| Foto Hernâni Von Doellinger |
sábado, 9 de maio de 2026
sexta-feira, 27 de março de 2026
sábado, 14 de março de 2026
sábado, 12 de outubro de 2024
O extraordinário alimentador de pássaros
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Todas as manhãs, faça chuva ou faça sol, dias úteis ou dias inúteis. Todas as manhãs, de saquinho na mão, ele sai de Matosinhos atravessando o Passeio Atlântico de uma ponta à outra, em passo leve e decidido, e entra breve no Porto. No saquinho leva comida para os pássaros - milho para as pombas e pedaços de pão para os patos mas pouco, para os corvos-marinhos às vezes e para as vorazes e cagonas gaivotas. Sim. Para as gaivotas, raça tão desprestigiada hoje em dia, vítima de perseguição e tentativa de genocídio perpetradas por alguns autarcas aqui da beira-mar. Ele, o homem do passo leve e decidido, dá-lhes o almoço.
E todas as manhãs acontece o extraordinário: por alturas da Rotunda da Anémona, fronteira municipal, as pombas saem-lhe da cartola, materializam-se do nada, fazem-lhe bando por cima da cabeça e acompanham-no em revoadas dançarinas até à distribuição geral, no charco mais ocidental do Parque da Cidade, à porta da abandonada Kasa da Praia. As pombas reconhecem o seu benfeitor? Identificam o saquinho? Vão apenas ao cheiro? Serão, por assim dizer, o Espírito Santo em pessoa? Não sei - mas aquilo comove-me. Espanta-me. Fosse em Fátima, e seria certamente milagre.
Servido o festim, o cuidador de pássaros volta para casa pelo mesmo caminho, sempre com uma pequena reserva de pão e de milho no fundo do saco, prevenindo emergências que as há. Pomba tresmalhada ou retardatária, gaivota de asa caída ou manca ou qualquer outra ave freelance também têm direito à sua dose individual, no respeito do espaço de cada qual. É. Os solitários entendem-se...
Pois durante a pandemia, pela menos, o gentil alimentador da passarada desapareceu-me da vista. E a mim, caramba, fez-me diferença, porque eu dava-lhe valor. Fui também, no meu tempo de miúdo, em Fafe, um razoável pensador de galinhas e coelhos, e portanto havia ali qualquer coisa que me dizia respeito, que me enternecia e, verdade seja dita, também me abria o apetite, e vinha-me à cabeça o franguinho guiado pela minha avó de Basto na panela de ferro apurando ao borralho.
Felizmente o senhor das pombas voltou, e em grande forma. Uma sorte para ele, para os pássaros e também para mim, que estou sempre a ligar umas coisas às outras e sou tão dado a nostalgias, e se for à mesa melhor...
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
sexta-feira, 12 de novembro de 2021
quarta-feira, 23 de junho de 2021
sexta-feira, 14 de maio de 2021
Má sorte ser-se pega
A notícia espalhou-se como fogo em mato seco: um automobilista acabara
de atropelar mortalmente uma pega, toda esmigalhadinha. Assassino!
Juntaram-se imediatamente o PAN, Os Verdes, a Quercus, a Zero, a
Protectora dos Animais, a Greenpeace, dois dirigentes da Juve
Leo, um dos Super Dragões, sete das inexistentes claques do Benfica,
trinta e dois indignados das redes sociais, quatrocentos youtubers, seis
cães que tinham levado os donos a almoçar fora e vários elementos do
movimento cívico e espontâneo SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna
Curta, que está muito bem organizado para estas emergências. Rodearam o
carro, arrancaram o automobilista cá para fora e encheram-no de
carolos e caneladas, para ele aprender. Só não chegaram ao linchamento
porque, regra geral, desconheciam a palavra, e os poucos que a conheciam
de vista confundiam-na com lixamento e achavam que, para lixar o
energúmeno, os carolos e as caneladas já estavam muito bem.
Apareceu a GNR. A autoridade aproveitou para também molhar a sopa,
quer-se dizer, o automobilista caiu sozinho sobre duas secretárias e
esbarrou-se sem ninguém lhe tocar num armário ali no meio da via, e,
posto isto, foi-lhe ordenado que se explicasse. O automobilista
explicou-se. E convenceu. O PAN, Os Verdes, a Quercus, a Zero, a
Protectora dos Animais, a Greenpeace, os dirigentes da Juve Leo e
dos Super Dragões e das inexistentes claques do Benfica, os trinta e
dois indignados das redes sociais, os quatrocentos youtubers, os
seis cães da vida airada, os espontâneos do SOS Grilo Careca de Asa
Redonda e Perna Curta e a própria GNR fartaram-se de pedir desculpas ao
homem e até lhe deram os parabéns e os primeiros-socorros. Tudo não
passara de um pequeno mal-entendido, erro de comunicação. Afinal o
automobilista não tinha morto uma pega ou Pica pica melanotos, seria uma tragédia, tinha apenas atropelado mortalmente uma pega meretriz de beira de estrada, Femina sapiens solteira e mãe de três filhos, toda esmigalhadinha. É chato, mas são coisas que acontecem...
