sábado, 17 de julho de 2021
Tasqueiro para todo o serviço
O Rates e os diabos-encaixados
A burra do Reigrilo
Creio não cometer nenhum erro histórico se afirmar que a burra do Reigrilo só fazia frente ao dono pelos "16 de Maio", na corrida que nunca era. O Reigrilo, altamente decilitrado, aparecia sempre, para incómodo da organização e gáudio da populaça. Podiam dar a partida quantas vezes quisessem: a burra do Reigrilo não saía do sítio, apesar das bordoadas impiedosas que apanhava, e se se mexia era apenas para deitar o dono de cangalhas, uma e outra vez, numa vingança anual e certamente bem amadurecida, ali mesmo à frente de todos, onde a humilhação do homem podia ser maior.
Os bolinhos da Albertininha
A verdade é esta: ainda cheguei a ver a Albertininha, numa tarde de sábado, a fazer a massa dos famosos bolinhos, de alguidar entre as pernas, junto ao fogo da lareira, mas a história do sovaco enformador era uma treta - isso posso jurar, e tive pena.
E a loja era verde
Isaac Singer, mal considerado o inventor da máquina de costura, nasceu no dia 27 de Outubro de 1811. Foi também actor e empresário. O Sr. Singer tinha uma loja e uma carrinha muito jeitosas em Fafe, vendia máquinas propriamente ditas, peças e acessórios, lubrificadores e lubrificantes, linhas e tafetás, montava, afinava e dava assistência ao domicílio - mas nunca o vi por lá. E a loja era verde...
Os paliteiros do Miranda
Já não há moelas de coelho
Embora notoriamente os coelhos não tenham moelas, devo informar que ninguém as cozinhava tão bem como o meu amigo Peixoto. Fui lá aqui atrasado, de fugida, para lhe dar um abraço e duas de letra, mas Peixoto de grilo. O malandro passou o negócio e não me avisou, ninguém me avisou. E devia ter saído em edital camarário, com voto de louvor e medalha: afinal, o Peixoto era uma instituição. Foda-se! Aos poucos vão-se-me rareando os motivos para tornar a Fafe...
No tempo em que as pessoas falavam
No tempo em que as pessoas falavam, as paredes tinham ouvidos. Mas as pessoas falavam, mulheres e homens, porque era preciso, falar era respirar, e não vai assim há tanto tempo. Os cafés, as mesas de restaurante costumavam ser sítios de conversa, de tertúlia, de crítica, de protesto, de esgrima de argumentos. Ainda os nunos rogeiros e os marcelos rebelos de sousas não tinham sido inventados pela televisão e já nós sabíamos tudo de tudo, primeiro no Peludo e depois no Peixoto, evidentemente em Fafe. Futebol, política, Mário Soares e Álvaro Cunhal, pesca e caça, religião, padres fodilhões, música, alterações climáticas, vinho, teoria da relatividade, teorias da conspiração, medicamentos, bolo com sardinhas, gajas e automóveis, festival da canção, rácios bolsistas e sobretudo motorizadas, Zundapp vs. Sachs, sabíamos na ponta da língua e cada qual dava a opinião que se impunha, a opinião definitiva.
O Hoss tinha um café
Eu era calisto. Calisto televisivo. A preto e branco e com muitos pedimos desculpa por esta interrupção. Para me fazer pagar a moina, o Sr. Avelino do Café, que era o Hoss do Bonanza em pessoa menos o chapéu, entregava-me umas moedas e mandava-me à cozinha do Hospital buscar uns enormes tijolos de gelo que ele depois partia e metia no barril de tirar finos (imperiais, se lido em Lisboa). No fim do recado dava-me o troco? É o davas. Oferecia-me um pastel? Fodias-te. Eu tinha para aí sete anos, o meu pai ainda não tinha trazido pastéis para casa e o Sr. Avelino (o tempo fez-nos amigos) punha-me à frente a merda de um cimbalino. Sete anos, e ele dava-me um café. Se ao menos fosse um cigarro...
Serafim d'Eiteiro também quis ir... e foi
Serafim d'Eiteiro tinha uma sombria loja de fazendas em Cima da Arcada, por
baixo do Club, e era homem de voz grave e piada fina, um figurão. O apelido "d'Eiteiro" suponho que fosse natural corruptela de
"do Outeiro". Lugar do Outeiro, Antime, donde creio que era este
ilustríssimo fafense, ou seriam pelo menos os seus ancestrais. Serafim do Outeiro igual a Serafim d'Eiteiro,
assim terá decidido o
povo, na sua provecta e indesmentível sabedoria - mas estou a deitar-me a adivinhar.
Alto, magricela, de fato todos os dias, Serafim d'Eiteiro frequentava a sala
das traseiras do Peludo, onde, após almoço, se jogavam umas bilharadas
iglantónicas. Aquilo era coisa constada, só para artistas diplomados e (aqui que ninguém nos ouve)
até metia apostas a dinheiro, reunindo sempre uma pequena multidão de
espectadores dados ao palpite e a gozar o parceiro. Em Fafe era assim.
E uma vez foi demais. Eu era puto e estava lá. Um dos jogadores,
desgraçadamente em dia não e alvo único e reiterado da chacota geral,
perdeu de repente as estribeiras e, varando com os olhos a plateia ali à
roda, atirou, cheio de raiva e perdigotos: - Ide todos para o caralho!
Todos...
Mas nisto encarou o respeitável comerciante, pessoa de outra idade e
estatuto, e resolveu abrir uma honrosa excepção: - Todos, não. Faz favor
de desculpar, senhor Serafim, não é para si -, corrigiu o bilharista
azarado e despeitado porém atencioso, botando giz no taco.
Sentado logo à entrada depois do degrau, lado esquerdo, no canto por baixo do velho
rádio Philips dos relatos domingueiros, Serafim d'Eiteiro disfarçou um sorriso
maroto atrás do fumo do ininterrupto cigarro sem filtro e respondeu naquela maneira
vagarenta de falar que dava ares de sabedoria: - Muito obrigado pela
deferência, mas aqui sozinho é que não fico. Se o amigo não leva a mal,
eu também vou.
Moral da história: às vezes na vida mais vale mal acompanhado.
P.S. - Publicado originalmente no dia 19 de Setembro de 2012. Ontem foi Dia do Comerciante. No Brasil...