Bomba, ninguém me tira da ideia, morreram da mania de serem doentes.
Agora vejam bem isto: no outro dia fui à farmácia aviar uma receita com
os medicamentos do costume, remédios de manutenção que tomo há anos, e
pergunta-me o farmacêutico:
- O Xpghtywçtor, como é que é a embalagem?
- Desculpe lá, mas esse é para quê? - atrapalhei-me eu, sem saber de que
é que o homem estava a falar. Na verdade, era a primeira vez que me
faziam perguntas destas na farmácia.
O profissional sorriu, cheio de paciência e esferográficas no bolso da
bata branca, disse-me para que era o medicamento e, na posse dessa
preciosa informação, eu já lhe pude explicar que era uma caixa assim e
coisa e tal.
- E o Gvmkzxqumnarc? É em frasco ou...- voltou o farmacêutico à carga, e eu outra vez à nora.
- E esse é para... - pedi novamente ajuda, corado de vergonha, no meio de um estabelecimento à cunha de especialistas.
O farmacêutico parou de sorrir. E desatou a rir. Mas lá me esclareceu, e eu lá lhe respondi que sim, era em frasco.
Percebem o que eu quero dizer? Como doente, sou de uma incompetência a
toda a prova. Sou muito fraquinho, uma anedota. Como é que eu posso
entrar naquelas interessantes conversas de sala de espera de
consultório médico, conversas de doentes como deve ser, doentes
encartados, e discutir e confrontar com os meus pares colesteróis,
internamentos e bicos-de-papagaio, cardiologistas, bruxas e
medicamentos, se nem sei o nome dos remédios que tomo? Como é que eu
posso honrar o legado do meu egrégio avô? Não posso! Não estou
capacitado.
O tempo é o melhor remédio
"Céu pouco nublado ou limpo. Vento em geral fraco do quadrante leste, tornando-se do quadrante sul a partir da tarde. Neblina matinal. Subida da temperatura máxima. Ondas de noroeste com 2 a 3 metros, diminuindo gradualmente para 1,5 a 2 metros e passando a ondas de oeste a norte do Cabo Mondego durante a tarde. Temperatura da água do mar: 15/17ºC." - de acordo com a previsão do Instituto Português do Mar e
da Atmosfera para amanhã. E pronto: é dinheiro que poupo na farmácia.
Fui à farmácia e perguntei ao farmacêutico
- O tempo é o melhor remédio?
- Há quem diga...
- E é comparticipado?
Um quarto de hora três vezes por dia
Fui à farmácia e perguntei - O tempo é o melhor remédio?
- Com efeito, meu caro senhor - respondeu-me o solícito farmacêutico, sem sequer pestanejar.
- E o efeito é garantido? - insisti, pestanejando.
- Cinco anos ou 150 mil quilómetros.
- E tem genérico?
Morrer da cura e da falta de remédios
Entrei na farmácia e perguntei - O tempo é o melhor remédio?
- É. Mas já não há - respondeu-me o boticário, armado em ministro das Finanças.
O mal do doente foi ter passado a paciente
Como
um alho era o famoso indivíduo, não sei quem, que inventou a palavra
paciente para substituir a palavra doente. O finório sabia tudo sobre
listas e tempos de espera.
P.S. - Hoje, 18 de Novembro, é Dia Europeu dos Antibióticos.
sábado, 23 de setembro de 2017
O sucesso mede-se em cirurgias adiadas
A glória sindical.
P.S. - Esta desgraça começou quando um gajo fino como um alho - sindicalista médico ou enfermeiro, desconfio - inventou a palavra paciente para substituir a palavra doente. Já aqui escrevi: o mal do doente foi ter passado a paciente. Paciente. Depois uma senhora do secretariado acrescentou na margem do P1, a lápis, a palavra utente. Utente de quê?...
sábado, 2 de janeiro de 2016
Os médicos, as farmácias e o sistema
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Fui à farmácia comprar o antibiótico. A senhora doutora farmacêutica perguntou-me:
- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove? - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro"...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema "deles" não é o mesmo sistema das farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial.
(Texto escrito e publicado no dia 16 de Agosto de 2014. E repetido quando os jornais, em Fevereiro do ano passado, descobriram que a Administração Regional de Saúde do Norte descobriu que havia "farmácias a vender genéricos demasiado caros". Vamos em 2016 e as farmacêuticas continuam comerciando à Lagardère com a saúde das pessoas. Mas porque é que ninguém me pergunta?)
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Os médicos, as farmácias e o sistema
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Fui à farmácia comprar o antibiótico. A senhora doutora farmacêutica perguntou-me:
- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove? - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro"...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema "deles" não é o mesmo sistema das farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial.
(Texto escrito e publicado no dia 16 de Agosto de 2014. Os jornais descobriram ontem que a Administração Regional de Saúde do Norte descobriu anteontem que "há farmácias a vender genéricos demasiado caros". Mas porque é que ninguém me pergunta?)
sábado, 16 de agosto de 2014
Os médicos, as farmácias e o sistema
- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove? - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro"...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema "deles" não é o mesmo sistema das farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial.