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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Moelas de coelho só no Peixoto!

O requinte e o requente
A diferença entre requintado e requentado passa quase despercebida. No arroz de marisco é que se nota mais. E na sanita, consequentemente.

Embora notoriamente os coelhos não tenham moelas, devo informar que ninguém as cozinhava tão bem como o meu amigo Peixoto, em Fafe. Uma verdadeira especialidade! O Peixoto tinha mãozinha amestrada para a plancha e para a cozinha em geral. Eram famosos os seus pregos, em pão ou aos trambolhões, as suas francesinhas chamavam pessoas de fora, o seu marisco, ou "meterial", estava sempre muito bem trabalhado, uma categoria, mas as moelas de coelho suplantavam tudo o que é possível imaginar. Eram incomparáveis, exclusivas, únicas, um pitéu digno de deuses, indesmentível ambrosia do ramo dos salgados e afins. As moelas de coelho e os ovos cozidos, ovos de galo, às vezes, mas que na semana da Páscoa eram evidentemente ovos de coelha, e lá estavam expostos em cima do balcão, com o cu enfiado em sal grosso como manda a tradição, ao lado da terrina das moelas prontas a aquecer.
Eu ia a Fafe e ia ao Peixoto, como se fosse uma religião. A Mi também ia e era muito bem tratada. E o nosso filho foi ensinado a ir ao Peixoto desde pequenino. Quando eu ia lá com amigos, tantas e tantas vezes, geralmente a horas escusadas, o Peixoto perguntava-me sempre pela família e mandava-me trazer "cumprimentos para a esposa e para o menino". E eu trazia.
(E é curioso. Porque, pensando bem, o Sr. Peixoto dispensava-nos, a mim e à minha família, um certo tratamento de excepção, uma gentileza indubitavelmente sincera mas que, na verdade, não era lá muito do seu feitio...)
Pois aqui há coisa de quatro ou cinco anos, talvez mais ou talvez menos, eu e o tempo agora não andamos certos, fui a Fafe e fui ao Peixoto, de fugida, para lhe dar um abraço e duas de letra, mas Peixoto de grilo. Foi um choque muito grande, uma tristeza que ainda me dói. Porque o Peixoto faz-me falta. O malandro passou o negócio, e decerto encheu-se de massa, mas não me avisou. Na verdade, ninguém me avisou. E devia ter saído em edital camarário, com voto de louvor e medalha: afinal, o Peixoto era uma instituição, dizia eu.
Mas lá está, o que eu digo não se escreve, e muito menos em Fafe, a não ser que seja eu próprio a fazê-lo. E portanto cá está.

Por outro lado. A ciência ainda não encontrou uma resposta plausível e, pelo menos, isenta de misoginia acerca de porque é que os ovos de galo são maiores do que os ovos de galinha, mas não é isso que interessa aqui agora. Lembrei-me foi do seguinte: se existe o Dia Internacional do Coelho, que se assinala anualmente no último sábado de Setembro, eu acho que Fafe, pelo menos Fafe, devia festejar o Dia Mundial das Moelas de Coelho, já que as inventámos. E a criação de uma, digamos assim, Confraria Gastronómica das Moelas de Coelho à Moda de Fafe, o seu a seu dono, também não estaria mal vista. A minha terra, diga-se em abono da verdade, é muito dada a isto das confrarias e dos dias internacionais ou mundiais. Lembro-me, por exemplo, que o Dia Internacional do Tigre, que não sei se já tinha sido descoberto para o dia 29 de Julho, era celebrado quando calhava, exactamente no Peixoto, pela madrugada dentro e já com as portas encerradas e vidros tapados. Íamos do Porto, de propósito, eu e a minha equipa, depois do fecho do jornal, e não podia ser de outra forma. O "meterial" era um bom "meterial", mas o molho secreto do Peixoto fazia-o ainda melhor. É claro que estou a falar de camarões, dos enormes, tigres, abertos em dois, grelhados na chapa, e o Peixoto, que me avisava quando os recebia, era realmente um desembaraçado domador. Na hora de pagar, por minha conta e com todo o gosto, lá se ia praticamente a entrada para a compra de uma casa, mas éramos novos e tolos, e o que é que se havia de fazer?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Tigre. E Dia Mundial da Lasanha.)

sábado, 28 de dezembro de 2024

O sucesso das moelas de coelho

O Dr. Google continua a remeter-me centenas de consulentes que me perguntam se "o coelho tem moela" ou se "há moelas de coelho". Ó galinácea ignorância! Mas é claro que o coelho não tem moela, é claríssimo que não há moelas de coelho, nem de coelha, quantas vezes mais tenho de dizer? Esclareço, no entanto, que quem as cozinha muito bem é o meu amigo Peixoto, em Fafe.

P.S. - Este foi o segundo texto mais visitado neste blogue durante o ano de 2024. O que é deveras lamentável. Mais lamentável ainda, este foi também o texto mais procurado neste blogue nos últimos sete dias. Será uma porta dos fundos?...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Moelas de coelho, o petisco e o risco

A verdade é só uma: as moelas de coelho têm cada vez mais procura aqui no Tarrenego! No sentido de esclarecer e orientar estudiosos interessados, simples curiosos, ou gastrónomos em geral, segue-se uma despretensiosa súmula dos artigos científicos que ao longo dos últimos anos fomos produzindo a propósito de matéria tão penetrantemente seminal (ou tão seminalmente penetrante):

A minha receita de tomates aux gésiers de lapin
Livre de gorduras e lave em duas águas, uma pode ser das Pedras, as moelas de coelho. Meta as moelas de coelho numa marinada feita com sumo de pepino nacional, vinagre balsâmico, azeite de trufa, mel de rosmaninho, gengibre, flor de anis, flor de sal, flor-de-lis, flor-de-lótus e flor-de-ferrari. Deixe a repousar esta marinada dentro de uma embalagem para ovos de codorniz enquanto o ministro da Finanças conta até dez, que é aproximadamente durante duas horas e um quarto. Os ovos de codorniz deviam ter sido tirados antes, agora desfaça-se ao menos das cascas. Lave muito bem os tomates, corte um chapeuzinho numa das extremidades e limpe-os de todas as sementes e nervuras internas. Introduza as moelas de coelho nos tomates, misturando-as com uns pozinhos de queijo com o nome mais arrevesado que encontrar no supermercado. Pegue nos tomates e coloque o chapeuzinho, que vai adornar, de lado, com um pequeno cartão a dizer PRESS. Leve os tomates ao forno durante 180 minutos a 15 graus. Excelente. Está pronto. Retire do forno e deite ao lixo. Aqueça a feijoada que sobrou de ontem, encha o prato até à borda e... seja feliz!

Ainda as moelas de coelho
Claro que os coelhos não têm moelas. Claro que não há moelas de coelho. Devo informar, no entanto, que há um sítio em Fafe onde as arranjam muito bem.

Na cozinha em cuecas
O senhor da fibra óptica tocou-me ontem à porta, eram para aí 18h15. Não abri, mas disse-lhe pelo buraco da fechadura que não o podia atender. A verdade é esta: eu estava em cuecas e de avental a cozinhar umas moelas por acaso de coelho, as quais, não é para me gabar, até me saíram uma especialidade, e um homem em cuecas e de avental não é homem que se apresente ao senhor da fibra óptica, a não ser que o senhor da fibra óptica também se apresente em cuecas e de avental.
Irritam-me solenemente as visitas e os telefonemas de todos os vendedores de fibra da cobra, que são mais que as mães e andam todos ao mesmo, e a minha vontade é mandá-los à merda. Mas olho por mim abaixo, ponho-me no lugar deles e resolvo respeitar quem trabalha. Lá abro a porta ou atendo a chamada e... é um erro. São abusadores estes tipos: se mostramos simpatia, começam logo a fazer perguntas atrás de perguntas a que acham que nós temos obrigação de responder, e eu, que afinal não estou para os aturar, respondo-lhes torto, fecho-lhes a porta com um "com licença" ou desligo o telefone com outro "com licença". E depois arrependo-me da malcriadez, fico cheio de remorsos.
Portanto fiz muito bem em não ter aberto a porta, ontem, ao senhor da fibra óptica. Ainda por cima, estou muito bem servido de fibra óptica e as moelas de coelho, para ficarem em condições, devem ser cozinhadas sempre em cuecas.

O sucesso das moelas de coelho
O Dr. Google continua a remeter-me centenas de consulentes que me perguntam se "o coelho tem moela" ou se "há moelas de coelho". Ó galinácea ignorância! Mas é claro que o coelho não tem moela, é claríssimo que não há moelas de coelho, nem de coelha, quantas vezes mais tenho de dizer? Esclareço, no entanto, que quem as cozinha muito bem, às moelas de coelho, é o meu querido amigo Peixoto, em Fafe.

Já não há moelas de coelho
Embora notoriamente os coelhos não tenham moelas, ninguém cozinhava tão bem as moelas de coelho como o meu amigo Peixoto. Fui lá ontem, de fugida, para lhe dar um abraço e duas de letra, mas Peixoto de grilo. O malandro passou o negócio e não me avisou, ninguém me avisou. E devia ter saído em edital camarário, com voto de louvor e medalha: afinal, o Peixoto era uma instituição. Foda-se! Aos poucos vão-se-me acabando os motivos para tornar a Fafe... 

Ovos de Páscoa
Os ovos de Páscoa são de coelha, evidentemente.


Notas: "A minha receita de tomates aux gésiers de lapin" - 9 de Setembro de 2011, era então ministro das Finanças o morte-lenta Vítor Gaspar. "Ainda as moelas de coelho" - 20 de Setembro de 2011. "Na cozinha em cuecas" - 20 de Outubro de 2011. "O sucesso das moelas de coelho" - 14 de Março de 2014. "Já não há moelas de coelho" - 23 de Fevereiro de 2017. "Ovos de Páscoa" - 28 de Março de 2018.
Moedas: peço desculpa, não tenho trocado.

P.S. - Publicada no dia 25 de Setembro de 2018, esta é, de longe, a entrada mais visitada neste blogue durante o ano de 2024. O que resulta um bocadinho ridículo e talvez até desmoralizante, no que me diz respeito, mas o que é que se há-de fazer?...

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Tomates aux gésiers de lapin

A minha receita de tomates aux gésiers de lapin. Livre de gorduras e lave em duas águas, uma pode ser das Pedras, as moelas de coelho. Meta as moelas de coelho numa marinada feita com sumo de pepino nacional, vinagre balsâmico, azeite de trufa, mel de rosmaninho, gengibre, flor de anis, flor de sal, flor-de-lis, flor-de-lótus e flor-de-ferrari. Deixe a repousar esta marinada dentro de uma embalagem para ovos de codorniz enquanto o vagaroso e lastimável ex-ministro da Finanças Vítor Gaspar conta até dez, que é aproximadamente durante duas horas e um quarto. Os ovos de codorniz deviam ter sido tirados antes da embalagem, agora desfaça-se ao menos das cascas. Lave muito bem os tomates, corte um chapeuzinho numa das extremidades e limpe-os de todas as sementes e nervuras internas. Introduza as moelas de coelho nos tomates, misturando-as com uns pozinhos de queijo com o nome mais arrevesado que encontrar no supermercado. Pegue nos tomates e coloque o chapeuzinho, que vai adornar, de lado, com um pequeno cartão a dizer PRESS. Leve os tomates ao forno durante 180 minutos a 15 graus. Excelente. Está pronto. Retire do forno e deite ao lixo. Aqueça a feijoada que sobrou de domingo e seja feliz.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Moelas de coelho, só para apreciadores

O Dr. Google continua a remeter-me centenas de consulentes que me perguntam se "o coelho tem moela" ou se "há moelas de coelho". Ó galinácea ignorância! Mas é claro que o coelho não tem moela, é claríssimo que não há moelas de coelho, nem de coelha, apenas ovos, quantas vezes mais tenho de dizer? Esclareço, no entanto, que quem as cozinhava muito bem, às moelas de coelho, era o meu querido amigo Peixoto, em Fafe.

sábado, 17 de julho de 2021

Já não há moelas de coelho

Embora notoriamente os coelhos não tenham moelas, devo informar que ninguém as cozinhava tão bem como o meu amigo Peixoto. Fui lá aqui atrasado, de fugida, para lhe dar um abraço e duas de letra, mas Peixoto de grilo. O malandro passou o negócio e não me avisou, ninguém me avisou. E devia ter saído em edital camarário, com voto de louvor e medalha: afinal, o Peixoto era uma instituição. Foda-se! Aos poucos vão-se-me rareando os motivos para tornar a Fafe... 

domingo, 7 de junho de 2020

Coma em segurança, mas tire a máscara, porra!

A máscara
Adaptou-se razoavelmente ao uso da máscara. Para comer é que era uma desgraça. Um chiqueiro...

Era uma vez uma hamburgueria gourmet
O caro leitor lembra-se (sim, caro leitor, é consigo, é o único leitor que tenho), dizia, o caro leitor lembra-se de eu aqui atrasado ter escrito um coisada chamada "O gourmet não se dá na minha zona"? Não se lembra? Não faz mal. Era assim:

Moro em Matosinhos, na famosa zona dos restaurantes e marisqueiras, que se acotovelam porta sim, porta sim. Pensava portanto que não lembraria ao diabo estabelecer-se aqui no meu território com uma dessas autoproclamadas hamburguerias gourmet, mas a alguém lembrou. Quando, ainda de vidros tapados, vi cá fora os letreiros, pensei: isto nem sequer vai abrir. Mas abriu, e agora penso: daqui a quantos dias é que isto vai fechar? Porque a verdade é esta: o gourmet não se dá à minha volta, e juro que a culpa não é minha. Evidentemente não o frequento, mas, tirando isso, mais nada...
Lembra-se o caro leitor da história do fumeiro, faz agora quatro anos? Foi assim:

Do outro lado da minha estrada (o caro leitor já reparou que, nas nossas cidades, as ruas agora não são ruas, são estradas, e estradas com engarrafamentos e perigosas?), dizia: do outro lado da minha estrada há uma daquelas pequenas lojas tipo "regional gourmet". Azeitonas em frasco, cogumelos em frasco, meles em frasco, geleias em frasco, licores em frasco, frascos em frasco, dois presuntos em fraco, azeites e vinhos em caro, prateleiras um fiasco. Num benévolo gesto de boas-vindas, mal abriu o estabelecimento fui lá cheirar e avisar que o conceito é uma treta e que gourmet a sério é em minha casa, mesmo em frente, porque aqui a comida é muito boa, e gourmet deveria ser isso, mas não estamos abertos ao público. O gourmet - a ver se eu me sei explicar - quer-se da boca para dentro e não da boca para fora, mas não faço concorrência.
Estas lojinhas abrem e infelizmente não vendem nada. São "regionais" porém franchising, very tipical e very vazias, de produtos e clientes. O toque de "qualidade" é dado em palavras "estrangeiras", o que só abona a favor do produto made in Portugal. A loja da minha estrada tinha primeiro uma menina, que passava a vida na ombreira da porta a fumar, fumar, fumar.
A loja não abria desde que o ano entrou. Pensei que tinha sido o fim. Mas graças a Deus enganei-me, que de desemprego já basto eu. A loja reabriu hoje: não está lá a menina, mas um rapaz. Que passa a vida na ombreira da porta a fumar, fumar, fumar. Nas costas, os dois presuntos pendurados no cabide tisicam e agradecem - assim se produz o genuíno fumeiro nacional.

Entretanto. Passou-se uma semana e a lojinha fechou de vez: veio uma carrinha limpar as escanzeladas prateleiras, três sacos de plástico bastaram e lá se foi mais um posto de trabalho, por assim dizer, que é o que a mim me importa. Fico infeliz por ter razão: o conceito era realmente uma treta. Esta gente não sabe o que é massa com bacalhau e o prato a esbordar...

Por falar nisso, hora de almoço: espreito a hamburgueria gourmet, dando-lhe uma última oportunidade. Os únicos "clientes" que vejo são o pessoal da casa, à mesa. Já foste!, digo cá para comigo. É o raio deste microclima sul-matosinhense...

Pois meu dito, meu feito. A coisada acima é do princípio do ano, 11 de Janeiro. Hoje passei pela hamburgueria gourmet da minha zona e, fatal como o destino e com ponto de exclamação e tudo, lá estava afixado o aviso na porta fechada: "Trespasse!"...

Matosinhos tresanda a Matosinhos
Matosinhos cheira mal. Faz parte. E aos domingos mete nojo. Os restaurantes de peixe rebentam pelas costuras e pelas esplanadas, e isso é bom para o IVA, mas fedem e fumegam num alucinante aviso do que decerto será o fim do mundo de um modo geral. Aos domingos, Matosinhos cheira a sardinhas mal descongeladas e a grelhas que não vêem água desde a grande seca de 1948. Cheira também a lixo deitado alegremente à rua sem norma nem excepção. Cheira também aos escapes bronquíticos dos incendiários autocarros da Resende. Quer-se dizer: Matosinhos cheira mal, fede ao natural e ao gasóleo, tresanda a Matosinhos.
Com vista para o mar se me puser de lado, moro há mais de trinta anos ao dobrar da esquina da restaurantíssima e concorridíssima Rua Heróis de França, no epicentro exacto dos vapores e malinas gastronómicas matosinhenses. Por estes dias a Rua Heróis de França está praticamente impraticável, pelo menos desde Tomás Ribeiro até às funduras da Lota, mas suponho que depois da Lota continua. Ecopontos e contentores tresandam perigosamente, mesmo à distância: nauseabundam a comida estragada, a peixe podre, a vomitado, a fermentado, a ranço, a lavadura para porcos, a ácido, a tóxico, a bagaço, a estrume, a bosta. Matosinhos World’s Best Fish, iniciativa da Câmara Municipal para inglês ver, só pode ser um equívoco, uma piada. E o fedor corre pela rua e entranha-se nas casas e nas roupas. Nos pulmões.
O Senhor Varredor que se ocupa de Heróis de França e faz um trabalho impecável, e com quem dou, sempre que podemos, dois dedos de conversa, pediu-me que eu fosse deitando os olhos ali às redondezas dos ecopontos novinhos em folha, porque se calhar um destes dias lá estará ele estendido ao comprido, evidentemente gaseado por aquele fedor que não se aguenta.
Claro que Matosinhos não tem o melhor peixe do mundo. Tem um peixe honestinho, com que me vou regalando cá em casa, e não é peixe de restaurante. É outro peixe, de que a publicidade não sabe, e ainda bem para mim. Por outro lado, Matosinhos terá provavelmente o melhor pior fedor do mundo. Entre o peixinho e o fedor, às tantas nem me queixo. Na verdade, confesso, gosto de Matosinhos assim.

A minha receita de tomates aux gésiers de lapin
Livre de gorduras e lave em duas águas, uma pode ser das Pedras, as moelas de coelho. Meta as moelas de coelho numa marinada feita com sumo de pepino nacional, vinagre balsâmico, azeite de trufa, mel de rosmaninho, gengibre, flor de anis, flor de sal, flor-de-lis, flor-de-lótus e flor-de-ferrari. Deixe a repousar esta marinada dentro de uma embalagem para ovos de codorniz enquanto o ministro da Finanças conta até dez, que é aproximadamente durante duas horas e um quarto. Os ovos de codorniz deviam ter sido tirados antes, agora desfaça-se ao menos das cascas. Lave muito bem os tomates, corte um chapeuzinho numa das extremidades e limpe-os de todas as sementes e nervuras internas. Introduza as moelas de coelho nos tomates, misturando-as com uns pozinhos de queijo com o nome mais arrevesado que encontrar no supermercado. Pegue nos tomates e coloque o chapeuzinho, que vai adornar, de lado, com um pequeno cartão a dizer PRESS. Leve os tomates ao forno durante 180 minutos a 15 graus. Excelente. Está pronto. Retire do forno e deite ao lixo. Aqueça a feijoada que sobrou de ontem, encha o prato até à borda e... seja feliz!

Entre o requinte e o requente
Então? A diferença entre requintado e requentado passa quase sempre despercebida. No arroz de marisco é que se nota mais. E no Verão é caganeira garantida...

P.S. - Apontamentos publicados originalmente nos dias 19 de Maio de 2020, 14 de Julho de 2018, 26 de Julho de 2019, 9 de Setembro de 2011 e 7 de Fevereiro de 2014, pela ordem acima. Hoje, 7 de Junho, é Dia Mundial da Segurança Alimentar. E comam para baixo!, como dizia o Sr. Carvalho, meu sogro.
Outra coisa: agora as respostas começam-se com o interrogativo Então?...

domingo, 24 de setembro de 2017

A minha receita de tomates aux gésiers de lapin

Tomates aux gésiers de lapin. Livre de gorduras e lave em duas águas, uma pode ser das Pedras, as moelas de coelho. Meta as moelas de coelho numa marinada feita com sumo de pepino nacional, vinagre balsâmico, azeite de trufa, mel de rosmaninho, gengibre, flor de anis, flor de sal, flor-de-lis, flor-de-lótus e flor-de-ferrari. Deixe a repousar esta marinada dentro de uma embalagem para ovos de codorniz enquanto o ministro da Finanças conta até dez, que é aproximadamente durante duas horas e um quarto. Os ovos de codorniz deviam ter sido tirados antes, agora desfaça-se ao menos das cascas. Lave muito bem os tomates, corte um chapeuzinho numa das extremidades e limpe-os de todas as sementes e nervuras internas. Introduza as moelas de coelho nos tomates, misturando-as com uns pozinhos de queijo com o nome mais arrevesado que encontrar no supermercado. Pegue nos tomates e coloque o chapeuzinho, que vai adornar, de lado, com um pequeno cartão a dizer PRESS. Leve os tomates ao forno durante 180 minutos a 15 graus. Excelente. Está pronto. Retire do forno e deite ao lixo. Aqueça a feijoada que sobrou de ontem, encha o prato até à borda e... seja feliz!

P.S. - Receita originalmente publicada em Sei de sítios, no dia 9 de Setembro de 2011, era então ministro das Finanças o vagaroso Vítor Gaspar. Como têm muita procura, mais moelas de coelho aqui, aqui e aqui.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Já não há moelas de coelho

Embora notoriamente os coelhos não tenham moelas, ninguém cozinhava tão bem as moelas de coelho como o meu amigo Peixoto. Fui lá ontem, de fugida, para lhe dar um abraço e duas de letra, mas Peixoto de grilo. O malandro passou o negócio e não me avisou, ninguém me avisou. E devia ter saído em edital camarário, com voto de louvor e medalha: afinal, o Peixoto era uma instituição. Foda-se! Aos poucos vão-se-me acabando os motivos para tornar a Fafe...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Na cozinha em cuecas

O senhor da Optimus Fibra tocou-me ontem à porta, eram para aí 18h15. Não abri, mas disse-lhe pelo buraco da fechadura que não o podia atender. A verdade é esta: eu estava em cuecas e de avental a cozinhar umas moelas por acaso de coelho, as quais, não é para me gabar, até me saíram uma especialidade, e um homem em cuecas e de avental não é homem que se apresente ao senhor da Optimus Fibra, a não ser que o senhor da Optimus Fibra também se apresente em cuecas e de avental.
Irritam-me solenemente as visitas e os telefonemas de todos os vendedores de fibra da cobra, que são mais que as mães e andam todos ao mesmo, e a minha vontade é mandá-los à merda. Mas olho por mim abaixo, ponho-me no lugar deles e resolvo respeitar quem precisa. Lá abro a porta ou atendo a chamada e... é um erro. São abusadores estes tipos: se mostramos simpatia, começam logo a fazer perguntas atrás de perguntas a que acham que nós temos obrigação de responder, e eu, que afinal não estou para os aturar, respondo-lhes torto, fecho-lhes a porta na cara ou desligo o telefone. E depois arrependo-me da malcriadez, fico cheio de remorsos.
Portanto fiz muito bem em não ter aberto a porta, ontem, ao senhor da Optimus Fibra. Ainda por cima, estou de relações cortadas com a Optimus e as moelas de coelho, para ficarem em condições, devem ser cozinhadas sempre em cuecas.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ainda as moelas de coelho

Claro que os coelhos não têm moelas. Claro que não há moelas de coelho. Devo informar, no entanto, que há um sítio em Fafe onde as arranjam muito bem.

P.S. - Tudo sobre moelas de coelho, aqui.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sei de sítios

Sou devoto dos prazeres da mesa. Gosto da liturgia de uma boa refeição, em família ou com amigos, gosto de comer, gosto do que é bom, e sei o que é bom. Também sei fazer. Sou um apaixonado pela boa e honesta cozinha portuguesa. Gosto da cozinha portuguesa tal qual ela é, na sua pureza original: tradicional, apurada, robusta, variada, generosa. Um bom prato, uma especialidade daquelas de trás da orelha, é capaz de me fazer andar duzentos ou trezentos quilómetros pelo prazer de o degustar. Sei de sítios que não conto a ninguém, nem sob tortura, e se a tortura não for a da fome.
Enquanto posso (e posso cada vez menos, como a maioria dos portugueses), vou a esses sítios onde já há muito eu e a minha mulher somos tratados como amigos, e com mimos especiais, mas tenho que admitir que é sobretudo a comida que lá me leva. Vou pelo gosto, é este o meu parâmetro de aferição e escolha fundamental.
Mas respeito quem se deixa seduzir por outras variáveis gastronómicas ou paragastronómicas, como, por exemplo, essa coisa tão vaga ou talvez não como é "o serviço" ou "o atendimento".
Um velho compincha doutras vidas mas também da santa trincadeira - nas imortais palavras de mestre Aquilino Ribeiro, colocadas na boca de um abade, pois claro - contou-me que estava um destes dias numa bela jantarada, num grupo de gente boa e interessante, quando um dos convivas alvitrou um próximo repasto a realizar em determinado restaurante, que "tem um excelente serviço"...
O meu amigo, que é danado para a brincadeira mas o outro não sabia, perguntou, com matreirice:
- Excelente serviço, pois... Mas o que é que se come? O que é que é lá muito bom?
- Quer-se dizer, não sei, tem muita coisa, nada assim de especial, mas o atendimento é óptimo... - colocou-se à defesa o homem da ideia.
- Está bem, mas eu não como serviço, o atendimento não me enche a barriga - insistiu o meu amigo e voltou a insistir, perante o cada vez maior embaraço de quem já se tinha arrependido de ter dado apenas uma sugestão e do resto do pessoal à volta da mesa.
Tudo acabou depois na risota, quando todos perceberam que o meu amigo afinal estava na tanga, e até tiveram sorte porque desta vez, tenho a certeza, ele não arrumou a questão com uma expressão que lhe é muito cara e que, neste contexto, seria algo do género:
- O serviço? Dá-me com o serviço nos

tomates aux gésiers de lapin. Livre de gorduras e lave em duas águas, uma pode ser das Pedras, as moelas de coelho. Meta as moelas de coelho numa marinada feita com sumo de pepino nacional, vinagre balsâmico, azeite de trufa, mel de rosmaninho, gengibre, flor de anis, flor de sal, flor-de-lis, flor-de-lótus e flor-de-ferrari. Deixe a repousar esta marinada dentro de uma embalagem para ovos de codorniz enquanto o ministro da Finanças conta até dez, que é aproximadamente durante duas horas e um quarto. Os ovos de codorniz deviam ter sido tirados antes, agora desfaça-se ao menos das cascas. Lave muito bem os tomates, corte um chapeuzinho numa das extremidades e limpe-os de todas as sementes e nervuras internas. Introduza as moelas de coelho nos tomates, misturando-as com uns pozinhos de queijo com o nome mais arrevesado que encontrar no supermercado. Pegue nos tomates e coloque o chapeuzinho, que vai adornar, de lado, com um pequeno cartão a dizer PRESS. Leve os tomates ao forno durante 180 minutos a 15 graus. Excelente. Está pronto. Retire do forno e deite ao lixo. Aqueça a feijoada que sobrou de ontem e regale-se como deve ser.