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sexta-feira, 13 de setembro de 2024

O ânus da prova

Eu, por exemplo, digo doénte em vez de doênte. Digo mãe em vez de máim. Digo meio quando é meio e não maio. Digo têlha quando é telha e não talha. Digo coêlho quando é coelho e não coalho. Digo cóio em vez de côio. Digo frónha em vez de frônha. Digo cachicha em vez de caxixa. Digo ferraménta em vez de pénis. Quer-se dizer: digo como era costume dizer-se na terrinha. Resultado: chamam-me parolo, labrego, matarruano, riem-se de mim.
Já o outro, urbanita de grande metrópole, frequentador de mundo e telejornais, ajeita delicadamente os botões de punho de dezoito quilates, afaga a gravata hermès sofisticada e cara, faz biquinho e diz, finíssimo porém acutilante, ânus da prova. Ânus da prova, é o que ele diz na televisão de esgoto! Ânus da prova para aqui, ânus da prova para ali, enche a boca de ânus da prova! E chamam-lhe ó-doutor, jurista, comentador, especialista em molduras penais e em penicos de esmalte. E ninguém se ri.

Por outro lado. "A minha pátria é a língua portuguesa", escreveu o nosso Fernando Pessoa. "A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo. Um povo só começa a perder a sua independência, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor do idioma natal. A morte de uma nação começa pelo apodrecimento da língua", escreveu Olavo Bilac, o brasileiro e sensato.
Bilac (1865-1918) e Pessoa (1888-1935). Não quero saber aqui quem é ovo ou quem é galinha, nem me interessa como assunto, de momento, o miserável, escusado e alegado acordo ortográfico. Lembrei-me foi dos professores doutores da mula ruça, traidores à pátria, que enchem a boca de "periúdos", de "interésses", de "rúbricas", de "perzeveranças", de "mediúcres". Enchem a boca e apodrecem a língua. Apodrecem a língua e matam a nação.

António Costa, por exemplo. Já era tempinho de aprender a falar português, depois de, em 2015, ter aprendido a não falar mandarim. Em São Bento e no Largo do Rato ninguém lhe soube deitar a mão e pôr pimenta na língua, espero bem que agora lá pelos corredores e gabinetes do Conselho Europeu apareça alguma alma caridosa que ensine ao nosso ex a basezinha das regras de concordância, alguém que pelo menos o proíba de comer sílabas enquanto fala. Falar com a boca cheia é, para além do mais, falta de educação.

P.S. - Uma equipa de cientistas japoneses ganhou o Prémio IgNobel, depois de ter descoberto que os mamíferos conseguem respirar pelo ânus. Sim, aqui é mesmo ânus. Os especialistas do sol nascente defendem que esta seria também uma excelente saída para os humanos em casos de emergência, nomeadamente em situações de dificuldade respiratória ou quando os ventiladores não estão disponíveis ou são inadequados.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Uma questão de tamanho

Chegava ao intervalo e mudava sempre de equipamento, de L para XXL. Era um jogador que, como diziam os comentadores, costumava crescer muito na segunda parte...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Uma questão de caracteres

Os especialistas têm toda a razão. É claro que as coisas não se resolvem em apenas 280 caracteres. É pura demagogia. Para que a vida das pessoas comece realmente a melhorar, são precisos pelo menos 23.157 caracteres

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Eles sabem tudo e não deixam nada

Os que sabem tudo sobre futebol são os mesmos que sabem tudo sobre política, os mesmos que sabem tudo sobre cultura, os mesmos que sabem tudo sobre agricultura, os mesmos que sabem tudo sobre incêndios florestais, os mesmos que sabem tudo sobre justiça, os mesmos que sabem tudo sobre economia, os mesmos que sabem tudo sobre corrupção, os mesmos que sabem tudo sobre molduras penais, os mesmos que sabem tudo sobre racismo, os mesmos que sabem tudo sobre identidade de género, os mesmos que sabem tudo sobre covid, os mesmos que sabem tudo sobre guerra, os mesmos que sabem tudo sobre poeiras africanas, os mesmos que sabem tudo sobre judeus sefarditas, os mesmos que sabem tudo sobre cinema, hollywood, óscares, estaladas e limites do humor. Sempre os mesmos. Foda-se, parecem barbeiros! Vá lá saber tudo ao caralho...

quinta-feira, 17 de março de 2022

Mudam-se os tempos, mudam-se as vaidades

Portugal, país de poetas e marinheiros? Bah! Isso foi chão que já deu uvas. Agora é: Portugal, país de fadistas e chefs de cozinha. E quem não for uma coisa ou outra, ou as duas - ou, vá lá, pelo menos comentador televisivo do que calhar ou escritor de calhamaços -, então é porque não é bom português. Eu, por exemplo.

P.S. - Hoje, 17 de Março, é Dia Internacional da Marinha. E Dia Nacional do Mel - no Brasil.

sábado, 22 de janeiro de 2022

O ânus da prova

Eu, por exemplo, digo doénte em vez de doênte. Digo mãe em vez de máim. Digo meio quando é meio e não maio. Digo têlha quando é telha e não talha. Digo coêlho quando é coelho e não coalho. Digo cóio em vez de côio. Digo frónha em vez de frônha. Digo cachicha em vez de caxixa. Digo ferraménta em vez de pénis. Quer-se dizer: digo como era costume dizer-se na terrinha. Resultado: chamam-me parolo, labrego, matarruano, riem-se de mim.
Já o outro, urbanita de grande metrópole, frequentador de mundo e telejornais, ajeita delicadamente os botões de punho de dezoito quilates, afaga a gravata hermès sofisticada e cara, faz biquinho e diz, finíssimo porém acutilante, ânus da prova. Ânus da prova, é o que ele diz! Ânus da prova para aqui, ânus da prova para ali, enche a boca de ânus da prova! E chamam-lhe ó-doutor, jurista, comentador, especialista em molduras penais. E ninguém se ri.

Por outro lado. "A minha pátria é a língua portuguesa", escreveu o nosso Fernando Pessoa. "A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo. Um povo só começa a perder a sua independência, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor do idioma natal. A morte de uma nação começa pelo apodrecimento da língua", escreveu Olavo Bilac, o brasileiro e sensato.
Bilac (1865-1918) e Pessoa (1888-1935). Não quero saber aqui quem é ovo ou quem é galinha, nem me interessa como assunto, de momento, o miserável, escusado e alegado acordo ortográfico. Lembrei-me foi dos professores doutores da mula ruça, traidores à pátria, que enchem a boca de "periúdos", de "interésses", de "rúbricas", de "perzeveranças", de "mediúcres". Enchem a boca e apodrecem a língua. Apodrecem a língua e matam a nação.

António Costa, por exemplo. Já era tempinho de aprender a falar português, depois de, em 2015, ter aprendido a não falar mandarim. Não há lá pelos corredores e gabinetes de São Bento ou no Largo do Rato quem saiba ensinar ao nosso ainda primeiro-ministro a basezinha das regras de concordância, alguém que o proíba de comer sílabas enquanto fala? Falar com a boca cheia é, para além do mais, falta de educação.

P.S. - No dia 22 de Janeiro de 1500, o nosso rei D. Manuel I determinou que "não se pague moradia aos moços fidalgos" sem estes terem dado provas do domínio da língua, com certidão passada por mestre de gramática. Ai se fosse hoje! O que seria dos nossos novos "moços fidalgos", os ilustres e amiúde analfabetos deputados da Nação?... 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O ânus da prova

Eu, por exemplo, digo doénte em vez de doênte. Digo mãe em vez de máim. Digo meio quando é meio e não maio. Digo têlha quando é telha e não talha. Digo coêlho quando é coelho e não coalho. Digo cóio em vez de côio. Digo frónha em vez de frônha. Digo cachicha em vez de caxixa. Digo ferraménta em vez de pénis. Quer-se dizer: digo como era costume dizer-se na terrinha. Resultado: chamam-me parolo, labrego, matarruano, riem-se de mim.
Já o outro, urbanita de grande metrópole, frequentador de mundo e telejornais, ajeita delicadamente os botões de punho de dezoito quilates, afaga a gravata hermès sofisticada e cara, faz biquinho e diz, finíssimo porém acutilante, ânus da prova. Ânus da prova, é o que ele diz! Ânus da prova para aqui, ânus da prova para ali, enche a boca de ânus da prova! E chamam-lhe ó-doutor, jurista, comentador, especialista em molduras penais. E ninguém se ri.

domingo, 13 de abril de 2014

O futebol, essa ciência

Foto Hernâni Von Doellinger

A "primeira fase de construção de jogo", por exemplo. Dá que pensar, não dá? Desde logo: com quantas fases se constrói o jogo? Com quatro, como as fases que constroem a Lua? Com três, como na electricidade? Por outro lado: há um "terço do terreno" específico onde a "primeira fase de construção de jogo" deva preferencialmente ocorrer para ser assim chamada? Ou, dito de outra forma: uma "fase de construção de jogo" efectuada no segundo ou no "último terço do terreno" é tão "fase de construção de jogo" como tendo acontecido no primeiro "terço", ou, assim avançados, já estaremos no campo da desconstrução de jogo? E a desconstrução de jogo, a propósito, tem também fases ou é mais atinadinha?

Foi mais um momento de inteligência e reflexão. No próximo programa vamos debruçar-nos sobre a intrigante problemática da "transição rápida". Para tentarmos perceber, nomeadamente: a partir de que momento uma "transição" deixa de ser "rápida" e passa a ser assim-assim?

domingo, 20 de maio de 2012

Lá vem a "mudança de paradigma"

Ontem jogaram os alemães e no fim ganharam os ingleses. O prélio de Munique era uma bagatela desportiva, um evento turístico, folclore, bebedeira de cerveja e televisão: toda a gente sabe que o futebol a sério terminou fez exactamente ontem oito dias, em cima de um autocarro descapotável, na portuense Avenida dos Aliados. Todavia, porque o Bayern jogou e o Chelsea ganhou, aposto um emprego em como, hoje, jornais e outros comentadores encartados vão fartar-se de descobrir que houve uma "mudança de paradigma" no futebol europeu. Como já aqui dei a entender, "mudança de paradigma", sendo uma expressão pletórica de concomitância e mais na moda era impossível, não quer dizer absolutamente nada. Não interessa para rigorosamente nada. Mas

faz-me lembrar pecados velhos. Recua-me à década de oitenta do século passado, ao cimo da Rua de 31 de Janeiro, onde havia uma casa de jogos de máquinas de flippers e afins que tinha uma cave com um altifalante fanhoso que, de uns quantos em quantos minutos, gritava cá para fora a curiosa frase "Mudança de modelo". Lá em baixo parece que havia umas raparigas muito jeitosas e nuas a fazerem não sei o quê e umas cabinas individuais e sebentas com ranhura para a clientela meter a moeda como nos flippers e espreitar por um vidro e fazer também não sei o quê. Sei muito pouco do assunto porque, palavra de honra, nunca lá pus os pés. E, agora que penso nisso, nem me lembro sequer porquê. Mas estou arrependido.
Informei-me. "Mudança de modelo", logo a seguir ao ding-dong de uma campainha de aeroporto, queria dizer, por exemplo, que a morena mamuda passava a pasta à loura pernalta e ia para os bastidores ler a Corín Tellado, e assim sucessivamente e vice-versa, mas decerto queria dizer também que os clientes tinham que fechar a braguilha o mais rapidamente possível e dar a vez a outros, que eram mais que as mães, sobretudo no intervalo de almoço. O speaker de serviço dizia "Mudaaaança de modeloooo" com um garbo só comparável ao do mestre-de-cerimónias do Circo Merito quando anunciava a sensacional "Maribelaaaa no seu rrrrrola-rolaaaa". Eu gostava: "Mudaaaança de modeloooo"! Parava em frente para ouvir, uma e outra vez, até à hora de voltar ao trabalho. E ria-me. Quase trinta anos depois, leio e ouço a "mudança de paradigma". E também me faz rir, confesso, mas não me arrebita. Falta-lhe sustância.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Já me tinhas dito 5

E diz o comentador, no final do jogo do campeonato inglês: "Vitória mais que justa da equipa que não reunia qualquer tipo de favoritismo". Sim, é verdade, ele há favoritismos das mais variadas espécies. Mas quase nunca reúnem.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O último terço do terreno propriamente dito

                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

Ou o primeiro terço do terreno - segundo alguns autores. A comunidade científica ainda não chegou a um consenso. Eu defendo, e creio que o provo aqui sem deixar margens para dúvidas, que o terço do terreno dá para os dois lados, como certas e determinadas pessoas. Advirto, no entanto, que esta é uma opinião meramente pessoal, que não vincula o Tarrenego!, ainda sem posição oficial sobre o assunto. É o meu modesto contributo para um debate que não deve ficar entre linhas.