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domingo, 26 de julho de 2026

Molhar a palavra tem que se lhe diga

Sob pressão
Ele escrevia muito bem sob pressão. Cinco ou seis fininhos bebidos de penálti, e era um Saramago.

"Molhar a palavra" é uma expressão idiomática que significa beber vinho, cerveja ou outra bebida, geralmente num contexto de conversa, convívio ou pausa. É sinónimo de molhar a palheta, acepção eventualmente mais musical, sendo utilizada para indicar o acto de ingerir líquidos no acompanhamento ao sacrossanto paleio. E isto assim dito, tão direitinho, tão dentro dos conformes, tão gramatical, até tem uma certa classe, arremeda talvez erudição, como se falássemos de alta cultura. E no entanto, e era aqui que eu queria chegar, "molhar a palavra" dizia respeito ao povo, era patoá de tasco, conversa nossa, terra a terra, espécie de modo de vida dos simples.
Lá isso era. As pessoas gostavam realmente de dar duas de letra e beber o seu copito entre histórias, para que o discurso fluísse, e fluía. Falava-se e bebia-se como quem não quer a coisa. Quanto mais conversa, mais vinho, partilhava-se, convivia-se, bebia-se mais uma pinga para limpar a garganta, soltar a língua, encarreirar as ideias, "Deixe-me só molhar a palavra, que já lhe conto o resto...", bebericava-se fluentemente.
Porque "molhar a palavra" era praticamente uma ciência, estava a esse nível, tinha solfejo, a sua própria escala. Começava-se por "molhar a boca", iniciação, brincadeira de crianças, e depois era sempre a subir - ou a descer, consoante o ponto de vista. Vinham então, por ordem, degrau a degrau, o "beijinho", o "golinho", o "gole" ou "golo", o "trago", a "golada", a "pescoçada" e o "penálti". Para quem não é destes andamentos e portanto não sabe, "beber de penálti" queria dizer esvaziar o copo ou a garrafa de uma assentada, isto é, emborcar todo o conteúdo de uma vez só, sem interrupções nem juízo, e "mandar uma pescoçada" era beber um grande gole, prolongado mas viável, com conta, peso e medida, um gole de bandeira, degustado, arrebatado, com prazer evidente, levando a caneca ou malga quase até ao fim. O restinho que ficava no fundo, escorropichava-se logo a seguir. Escorropichava-se e, naturalmente, mandava-se encher.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O Rates vendia ratoeiras

Na ambulância
A montanha pariu um rato. Que miséria, realmente. Se ainda ao menos parisse um elefante! Ou dois - que incomodam muito mais...

O Rates vendia ratoeiras para ratos. Também vendia armadilhas para pardais e toupeiras. E chumbos para espingardas de pressão. E fisgas. E vendia foguetes, rabichas, estalinhos, caretas de Carnaval, calçadeiras, fio do Norte, lixa, colchetes, gaiolas para grilos e furões, anzóis e sedielas, chapéus de palha, palha de aço fina e grossa, sandálias de plástico, socos, galochas, velas, DDT, solarine, vassouras, lousas e lápis de ardósia, coadores, funis, navalhas, agulhas para desentupir máquinas a petróleo, peidos-engarrafados, garrafões e pelo menos um exemplar de todas as bugigangas e quinquilharias alguma vez inventadas no mundo inteiro, com ou sem serventia, tudo aparentemente ao monte porém segundo uma ordem que ele lá sabia, mas eu, na minha ideia de miúdo, achava era um piadão àquilo de o Rates vender ratoeiras para ratos. Para além disso, o Rates vendia rolhas. E já sabeis: as palavras sempre me interessaram muito, e essa mania tola, que eu tanto estimo, felizmente não me larga - o Rates roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia...
Rates era o proprietário mas também o sítio, lojinha de uma porta só, minúscula, escura, esconsa, tipo vão de escada. O dono servia à pinta, vestia uma bata de sarja cinzenta, barriguda como ele, e usava óculos na testa e manguitos negros. O Rates era uma verdadeira instituição fafense, ali à beira de outras duas não menos notáveis instituições fafenses, o Marinho e o Miranda das famosas pataniscas, memórias infelizmente perdidas, parece que esquecidas de propósito, por vergonha, numa praça nova e consta que muito concorrida derivado à Justiça de Fafe e às vezes aos Correios.

Mas vergonha de quê, ó gente da minha terra? Devíamos era ter orgulho do nosso passado tasqueiro e similar. Fafe daquele tempo era muito avançado, não penseis o contrário. Era até muito à frente, tomara Fafe de agora! Reparai que, com mais de cinquenta anos de avanço em relação à guerra de sexos e de géneros que aí vai e à disfunção gramatical entre masculinos e femininos e assim-assim que nos arrelia as meninges, nós já praticávamos a solução redentora e neutral hoje em dia advogada pelas mentes brilhantes do politicamente correcto. Nem ratos nem ratas. Rates é que era! Rates, e tínhamos pelos menos dois: o das ratoeiras propriamente dito e o da bola, que era outro espectáculo!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 17 de janeiro de 2026

Flûte de Portugal

O Três Marias, o Casal Garcia, o Campelo, o Vercoope, o Magos e até o "champanhe", doméstico ou de alterne, eram à taça, prova rainha. Agora deu-lhes para o flûte. Ou flauta. Pfff...

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Jogava-se ao tene

Alta competição
Os erres pagam-se caro. Os emes ficam muito mais em conta.

Jogava-se ao tene, no nosso largo, no velho Santo Velho. Tene, esclareça-se desde já, não é singular de ténis. Nem é sapatilha desirmanada nem nome que se dê ao jogo de ténis quando jogado por uma pessoa só. Nesse caso chama-se, vá lá, squash. Não. O tene era um jogo universal, de recreio, de rua, de pobres, envolvendo quantos mais miúdos melhor, sem necessidade de outros apetrechos ou equipamentos senão o próprio corpo e muita corda nos sapatos. Embora também se jogasse descalço. Ou de chancas. Ou, há que admiti-lo, de galochas...
As regras são simples. O objectivo do jogo é fugir ou tenir, conforme o ponto de vista. Escolhe-se à sorte um desgraçado, que deve tentar apanhar, isto é, tocar com a mão, os outros participantes. Um deles. E, uma vez conseguido, troca-se de posição. Quem foi apanhado, isto é, tocado, assume então a função de apanhador, o ex-apanhador passa a normal fugidor e assim sucessivamente.
Dir-me-eis então: ora, mas isso é o jogo da apanhada, ou o pega-pega ou pique-pega, se for no Brasil. Nada disso. Era o tene, o nosso tene. Porque, lá está, basta tenir, tocar levemente com a mão, com o dedo. Quem toca levemente, tene. Básico e inofensivo. O tene. Já o arranca-cebolas, por exemplo, implicava outra, por assim dizer, dinâmica e não raras visitas ao hospital.
Dir-me-eis então, e já estais a chatear: ora, mas não é tenir, é tinir, o verbo tenir não existe na língua portuguesa. Existe, existe, basta ir a Fafe e ouvir alguém que seja do falar antigo e que se lembre, claro que se lembra, do velho jogo e deste precioso regionalismo talvez baixo-minhoto e que pegou de estaca pelo menos ali na nossa zona. Ou onde é que cuidais que o bom do Costeado foi buscar o "Nem lhe teni, senhor árbitro!"?...

P.S. - Versão publicado no meu blogue Mistérios de Fafe. "Mãe recorre à justiça para que jogo da apanhada seja declarado perigoso", diz hoje em título o jornal Público.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Não coma, fotografe! (e verá que emagrece)

As melhores intenções
De boas intenções está o frigorífico cheio. Depois, evidentemente, é preciso saber cozinhar.

O jornal Público ensinou-nos o que se deve fazer quando "um prato absolutamente fenomenal (ou não tão fenomenal assim) chega à mesa". Foi aqui atrasado, mas vale a pena relembrar. E então como é que é dado fazer? O que fica bem, hoje em dia? "Come-se? Não, primeiro fotografa-se". E coloca-se no Instagram. Isso. Foi o que o jornal mandou. Depois, suponho, mas isto já sou eu a dizer, pede-se a continha, paga-se sem comer, porque a comida entretanto ficou fria, sai-se de casa ou do restaurante chique, enfia-se o boné até às orelhas e vai-se à Esquiça enfardar duas ou três doses de tripas, bem quentinhas, tão em conta, tão comidinha simples, de confiança, previsível, maravilhosamente monótona e humilde, dispensando, por isso, retratos, emojis e outras peneirices. Eu não sei o que é o Instagram (aliás cuidava que se chamava Instragam e só mudei de ideias ainda agora, depois do computador me corrigir cinco vezes), e nem me aquece nem me arrefece que pensem que estou a mangar. Sei é de cozinha, de comida, e de jornalismo também dou uns toques, modéstia à parte.
Quem escreve sobre gastronómicas matérias no excelente jornal da Sonae vê-se que tem inúmeros mestrados e consideráveis doutoramentos em Técnicas de Titulagem, mas também se percebe que é gente que só entra na cozinha para perguntar à mãezinha "o que é o comer". Não nego à partida que estas senhoras e estes senhores jornalistas sejam experts em lasanha pré-cozinhada do Lidl ou em rissóis e bolinhos de bacalhau congelados do Pingo Doce, posto que o patrão, também dono do Continente, não saiba. Falta-lhes é o resto, a basezinha, como diria o nosso Eça, que, esse sim, sabia de mesa.
Vamos supor: um prato realmente "absolutamente fenomenal" como, para não irmos mais longe, um arrozinho de grelos com fanequinhas fritas, à moda do que se fazia em Fafe e eu faço cá em casa. Chega à mesa e tira-se-lhe fotografias - deste e daquele lado, do direito e do avesso, de ângulo aberto ou fechado, visto de cima ou de baixo, de luz acesa ou com flache, esperando que o vapor se evapore, que só embacia - em vez de se lhe garfar com toda a galhardia? Então vou explicar o que se passa neste ínterim: o malandro do arroz coalha, fica arroz de hospital, como lhe chamávamos, argamassa de atirar às paredes, e as fanecas, esse peixinho tão honesto e merecedor, esfriam, perdem a graça, afeiam-se, desapetitam-nos. Uma calamidade!
E atenção que as fanequinhas frias ainda vá lá, mas no tasco e no Verão. E verão que tenho razão (esta veia poética que não me larga), quando um dia perderem a cabeça e experimentarem, o Verão e o tasco. Já o arroz segue directamente para o balde do lixo, tamanha dor de alma ainda por cima nestes tempos agrestes de cotão nos bolsos e tanta fome na rua.
Também é verdade: há pratos que são como a vingança, devem ser servidos frios, e por isso até se chamam pratos frios. E estes podem ser fotografados à vontade, à moda das sessões de casamento, quero dizer, entre as oito da manhã e as seis da madrugada do dia seguinte, sempre a dar-lhe. Quanto ao resto, se for possível, ficai quietos! Creio que posso dizer melhor: respeitosamente, comei fotografias à vontade se, tipo, vos souber bem, se vos fizer bem, ele há dietas para todos os gostos e de todos os feitios, mas, e este é o limite, a famosa linha vermelha, não me instagreis a comidinha a sério (à séria, se por azar lido em Lisboa).
Já agora, para os mesmos: um tasco é um tasco. Uma tasca ou uma tasquinha são outra coisa...

A este respeito e outros. Gosto muito do seguinte poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), que faço questão de partilhar:

Dobrada à moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Figos de seira baixa

Fruta da época
Era Dezembro. Perguntaram-lhe sobre frutas da época, e ela respondeu ferrero rocher e mon chéri.

Consta que existem no mundo mais de 750 tipos de figos, entre os quais os nossos muito apreciados preto de Torres Novas, lampa preta, pingo de mel ou roxo de Valinhos, por exemplo. Há figos verdes, vermelhos, amarelos, roxos ou pretos. Há figos lampos ou temporãos, os que amadurecem mais cedo, habitualmente entre Maio e Julho, e figos vindimos, que se aprontam mais tarde, entre Agosto e o início do Outono. Há figos frescos e figos secos. E havia figos de seira alta e figos de seira baixa. Pelo menos em Fafe.
A seira é um cesto ou saco de esparto, onde se deita a azeitona depois de moída, para a espremer, ou onde se guardam ou levam pregos, ferramentas ou figos. As seiras com figos, geralmente frescos, eram carregadas à cabeça das antigas vendedeiras para mercados e feiras, ou de rua em rua, com velhos pregões a condizer. E também iam de burro, três ou quatro seiras de cada lado do lombo, julgo ainda ter visto esta cena uma ou duas vezes, à porta dos tascos do Zé Manco e do Paredes, e nestes casos seriam seiras com figos secos. Os figos transportados lá no topo das senhoras e em cima dos jericos eram, para nós, "figos de seira alta". Por outro lado, havia os "figos" que os burros iram largando naturalmente pela retaguarda, primeiro frescos, fumegantes, e depois secos, com o tempo, e esses, na nossa terra, naquela época, eram "figos de seira baixa"...

(Publicado no meu blogue Mistérios de Fafe)

quarta-feira, 2 de abril de 2025

A Esquiça e a efeméride

Efeméride. Quer dizer: acontecimento ou facto importante que ocorreu em determinada data. Ou por outra: celebração de um acontecimento ou de uma data importante. A agência de notícias Lusa, a maior em língua portuguesa, disponibiliza diariamente no seu serviço uma lista dos "principais acontecimentos registados", desde sempre, no dia em questão, em Portugal e no mundo inteiro. Acontecimentos tipo a descoberta da pólvora, a invenção da roda, o início da I Guerra Mundial, a chegada do homem à Lua, o 25 de Abril ou a queda do Muro de Berlim. Os jornais replicam mais ou menos esta lista, consoante o espaço disponível e a respectiva "orientação editorial", há quem lhe chama assim.
Ora bem. Andava eu, ontem, à procura das "Efemérides Lusa" para hoje, 2 de Abril, quando, por engano na busca, coisas da idade, dou de caras, no jornal Sol, com as "Efemérides de 2 de Março" de 2021. E para esse dia, no ano de 2017, o Sol aponta, resplandecente: "A taberna do pai de Jorge Ferreira, árbitro que tinha apitado o Estoril-Benfica, foi vandalizada há 4 anos, durante a noite."
Caramba! Fafe nas "Efemérides"! Eu não fazia ideia da importância para a Humanidade da ocorrência em questão, mas talvez mereça. Merece certamente. Não, de caras, no que diz respeito à façanha pífia da claque antiportista Super Dragões, mas, por outro lado, quanto à Esquiça instituição, a taberna do pai do filho, ela, sim, um acontecimento digno de registo, sobretudo derivado às tripinhas e à vitela, que já lá não vou há que tempos, caseiras, honestas e acessíveis, merecedoras realmente de figurarem nos anais da História. E, até à próxima, daqui vai um abraço para o Armindo!

P.S. - Publicado originalmente no meu blogue Fafismos.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Aqui há gato

"Aqui há gato", avisava o papel colado na janela escangalhada da velha casa de pasto. Isto às segundas. Às quartas eram iscas e às sextas caracóis.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Gato ou Dia Internacional do Gato. Que também é na próxima quinta-feira, 20 de Fevereiro, no dia 8 de Agosto e no dia 29 de Outubro...

domingo, 5 de janeiro de 2025

Entre mortos e feridos, ninguém se aleijou

Vinho na pipa
couves na horta
se não nos der nada
cagamos na porta

A casa do Sr. Carlos da Cantina, na Recta, tinha no portão um aviso que dizia, mais ou menos, "Atenção! Perigo! Propriedade protegida por arma de fogo!", e aquilo metia-me muito medo, arrepiava-me, perseguia-me, não porque me passasse pela cabeça enveredar pela carreira de assaltante de residências, longe disso, caramba, a minha mãe batia-me, mas porque, na minha natural infantilidade e ignorância, eu ainda não ligava "arma de fogo" a espingarda, caçadeira, metralhadora ou pistola, mas a uma série de armadilhas explosivas e incendiárias que rebentariam sem dó nem piedade em todo o perímetro mal alguém ousasse sequer pôr o pé na vedação, por acaso alta e gradeada. Não haveria sobreviventes. Aquilo não era uma casa, era uma mansão, um cofre-forte ou quartel-general, uma imensa ratoeira, com muito terreno à frente e hei-de crer que também atrás. Eu, ai ninas, mudava sempre para o outro lado da rua quando por lá passava por algum recado.
Portanto, para quem não soubesse que o Sr. Carlos da Cantina era um homem rico, muito rico, o aviso estava lá: - Sou! E é tudo para mim. Isto é: estão a ver o Marco Paulo? No que diz respeito a fortuna, cinjamo-nos a esse departamento, o Sr. Carlos da Cantina devia ser um bocado como o Marco Paulo, mas em careca. Filhos, não posso precisar se tinha ou não, não me lembro deles se os houve, pelo menos não foram das minhas relações, o que só lhes abonaria, mas sei que tinha um afilhado, que também se chamava Carlos, noblesse oblige, creio que morava frequentemente lá no palácio e foi meu colega de escola primária, na Conde Ferreira. Era um moço porreiro, o Carlos, e o que lhe estimo é o que para mim desejo.
A Recta é a Avenida de São Jorge e o Sr. Carlos era da Cantina porque era o responsável-mor pela Cantina da Fábrica do Ferro, grande negócio, uma mina, e era por isso que era rico, muito rico, porque todos os responsáveis da Fábrica do Ferro ficaram ricos, muito ricos, só os operários, evidentemente irresponsáveis, é que ficaram pobres, muito pobres, e se, pelo Natal e por vingança, algum deles, mais atrevido ou revolucionário, resolvesse saltar o muro do shangri-la do Sr. Carlos da Cantina tendo em vista, digamos assim, orientar uma braçada de couves-galegas para a panela da consoada, morria logo ali que se fodia, feito em picado como na Guiné, e essa imagem não me saía da cabeça.
Ainda por cima, uma vez, em Passos, isto é, em Basto, nas minhas inesquecíveis férias de Verão, vi uns rapazes a construírem uma verdadeira "arma de fogo", com um pedaço de madeira, um tubo, arames, pólvora, farrapos e varetas de guarda-chuva aguçadas, que eram as balas. Chamavam àquilo "espoleta" ou, realmente, "esporeta". Era para ir à caça, e foram. Um dos miúdos ficou cego de um olho, já não me lembro se derivado a explosão desorientada ou vazado pelo projéctil - meteu-me impressão, de qualquer maneira. E eu, tornando a Fafe e ao fort knox do Sr. Carlos da Cantina, imaginava milhares de varetas de guarda-chuva a rebentarem-lhe do quintal inteiro e a assobiarem os ares, como se fosse Senhora de Antime, mas flamejantes as varetas, certeiras e mortíferas na descida, levando tudo a eito, a ferro e fogo, desde a Parefa, sejamos razoáveis, pelo menos até ao tasco do Lando da Recta, no fim da mesma, onde a estrada começa a curvar e a descer para Armil. Uma carnificina extraordinária, espectacular, nunca vista em lado algum, nem mesmo no nosso Cinema, que, não desfazendo, era de tiro e queda e de caixão à cova. E a gente a morrer ali desalmadamente, sem tempo sequer para levar a caneca aos queixos.
Ora bem. O que eu digo é o seguinte: conheci muito bem o Sr. Carlos da Cantina e a sua imensa viatura, mas sou capaz de admitir que o filho da puta do letreiro de ponta e mola me tenha indrominado a mente a respeito do homem propriamente dito, que se calhar até era uma jóia de indivíduo, eu é que estou para aqui a fazer filmes. Admito, sim senhor. Em todo o caso, e pelo sim e pelo não, nunca lhe fui cantar os Reis ou as Janeiras, no tempo deles e delas, nessa nunca me apanharam. Eu, que era um solista requisitado por vários e afamados grupos, voz de anjo já com certificação seminarística, tinha medo àquele reclame armado em parvo, já disse, ali nunca ninguém me haveria de ouvir. Cagar-lhe à porta, talvez. Mais do que isso, não.

P.S. - A quadra lá de cima era cantada, em Fafe, no final das Janeiras e dos Reis, espécie de encore caso tardasse a abertura da porta da casa e a moedinha da ordem. E, na verdade, não se dizia "cagamos" mas "caguemos", "caguemos na porta", como se ainda faláramos o velho e indesmentível galego. Era também uma reclamação, um aviso, mas da parte de fora, uma ameaça, quem sabe se alguma vez consumada...

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Os tascos e as tascas, questão de género

Aqui o género interessa. Embora ninguém me leve a sério (ou à séria, se por acaso lido em Lisboa), tenho passado a vida a pregar a respeito da irreconciliável diferença entre tasco e tasca (ou tasquinha). Prego aos peixes e prego a fundo. Mas é como já disse: tasco é tasco, sítio do povo com povo dentro, e tasca ou tasquinha é... outra coisa, coisa fina, sítio de moda. O tasco é jurássico, a tasca é cosmopolita. O tasco é rasca, a tasca é chique. A tasca é in, o tasco é out. Sei do que falo. Sou de um tempo e sou de Fafe, terra de tascos e com muito gosto. Eu prefiro os tascos. Só para dar mais um exemplo, hoje não vou mais longe: no tasco bebe-se verde tinto e come-se bolo com sardinhas ou bacalhau frito; na tasca, bebe-se ginjinha e come-se caril de lavagante, como acabo de ver no Expresso. Percebem o que eu quero dizer?

E sim, é provável que já quase não haja tascos, que os tascos puros e duros estejam em vias de extinção, mas isso, de momento, não é para aqui chamado.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

O boleto, como se fosse a consoada

Foto Hernâni Von Doellinger

O boleto é uma ordem oficial escrita que requisita alojamento para militares numa casa particular ou o próprio alojamento assim conseguido. É também salvo-conduto, a parte superior do carril sobre o qual rolam comboios e eléctricos, um género de cogumelos comestíveis e a articulação da perna do cavalo acima da ranilha, dizem uns, ou acima da quartela, dizem outros. No Brasil, boleto é ainda papelinho de aposta nas corridas de cavalos, registo de dados de uma operação bolsista, bilhete de acesso a espectáculos e similares ou impresso de factura-recibo.
Posto isto, que não interessa para nada, mudemos de assunto. Falemos de uma coisa completamente diferente. Falemos do boleto.
O boleto que, pelo menos aqui há uns anos e em Fafe, era praticado pelas bandas de música e consistia numa módica quantia em dinheiro vivo que o contramestre da filarmónica distribuía pelos músicos provavelmente a título de ajuda de custo ou, talvez melhor dizendo, como subsídio de alimentação - o que salvava o dia sobretudo aos jovens aprendizes, que passeavam muito bem a farda e faziam número na procissão mas "ainda não ganhavam". Funcionava, em todo o caso, com um prémio, um extra. Uma espécie de consoada recebida a prestações.
De uma certa maneira, o boleto era também uma das peças do concerto. Enfim, uma bagatela, como lhe chamariam os românticos. Peça curta e despretensiosa mas de sucesso garantido, faço questão de acrescentar, para contar tudo como deve ser contado. Beethoven, por exemplo, muito dado a repentinas modificações de humor, compôs algumas dezenas dessas miniaturas para piano, verdadeiras jóias, autênticas obras-primas, a mais famosa das quais será certamente "Für Elise". Tornando, porém, ao boleto: se não parecesse um rematado disparate, suponho até que seriam os próprios músicos a pedir bis. O dinheiro saía em notas puídas e renitentes de um gordo envelope cada vez mais magro e era entregue em mão, uma mão atrás da outra, no dia mesmo da "festa", em pleno coreto, com o povo ao redor, durante um intervalo que desse jeito.
Posso ter inventado esta memória, mas cuido que o mais das vezes o bodo era repartido já da parte da tarde do "serviço". E que se segue? Não sei porquê (sei, sei!), a minha cabeça começou então a associar boleto a merenda, como se fossem palavras sinónimas, e até hoje. Boleto igual a merenda. Exactamente. Merenda ao "balcão" de uma barraca beduína, periclitante e malcheirosa, espécie de estendal armado às três pancadas entre varas de choupo e toldos de pano, com bacalhau frito, orelheira salgada, frango abusivamente churrascado, moscas e sardinhas assadas que eram uma desgraça. Uma desgraça bem bebida, afogada em vinho até ao nariz.

Vinho, como quem diz. Bastas ocasiões bebia-se "receita", isto é, juntava-se cerveja e açúcar ao alegado vinho para disfarçar o pique a vinagre. Mas bebia-se. Porque beber fazia parte da arte, tinha o seu próprio solfejo. Como eu costumo dizer, e não me canso de repetir, a diferença entre uma colcheia e uma colmeia está na medida. Isto é: uma colmeia corresponde exactamente a uma semicolcheia. E deve servir-se de preferência numa seminfusa. Bem fresca...

P.S. - Publicado originalmente, versão bem mais curta, no dia 18 de Março de 2020, sob o título "O boleto". E não esquecer nunca: fafense ou merenda devem ler-se e dizer-se sempre fafénse ou merénda. E sémpre também. Viva Fafe! Viva o fafês! E viva o Natal!

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Piratas de meia-estação

Por outro lado. Corsários são, como se sabe, calças curtas e geralmente ridículas que vão um pouco abaixo dos joelhos. E podem ser chamados também bermudas, sítio de irrevogáveis desaparecimentos, porque isto realmente anda tudo ligado, e daí vem a história do triângulo.
O assunto, como de costume, não era pacífico. Prestava-se, aliás, a discussões mais ou menos geométricas e atlânticas. Com efeito, só o Equilátero acreditava no Triângulo das Bermudas. Era parte interessada, refira-se. O Isósceles e o Escaleno faziam pouco, gozavam o patau, partiam o coco a rir. Sobretudo por causa daquela vestimenta ridícula que não chega a ser calças mas sobeja para calções...

P.S. - Hoje é Dia Internacional de Falar Como Um Pirata.

O Capitão Gancho e o Capitão Iglo

O topa-a-tudo
Viu um anúncio a pedir idiotas e lá foi ele. Estava no fundo de desemprego e respondia a todos os anúncios.

Discutia-se se o Capitão Gancho era pirata ou era corsário. Em Fafe discutia-se tudo. E bebia-se bem. Havia ópticas, prismas, enfoques, ângulos, perspectivas e até pontos de vista para o mar, que ficava a guardar na Póvoa de Varzim. Conversa vai, conversa vem, uns que corsário, outros que pirata, alguns até que contrabandista, moina, ladrão, gatuno, filhodaputa, ó corno!, és pouco boi és!, como num normal jogo de futebol Fafe-Vizela no Campo da Granja, mas não havia maneira de se chegar a uma conclusão ou, vá lá, como remedeio, a um consenso - e era precisa uma maioria qualificada, isto é: dois terços mais pelo menos uma via-sacra. O animado debate mudou bruscamente de rumo quando alguém recém-entrado a bordo alvitrou que o Capitão Gancho se chamava Capitão Gancho para não ser confundido com o Capitão Iglo dos douradinhos mas sobretudo porque comandava o seu navio, o Jolly Roger, com mão de ferro e vencia o Capitão Iglo quantas vezes lhe apetecesse, aliás como o Super-Homem também é mais forte do que Thor, isso então nem se discute. E não se discutiu. Aprovado por unanimidade, e ali se fez história.
Bebia-se verde tinto, mansamente, que por acaso era uma rica pinga. E ainda há quem diga que nos nossos tascos não se aprende nada...

Por outro lado. Corsários são, como se sabe, calças curtas e geralmente ridículas que vão um pouco abaixo dos joelhos. E podem ser chamados também bermudas, sítio de irrevogáveis desaparecimentos, porque isto realmente anda tudo ligado, e daí vem a história do triângulo.
O assunto, como de costume, não era pacífico. Prestava-se, aliás, a discussões mais ou menos geométricas e atlânticas. Com efeito, só o Equilátero acreditava no Triângulo das Bermudas. Era parte interessada, refira-se. O Isósceles e o Escaleno faziam pouco, gozavam o prato, partiam o coco a rir. Sobretudo por causa daquela vestimenta ridícula que não chega a ser calças mas sobeja para calções...

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional de Falar Como Um Pirata. Aaarrr!...

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Fafe, entre o zumba e o bum bum

Fafe e o zumba são uma história que vem de longe, secular. Se há tradição em Fafe, para além da Justiça de Fafe, essa tradição é o zumba. Como se diz em Fafe por tudo e por nada, o zumba é icónico. E dou os parabéns ao Município por tudo o que fez e faz para manter viva esta tão entranhada e ancestral relação, Fafe-zumba, zumba-Fafe, trazendo-a para a rua, universalizando-a e, sinal dos tempos, bissexualizando-a. Antigamente era o zumba na caneca, amplamente praticado no segredo dos tascos sobretudo por homens, hoje em dia é o zumba colombiano levado a efeito sobretudo por mulheres que se abanam alegremente em plena luz do dia, no meio da cidade. Os velhos resistentes do zumba na caneca é que não são tolos, disfarçam, camuflam-se com as paredes, mironam, espreitam, ficam na bancada imaginária, de olhos esbugalhados, a bater o pezinho e a fazer contas de cabeça, mas sem perder pitada. Já assim fora com o bum bum Brasil. E isso, é preciso que se diga, é de homem!

(Publicado originalmente no meu blogue Fafismos)

domingo, 2 de julho de 2023

Ia-se ao tasco como quem vai à missa

Hoje é, se não me engano, Dia Nacional do Vinho. Parece impossível, mas eu tinha de tornar ao assunto. O vinho, como sabem os mais antigos, já deu de comer a um milhão de portugueses. Beber chegou a ser um honesto modo de vida, à falta de acesso a outros afazeres igualmente honrados. Hoje, esquecida a propaganda salazarista, o vinho só dá de beber e, suponho, a mais não é obrigado. Mas eu sou daquelas memórias...

Durante muito tempo eu cuidei que se chamavam assim por causa das vacas que ficavam cá fora presas pela soga às argolas da parede, ruminando uma pouca de palha ou erva, enquanto os donos enchiam a mula lá dentro. "Casa de Pasto - Bons Vinhos e Petiscos", dizia a tabuleta, geralmente de madeira, numa letra desenhada às três pancadas e desbotada pelo uso do olhar. Já lá vão tantos anos, mas juro que até hoje ainda não encontrei coisa mais linda de se ler. Nas décadas de sessenta, setenta e um cheirinho de oitenta do século passado, a vila de Fafe era o céu na terra para os devotos dos comes e bebes. Tascos, tabernas, casas de pasto, pensões e outros arraçados de restaurante, havia-os de vários feitios e para todos os gostos e bolsos, quase porta sim, porta não. O Escondidinho, o Alberto Coveiro, a Silvina Monteiro, na Rua Montenegro, o Sanica, o Marinho, o Guarda-Fios, o Vale D'Estêvão, o Manel Bigodes, da Granja, o Quinzinho e o Tanoeiro, ambos em Santo Ovídio, a Rapa e o Ferrador, os dois na Feira Velha, o Feira Velha, na Rua Visconde Moreira de Rei, o Jaime Biró, da Rua de Baixo, o Toninho da Ponte do Ranha, o Neca do Hotel, o Toninho Pires, o Zeca Batata, o Magalhães da Olímpia e o Matazana, só estes são mais do que as estações de uma via-sacra e havia quem entrasse para molhar a palavra em todos eles. Religiosamente.
Mais ou menos no meu raio de acção, centrado ali no Santo Velho, havia ainda o Peludo, o Zé Manco e o Paredes, mesmo ao pé da porta, o Chupiu, as pataniscas do Miranda, a Quiterinha, ou Texas, a Adega dos Vasinhos e as mãos de ouro da Juditinha, o vinho branco e bacalhau frito (há lá melhor mata-bicho!) no Lameiras da Rua de Baixo, o bolo com sardinhas da Brecha, a Dinâmica, o insubstituível Nacor, a Peninsular, o Zé da Menina, que também fazia sandes da famosa vitela e aviava umas quartilhadas avulsas fora do horário das refeições, a Esquiça, que ainda faz das tripas coração, a Adega Popular, ou Fernando da Sede, e o Manel do Campo, onde uma vez o meu querido tio Américo, que me iniciou nestas vidas, me levou a comer um arroz de ervilhas de quebrar com fanecas fritas que estava de se lhe cantar um Te Deum.
O Manel do Campo propriamente dito era um homem imenso, o homem mais gordo do mundo aos meus olhos de miúdo. Mas, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, ia e vinha de bicicleta e suspensórios, naquela pedalada lenta e pesada que parece que estás aqui estás a malhar, cantando a plenos pulmões, numa voz grave porém afinada, o "Marina, Marina, Marina" do Rocco Granata. Quem se lembra, que levante o braço.

Os tascos e casas de pasto de Fafe eram lugares de culto e devoção. Templos, igrejas, capelas. Instituições de serviço público, monumentos de interesse nacional, património da humanidade. Ali praticava-se a fraternidade. Ali, do doutor ao sapateiro, como então se dizia, com os queixos numa caneca que passa de mão em mão, os homens (e as mulheres, que também as havia) eram todos iguais. O vinho unia-os. Eram irmãos. O coitado que levava a caneca ao fim, mandava vir a próxima...
Nenhum recém-chegado começava a beber sem antes erguer a caneca aos presentes:
- São servidos, meus senhores?
- Estamos no mesmo - respondiam, à volta.
Este cerimonial, creio, ainda se pratica.
O vinho, a qualidade do vinho, era a pedra-de-toque para o sucesso de uma casa de porta aberta. Um sucesso traidor, de ida e volta. Sabia-se que em certo sítio havia pipa nova, de pinga de estalo, um "assombre", e era a invasão. A pipa chegava às últimas e todos lhe viravam costas, mesmo antes de ela exalar o derradeiro suspiro. Os apreciadores procuravam novo poiso, onde a história de amor e traição se repetia.
Era inevitável. Claro que também se apanhavam umas cardinas. E de caixão à cova. Eu não vou dizer nomes, mas podem acreditar no seguinte: por causa das coisas, havia uns bebedores muito conhecidos e prevenidos que, consoante os casos, tinham burro, bicicleta e até motorizada de tal maneira amestrados que podiam ir para casa de olhos fechados. E iam. Os bichos, incluindo os de duas rodas, já sabiam o caminho...

Isto é a minha memória, a memória dos meus. E a minha homenagem sumária e porque sim. Os tascos da minha terra têm uma história e histórias que deviam ser contadas ao detalhe por quem as saiba procurar e contar, com o rigor e a graça que os ilustres nomes dos tasqueiros de antanho justificam e merecem. No meio de tanta treta que se edita, patrocina, apresenta e promove em Fafe, ora cá está um livrinho que até eu era capaz de ler. Enquanto espero, sentado, venha mais um quartilho para a mesa do canto, e era a continha, se faz favor...

(Se ainda vou a tempo, aqui que ninguém nos ouve nem vê: as quartas-feiras, as sextas-feiras, os sábados, os domingos, os 16 de Maio, a Senhora de Antime e até o Corpo de Deus eram épocas particulares de procissão e visita pastoral obrigatória pelos inumeráveis tascos de Fafe, como se fosse preciso pretexto. Havia quem tentasse batê-los a todos, mas não conseguia, soçobrando a meio, num desgosto que só visto. As bebedeiras eram mais que as mães e realmente de se lhes tirar o chapéu - mas faziam parte. Era assim naqueles dias especiais. Quanto às segundas, terças e quintas e outras festividades mais pataqueiras, também.)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Capitão Gancho vs. Capitão Iglo

Discutia-se se o Capitão Gancho era pirata ou corsário. Havia ópticas, prismas, ângulos e até pontos de vista para o mar. Conversa vai, conversa vem, uns que corsário, outros que pirata, alguns até que contrabandista, ladrão, gatuno, filhodaputa, ó corno!, és pouco boi és!, como num normal jogo de futebol, mas não havia maneira de se chegar a uma conclusão ou, vá lá, como remedeio, a um consenso - e era precisa uma maioria qualificada, isto é: dois terços mais pelo menos uma via-sacra. O animado debate mudou bruscamente de rumo quando alguém recém-entrado a bordo alvitrou que o Capitão Gancho se chamava Capitão Gancho para não ser confundido com o Capitão Iglo dos douradinhos mas sobretudo porque comandava o seu navio, o Jolly Roger, com mão de ferro e vencia o Capitão Iglo quantas vezes lhe apetecesse. Aprovado por unanimidade, e ali se fez história.
Bebia-se verde tinto, e era realmente uma rica pinga.

P.S. - No dia 18 de Janeiro de 1509, faz hoje anos, o nosso Duarte Pacheco Pereira - ou "Aquiles lusitano", como lhe chamou Camões - enfrentou, derrotou e capturou o famoso corsário francês Pierre de Mondragon, que actuava entre os Açores e a costa continental portuguesa, onde atacava as naus vindas da Índia. Corsários são, como se sabe, calças curtas e geralmente ridículas que vão um pouco abaixo dos joelhos.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Éramos cobóis e brincávamos com os índios

O Texas era um tasco e era em Fafe. Chamava-se também Quiterinha, derivado ao nome da dona, senhora respeitável, ou Pensão Império, e isso eu nunca soube derivado a quê. Estão a ver a Rua Monsenhor Vieira de Castro, quem vai para o Picotalho, do lado do Cinema, depois da padaria e encostado ao Noré, mesmo em frente à cabine, antes de chegar às Grilas e ainda mais às Turicas, nas barbas da procissão da Senhora de Antime? O Texas era exacta e geograficamente aí, previamente a ter-se instalado de armas e bagagens no sul dos Estados Unidos da América, resvés com o México, segundo vi depois nos filmes a cores.
O Texas, o nosso Texas, o verdadeiro Texas, era a preto-e-branco e tinha, após o balcão, um reservado com vista para a cozinha e para os campos do Santo, onde hoje se ergue o cimento do Pavilhão Municipal. Foi no nosso Texas, na sala da frente, que eu vi na televisão os jogos de Portugal no Mundial de 1966. Eu e a RTP éramos miúdos da mesma idade. Ao Texas fui com o meu pai, no Texas confraternizei com os músicos antigos da Banda de Revelhe, que tinha casa de ensaio ali a dois compassos, coisa tão a calhar, com o querido Senhor Ferreira do Hospital ou com o Queirós, meu camarada bissexto na fábrica e provavelmente o melhor tintureiro do mundo, desse-se o caso extraordinário de ele aparecer ao trabalho...

(Isso. O Texas era como se fosse uma segunda casa de ensaio da Banda de Revelhe, centro de convívio líquido, a verdadeira sede da agremiação. Músicos e apaixonantes reuniam-se e discutiam ali, à volta de umas valentes infusas de vinho verde. Falava-se de música, cortava-se na casaca, celebrava-se a vida. Quando o meu pai foi para França, os compinchas que ficaram, incluindo o meu padrinho e tio Américo, irmão do meu pai, escreviam-lhe de vez em quando mandando-lhe novidades de Fafe, da banda e do tasco, e, malandros, castigadores, costumavam carimbar a assinatura colectiva da missiva com um fundo de caneca esborratado de tinto matão, acirrando-lhe saudades e apetites. Lembro-me como se fosse hoje.)

Vamos dizer, então, que o Texas, o nosso, era uma casa de pasto - sem ofensa para todos os verdadeiros americanos do faroeste, incluindo gado cavalar e vacum. As portas do Texas eram verdes, mas não eram de saloon. Cobóis, apareciam alguns, sobretudo às quartas-feiras, porém não me lembro de tiros, e os índios era como se fossem da família. Naquele tempo em Fafe, terra de paz e amor, matava-se mais à sacholada, domesticamente, e a Justiça de Fafe era um postal com quadras bairristas do Zé de Castro, poeta-cauteleiro, o nosso Aleixo. Borracheiras havia-as, e eram acontecimento de alta patente, é preciso que se note. Não tínhamos xerife, mas tínhamos o Chester, tínhamos o regedor de pistolete à cinta e tínhamos o Miguel Cantoneiro, que padecia de uma questão com os erres e, para todos os efeitos, também era autoridade. Às vezes, quando não era precisa, também tínhamos polícia.
Em todo o caso: o Texas foi sempre um sítio pacífico enquanto esteve nas nossas mãos. Quando foi para a América é que se tornou perigoso.

P.S. - Publicado originalmente no dia 19 de Novembro de 2017. Hoje é Dia do Tintureiro, pelo menos no Brasil, e eu lembrei-me do meu querido amigo Queirós.

sábado, 14 de maio de 2022

E o rio Grande passava na minha rua

O Texas era um tasco e era em Fafe. Chamava-se também Quiterinha, derivado ao nome da dona, senhora respeitável, ou Pensão Império, e isso eu nunca soube derivado a quê. Estão a ver a Rua Monsenhor Vieira de Castro, quem vai para o Picotalho, do lado do Cinema, depois da padaria e encostado ao Noré, mesmo em frente à cabine, antes de chegar às Grilas e ainda mais às Turicas, nas barbas da procissão da Senhora de Antime? O Texas era exacta e geograficamente aí, previamente a ter-se instalado de armas e bagagens no sul dos Estados Unidos da América, resvés com o México, segundo vi depois nos filmes a cores.
O Texas, o nosso Texas, o verdadeiro Texas, era a preto-e-branco e tinha, após o balcão, um reservado com vista para a cozinha e para os campos do Santo, onde hoje se ergue o cimento do Pavilhão Municipal. Foi no nosso Texas, na sala da frente, que eu vi na televisão os jogos de Portugal no Mundial de 1966. Eu e a RTP éramos miúdos da mesma idade. Ao Texas fui com o meu pai, no Texas confraternizei com os músicos antigos da Banda de Revelhe, que tinha casa de ensaio ali a dois compassos, coisa tão a calhar, com o querido Senhor Ferreira do Hospital ou com o Queirós, meu camarada bissexto na fábrica e provavelmente o melhor tintureiro do mundo, desse-se o caso extraordinário de ele aparecer ao trabalho...

(Isso. O Texas era como se fosse uma segunda casa de ensaio da Banda de Revelhe, centro de convívio líquido, a verdadeira sede da colectividade. Músicos e apaixonantes reuniam-se e discutiam ali, à volta de umas valentes infusas de vinho verde. Falava-se de música, cortava-se na casaca, celebrava-se a vida. Quando o meu pai foi para França, os camaradas que ficaram, incluindo o meu padrinho e tio Américo, irmão do meu pai, escreviam-lhe de vez em quando mandando-lhe novidades de Fafe, da banda e do tasco, e, malandros, castigadores, costumavam carimbar a assinatura colectiva da missiva com um fundo de caneca esborratado de tinto matão, acirrando-lhe saudades e apetites. Lembro-me como se fosse hoje.)

Vamos dizer, então, que o Texas, o nosso, era uma casa de pasto - sem ofensa para todos os verdadeiros americanos do faroeste, incluindo gado cavalar e vacum. As portas do Texas eram verdes, mas não eram de saloon. Cobóis, apareciam alguns, sobretudo às quartas-feiras, porém não me lembro de tiros. Naquele tempo em Fafe, terra de paz e amor, matava-se mais à sacholada e a Justiça de Fafe era um postal com quadras bairristas do Zé de Castro, poeta-cauteleiro, o nosso Aleixo. Borracheiras havia-as, e eram acontecimento de alta patente, é preciso que se note. Não tínhamos xerife, mas tínhamos o Chester, tínhamos o regedor de pistolete à cinta e tínhamos o Miguel Cantoneiro, que padecia de uma questão com os erres e, para todos os efeitos, também era autoridade. Às vezes, quando não era precisa, também tínhamos polícia.
Em todo o caso: o Texas foi sempre um sítio pacífico enquanto esteve nas nossas mãos. Quando foi para a América é que se tornou perigoso.

P.S. - Publicado originalmente no dia 19 de Novembro de 2017.