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terça-feira, 17 de março de 2026

O dia em que envelheci

Já não vamos para velhos
A verdade é esta: biblicamente falando, Moisés viveu até aos 120 anos, Jacob até aos 147, Abraão até aos 175, Adão até aos 930, Noé até aos 950, e Matusalém, filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, faleceu de repente aos 969 anos. Antigamente era assim. E agora? Agora andamos à rasca para chegarmos aos 60 e damos graças a Deus se alcançarmos os 70, embora a esperança média de vida na Europa ronde os 82. Regra geral, metemos os papéis para a reforma e morremos logo a seguir. O que estará por trás desta alteração tão radical? Glaciares, asteróides, falta de médicos de família ou tão-só falta de fé, não tenho a certeza, mas creio que a segurança social também já não aguentava tanto profeta...

Sei muito bem o dia em que envelheci. Foi de repente. Sei o ano, sei o mês, sei o dia e até sei a hora, mas tanta exactidão não vem aqui ao caso. Sei o local e sei as circunstâncias. Foi de manhã. Foi no Hospital de Gaia, numa consulta de medicina do sono, creio que a coisa se chamava ou chama assim. A dado passo da bateria de exames e do minucioso inquérito, a médica perguntou-me, surpreendentemente: - Quando era novo, o Sr. Américo já sentia este cansaço?...
Eu ia caindo de cu. Primeiro. Esta mania de me tratarem pelo meu primeiro nome, Américo, nas consultas e, em geral, em todos os serviços públicos ou privados que exigem a competente apresentação de credenciais. Não sei, chamam-me Américo e eu, que estou tão habituado a chamar-me Hernâni, procuro sempre outro indivíduo ao meu lado, no meu próprio lugar. Sinto-me outra pessoa, um estranho de mim mesmo. Tratar-me por Américo é um privilégio que está reservado ao meus companheiros da escola primária, em Fafe, e, mesmo com esses poucos que ainda se lembram de mim, nunca sei se é comigo que estão a falar quando falam comigo. O Bergiguinha chama-me Américo com todo o direito, mas diz que chama Américo a todos os homens da minha família. Segundo. "Quando era novo", disse ela. Quando era novo?! Porra, eu ainda sou novo, tentei corrigir gentilmente a senhora doutora, atirando ao ar duas ou três larachas e apanhando-as, a todas, sem deixar cair, disparando-me da marquesa, acto contínuo, num acrobático salto encarpado, com duas piruetas à retaguarda.
Mas não adiantou. Pelo contrário. A doutora insistia, parecia-me agora que com algum prazer, com uma certa maldade, "quando era novo" para aqui, "quando era novo" para ali, "quando era novo" acima, "quando era novo" abaixo, e quem sou eu para contrariar o veredicto da medicina, a sábia decisão da ciência?
E foi assim. Nesse dia, naquele preciso momento, fiquei velho para toda a vida, por indicação médica e sem remédio. Eu acabara de fazer 41 anos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Confiança Entre Médico e Paciente.)

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Seguido no Magalhães Lemos

Ele tinha a certeza de que estava a ser seguido no Hospital Magalhães Lemos. Nos corredores, nos jardins, a cada esquina, atrás de árvores e arbustos, antes e após consultas e tratamentos, e também durante. Ele sabia, ele sentia. Mas nunca viu, apesar de andar sempre a olhar para trás. Vivia num constante torcicolo. Queixou-se aos médicos, aos jornais, às televisões e, inclusive, à polícia. Ninguém o levou a sério. "Tás mas é maluco", disseram-lhe.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Manicómicos

Foto Hernâni Von Doellinger

Por falar nisso. O Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, foi inaugurado no dia 2 de Abril de 1942. Ali estava, segundo a imprensa da época, um "manicómio", um lugar para "assistência a alienados", um "pavilhão para loucos", um sítio "esplêndido" e "simpático". E ainda bem. A imprensa da época vai entretanto ser corrigida com termos mais mansos, porque há coisas que hoje em dia realmente não se dizem. Nomeadamente "assistência", "pavilhão", "esplêndido" e sobretudo "simpático", que é uma palavra filha da mãe. Uma palavra, numa palavra, manifestamente suspeita e aliás indecente, direi até cancelável.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Desenganado pelo médico

Rosalvo Almeida, 77 anos, neurologista aposentado e membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, defende que os médicos devem optar por formas de protesto que não prejudiquem os doentes. De acordo com o jornal Público, o sócio número 1 do Sindicato dos Médicos do Norte perdeu a paciência e rasgou o cartão, agora sou eu a dizer, por ser contra a luta da classe "à custa dos doentes". Ao fim de quatro décadas, Rosalvo Almeida decidiu bater com a porta e sair da estrutura sindical que ajudou a fundar, argumentando que sente "vergonha" das declarações com que os dirigentes sindicais justificam as actuais "lutas" e "sucessivas greves" levadas a cabo "em desrespeito pelos doentes".
A este respeito, e continuo a citar o Público, um dirigente sindical respondeu que a medicina "não é um sacerdócio". E eu, confesso, pensava que era - sacerdócio: missão nobre, profissão honrosa - , e ainda ontem vim tão satisfeito e crente da consulta semestral com a minha médica excelentíssima, sempre presente e interessada, obstinada sacerdotisa do Serviço Nacional de Saúde, mas bem enganadinho que eu andava, e a doutora Joana aparentemente também. Hoje já sei: a medicina, afinal, é apenas uma profissão particularmente liberal, um gancho, um tacho, uma caixa registadora, um negócio como outro qualquer - o médico do sindicato desenganou-me...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Pantominices

Antenor Ferreira da Silva, utente n.º 257974590 e processo n.º 9374566/04, apresentou-se na urgência do hospital e disse - Estou há quinze anos à espera de uma operação a uma hérnia e, é preciso que se note, sou uma tartaruga. Foi operado imediatamente.

P.S. - O PAN, Partido pelos Animais e pela Natureza, foi inscrito no Tribunal Constitucional no dia 13 de Janeiro de 2011. Chama-se actualmente Pessoas - Animais - Natureza.

sábado, 25 de junho de 2022

Eu gosto muito do SNS

Era só isto que eu tinha para dizer. Gosto muito do nosso Serviço Nacional de Saúde. Para mim, o Serviço Nacional de Saúde é as pessoas. As pessoas do Serviço Nacional de Saúde. As pessoas que cuidam de nós. De mim. Com ou sem pandemias. Muitíssimo obrigadíssimo!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Pantominices

Antenor Ferreira da Silva, utente n.º 257974590 e processo n.º 9374566/04, apresentou-se na urgência do hospital e disse "Estou há quinze anos à espera de uma operação a uma hérnia e, é preciso que se note, sou uma tartaruga." Foi operado imediatamente. 

sábado, 23 de outubro de 2021

Chamam-lhe Protocolo de Manchester

Aqui atrasado passei dois dias na Urgência de um dos nossos maiores hospitais públicos. E fiquei com esta impressão, que preferi deixar amadurecer até hoje: no caos em que "funciona", a Urgência é uma indignidade para os doentes, incluindo os que vão só para o lanche ou os hipocondríacos com assinatura; é uma indignidade para os acompanhantes dos doentes, incluindo os mirones e outros estorvadores; é uma indignidade para as enfermeiras e para os enfermeiros que lá trabalham até à exaustão; é uma indignidade para as médicas e para os médicos que fazem o que podem e sabem, espreitam cortinas à procura de uma cadeira vaga e parecem baratas tontas no meio daquele circo; é uma indignidade para o hospital (um dos nossos maiores, já disse), para Portugal e para a Humanidade. Uma indignidade e uma violência. Entre mortos e feridos, salvam-se as auxiliares, que cantam e dançam, contam telenovelas e anedotas umas às outras e ao público em geral, destratam toda a gente e mandam naquilo tudo.

Sei que tenho o melhor serviço nacional de saúde do mundo. Dou-lhe uso em último caso, mas frequento-o de olhos abertos e coração grato. Querem saber o que é o nosso Serviço Nacional de Saúde? Não são taxas moderadoras e isenções. São exactamente as pessoas: os auxiliares, os médicos e os enfermeiros, que todos os dias trabalham no arame e sem rede, que já lhes tiraram há muito, e fazem "funcionar" uma coisa que na verdade já nem existe, ou, se quisermos ser bondosos, vai morrendo aos bocadinhos. 

A passada quarta-feira deveria ter servido para assinalar o Dia Global da Dignidade. Não sei se serviu nem sei se assinalou, mas lembrou-me o textinho acima, que publiquei originalmente no dia 17 de Abril de 2014. Já se morria nas urgências - eu vi -, e mais não havia pandemia, nem "epidemia de gripe", nem "surto gripal", nem o "caos" com aspas com que os políticos gostam tanto de jigajogar. (Os políticos e os jornalistas pelam-se por brincar às escondidas atrás das aspas.) Era apenas o caos normal, o caos do dia-a-dia numa Urgência de carne e osso - em exibição num hospital perto de si.

terça-feira, 16 de junho de 2020

A última palavra pertence aos velhos

- Estou um velho - disse o velho.
- Não está nada - disse a visita.
- Um caco - disse o velho.
- Está cada vez mais novo - disse a visita.
- Já não duro muito - disse o velho.
- Daqui a vinte anos ainda nos havemos de rir - disse a visita.
- Estou como hei-de ir - insistiu o velho.
- Por acaso até o acho com muito bom aspecto, melhor do que da outra vez - insistiu a visita.
- Dói-me tudo - disse o velho.
- Pois também é da idade, quem andou não tem para andar, o que é que queria? - disse a visita.
- É o que eu digo: estou um velho - insistiu o velho.
- Por acaso não acho nada, quem me dera a mim - insistiu a visita.

Para acabar de vez com a conversa, o velho resolveu morrer. E morreu.

- Olha, o estupor do velho tinha razão - disse a visita, aliás acompanhante, e comeu-lhe a maçã cozida. Que é o que servem para salvar os doentinhos nos corredores da urgência do hospital. E bolachas.

P.S. - Publicado originalmente no dia 13 de Abril de 2015. Ontem, 15 de Junho, foi Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa. 

sábado, 23 de setembro de 2017

O sucesso mede-se em cirurgias adiadas

A greve dos enfermeiros fez adiar cerca de seis mil cirurgias, e por isso foi um sucesso. Os médicos, que não são menos do que os enfermeiros, também vão grevar no mês que vem e, para que a doutoral greve seja também um sucesso, será de esperar o adiamento de pelo menos sessenta mil cirurgias. Ou seiscentas mil. De greve em greve antes de eleições, nem que sejam para a junta, qualquer dia os hospitais fecham de vez, as cirurgias serão todas desmarcadas sem aviso, e nós os "pacientes" morreremos regra geral como tordos, mas será um sucesso ainda maior, a glória...
A glória sindical.

P.S. - Esta desgraça começou quando um gajo fino como um alho - sindicalista médico ou enfermeiro, desconfio - inventou a palavra paciente para substituir a palavra doente. Já aqui escrevi: o mal do doente foi ter passado a paciente. Paciente. Depois uma senhora do secretariado acrescentou na margem do P1, a lápis, a palavra utente. Utente de quê?...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Os velhos têm sempre razão

- Estou um velho - disse o velho.
- Não está nada - disse a visita.
- Um caco - disse o velho.
- Está cada vez mais novo - disse a visita.
- Já não duro muito - disse o velho.
- Daqui a vinte anos ainda nos havemos de rir - disse a visita.
- Estou fodido, estou como hei-de ir - insistiu o velho.
- Por acaso até o acho com muito bom aspecto, melhor do que da outra vez - insistiu a visita.
- Dói-me tudo - disse o velho.
- Pois também é da idade, quem andou não tem para andar, o que é que queria? - disse a visita.
- É o que eu digo, caralho: estou um velho - insistiu o velho.
- Por acaso não acho nada, quem me dera a mim - insistiu a visita.

Para acabar de vez com a conversa de merda, o velho resolveu morrer. E morreu.

- Olha, o filho da puta do velho tinha razão - disse a visita, aliás acompanhante, e comeu-lhe a maçã assada. Que é o que servem para salvar os doentinhos nos corredores da urgência do hospital. E bolachas.

(Escrevi e publiquei este texto no dia 13 de Abril de 2015 e pus-lhe hoje um pequeno acrescento. O título era também outro, mas parecido.)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Paulo Macedo: o homem, o ministro e a pasta

Falei uma vez com Paulo Macedo, actual ministro da Saúde, em curiosas circunstâncias que um dia poderei contar. Percebi-o um homem sério e íntegro, uma boa pessoa, no melhor que a estafada expressão pode ainda conter. Deram-lhe um ministério e uma missão. Uma missão que ele cumpre com o rigor e a competência que lhe são justa e sobejamente reconhecidos. Enganaram-se foi no ministério.

(Parte do texto Uma boa e má notícia, que escrevi e publiquei no dia 6 de Agosto de 2012, a propósito das conclusões de um animador estudo sobre os nossos hospitais. E confirma-se: Macedo é um homem certo, mas na pasta errada.)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Chamam-lhe Protocolo de Manchester

Aqui atrasado passei dois dias na Urgência de um dos nossos maiores hospitais públicos. Não por mim, nem feliz nem infelizmente. E fiquei com esta impressão, que preferi amadurecer até hoje: no caos em que "funciona", a Urgência é uma indignidade para os doentes, incluindo os que vão só para o lanche ou os hipocondríacos com assinatura; é uma indignidade para os acompanhantes dos doentes, incluindo os mirones e outros estorvadores; é uma indignidade para as enfermeiras e para os enfermeiros que lá trabalham até à exaustão e sem rede; é uma indignidade para as médicas e para os médicos que fazem o que podem e sabem, espreitam cortinas à procura de uma cadeira vaga e parecem baratas tontas no meio daquele circo; é uma indignidade para o hospital (um dos nossos maiores, já disse), para Portugal e para a Humanidade. Uma indignidade e uma violência. Entre mortos e feridos, salvam-se as auxiliares, que cantam e dançam, contam telenovelas e anedotas umas às outras e ao público em geral, destratam toda a gente e mandam naquilo tudo.

Claro que não tem nada a ver (falecer acontece a qualquer um e em todo o lado), mas: um cirurgião morreu ontem, no Hospital de Aveiro, quando estava a operar um paciente.

(Texto escrito e publicado no dia 17 de Abril de 2014. Já se morria nas urgências - eu vi -, e mais não havia "epidemia de gripe", nem "surto gripal", nem o "caos" com aspas com que os políticos gostam tanto de jigajogar. (Os políticos e os jornalistas pelam-se por brincar às escondidas atrás das aspas.) Era apenas o caos normal, o caos do dia-a-dia numa Urgência de carne e osso - em exibição num hospital perto de si.)

sábado, 27 de setembro de 2014

Eu só queria ir à farmácia

17h15. Fui à farmácia e perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim, assim, e queria ver se me podiam dar qualquer coisa". O meu problema era no olho. Direito. "Ora mostre lá o olho", e eu mostrei, "ui, vai ter de ir ao médico", e eu fui. A pé, da Rua Brito Capelo até ao Centro de Saúde de Matosinhos, que é um pedaço acima da Câmara Municipal.
No centro de saúde fui atendido em menos de uma hora. Perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim, assim, fui à farmácia, na farmácia mandaram-me ao médico, e eu vim". "Ora mostre lá o olho", e eu mostrei, "vai ter de ir imediatamente ao oftalmologista, mas, como no Hospital Pedro Hispano não há urgência da especialidade, pegue lá esta carta e vá ao Hospital de Santo António", e eu fui. A pé até à Avenida Serpa Pinto, apanhei o 500 até ao Castelo do Queijo, esperei uma hora pelo 200 e lá cheguei ao Santo António quando o trânsito me deixou.
Na urgência fui atendido em menos de um quarto de hora. Perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim, assim, fui à farmácia, na farmácia mandaram-me ao médico, o médico mandou-me aqui, e eu vim". "Ora mostre lá o olho, encoste aí o queixo e olhe para esta luzinha", e eu mostrei, encostei e olhei. "Tome lá esta receita, são umas gotas para colocar de duas em duas horas, vá já à farmácia", e eu fui. Estava de volta à casa de partida, passava pouco das 21h45.
E tudo isto pelos cinco euros da taxa moderadora que paguei no centro de saúde, mais as viagens e os quase catorze euros das gotas, que afinal nem precisavam de receita médica, e que estou a pensar meter como despesas de representação.

Sei que tenho o melhor serviço nacional de saúde do mundo. Raramente lhe dou uso, mas frequento-o assiduamente e vivo de olhos abertos. Querem saber o que é o nosso Serviço Nacional de Saúde? Não são taxas e isenções. São as pessoas: os auxiliares, os médicos e os enfermeiros, que todos os dias trabalham no arame e sem rede, que já lhes tiraram há muito, e fazem funcionar uma coisa que na verdade já nem existe, ou, se quisermos ser bondosos, vai morrendo aos bocadinhos. A minha urgência pareceu-me uma desnecessidade, mas as pessoas quiseram fazer bem - são profissionais. E faço figas para que me tratem sempre assim mas palminhas. Em todo o caso, palavra de honra, eu só queria ir à farmácia.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Chamam-lhe Protocolo de Manchester

Aqui atrasado passei dois dias na Urgência de um dos nossos maiores hospitais públicos. Não por mim, nem feliz nem infelizmente. E fiquei com esta impressão, que preferi amadurecer até hoje: no caos em que "funciona", a Urgência é uma indignidade para os doentes, incluindo os que vão só para o lanche; é uma indignidade para os acompanhantes dos doentes, incluindo os mirones e outros estorvadores; é uma indignidade para as enfermeiras e para os enfermeiros que lá trabalham até à exaustão e sem rede; é uma indignidade para as médicas e para os médicos que fazem o que podem e sabem, espreitam cortinas à procura de uma cadeira vaga e parecem baratas tontas no meio daquele circo; é uma indignidade para o hospital (um dos nossos maiores, já disse), para Portugal e para a Humanidade. Uma indignidade e uma violência. Entre mortos e feridos, salvam-se as auxiliares, que cantam e dançam, contam telenovelas e anedotas umas às outras e ao público em geral, destratam toda a gente e mandam naquilo tudo.

Claro que não tem nada a ver (falecer acontece a qualquer um e em todo o lado), mas: um cirurgião morreu ontem, no Hospital de Aveiro, quando estava a operar um paciente.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Uma boa e má notícia

Um estudo que avalia 161 hospitais públicos e privados com unidades de internamento em Portugal continental concluiu que todos cumprem os parâmetros exigidos no que diz respeito à segurança do utente. Sessenta e sete desses hospitais são até exemplos de excelência clínica. É uma boa notícia. Sou utilizador do Serviço Nacional de Saúde e não fiquei surpreendido.
A má notícia é que o Governo ainda tem muito por onde estragar.

Falei uma vez com Paulo Macedo, actual ministro da Saúde, em curiosas circunstâncias que um dia poderei contar. Percebi-o um homem sério e íntegro, uma boa pessoa, no melhor que a estafada expressão pode ainda conter. Deram-lhe um ministério e uma missão. Uma missão que ele cumpre com o rigor e a competência que lhe são justa e sobejamente reconhecidos. Enganaram-se foi no ministério.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Queixinhas!

Quarenta e dois por cento dos portugueses dizem que já não têm dinheiro para pagar as despesas de saúde. Queixinhas!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Só por cima de muitos cadáveres

A denúncia é feita pelo jornal Público: "Porto ficará com mais urgências polivalentes à noite do que Lisboa". Ou, dito de outra forma: "Se a reorganização hospitalar avançar nos moldes previstos, a região de Lisboa vai passar a ter menos serviços de urgência polivalentes a funcionar à noite do que a do Porto."
Mas é claro que não pode ser. Há por aí engano e do grosso. O melhor é mandar fazer tudo de novo, para evitar o escândalo. O Porto "com mais" do que Lisboa? Só por cima de muitos cadáveres.