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domingo, 26 de julho de 2026

Molhar a palavra tem que se lhe diga

Sob pressão
Ele escrevia muito bem sob pressão. Cinco ou seis fininhos bebidos de penálti, e era um Saramago.

"Molhar a palavra" é uma expressão idiomática que significa beber vinho, cerveja ou outra bebida, geralmente num contexto de conversa, convívio ou pausa. É sinónimo de molhar a palheta, acepção eventualmente mais musical, sendo utilizada para indicar o acto de ingerir líquidos no acompanhamento ao sacrossanto paleio. E isto assim dito, tão direitinho, tão dentro dos conformes, tão gramatical, até tem uma certa classe, arremeda talvez erudição, como se falássemos de alta cultura. E no entanto, e era aqui que eu queria chegar, "molhar a palavra" dizia respeito ao povo, era patoá de tasco, conversa nossa, terra a terra, espécie de modo de vida dos simples.
Lá isso era. As pessoas gostavam realmente de dar duas de letra e beber o seu copito entre histórias, para que o discurso fluísse, e fluía. Falava-se e bebia-se como quem não quer a coisa. Quanto mais conversa, mais vinho, partilhava-se, convivia-se, bebia-se mais uma pinga para limpar a garganta, soltar a língua, encarreirar as ideias, "Deixe-me só molhar a palavra, que já lhe conto o resto...", bebericava-se fluentemente.
Porque "molhar a palavra" era praticamente uma ciência, estava a esse nível, tinha solfejo, a sua própria escala. Começava-se por "molhar a boca", iniciação, brincadeira de crianças, e depois era sempre a subir - ou a descer, consoante o ponto de vista. Vinham então, por ordem, degrau a degrau, o "beijinho", o "golinho", o "gole" ou "golo", o "trago", a "golada", a "pescoçada" e o "penálti". Para quem não é destes andamentos e portanto não sabe, "beber de penálti" queria dizer esvaziar o copo ou a garrafa de uma assentada, isto é, emborcar todo o conteúdo de uma vez só, sem interrupções nem juízo, e "mandar uma pescoçada" era beber um grande gole, prolongado mas viável, com conta, peso e medida, um gole de bandeira, degustado, arrebatado, com prazer evidente, levando a caneca ou malga quase até ao fim. O restinho que ficava no fundo, escorropichava-se logo a seguir. Escorropichava-se e, naturalmente, mandava-se encher.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A culpa foi do mordomo

Abençoado juiz
- Levante-se o réu - disse o juiz. O réu levantou-se e andou, perante o espanto e a comoção gerais. Abençoado juiz! Só naquela semana já era o quarto milagre...

Vinham chegando aos poucos e discretos. August Dupin, Dick Tracy, Miss Marple, Clouseou, Ellery Queen, Maigret, Mike Hammer, Poirot, Sam Spade, Nero Wolfe, Vera Stanhope, Philip Marlowe, Perry Mason, Ironside, Kojak, Columbo e Pepe Carvalho. Sherlock Holmes apareceu enfim, atrasadíssimo e ofegante e com um restinho de farinha amparo na ponta do nariz. Disse que a culpa foi do mordomo.

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. A escritora britânica Agatha Christie, criadora de Hercule Poirot e Miss Marple, morreu no dia 12 de Janeiro de 1976. Tinha 85 anos.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Coisa de homens

O Super-Homem
Admitiu finalmente que era o Super-Homem e, diga-se em abono da verdade, ficou bastante admirado por sê-lo.

Era o tradicional convívio natalício. Um encontro de homens. Estavam lá todos, ou quase todos. O homem-aranha, o homem-formiga, o terceiro homem, o homem elefante, o homem que é homem, o homem-rã, o homem sonha a obra nasce, o homem de gelo, o homem de ferro, o homem de lata, o homem-bala, o homem-estátua, o homem invisível, o homem-bom, o homem que sabia demais, o homem que veio de longe, o homem-sanduíche, o homem-crocodilo, o homem-tocha, o homem-máquina, o homem dos sete instrumentos, o homem de mão, o homem que mordeu o cão, o homem do leme, o homem da luz, o homem-prazol e até o homem-bata, que quase existia. Nisto entra a mulher falcão, apanhando o porteiro de costas. Ó meu de Deus, foi um escândalo...

(Publicado no meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Consoada

Compareceram todos, e respectivas: o Sr. Moura, o Sr. Bragança, o Sr. Almeida, o Sr. Maia, o Sr. Castelo Branco, o Sr. Guimarães, o Sr. Paredes, o Sr. Abrantes, o Sr. Monchique, o Sr. Évora, o Sr. Braga, o Sr. Lamego, o Sr. Leiria, o Sr. Almada, o Sr. Faro, o Sr. Viana, o Sr. Beja, o Sr. Moura e o Sr. Baião. Eram um grupo bastante homogéneo e deveras representativo. Inesperadamente apareceu também o Sr. Antunes, e respectiva. Ele é preciso ter lata...

P.S. - É. Aquela altura de almoçar ou jantar com os amigos de uma vez por ano...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

In vino veritas, in aqua planing

Compareceram todos. Ab Initio, Modus Operandi, Lapsus Linguae, Curriculum Vitae, Honoris Causa, In Dubio Pro Reo, E Pluribus Unum, Habeas Corpus, Ex Aequo, Ipso Facto, Mea Culpa, Per Capita, o casal Dura Lex, Sed Lex, Post Scriptum, Sine Die e Sine Qua Non, Ad Hoc, Statu Quo e Procol Harum, Sui Generis, Vade Retro, Totus Tuus e Deo Gracias, Data Venia, Ipsis Verbis e Ipsis Litteris, A Priori e A Posteriori, Apud, Carpe Diem, Grosso Modo, In Loco, In Memoriam e In Vitro, RIP, Dux Veteranorum, Alter Ego, Fac Simile, Verbi Gratia, Ibidem e os irmãos A Contrario Sensu, Lato Sensu e Stricto Sensu.
Honoris Causa abriu os trabalhos e foi directo ao assunto. Disse: - E se nos deixássemos de merdas e começássemos a falar como as pessoas?...

P.S. - É. Está naquela altura de almoçar ou jantar com os amigos de uma vez por ano.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Encontro de espíritos

Reuniram-se os espíritos no seu tradicional encontro de fim de ano. E lá estavam: o espírito de equipa, o espírito empreendedor, o espírito indomável, o espírito desportivo, o espírito de entreajuda, o espírito de sacrifício, o espírito positivo, o espírito de finura, o espírito da coisa, o espírito do amor, o espírito geométrico, o espírito da lei, o espírito do senhor, o espírito al negro, o espírito de porco e o espírito santo de orelha, que presidia aos trabalhos e perguntou: - Está tudo? Podemos começar?...
Que não. Era melhor esperar um bocadinho. Faltava o espírito natalício...

P.S. - Pois é. Está na altura de almoçar ou jantar com os amigos de uma vez por ano.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Não quer dizer nada

- Este ano o Silva não vem...
- Vem, vem! Vem todos os anos!
- Mas o Silva morreu em Março.
- E o que é que isso tem a ver?

P.S. - Pois é. Está na altura de almoçar ou jantar com os amigos de uma vez por ano.

Brothers in arms

Já restavam poucos, cada vez menos, mas juntavam-se ano após ano, vindos do país inteiro: o Aguiar da Beira, o Ferreira do Alentejo, o Vieira do Minho, o Miranda do Douro, o Castanheira do Ribatejo, o Costa da Caparica, o Nogueira da Maia, o Oliveira de Azeméis, o Vale de Cambra, o Canas de Senhorim, o Leça da Palmeira, o Figueira de Castelo Rodrigo, o Freixo de Numão, o Sobral de Monte Agraço, o Lajes do Pico, o Santiago do Cacém, o Vila Nova de Cerveira e o Antunes de Pevidém, que nem sequer foi à tropa e ninguém sabe como é que começou a aparecer...

P.S. - Pois é. Está na altura de almoçar ou jantar com os amigos de uma vez por ano.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Com os copos não há meias medidas

Há duas posições fundamentais nos copos: o copo cheio e o copo vazio. Ao copo cheio dá-se-lhe um beijinho e o copo vazio deve ser escorropichado. O resto é conversa.