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segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Papando uns e outros

Chegava o Natal e ele, entre bombons e bumbuns, levava tudo a eito e sem destrinça. Padecia de uma espécie muito avançada de paronímia, segundo atestado médico, e a mulher, que era das antigas, desculpava-o, coitadinha...

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

O ânus da prova

Eu, por exemplo, digo doénte em vez de doênte. Digo mãe em vez de máim. Digo meio quando é meio e não maio. Digo têlha quando é telha e não talha. Digo coêlho quando é coelho e não coalho. Digo cóio em vez de côio. Digo frónha em vez de frônha. Digo cachicha em vez de caxixa. Digo ferraménta em vez de pénis. Quer-se dizer: digo como era costume dizer-se na terrinha. Resultado: chamam-me parolo, labrego, matarruano, riem-se de mim.
Já o outro, urbanita de grande metrópole, frequentador de mundo e telejornais, ajeita delicadamente os botões de punho de dezoito quilates, afaga a gravata hermès sofisticada e cara, faz biquinho e diz, finíssimo porém acutilante, ânus da prova. Ânus da prova, é o que ele diz na televisão de esgoto! Ânus da prova para aqui, ânus da prova para ali, enche a boca de ânus da prova! E chamam-lhe ó-doutor, jurista, comentador, especialista em molduras penais e em penicos de esmalte. E ninguém se ri.

Por outro lado. "A minha pátria é a língua portuguesa", escreveu o nosso Fernando Pessoa. "A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo. Um povo só começa a perder a sua independência, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor do idioma natal. A morte de uma nação começa pelo apodrecimento da língua", escreveu Olavo Bilac, o brasileiro e sensato.
Bilac (1865-1918) e Pessoa (1888-1935). Não quero saber aqui quem é ovo ou quem é galinha, nem me interessa como assunto, de momento, o miserável, escusado e alegado acordo ortográfico. Lembrei-me foi dos professores doutores da mula ruça, traidores à pátria, que enchem a boca de "periúdos", de "interésses", de "rúbricas", de "perzeveranças", de "mediúcres". Enchem a boca e apodrecem a língua. Apodrecem a língua e matam a nação.

António Costa, por exemplo. Já era tempinho de aprender a falar português, depois de, em 2015, ter aprendido a não falar mandarim. Em São Bento e no Largo do Rato ninguém lhe soube deitar a mão e pôr pimenta na língua, espero bem que agora lá pelos corredores e gabinetes do Conselho Europeu apareça alguma alma caridosa que ensine ao nosso ex a basezinha das regras de concordância, alguém que pelo menos o proíba de comer sílabas enquanto fala. Falar com a boca cheia é, para além do mais, falta de educação.

P.S. - Uma equipa de cientistas japoneses ganhou o Prémio IgNobel, depois de ter descoberto que os mamíferos conseguem respirar pelo ânus. Sim, aqui é mesmo ânus. Os especialistas do sol nascente defendem que esta seria também uma excelente saída para os humanos em casos de emergência, nomeadamente em situações de dificuldade respiratória ou quando os ventiladores não estão disponíveis ou são inadequados.

domingo, 6 de março de 2022

A eurovisão

A eurovisão é a forma europeia e gramatical de ver e entender a Europa, o mundo e as coisas. Uma certa forma. Como agora com a Rússia invadindo a Ucrânia, isto é, com a guerra. A Europa agasalha-se no sofá e vê pela televisão...

sábado, 22 de janeiro de 2022

O ânus da prova

Eu, por exemplo, digo doénte em vez de doênte. Digo mãe em vez de máim. Digo meio quando é meio e não maio. Digo têlha quando é telha e não talha. Digo coêlho quando é coelho e não coalho. Digo cóio em vez de côio. Digo frónha em vez de frônha. Digo cachicha em vez de caxixa. Digo ferraménta em vez de pénis. Quer-se dizer: digo como era costume dizer-se na terrinha. Resultado: chamam-me parolo, labrego, matarruano, riem-se de mim.
Já o outro, urbanita de grande metrópole, frequentador de mundo e telejornais, ajeita delicadamente os botões de punho de dezoito quilates, afaga a gravata hermès sofisticada e cara, faz biquinho e diz, finíssimo porém acutilante, ânus da prova. Ânus da prova, é o que ele diz! Ânus da prova para aqui, ânus da prova para ali, enche a boca de ânus da prova! E chamam-lhe ó-doutor, jurista, comentador, especialista em molduras penais. E ninguém se ri.

Por outro lado. "A minha pátria é a língua portuguesa", escreveu o nosso Fernando Pessoa. "A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo. Um povo só começa a perder a sua independência, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor do idioma natal. A morte de uma nação começa pelo apodrecimento da língua", escreveu Olavo Bilac, o brasileiro e sensato.
Bilac (1865-1918) e Pessoa (1888-1935). Não quero saber aqui quem é ovo ou quem é galinha, nem me interessa como assunto, de momento, o miserável, escusado e alegado acordo ortográfico. Lembrei-me foi dos professores doutores da mula ruça, traidores à pátria, que enchem a boca de "periúdos", de "interésses", de "rúbricas", de "perzeveranças", de "mediúcres". Enchem a boca e apodrecem a língua. Apodrecem a língua e matam a nação.

António Costa, por exemplo. Já era tempinho de aprender a falar português, depois de, em 2015, ter aprendido a não falar mandarim. Não há lá pelos corredores e gabinetes de São Bento ou no Largo do Rato quem saiba ensinar ao nosso ainda primeiro-ministro a basezinha das regras de concordância, alguém que o proíba de comer sílabas enquanto fala? Falar com a boca cheia é, para além do mais, falta de educação.

P.S. - No dia 22 de Janeiro de 1500, o nosso rei D. Manuel I determinou que "não se pague moradia aos moços fidalgos" sem estes terem dado provas do domínio da língua, com certidão passada por mestre de gramática. Ai se fosse hoje! O que seria dos nossos novos "moços fidalgos", os ilustres e amiúde analfabetos deputados da Nação?... 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Gosto muito de todavias

Na rádio, ouvi ontem uma pequena entrevista telefónica feita ao presidente de um clube de futebol da primeira divisão. Claro que o entrevistado não era nenhum dos três cabeçudos - esses não têm telefone (por causa da polícia), só dão "grandes entrevistas" nas televisões mais ou menos nacionais, em directo e exclusivo, ou, quando lhes apetece, mandam recado pela rapaziada que mantêm nas redacções. E também não era nenhum daqueles que querem ser cabeçudos quando forem grandes. Era somente o presidente de um clube de futebol da primeira divisão.
E querem saber? Gostei do que ouvi. Em apenas três ou quatro frases telegráficas, num discurso simples e honesto, o presidente utilizou pelo menos duas vezes a conjunção adversativa (ainda se chama assim?) todavia. Ora, eu gosto muito de todavias. O facto de haver um presidente de um clube de futebol da primeira divisão que respeita o trabalho dos jornalistas e tem educação bastante para atender o telemóvel e permitir a gravação de uma conversa, nos dias que correm e por si só, é para mim uma enorme novidade, um motivo de justificado aplauso. E ainda por cima as todavias falaram-me ao coração. Este presidente, digo já, passou a merecer a minha mais sincera admiração.
Apesar de nenhuma das suas todavias estar devidamente contextualizada. Ou, como se diz agora à la française, "mesmo que" nenhuma das suas todavias estivesse devidamente contextualizada. Atirou-as ao calhas e quem quiser que fuja. Quero lá saber: o homem é do futebol, não é gramático. Podia ter dito "picaretas" e, isso sim, seria perigoso. Gosto muito de todavias, mas as todavias não são tudo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Já me tinhas dito 6

Eram um casal e o filho, a rondar os onze anos, e saíam do restaurante depois de jantar.
- Queres ir? - pergunta a mãe, urbana e meiga?
- Aonde? - diz o miúdo.
- Não se diz aonde. É onde. Estou farta de te dizer - corrige a mamã, instantaneamente ríspida, e a conversa acaba logo ali, por baixo da minha varanda.
É. A ignorância envernizada cuida que o aonde é um regionalismo, um parolismo. E os doutores da mula ruça, como não sabem por onde lhe devem pegar, pegaram nele e enfiaram-no no baú dos falsos arcaísmos. Mas o menino falou bem. E a mãe corrigiu mal. Depois entraram no Mercedes.