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sábado, 11 de abril de 2026

O homem de licra e o boião perdido

Foto Hernâni Von Doellinger

Da frente para trás
Ao contrário de todos os outros atletas, ele gostava de correr da frente para trás. Tácticas. Provocava muita confusão e inúmeros acidentes, realmente, mas cada um é que sabe da sua vida.

Estais a ver esses maratonistas bissextos mas cheios de intenção que treinam a prestações aos domingos de manhã artilhados com todos os matadores, como por exemplo aquele cinto tipo canivete suíço onde acomodam boiãozinhos de várias cores e feitios, barras energéticas, géis, bananas, ananases, pepinos, couves-galegas, sandes de marmelada com tulicreme, tremoços, caldo de nabos, as chaves de casa, do carro, do totobola e do euromilhões, um par de algemas, um bastão extensível, lingerie de senhora e um spray de pimenta forte? Estais a ver? Pois era um desses com um daqueles.
O homenzarrão de calções de licra pelo joelho passou por mim no Parque da Cidade, junto à Torre do Relógio, e naquele exacto momento, mais minuto menos minuto, despencou-se-lhe do extraordinário cinto multifunções um dos frasquinhos de plástico. Caiu aos meus pés, como se fosse um dádiva e só me arranjou problemas. Eu, que me pelo por ajudar, gritei "Olhe, caiu-lhe um boião!", vergando-me para apanhar a garrafinha e levá-la ao dono, e bem me custou, que já não estou em idade para semelhantes acrobacias. O superatleta, talvez apenas cinco metros à minha frente, ouviu-me, sempre correndo, virou levemente a cabeça e sobretudo o braço direito num gesto redondo e grande, creio que metendo-nos no mesmo saco a mim e ao vasilhame perdido, para tonitruar, macho a cem por cento, desportista até mais não:
- Que se foda!...
E lá foi para casa, naquela roupinha de bailarina, coçando sobremaneira as partes, coisa de homens, cheio de pressa para bater o seu próprio "recor". Era dia de tripas e talvez vitela assada, perceba-se por isso a urgência.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 23 de março de 2026

O contador de anedotas

Macaquinhos no sótão
Ele tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.

Levava um banquinho de madeira e sentava-se em Cima da Arcada, de guarda-sol aberto, em dias assim-assim, geralmente pouco nublados, e um caderninho de folhas quadriculadas, todos os dias. Se por acaso invernasse, o guarda-sol chamava-se guarda-chuva. Mas ele. Ele espertava os olhos cansados, via sair, e tomava nota. Saíam do Mário da Louça, do Damião Monteiro, do Império, do Fernando da Sede, do Foto Jóia, do Talho Novo, do Romeu, da Caixa, do Martins da Avenida, do Rabeca, da Câmara, do Café Avenida, da Peninsular, do Moniz Rebelo, das camionetas do João Carlos Soares, da Juditinha, do Sanica, do Casinhas, da Senhora Eufémia, do Américo das Bicicletas, do Alfredo Sapateiro, das Lobas, do Club, da Pacata, da Loja Nova, da Casa da Cera, dos Armazéns Cunha, do Banco, do Martins Relojoeiro, da Electra, do Manel do Campo, até saíam do Escondidinho. Saíam, e ele registava a lápis lambido, mão trémula porém infalível.
Analfabeto de nascença, utilizava a técnica estatística do Miguel Cantoneiro, ecumenicamente adaptada. O nosso extraordinário Miguel, fardado e de pistolo à cinta, anotava o trânsito com uma rodinha, um círculo pequeno, para cada carro ligeiro que passava na estrada nacional, e uma rodela, um círculo grande, para cada camião, não sei como era para as furgonetas e motorizadas, já não me lembro, mas devia haver uma escala qualquer, círculos intermédios, uma tabuada de rodinhas, rodas e rodelas que topava a tudo e batia sempre certo. Uma espécie de Excel mais de vinte anos antes de ser inventado. No Largo, o guardador de saídas, por seu turno, botava uma cruzinha pequenina para os fregueses pobres e desiludidos como ele, uma cruzinha maior para os menos mal da vida e um cruzeiro para a dúzia e meia de cagões locais. Como costumava dizer, cada um tinha a sua cruz. E era eficaz o processo. À noite, em casa, depois da sopa e antes da reza do terço, solitária e apressada, fazia a soma das cruzes, por escalões, comparava com os dias anteriores, os períodos homólogos, as contas todas certinhas, noves fora nada, particularizava as variáveis, indexava à inflação, descontava o algoritmo e arquivava tudo no saco de serapilheira debaixo da cama. Aos domingos de manhã, em vez de ir à missa, fazia uma pequena fogueira e queimava a papelada enquanto assobiava vigorosamente o hino de Fafe, "Fafe querido", mas de trás para a frente. Chamavam-lhe o Toma-Conta, o Vigilante. Talvez vigilante da natureza. Da natureza humana. Chamavam-lhe também outros nomes. Diziam que ele tinha um parafuso a menos, que era doudo, para o que lhe havia de dar, ser contador de pessoas. Ele dizia, porém, que era contador de anedotas...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quarta-feira, 17 de março de 2021

Microcontos & outras miudezas 236

Os engolidores
Engolidores, há-os. Como por exemplo engolidores de sapos, metaforicamente falando, engolidores de fogo, que na verdade não engolem mas borrifam, e engolidores de espadas. Engolidores de copas e engolidores de ouros não sei, mas engolidores de paus também há-os.

Quem dera que chova!
O sentido de responsabilidade dos portugueses em relação às normas de confinamento mede-se pela chuva. Chove, e o país inteiro fica em casa, na cama, fazendo de conta que teletrabalha. Faz sol, e toda a gente salta para a rua, aos magotes, autênticos ranchos, sem máscara nem distância. O resto é treta.

Testes em massa
O Governo anuncia testes em massa. Sim, evidentemente testes em massa, estou absolutamente de acordo. Mas testes em arroz? E testes em batatas? Que é deles?... 

Óculos com a bateria em baixo são uma chatice
É desagradável. Pousar os óculos e depois não saber onde. E precisar deles para os procurar. E pegar no telemóvel para lhes ligar, obrigando-os a darem sinal de si. E então lembrar-me de que nunca pus os óculos a carregar.

Guerra das Rosas
A Rosa Maria e a Rosa Beatriz andam sempre à bulha por causa do Anacleto Lingrinhas. Lá no bairro dizem que é a Guerra das Rosas.
 
Reciprocidade
Serviço de esplanada tem de ser pedido ao balcão. Serviço ao balcão tem de ser pedido na esplanada. Obrigado pela compreensão. 

Por trás de uma grande mulher
Por trás de uma grande mulher, o homem geralmente não se vê.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Microcontos & outras miudezas 235

A máscara de Zorro
Ainda ninguém ensinou ao Zorro a maneira correcta de usar a máscara?...

Na saúde e na doença
Com a saúde não se brinca. Com a doença, sim.
 
Cuidado com o riso!
Tomem-se todas as precauções. O riso é altamente contagioso.

Calou-se e enriqueceu
Disseram-lhe que o silêncio é de ouro. Nunca mais abriu a boca e está muito bem na vida.

A regra
Era uma regra de ouro. Com pedras preciosas incrustadas.

O orador
- Profissão?
- Orador.
- Faz discursos?
- Rezo pai-nossos. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Microcontos & outras miudezas 234

O Natal é um equívoco
O Natal é um paradoxo: alegra e deprime. E é também um equívoco: marcado para o dia 25, toda a gente sabe que é na noite de 24.

Espanto gastrointestinal
Era vegetariano completo e cagava postas de pescada. A ciência nunca soube explicar o fenómeno.

Naquele tempo o Menino Jesus era nosso
As coisas em que a gente acredita quando é miúdo! Eu, por exemplo, acreditava piamente que o Menino Jesus era português - morra já aqui se estou a mentir. Eu ia à missa, ajudava, ouvia com gosto aqueles bocadinhos de Bíblia e fazia a conexão que se impunha: se a Samaritana é de Coimbra, se os apóstolos são todos portugueses, é só ver os nomes - João e Tiago, filhos de Zebedeu, Pedro, André, Mateus, Tomé, Bartolomeu, e por aí fora -, se o Jordão é em Guimarães e o Calvário em Fafe, se Roma é uma avenida em Lisboa, se Nazaré e Belém são nossos, então o Menino Jesus também é. Deus é nosso. Se Deus quiser até joga na Selecção e marca os golos que Lhe apetecer. Já grande, e após alguns anos de desengano e reeducação religiosa nos trabalhos forçados do seminário, passei a olhar com um certo carinho e determinada melancolia para esta minha crença infantil e patriótica. Depois veio Cavaco Silva, em 2006, e eu deixei finalmente de acreditar. Dediquei-me à exegese, à hermenêutica, à toponímia, à topogígia, à geografia e à natação sincronizada sob chuveiro, sem ofensa para os presentes e apenas às primeiras quartas-feiras de cada mês, de três em três meses, dez minutos antes de me deitar.

Como os melões
Os anos são como os melões. Mas ao contrário. Só depois de fechados é que se sabe se foram bons.

Como as cerejas
Os anos são como as cerejas. Vêm uns atrás dos outros. 

domingo, 27 de dezembro de 2020

Microcontos & outras miudezas 233

A bisculeta
A bisculeta é um utensílio com pelo menos quatro rodas: a roda da frente, a roda de trás, a roda pedaleira e o pinhão. Vulgarmente conhecida como velocípede sem motor ou bicicleta, há também quem lhe chame automóvel derivado exactamente àquilo das quatro rodas. 

À velocidade de luz
A velocidade da luz desloca-se praticamente à velocidade da luz. O que é extraordinário!

Zé do Boné, um herói impossível
O Zé do Boné andou mais de meio século pelas páginas de O Primeiro de Janeiro e hoje seria um herói impossível. Porque politicamente incorrecto. Criado pelo cartunista britânico Reg Smithe, o malandro Andy Capp, assim se chamava de origem, foi visto pela primeira vez no dia 5 de Agosto de 1957 no jornal Daily Mirror. Internacionalizou-se em 1963, quando passou a ser editado nos Estados Unidos, e chegou a ser publicado em mais de mil jornais, cinquenta países e treze línguas.
Por cá, O Primeiro de Janeiro tomou conta de Andy Capp e rebaptizou-o, numa adaptação feliz, como Zé do Boné. E é como esse nome que o conhecemos até hoje. Zé, para ser "português" e porque sim. Do boné, como a própria imagem indica. Zé do Boné.
O Zé era o típico elemento da classe trabalhadora que na verdade nunca trabalhou. Cidadão imprestável, machista, engatatão sem sucesso, copofónico de gabarito, mentiroso, preguiçoso, implicativo, conflituoso e, numa só palavra, arruaceiro, passava a vida entre o sofá de casa e o balcão do bar da esquina, reservando algumas horas para andar à pancada nos jogos de futebol. Apostador inveterado, as suas modalidades desportivas favoritas eram, para além do pontapé na bola, a columbofilia, o bilhar e as corridas de cavalos. Para além disso, batia na mulher, Flo, trabalhadora esforçada que também gostava do seu copinho e que, quando não, lhe devolvia alguns sopapos.
Enfim, todo um compêndio de indecência e má figura. Ou por outra: acho que conheço este tipo de algum lado...
 
Viciado em pastilhas
Tomava pastilhas atrás de pastilhas mas não havia maneira de melhorar. Eram pastilhas de travões e ainda por cima davam-lhe gases.

Declinando
Ofereceram-lhe um emprego muito jeitoso no Governo. Bem pago e sem precisar de vergar a mola. Ele, vertical, declinou. - Lingua, linguae, linguae, linguam, linguā, lingua... - disse.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Microcontos & outras miudezas 232

Fundo do desemprego
Viu um anúncio a pedir idiotas e lá foi ele. Estava no fundo do desemprego e respondia a todos os anúncios.

Os defenestráveis
O que eu gosto mais no 1.º de Dezembro é do episódio do defenestrado. O traidor à Pátria que, com a revolução à porta, escondeu-se no armário e acabou crivado de balas e lançado janela fora. Miguel de Vasconcelos era odiado pelo povo, porque, sendo português, andava a mando do estrangeiro e castigava Portugal com pesados impostos. 
E hoje, como seria?...

Uma mão lava a outra
Uma mão lava a outra. E as duas lavam os pés. E lavam as pernas e os braços e os sovacos e a barriga e as costas e os tomates e ilhas adjacentes e o pescoço e as orelhas e a cara e o cabelo ou a careca. É. Uma mão lava a outra.

Acredite se quiser!
O primeiro número do jornal O Primeiro de Janeiro saiu curiosamente com um mês de antecedência, ou com onze meses de atraso, no dia 1 de Dezembro de 1868.

"Acredite se quiser!" era, se bem me lembro, o título de uma série de pequenos desenhos informativos publicada no velho Janeiro sobre bizarrias, estranhezas e outros impossíveis, na página das palavras cruzadas e das tiras de banda desenhada, nomeadamente ao lado do Zé do Boné, Andy Capp de nascença, do Reizinho, do Sr. Calisto e do Príncipe Valente. Era uma franquia americana criada por Robert Ripley e que no original de chamava "Believe it or not!". Fez sucesso na rádio, na televisão e em livros aos quadradinhos. Parece que actualmente dá nome a uma cadeia de grandes atracções turísticas e de entretenimento familiar, mais de cem em onze países de quatro continentes.

P.S. - Nos inícios da década de setenta do século passado a janeiral rubrica chamava-se "Talvez não acredite" - e se calhar sempre se chamou assim...

sábado, 12 de dezembro de 2020

Microcontos & outras miudezas 231

Uma boa trancada
Fafe. No monte de São Jorge havia o Pionono, assim com maiúscula, é justo que se diga. Pionono era nome próprio, sítio, geografia. "Vou ao Pionono". Ia-se ao Pionono. E o Pionono era naquele tempo muito mais do que um acomodado cabeço, crescia sem fim à vista, misterioso, palpitante, labiríntico, agigantava-se floresta, cenário de filme, de livrinho de aventuras, de fantasia e crime. Ao Pionono ia-se aos pinheiros pelo Natal, ia-se esgaçar umas pernadas de carvalho para o trono da cascata do Santo António, ia-se aos fentos ou ao mato para o eido ou às giestas secas para espertar a lareira do chão da cozinha, ia-se brincar aos cobóis, ia-se cagar ao monte e ia-se dar umas trancadas, e o que eu gostava da palavra trancadas, mesmo sem conseguir então alcançar, coitadinho, o que ela quereria dizer.
O Pionono hoje é casas e está bem. Uma rua a descer para quem vem e, a mesma, a subir para quem vai. À merda. Monte é que... viste-lo?
E faz falta. Adaptando o meu Nobel Lobo Antunes, nem é homem nem é nada quem nunca deu uma boa trancada no monte. Eu já.

Branca de Neve, o Capuchinho Vermelho e Os Três Porquinhos
Branca de Neve brincava às casinhas com a casa dos sete anões. Com os anões brincava aos médicos, há quem diga. E a casa era na floresta.
Capuchinho Vermelho ia levar o merendeiro à Avozinha, mas apareceu-lhe o Lobo Mau que a queria comer a ela, Capuchinho. E a casa da Avozinha era no meio da floresta.
Se alguém souber dizer onde eram as casas dos Três Porquinhos, não me admiraria que fossem na floresta. E "porquinhos" porquê?...

Incesto
Ele andava um autêntico farrapo. Deprimido, angustiado, pesaroso, cabisbaixo em todos os sentidos. Atormentava-o o terrível pensamento, a dúvida atroz: será incesto manter relações sexuais com a própria mulher?...

Um toque de classe
O rectal pertence à classe dos toques. É, consequentemente, um toque de classe.

O último grito da moda
- Biiichas!!!...

sábado, 5 de dezembro de 2020

Microcontos & outras miudezas 230

O (des)interesseiro
- Eu quero é que o dinheiro se foda! - dizia. Acrescentando: -  E que procrie, evidentemente... 

Urbanismo e estupidez natural
Já basta o que basta, o desvario que aí vai pela rua. Da amargura. Roubam-nos os jardins e dão-nos desertos em forma de praça, arrancam-nos as árvores e impingem-nos guarda-sóis publicitários. Olhai o Porto, olhai Matosinhos, olhai Fafe - que merda! E a estes crimes de lesa-qualidade de vida as inteligências de carregar pela boca, doutores da mula ruça, autarcas autofágicos, ignotos ignorantes, chamam "urbanismo". Palermas, novecentas e noventa e nove vezes palermas!

Os três três
E vai há tão pouco tanto tempo! Portugal era o país dos três efes: futebol, fado e Fátima. E dos três pês: pobres, pobres, pobres. E dos três esses: Salazar! Salazar! Salazar!...

Cavaco Silva e o BPN
Apenas uma efeméride: a 11 de Novembro de 2008, fez no outro dia doze anos, o então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, anunciou a promulgação do diploma que nacionalizava o Banco Português de Negócios, argumentando que teve em conta a "protecção dos depositantes e a estabilidade do sistema financeiro". Pois. Para além de outras manigâncias e manifestos crimes, a ponderada nacionalização do BPN já sacou ao bolso dos portugueses mais de cinco mil milhões de euros. E continua a contar...

Eu trigo-me, tu trigas-te, ele triga-se
Biju, papo-seco, carcaça, molete, pada ou trigo, consoante a região de origem e a idade de cada qual. Assim se chamava e parece que ainda se chama ao pão pequeno, arredondado, regra geral de risca ao meio e feito à base de farinha de trigo. Em Fafe aprendi-o biju e trigo, sobretudo trigo, e é o que me tem bastado até hoje: vou à padaria e peço cinco trigos, se faz favor. Riem-se e eu acho muito bem, porque rir é porreiro, embora também possa ser ignorância. Em Fafe aprendi, ainda por cima, o verbo trigar - ou, talvez melhor dizendo, trigar-se -, que, naquele pedaço baixo-minhoto rural e de entranhável confluência galega, Monte Longo e Basto, significava acanhar, constranger, envergonhar, intimidar, embaraçar, coibir. Dizia-se, por exemplo, "Não se trigue, tire à sua vontade mais um bocadinho de presunto!", e eu achava um piadão àquilo. Ao presunto, quero dizer...

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Microcontos & outras miudezas 229

Entre a herança e a falta de educação
Deixar a porta à Berta é uma coisa. Outra, bem diferente, é deixar a Berta à porta.

Gonçalves Zarco, cavaleiro do Infante
João Gonçalves Zarco, da nobre família dos Zarcos de Valdevez, foi um navegador português e cavaleiro fidalgo da Casa do Infante D. Henrique. O Infante, que vestia modelitos chiques e adorava festas e festinhas, encarregou Zarco de organizar o povoamento e administrar a zona funchalense da Ilha da Madeira enquanto Alberto João Jardim não chegasse. Dito e feito. Quando se reformou, o velho Zarco, que também não era tolo e tinha agasalhado uns cobres valentes, abriu uma escola em Matosinhos mas escolheu a Foz, no Porto, para morar, instalando-se desafogadamente na famosa Rotunda do Castelo do Queijo, a que também chamam Praça de Gonçalves Zarco exactamente em homenagem à estátua equestre de D. João VI que está lá no meio. 

O Infante Dom Henrique ou Infante Dom Henrique de Avis ou Príncipe Henrique, Duque de Viseu e Senhor da Covilhã, cavaleiro da Ordem da Jarreteira, administrador-geral da Ordem de Cristo, é também popularmente conhecido como Infante de Sagres ou O Navegador, embora nunca na vida tivesse embarcado derivado aos enjoos.

Arranha-céus e faz-lhes cócegas
Em Novembro de 2003 foi inaugurado em Taiwan o maior arranha-céus do mundo, com 508 metros de altura. Muitos parabéns! Dez anos depois, em Setembro de 2013, as notícias anunciavam que o primeiro arranha-céus invisível iria ser construído em Seul. O que é verdadeiramente extraordinário! Não sei se a obra foi mesmo feita e se o prédio já estará concluído, mas também ninguém sabe. E será bonito?

Sem papas na língua
Não tinha papas na língua. Realmente não. Já era maior e vacinado, e há muito que comia sólido. Mas tinha papos. Papos, sim. Andava constantemente a trincar-se...

Somos a informar
A pedido da Associação dos Antibióticos Anónimos (AAA), informa-se: a habitual reunião das segundas passa habitualmente para as terças, já a partir de hoje, quarta.

Dia do Homem
- Hoje é Dia do Homem... - disse ele.
- Dói-me a cabeça! - disse ela.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Microcontos & outras miudezas 228

Somente às refeições
Por indicação médica, bebia apenas às refeições. E comia de manhã à noite.

Amor é fogo que hard
Querem saber como é que acabou aquele casamento que parecia tão bem? - Acentuado arrefecimento nocturno...

As encomendas como as bombas
As encomendas agora chegam-nos a casa sozinhas no elevador. Como as bombas. Nos filmes.

Às moscas
As salas de cinema estão às moscas - dizem. Realmente a limpeza já não é o que era. 

Eram uns atrás dos outros...
Quartilhos. Depois de três ou quatro, ou cinco ou seis, bebia-se o último, depois o da porta e depois o da sossega e depois o da saída e depois o último e depois o da porta e depois o da sossega e depois o da saída e assim sucessivamente...

A verdade, só a verdade, nada mais do que a verdade
Posso provar tudo o que digo! - garantia solenemente, colocando a mão ajuramentada sobre a Bíblia. E afinal que dizia ele, assim de maneira tão melodramática? Pois dizia, nomeadamente, arroz de sarrabulho, cabrito assado no forno, vitela à moda de Fafe, camarãozinho da costa, cozido à portuguesa, filetes de peixe-galo com arroz de feijão vermelho e grelos, polvo de molho verde, bacalhau assado na brasa ou massa à lavrador. Factos, tudo factos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Microcontos & outras miudezas 227

Prato do dia
O reclame impresso sem erros em papel A4 e colado na portinha de vidro do minúsculo restaurante dizia em letras garrafais "Prato do Dia - 3,50 euros". E em letras pequeninas esclarecia "Só prato". Manobras publicitárias à parte, prato com comida era realmente uma bocadinho mais caro...

Realezas
Dagoberto I foi coroado rei dos Francos no dia 18 de Outubro de 629 e instalou-se em Paris. Por cá, o Rei dos Frangos abriu portas no dia 12 de Agosto de 1989.

Na malandrice
Vestiu-se de gala, ele. E ela, de galo. Eram realmente uns marotos...

Pernas até ao cu
Fala-se de mulheres king-size - mulherões, avionas, tranconas - e diz-se que elas têm pernas até ao cu. Como se as mulheres eventualmente mais manejáveis - perrotas, batoques, torneirinhas como a faneca - tivessem pernas apenas até ao tornozelo. Sucedeu-me agora mesmo este clarividente pensamento porque: no dia 24 de Outubro de 1939 foram colocados à venda os primeiros lotes de meias de náilon.

A obra-prima
Os especialistas dividem-se e a opinião pública também. Há quem defenda que o melhor trabalho de Miguel Ângelo são os frescos da Capela Sistina. Outros preferem a Baía de Cascais...

Vegetariano, praticamente
Creio que foi o grande comediante americano Groucho Marx quem disse: "Eu não sou vegetariano, mas como animais que são." Eu também conheço um ou dois veganos, o que me torna praticamente.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Microcontos & outras miudezas 226

Orgia (o princípio)
Alguém disse: temos de ser uns para os outros. E assim começou a orgia. 

Dumas e doutras
Da fama pelo menos não se livrava. Sobre o grande escritor francês, constava que era Alexandre Dumas... e doutras.
 
Tinha sonhos mas comeu-os
Tinha muitos sonhos. Comei-os todos de enfiada e ocorreu-lhe uma caganeira das antigas. É para aprender a não ser lambão...
 
Alta Autoridade
Era polícia municipal e media quase dois metros. Chamavam-lhe Alta Autoridade. 

O bom, o mau e o sermão
"Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra", ensinou Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5, 39). Ora isto de querer fazer de nós bonzinhos à força parece-me um perigoso incitamento à violência. À violência do outro, do mau. Que ainda por cima vai ser mais mau e por nossa culpa, nossa tão grande culpa.

Dia do Dentista
Consultou a agenda: Outubro, 3, Dia do Dentista. Fechou a agenda, torceu o nariz e olhou uma eternidade para o espelho do toucador que a reflectia. Pensava pensativamente. Dentista, não! Hoje não. Hoje apetecia-lhe o Engenheiro Agrónomo. Num impulso ligou-lhe. E foi-se lavar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Microcontos & outras miudezas 225

Mais vale fracassar do que sucessar
Não conseguia lidar com a pressão do sucesso. Álcool, drogas, depressão, tentativas de suicídio. Com a pressão do fracasso lidava ele muito bem.

Foi um ai que lhe deu
Partiu como quem parte uma perna. Isto é: de repente. E doeu.

As doenças têm dias
Três dias seguidos e assinalados. Dia da enxaqueca, dia da sépsis e dia da dermatite atópica. É-me conveniente assim. Uma de cada vez, cá me vou aguentando...

Preservativa 
Foi Dia Mundial do Preservativo Feminino. Isto é: da Preservativa.
 
Era um mimo 
Dava gosto vê-lo. Belo, perfeito, maravilhoso, gentil, delicado, gracioso. Um mimo! Fazia lembrar o Marcel Marceau...
 
Guerra das Rosas
Lá no bairro diziam que era a Guerra das Rosas. A Rosa Maria e a Rosa Beatriz sempre à bulha por causa do Anacleto Lingrinhas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Microcontos & outras miudezas 224

Private Joke
Joke fez toda a sua vida de adulto no Exército americano, mas nunca passou de soldado raso. Private Joke, assim era conhecido entre camaradas.

É só fazer as contas
Tinha mais olhos que barrigas. Era portanto uma pessoa normal.

Lição da vida
Dizia: - Se alguma coisa a vida me ensinou é que não aprendi nada com a vida.

Isto sou eu a falar
"Mas isto sou eu a falar", disse inesperadamente. E era. Realmente era ele a falar, sem qualquer sombra de dúvida. Mas que revelação extraordinária!...

De molho
Até que um dia, de tanto ouvir falar, ele pôs as barbas de molho. Mas nunca soube para quê. Se ainda fosse bacalhau! Ou, vá lá, uns tremocitos...

O falso escalador
Anda na Volta à França e os expertos dizem que é um grande escalador. Mas a verdade é esta: passaram-lhe para as mãos um robalo e ele nada, entregaram-lhe um rodovalho e ele nicles, deram-lhe até um chicharro e ele sem saber que volta dar-lhe. A montanha parira um rato. Ele, disse ele, afinal era mais douradinhos da Iglo...

Cê tá topando?!...
Era o princípio activo de um certo e determinado medicamento. Quando perdeu o cê, derivado ao acordo ortográfico, deixou de fazer efeito...

De forma alienatória
Dizia que era imparcial, livre, imune a pressões, e que as suas escolhas eram sempre feitas de forma alienatória. E, verdade seja dita, eram realmente escolhas um bocado tolas...

sábado, 29 de agosto de 2020

Microcontos & outras miudezas 223

Intervenção siderúrgica
Submetido de urgência a uma intervenção siderúrgica, não sobreviveu. A língua portuguesa é deveras traiçoeira...

Não quer dizer nada
- Este ano o Silva não vem...
- Vem, vem! Vem todos os anos!...
- Mas o Silva morreu em Março.
- E o que é que isso tem a ver?

Na marmita
Depois de ter inventado uma marmita, Papin fez 54 jogos e marcou 30 golos pela selecção francesa.

Por outro lado. Denis Papin, o tal da panela de pressão, era uma homem muito à frente, avançado como o outro: ele premuniu que um dia no futuro, talvez apenas três ou quatro séculos adiante, quer-se dizer agora, todos nós em todo o mundo levaríamos na marmita. E realmente.

Um conseguimento
Até aos cinquenta anos vivi e experimentei - e devo confessar que não foi grande coisa. A partir dos cinquenta anos comecei então a vivenciar e a experienciar - e realmente não há comparação...

O segredo está na pasta
Nem no molho, nem na massa. O segredo está na pasta. Uma pasta de segurança, diplomática, confidencial, fechada a sete chaves.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Microcontos & outras miudezas 222

O cardeal inspector
No dia 20 de Agosto de 1912, portanto há cento e oito anos praticamente redondos, rezam as efemérides oficiais que o Papa nomeou "inspectore" o cardeal patriarca de Lisboa. Pelas minhas contas, e cuidado que eu não sou de fiar, o papa era Pio X e o cardeal patriarca era D. António I, aliás António Mendes Bello assim com dois éles. Leio no sítio da Fundação Mário Soares que, com esta medida, o Vaticano quis demonstrar que o Governo português cumpria com as obrigações da Concordata, não obstante a sua política anticlerical. Isto até pode estar tudo muito bem, e eu não acredito que esteja, mas incomoda-me como furúnculo nadegueiro que o nosso cardeal patriarca tenha sido promovido a inspector. A sério (à séria, se lido em Lisboa), inspector?! O cão Max, vá que não vá... o cardeal é que não! Como católico inteiro, posto que não consumidor, este é um velho desgosto que trago há que anos ferrado aqui dentro, in pectore.

Oh, my dicky ticker!
Eu tinha um cardiologista e visitava-o de quatro em quatro meses. Falávamos de jornais, de jornalistas, de política, de restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto. E media a tensão, o que é extraordinário! Deixei. Deixei também o urologista e fiquei-me apenas com o dentista de meio em meio ano. É a crise, é a vida. Um destes dias morro e vão dizer que foi por por causa de eu ter deixado de falar de jornais, de jornalistas, de política, de restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto com o meu ex-cardiologista.

Combustível, vamos definir...
As pessoas metem gasolina de manhã, a caminho do emprego, e depois andam todo o dia com o combustível no depósito do carro. Eu acho um perigo!

Elvis não morreu, eu é que praticamente
"Cristo morreu, Marx também, e eu já não me sinto nada bem", dizia mais ou menos assim a famosa frase humorístico-panfletária das décadas de sessenta e setenta do século passado. Cristo morreu mas ressuscitou, Marx só não ressuscitou porque era materialista ateu e imprevidente, mas anda por aí como o nosso Santana Lopes, e eu, nesta historieta, não interesso para nada. Porém. Cultivo aqui no Tarrenego! uma comprovada teoria que se chama "Elvis não morreu e o 24horas também não". Assim. Elvis Presley morreu no dia 16 de Agosto de 1977. Ou, melhor dizendo, foi exactamente nesse dia que ele não morreu. Anda por aí, como Cristo, como Marx e como Santana Lopes. O jornal 24horas morreu oficialmente no dia 30 de Junho de 2010. Ou, melhor dizendo, foi exactamente nesse dia que ele não morreu. Também anda por aí: chama-se agora Correio da Manhã, Jornal de Notícias, Sábado, Observador, Diário de Notícias, Sol, Record, A Bola, O Jogo e assim sucessivamente...

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Microcontos & outras miudezas 221

O melhor amigo da mulher
O cão é o melhor amigo do homem. Da mulher, há quem diga que é o gato.

Abdominais definidos
Tenho os abdominais muito bem definidos. Abdominais: referentes ao abdómen; músculos do abdómen; exercícios para fortalecer os músculos do abdómen; peixes teleósteos cujas barbatanas pélvicas estão inseridas no abdómen, atrás das peitorais; insectos coleópteros com abdómen muito desenvolvido; crustáceos cirrípedes, parasitas.

Tudo para o maneta
Por isto, por aquilo, por aqueloutro, o pessoal manda tudo para o maneta. E a verdade é que o Maneta já se vai abotoando com uma fortuna considerável.

Era um homem muito antigo
Era um homem muito antigo e vivia agarrado a coisas que já não se usam. Vejam lá que quando precisava de um táxi chamava um táxi!...

Cala-te, boca
Se ele contasse tudo o que sabia a seu próprio respeito, estaria bem tramado. Por isso comprou um assobio...

Os últimos serão os primeiros
Era sempre o último a chegar e o primeiro a falar. Dizia: - Falta alguém?...

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Microcontos & outras miudezas 220

Marega tem razão!
Não sei qual é o assunto, desconheço do que se trata. Mas. João Paulo Rebelo, o boneco de ventriloquia que faz de secretário de Estado da Juventude e Desportos, "discorda de Marega", dizem os jornais. Portanto Marega está certo!

Golpe de estado, parecendo que não
Resolveu-se por um golpe de estado, mas com a máxima discrição. Queria-se uma coisa assim pelo soleno, a conta-gostas, parecendo que não, tipo estamos à espera dele e ele há que tempos! A sociedade Costa & Rio, Limitados tomou conta da empreitada. O Chega trata do resto.

No tempo das cervejas
Uma vez, em pleno pino de Verão, de férias, passeei Lisboa durante um dia inteiro sem beber uma cerveja, e bem era o tempo delas. Bati as capelas todas. Entrava aqui, entrava ali, e pedia "Uma Super Bock, se faz favor!", ou perguntava "Por favor, a imperial é Super Bock?", que não há e que não é - era Sagres e Sagres, respondiam-me invariavelmente, como se estivessem todos ensaiados e me conhecessem de algum lado. Bebi água como a minha mulher, eu quase morria, e foi a maior e mais perigosa acção de protesto que levei a efeito em toda a minha vida.

Desarmado em parvo
Era tão pacifista, tão pacifista, tão objector de consciência, tão objector de consciência, tão não-violento, tão não-violento, que havia quem dissesse que ele andava sempre desarmado em parvo.

Foi um ar que nos deram
O oxigénio foi descoberto pelo químico inglês Joseph Priestley no dia 1 de Agosto de 1774, validando as pioneiras investigações do alemão Carl Wilhelm Scheele, o qual, não é para o gabar, já tinha descoberto o oxigénio. Sinceramente, não sei o que é que se respirava antes destes dois...

Fruta da época
Os melões são como as cerejas. Distinguem-se apenas derivado ao caroço. 

De cor e salteado
E finalmente conseguiu decorar o bolo. Era um bolo complicado, com milhões de ingredientes e passos, mas já está na ponta da língua.  

Ninguém fica para trás, mas
Dizia o governante, consciencioso: - Não deixaremos ninguém para trás. Apenas os que se atrasarem...

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Microcontos & outras miudezas 219

O chichi e a discriminação de género
Antigamente as mulheres urinavam de pé. Não vou explicar pormenores, a não ser que me peçam muito, mas urinavam de pé. De pé, como as falecidas árvores da Senhora Dona Palmira Bastos. De pé, como as vítimas da fome. De pé, como os homens em geral. De pé! Homens e mulheres eram iguais. Depois as mulheres resolveram amouchar para o acto e vão aos pares à casa de banho. Hoje em dia as mulheres queixam-se de discriminação de género.

Joie de vivre
Sabem aqueles indivíduos que têm a certeza de que, mais hora menos hora, lhes vai acontecer uma desgraça qualquer, um furo ou um cancro, por exemplo, e que por isso andam sempre com o credo na boca e o colete reflector vestido? Ele não era desses. Viveu descansado e feliz até aos 123 anos, e só se queixou uma vez, mesmo antes do último suspiro: - Agora que me sentia tão bem...

O filósofo
Ensinava: o pior da morte é que a vida deixa de fazer sentido.

Manjeriquices
Como todos os anos, o meu manjerico de São João foi atacado pela lagarta, dezenas de lagartas sorrateiras e gordas. Como todos os anos, tratei do assunto deitando uma panela de água a ferver sobre o manjerico. Como todos os anos, as lagartas morreram todas. E o manjerico também, como todos os anos. Não percebo...

Mulher amiga...
Com esta caloraça, a mulher comprou-lhe um pijama de Verão por acaso bastante jeitoso. Chamou-o ao quarto e disse-lhe: - Estás a ver? Gostas? Fica aqui guardadinho para quando fores para o hospital...