Mostrar mensagens com a etiqueta Vitória de Guimarães. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vitória de Guimarães. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Eu vi Cubillas!

Foto FC Porto

Eu vi! Eu vi Cubillas. Eu vi Cubillas jogando futebol. Teófilo Juan Cubillas Arizaga, o prodígio peruano, vi-o com os meus próprios olhos, vi-o da minha cor, uma só, azul e branco, vi-o pequeno, delicado, elegante, inesperado, repentista, amiúde sublime, fulminante, Lionel Messi antes de ser inventado, uma brisa ligeira e redolente deslizando quase invisível sobre o relvado. Cubillas era um sorriso em andamento. Sim, um sorriso - genuíno, dir-se-ia que infantil, maroto. Cubillas e a bola estavam-se prometidos desde o princípio dos tempos, sabiam-se de cor e salteado, eram um em dois perfeito, acto de amor consumado, puro gozo, prova viva da bondade dos deuses.
Eu vi Cubillas. Vi-o aqui à porta de casa, em Guimarães, fomos de Fafe o tio Américo, o tio Zé da Bomba e eu, de propósito para ver Cubillas, com merenda aprazada talvez no Batista da Cruz d'Argola. Podia ser que também víssemos o "nosso" Quim na baliza do FC Porto, mas foi Tibi quem tomou conta, se bem me lembro desse mês de Março de 1974, ainda o cravo estava fresco e nunca mais. Deu empate zero-zero e Cubillas falhou um penálti, mas isso o que é que importa?
É. Eu vi jogar Teófilo "Nene" Cubillas! Percebem a grandeza do que digo? Compreendem a minha incontida emoção? Talvez não, infelizes, e é pena. Aos incréus, aos que não tiveram a sorte que eu tive, aos que não viram nem foram ensinados, aos que não sabem do que falo, admito a ignorância e a dúvida: viste o Cubillas, e quê?, pensarão, coitados, e estão no seu direito. Mas mesmo a esses eu gostaria de tentar explicar. Reparem, por favor. Em toda a minha vida fui, por vontade própria e em meu perfeito juízo, a somente quatro concertos: Andràs Schiff (com as Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach), Paco de Lucía, Rolling Stones e Bob Dylan. Quatro e apenas quatro, e uma vida inteira: Schiff com Bach, Lucía, Stones e Dylan. Estão a ver a exigência, o desejo de céu? E portanto Cubillas.

P.S. - É um daqueles raros poracasos, extraordinarice do arco-da-velha. Ontem, no sorteio do Mundial de Clubes, o papelinho com o nome do FC Porto foi tirado por Cubillas, que parece em excelente forma, com cabelo inteiro e pretinho, pretinho, e isto aos 75 anos, viva o Restaurador Olex! De Dragão ao peito, entre 1973 e 1977, o astro peruano marcou 66 golos em 110 jogos. Mas Cubillas era muito mais que golo...

domingo, 22 de setembro de 2024

Portugal num guardanapo

Foto Glórias do Passado

Por volta de 1980, Mário Wilson (1929-2016) era o seleccionador nacional e também treinador do Vitória de Guimarães, por onde passava pela segunda vez, se não me engano. No Inverno, para poupar o relvado, único, do velho e feiinho Municipal vimaranense, o Vitória vinha treinar a Fafe geralmente às quartas ou quintas-feiras, fazendo connosco o chamado jogo-treino. Connosco, quero dizer, com a Associação Desportiva de Fafe, que costumava ter uma equipa competente de segunda divisão - hoje é a desgraça que se sabe. Eu trabalhava na AD Fafe: tratava dos papéis, de alguns inocentes papéis, é preciso que se note.
Mário Wilson era uma jóia de pessoa e foi um treinador sobretudo afectivo. Gostava de falar com os seus jogadores um a um, como em acto de confissão mas passeando, colocando-lhes o braço paternal por cima dos ombros - vi-o assim muitas vezes.
Um dia, numa daquelas quartas ou quintas-feiras, o Senhor Wilson entrou-me no minúsculo gabinete, que era por baixo das bancadas e por cima dos balneários, cumprimentou-me elegantemente como se eu fosse alguém e pediu-me se podia usar o telefone para ligar para Lisboa, para a Federação Portuguesa de Futebol. Eu teria para aí uns 21 ou 22 anos e "dei-lhe" autorização, armado em parvo como só naquela idade. Depois de conseguir resposta do lado de lá da linha, o Velho Capitão pigarreou, cofiou a barbicha, foi ao bolso do casacão de cabedal, rapou de um guardanapo de papel marcado com beiçadas de verde tinto, vamos um supor, estendeu-o em cima da minha secretária, alisou-o o melhor que pôde e começou a ditar para a capital o que lá escrevera eventualmente ao almoço. Eram nomes, uma lista, a convocatória para a Selecção Nacional na campanha de apuramento falhado para o Europeu de 1980, em Itália. Exactamente: a Selecção de Portugal estava no guardanapo de Mário Wilson...

P.S. - O Vitória Sport Clube, Vitória de Guimarães, foi fundado no dia 22 de Setembro de 1922.

Artur Jorge, o circunspecto

Foto Lusa

Antigamente não havia Liga Revelação nem equipas B, tínhamos, era, às quartas-feiras à tarde, o campeonato de reservas. Nas reservas jogavam os mais fraquinhos da equipa principal, que raramente entravam em campo ao domingo, duvidosas aquisições à experiência, ex-lesionados em fase final de recuperação e jovens promessas recrutadas aos juniores para fazerem número. Não existia treinador das reservas. A equipa era, por assim dizer, orientada pelo treinador do primeiro time, que geralmente delegava num dos seus adjuntos. Lembro-me vagamente de jogos de reservas em Fafe, ainda no tempo do Campo da Granja, mas sobretudo do FC Porto, quase duas décadas mais tarde, no campo de treinos n.º 1 do Estádio das Antas, entalado entre as costas da "maratona" e a zona de pavilhões e piscina, onde passei tardadas a ensinar portismo ao meu filho recém-nascido. Muitos dos grandes craques azuis e brancos, futuras estrelas mundiais, vi-os ali em início de carreira, ou, em todo o caso, antes da afirmação definitiva, medindo forças desiguais com as poderosíssimas equipas do Senhora da Hora, do Candal, do Infesta ou, vá lá, do Salgueiros, do Leixões ou do Boavista.
Uma vez, Artur Jorge (1946-2024) era treinador do FC Porto e foi para o banco num desses jogos de reservas. A certa altura do encontro, resolveu fazer uma substituição e deu ordens a um jogador para aquecer. O jogador, e nem lhe recordo o nome, tirou o blusão para vestir a camisola, colocou as caneleiras com adesivo e tudo, puxou as meias para os joelhos, calçou-se e estava a começar a atar os cordões das chuteiras quando o treinador olhou para trás, estendeu o dedo apontando dali para fora e mandou-o tomar banho, isto é, recolher aos balneários, assim a frio. Alteração táctica na substituição? Nada disso. Apenas castigo. Artur Jorge, que não raras vezes fazia substituições logo nos primeiros minutos de jogo, se pressentia alguém em dia não ou a dormir na forma, queria os seus homens sempre prontos para o que desse e viesse. Preparados e alerta, permanentemente disponíveis para o imediatamente. Mesmo os que ficavam no banco, que era local de trabalho. Isso. O banco de suplentes, com Artur Jorge, não era beira de piscina.

Artur Jorge era homem de poucas falas. Distante, dizia-se. Exigente, duro, mantinha realmente distância em relação aos seus jogadores, que fazia questão de só "conhecer" no emprego, isto é, no balneário e no campo. De resto, nada de convívio, nada de confianças. Cá fora, na vida real, até os cumprimentos só se fossem por telepatia. Era assim nas Antas, onde os vi chegar e sair, treinador e jogadores, tantas e tantas vezes, passando um pelos outros como se nem os visse. Tinha sido assim na sua época de Vitória de Guimarães, como adjunto ou treinador de campo de José Maria Pedroto, por volta de 1980, se não estou em erro. O Vitória ia regulamente treinar a Fafe, às vezes, na preparação de jogos nocturnos, ia ao final do dia, daqueles dias curtos e agrestes do antigo Inverno minhoto, acendia-se a iluminação que havia, fraquinha mas de boa vontade, e o Estádio ficava à média-luz, como se fosse casa de fado. Eu por acaso até gostava. Artur Jorge no meio do pelado, voz potente e rara, explicando a jogada, corrigindo posições, dando nas orelhas aos jogadores enregelados, e mestre Pedroto seguindo o treino da bancada, de pé, bem agasalhado, à civil, contando piadas finas para a corte babada à sua volta, palavra de honra. O deus Pedroto. Chamavam-lhe então manager. E eu achava que deviam ir chamar manager a outro...

P.S. - O Vitória Sport Clube, Vitória de Guimarães, foi fundado no dia 22 de Setembro de 1922.

Tito, imperador da bola

Foto Glórias do Passado

Já lá vão mil novecentos e cinquenta e quatro anos, e lembro-me como se fosse hoje. Tito e as suas legiões romanas derrubaram a segunda muralha de Jerusalém. Lá dentro, os judeus à rasca fugiram para a primeira muralha, mas os romanos, copiando o Porto de muitos séculos depois, construíram uma circunvalação, cortando vazas aos sitiados e todas as árvores num raio de quinze quilómetros, o que foi imediatamente considerado como um escândalo ambiental. A circunvalação de Tito era também conhecida como muralha de cerco, mais uma vez plagiando por antecipação a Invicta, mas sem mal afamado bairro. Tito era o filho mais velho de Vespasiano e foi imperador entre 79 e 81. A mãe de Tito chamava-se Domitila, a Maior, para se diferenciar da filha Domitila, a Menor, irmã de Tito.
Tito dedicou-se com sucesso à construção civil em Roma, à guerrilha e à fundação e presidência da antiga Jugoslávia, enfim voltando-se para o futebol no Atlético, onde começou a dar os primeiros toques, em 1962. Esqueceu as obras e fez bem, aquilo está tudo em ruínas, disse adeus às armas e abandonou a política. Deixou a Tapadinha e apostou a sério na bola: mudou-se para o União de Tomar e depois, por quinhentos contos, dinheiro a sério, para o Vitória da Guimarães. É daí que o conheço.
Na década de setenta do século passado, Tito fez sete épocas na Cidade-Berço e marcou 82 golos. Frequentava Fafe regularmente. Era, e não sei se ainda é, o melhor marcador de sempre do Vitória na primeira divisão. Fisicamente falando, Tito pode ser visto como um monovolumezinho, baixote, entroncado da cabeça aos pés, uma espécie de Müller que os antigos percebem, uma espécie de Miccoli que os menos antigos sabem, e aos mais novos não sei o que lhes diga, a não ser que olhem para o Bruno César que andou pelo Benfica, Estoril e, aqui atrasado, pelo Penafiel. Mas em bom!
Tito, na área, era imperial. Fino. Franco-atirador. Até de cabeça. E de fora da área também. Mas não de cabeça. Como muitos craques de hoje em dia, Tito gostava de treinar livres e remates espontâneos atirados propositada e directamente à barra. E tinha uma elevada taxa de acerto. O extraordinário é que, mais difícil ainda, gostava de fazer o número também de costas para a baliza ou de olhos fechados. E acertava. Palavra de honra, acertava!
Claro, não havia YouTube nem X nem outras merdas do género. Conto assim tal qual, porque eu vi. E de olhos bem abertos.

Mas à conclusão: Tito, o outro, Josip Broz Tito, mais conhecido como Marechal Tito, guerrilheiro e estadista, proclamou a constituição da República Socialista Federativa da Jugoslávia no dia 29 de Novembro de 1945, está quase a fazer anos. Por outro lado: em Fafe, nos anos cinquenta, sessenta e pelo menos setenta do século passado havia uma magnífica equipa de futebol popular chamada Os Embaixadores da Bola. Os rapazes representavam, se não me engano, a clientela do velho Café Peludo e também não tenho bem a certeza do "Os"...

P.S. - O Vitória Sport Clube, Vitória de Guimarães, foi fundado no dia 22 de Setembro de 1922.

Eu vi o autogolo de Manaca

Eu estava lá. No velho estádio, em Guimarães. Eu vi ao vivo o autogolo de Manaca que deu o triunfo por 0-1 e o título de campeão ao seu Sporting, sendo ele naquela altura jogador emprestado pelos leões ao Vitória. Foi no dia 25 de Maio de 1980, e eu portista estava lá, mesmo atrás da baliza onde tudo se passou, se é que algo se passou. Vi tudo, sou testemunha, lembro-me como se fosse ontem. E se querem que vos diga a verdade: não sei, não tenho a certeza do que realmente vi...

P.S. - O Vitória Sport Clube, Vitória de Guimarães, foi fundado no dia 22 de Setembro de 1922. Foi com o Vitória que eu aprendi o futebol de primeira divisão. Os quase dois anos no Liceu de Guimarães deram-me para isso: a meio da semana ia comprar o bilhete numa loja ali perto do Toural, creio que na Rua de Santo António, e no domingo, logo a seguir ao almoço, punha-me à boleia, em Fafe, encostado à Farmácia Sousa Alves, como nos dias em que ia vadiar para as aulas. O regresso a casa, depois do jogo, era quando Deus quisesse...

quarta-feira, 8 de março de 2023

Eu vi Cubillas!


Eu vi! Eu vi Cubillas. Eu vi Cubillas jogando futebol. Teófilo Juan Cubillas Arizaga, o prodígio peruano, vi-o com os meus próprios olhos, vi-o da minha cor, uma só, azul e branco, vi-o pequeno, delicado, elegante, inesperado, repentista, amiúde sublime, fulminante, Lionel Messi antes de ser inventado, uma brisa ligeira e redolente deslizando quase invisível sobre o relvado. Cubillas era um sorriso em andamento. Sim, um sorriso - genuíno, dir-se-ia que infantil, maroto. Cubillas e a bola estavam-se prometidos desde o princípio dos tempos, sabiam-se de cor e salteado, eram um em dois perfeito, acto de amor consumado, puro gozo, prova viva da bondade dos deuses.
Eu vi Cubillas. Vi-o aqui à porta de casa, em Guimarães, fomos de Fafe o tio Américo, o tio Zé da Bomba e eu, de propósito para ver Cubillas, com merenda aprazada talvez no Batista da Cruz d'Argola. Podia ser que também víssemos o "nosso" Quim na baliza do FC Porto, mas foi Tibi quem tomou conta, se bem me lembro desse mês de Março de 1974, ainda o cravo estava fresco e nunca mais. Deu empate zero-zero e Cubillas falhou um penálti, mas isso o que é que importa?
É. Eu vi jogar Teófilo "Nene" Cubillas! Percebem a grandeza do que digo? Compreendem a minha incontida emoção? Talvez não, infelizes, e é pena. Aos incréus, aos que não tiveram a sorte que eu tive, aos que não viram nem foram ensinados, aos que não sabem do que falo, admito a ignorância e a dúvida: viste o Cubillas, e quê?, pensarão, coitados, e estão no seu direito. Mas mesmo a esses eu gostaria de tentar explicar. Reparem, por favor. Em toda a minha vida fui, por vontade própria e em meu perfeito juízo, a somente quatro concertos: Andràs Schiff (com as Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach), Paco de Lucía, Rolling Stones e Bob Dylan. Quatro e apenas quatro, e uma vida inteira: Schiff com Bach, Lucía, Stones e Dylan. E portanto Cubillas.

P.S. - A foto acima tirei-a do jornal digital Maisfutebol, que não refere o autor. Teófilo Juan Cubillas Arizaga nasceu, em Lima, Peru, no dia 8 de Março de 1949. Faz hoje 74 anos. Pois muitos parabéns e muitíssimo obrigadíssimo, Senhor Comendador!

domingo, 3 de outubro de 2021

O Captain! My Captain!

Por volta de 1980, Mário Wilson era o seleccionador nacional e também treinador do Vitória de Guimarães, por onde passava pela segunda vez, se não me engano. No Inverno, para poupar o relvado, único, do velho e feiíssimo Municipal vimaranense, o Vitória ia às quartas ou quintas-feiras treinar a Fafe, fazendo o chamado jogo-treino com os da casa. Eu trabalhava em casa, na Associação Desportiva de Fafe, tratava dos papéis, de alguns inocentes papéis, e preciso que se note.
Mário Wilson era uma jóia de pessoa e foi um treinador sobretudo afectivo. Gostava de falar com os seus jogadores um a um, como em confissão mas passeando, colocando-lhes o braço paternal por cima dos ombros - vi muitas vezes.
Um dia, numa daquelas quartas ou quintas-feiras, o Senhor Wilson entrou-me no gabinete, que era por baixo das bancadas e por cima dos balneários, cumprimentou-me como se eu fosse alguém e pediu-me se podia usar o telefone para ligar à Federação. Eu teria para aí uns 21 ou 22 anos e "dei-lhe" autorização, armado em parvo como só naquela idade. Depois de conseguir resposta do lado de lá da linha, o Velho Capitão pigarreou, cofiou a barbicha, foi ao bolso do casacão de cabedal, rapou de um guardanapo de papel marcado com beiçadas de verde tinto, estendeu-o em cima da minha secretária, alisou-o o melhor que pôde e começou a ditar para Lisboa o que lá escrevera eventualmente ao almoço. Eram nomes, uma lista, a convocatória para a Selecção Nacional na campanha de apuramento falhado para o Europeu de 1980, em Itália. Exactamente: a Selecção de Portugal estava no guardanapo de Mário Wilson...

P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Junho de 2016. Mário Wilson, o Velho Capitão, morreu no dia 3 de Outubro de 2016, prestes a fazer 87 anos.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Um guardanapo para a Selecção

Por volta de 1980, Mário Wilson era o seleccionador nacional e também treinador do Vitória de Guimarães, por onde passava pela segunda vez, se não me engano. No Inverno, para poupar o relvado, único, do velho e feiíssimo Municipal vimaranense, o Vitória ia às quartas ou quintas-feiras treinar a Fafe, fazendo o chamado jogo-treino com os da casa. Eu trabalhava em casa, na Associação Desportiva de Fafe, tratava dos papéis, de alguns inocentes papéis...
Mário Wilson era uma jóia de pessoa e foi um treinador sobretudo afectivo. Gostava de falar com os seus jogadores um a um, como em confissão mas passeando, colocando-lhes o braço paternal por cima dos ombros - vi muitas vezes.
Um dia, numa daquelas quartas ou quintas-feiras, o Senhor Wilson entrou-me no gabinete, que era por baixo das bancadas e por cima dos balneários, cumprimentou-me como se eu fosse alguém e pediu-me se podia usar o telefone para ligar à Federação. Eu teria para aí uns 21 ou 22 anos e "dei-lhe" autorização, armado em parvo como só naquela idade. Depois de conseguir resposta do lado de lá da linha, o Velho Capitão pigarreou, cofiou a barbicha, foi ao bolso do casacão de cabedal, rapou de um guardanapo de papel marcado com beiçadas de verde tinto, estendeu-o em cima da minha secretária, alisou-o o melhor que pôde e começou a ditar para Lisboa o que lá escrevera eventualmente ao almoço. Eram nomes, uma lista, a convocatória para a Selecção Nacional na campanha de apuramento falhado para o Europeu de 1980, em Itália. Exactamente: a Selecção de Portugal estava no guardanapo de Mário Wilson...

P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Junho de 2016.

sábado, 3 de outubro de 2020

Mário Wilson tinha a Selecção no guardanapo

Por volta de 1980, Mário Wilson era o seleccionador nacional e também treinador do Vitória de Guimarães, por onde passava pela segunda vez, se não me engano. No Inverno, para poupar o relvado, único, do velho e feio Municipal vimaranense, o Vitória ia às quartas ou quintas-feiras treinar a Fafe, fazendo o chamado jogo-treino com os da casa. Eu trabalhava em casa, na Associação Desportiva de Fafe, tratava dos papéis, de alguns inocentes papéis...
Mário Wilson era uma jóia de pessoa e foi um treinador sobretudo afectivo. Gostava de falar com os seus jogadores um a um, como em confissão mas passeando, colocando-lhes o braço paternal por cima dos ombros - vi muitas vezes.
Um dia, numa daquelas quartas ou quintas-feiras, o Senhor Wilson entrou-me no gabinete, que era por baixo das bancadas e por cima dos balneários, cumprimentou-me como se eu fosse alguém e pediu-me se podia usar o telefone para ligar à Federação. Eu teria para aí uns 21 ou 22 anos e "dei-lhe" autorização, armado em parvo com só naquela idade. Depois de conseguir resposta do lado de lá da linha, o Velho Capitão pigarreou, cofiou a barbicha, foi ao bolso do casacão de cabedal, rapou de um guardanapo de papel marcado com beiçadas de verde tinto, estendeu-o em cima da minha secretária, alisou-o o melhor que pôde e começou a ditar para Lisboa o que lá escrevera eventualmente ao almoço. Eram nomes, uma lista, a convocatória para a Selecção Nacional na campanha de apuramento falhado para o Europeu de 1980, em Itália. Exactamente: a Selecção de Portugal estava no guardanapo de Mário Wilson...

P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Junho de 2016. Mário Wilson morreu no dia 3 de Outubro desse mesmo ano.

sábado, 30 de maio de 2020

Tito, imperador e artilheiro

Faz hoje exactamente mil novecentos e cinquenta anos que Tito e as suas legiões romanas derrubaram a segunda muralha de Jerusalém. Lá dentro, os judeus fugiram à rasca para a primeira muralha, mas os romanos, copiando o Porto de muitos séculos depois, construíram uma circunvalação, cortando vazas aos sitiados e todas as árvores num raio de quinze quilómetros, o que foi considerado um escândalo ambiental. A circunvalação de Tito era também conhecida como muralha de cerco, mais uma vez plagiando por antecipação a Invicta, mas sem bairro. Tito era o filho mais velho de Vespasiano e foi imperador entre 79 e 81. A mãe de Tito chamava-se Domitila, a Maior, para se diferenciar da filha Domitila, a Menor, irmã de Tito.
Tito dedicou-se com sucesso à construção civil em Roma, à presidência da antiga Jugoslávia e ao futebol no Atlético, onde começou a dar os primeiros toques, em 1962. Esqueceu as obras e fez bem, aquilo está tudo em ruínas, e abandonou a política. Deixou a Tapadinha e apostou a sério na bola: mudou-se para o União de Tomar e depois, por quinhentos contos, para o Vitória da Guimarães. É daí que o conheço.
Na década de setenta do século passado, Tito fez sete épocas na Cidade-Berço e marcou 82 golos. Era, e não sei se ainda é, o melhor marcador de sempre do Vitória na primeira divisão. Fisicamente falando, Tito pode ser visto como um monovolumezinho, baixote, entroncado da cabeça aos pés, uma espécie de Müller que os antigos percebem, uma espécie de Miccoli que os menos antigos sabem, e aos mais novos não sei o que lhes diga.
Tito, na área, era imperial. Fino. Até de cabeça. E de fora da área também. Mas não de cabeça. Como muitos craques de hoje em dia, Tito gostava de treinar livres e remates espontâneos atirados propositada e directamente à barra. E tinha uma elevada taxa de acerto. O extraordinário é que, mais difícil ainda, gostava de fazer o número também de costas para a baliza ou de olhos fechados. E acertava. Palavra de honra, acertava!
Claro, não havia YouTube. Conto assim tal qual porque eu vi. E de olhos bem arregalados.

P.S. - Publicado originalmente no dia 30 de Maio de 2019.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Eu vi o autogolo de Manaca

Eu estava lá. No estádio, em Guimarães. Eu vi ao vivo o autogolo de Manaca que deu o triunfo por 0-1 e o título de campeão ao seu Sporting, sendo ele naquela altura jogador emprestado pelos leões ao Vitória. Faz hoje anos. Foi no dia 25 de Maio de 1980, e eu portista estava lá, mesmo atrás da baliza em questão. Vi tudo, lembro-me como se fosse ontem. E se querem que lhes diga: não sei.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Lições de História 42: Tito

Faz hoje mil novecentos e quarenta e nove anos que Tito e as suas legiões romanas derrubaram a segunda muralha de Jerusalém. Lá dentro, os judeus fugiram à rasca para a primeira muralha, mas os romanos, copiando o Porto de muitos séculos depois, construíram uma circunvalação, cortando vazas aos sitiados e todas as árvores num raio de quinze quilómetros, o que foi considerado um escândalo ambiental. A circunvalação de Tito era também conhecida como muralha de cerco, mais uma vez plagiando por antecipação a Invicta, mas sem bairro. Tito era o filho mais velho de Vespasiano e foi imperador entre 79 e 81. A mãe de Tito chamava-se Domitila, a Maior, para se diferenciar da filha Domitila, a Menor, irmã de Tito.
Tito dedicou-se com sucesso à construção civil em Roma, à presidência da antiga Jugoslávia e ao futebol no Atlético, onde começou a dar os primeiros toques, em 1962. Esqueceu as obras e fez bem, aquilo está tudo em ruínas, e abandonou a política. Deixou a Tapadinha e apostou a sério na bola: mudou-se para o União de Tomar e depois, por quinhentos contos, para o Vitória da Guimarães. É daí que o conheço.
Na década de setenta do século passado, Tito fez sete épocas na Cidade-Berço e marcou 82 golos. Era, e não sei se ainda é, o melhor marcador de sempre do Vitória na primeira divisão. Fisicamente falando, Tito pode ser visto como um monovolumezinho, baixote, entroncado da cabeça aos pés, uma espécie de Müller que os antigos percebem, uma espécie de Miccoli que os menos antigos sabem, e aos mais novos não sei o que lhes diga.
Tito, na área, era imperial. Fino. Até de cabeça. E de fora da área também. Mas não de cabeça. Como muitos craques de hoje em dia, Tito gostava de treinar livres e remates espontâneos atirados propositada e directamente à barra. E tinha uma elevada taxa de acerto. O extraordinário é que, mais difícil ainda, gostava de fazer o número também de costas para a baliza ou de olhos fechados. E acertava. Palavra de honra, acertava!
Claro, não havia YouTube. Conto assim tal qual porque eu vi. E de olhos bem abertos.

P.S. - O textinho acima foi escrito e publicado no passado dia 30 de Maio. Os chamados jornais desportivos portugueses estão hoje histericozinhos, à falta de melhores mamas, com um "concurso de habilidades" nos EUA abrilhantado, entre outros craques, pelo nosso Nani, do Orlando City, e pelo nosso João Félix, do Atlético de Madrid. Uma das habilidades era o "remate à barra"e foi um sucesso. Realmente a humanidade não se cansa de inventar a pólvora. E agora há YouTube.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Lições de História 42: Tito

Faz hoje mil novecentos e quarenta e nove anos que Tito e as suas legiões romanas derrubaram a segunda muralha de Jerusalém. Lá dentro, os judeus fugiram à rasca para a primeira muralha, mas os romanos, copiando o Porto de muitos séculos depois, construíram uma circunvalação, cortando vazas aos sitiados e todas as árvores num raio de quinze quilómetros, o que foi considerado um escândalo ambiental. A circunvalação de Tito era também conhecida como muralha de cerco, mais uma vez plagiando por antecipação a Invicta. Tito era o filho mais velho de Vespasiano e foi imperador entre 79 e 81. A mãe de Tito chamava-se Domitila, a Maior, para se diferenciar da filha Domitila, a Menor, irmã de Tito.
Tito dedicou-se com sucesso à construção civil em Roma, à presidência da antiga Jugoslávia e ao futebol no Atlético, onde começou a dar os primeiros toques, em 1962. Esqueceu as obras e fez bem, aquilo está tudo em ruínas, e abandonou a política. Deixou a Tapadinha e apostou a sério na bola: mudou-se para o União de Tomar e depois, por quinhentos contos, para o Vitória da Guimarães. É daí que o conheço.
Na década de setenta do século passado, Tito fez sete épocas na Cidade-Berço e marcou 82 golos. Era, e não sei se ainda é, o melhor marcador de sempre do Vitória na primeira divisão. Fisicamente falando, Tito pode ser visto como um monovolumezinho, baixote, entroncado da cabeça aos pés, uma espécie de Müller que os antigos percebem, uma espécie de Miccoli que os menos antigos sabem, e aos mais novos não sei o que lhes diga.
Tito, na área, era imperial. Fino. Até de cabeça. E de fora da área também. Mas não de cabeça. Como muitos craques de hoje em dia, Tito gostava de treinar livres e remates espontâneos atirados propositada e directamente à barra. E tinha uma elevada taxa de acerto. O extraordinário é que, mais difícil ainda, gostava de fazer o número também de costas para a baliza ou de olhos fechados. E acertava. Palavra de honra, acertava!
Claro, não havia YouTube. Conto assim tal qual porque eu vi. E de olhos bem abertos.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Benfica está a desgraçar Portugal

Se a Taça também conta para o PIB, dois fins-de-semana e uma quarta-feira pelo meio arrumaram de vez com Portugal. O Benfica não acerta uma, e nós é que levamos por tabela, não é, ó Mexia? Vamos então embora, que isto já não é país. E o último a sair que apague a luz.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Fafense ou cabeceirense?

JORNAL DE FAFE
JORNAL O BASTO.COM

Sem querer tomar partido na disputa entre Fafe e Cabeceiras de Basto a propósito de um português campeão mundial que, no último fim-de-semana, passou ao lado das notícias nacionais - embora também se alcunhe "Animal" como o que aparece sempre na televisão -, faço questão de sublinhar o impressivo relato do Jornal O Basto. "O título foi conquistado ao fim de sete assaltos (em doze possíveis) em que António Sousa desferiu o golpe vencedor no olho do adversário". No olho. É de homem.
O fafense-cabeceirense ou cabeceirense-fafense António Sousa é atleta do Vitória de Guimarães.

sábado, 25 de agosto de 2012

"Não tivemos bem", diz A Bola

O jornal A Bola afirma que Rui Vitória, treinador do Guimarães, disse o seguinte no  final do jogo com o FC Porto: "Não tivemos bem nas saídas para o ataque. A equipa esteve ansiosa quando tinha a bola. Fica a amargura do resultado. Temos consciência que não tivemos bem mas temos valor."
A pressa não explica tudo. Há um verbo ter e um verbo estar e por acaso até nem são sinónimos. A Bola meteu os pés pelas mãos e levou a oralidade à letra. Vamos lá rectificar. Portanto, o que Rui Vitória realmente declarou foi isto, e peço que fique lavrado em acta: "Não tivemos bem nas saídas para o ataque. A equipa teve ansiosa quando estinha a bola. Fica a amargura do resultado. Estemos consciência que não tivemos bem mas estemos valor."