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sábado, 14 de março de 2026

As begueiras

Dia da Mulher
No Dia da Mulher, a minha leva-me a almoçar fora, para eu não ter de cozinhar. À noite volto para o fogão.

Conheceis aquelas mulheres que andam sempre na rua e passam a vida no café a dizer mal dos homens que andam sempre na rua e passam a vida no café? Sim, essas. São as begueiras. É certo que o termo original é masculino e minhoto, begueiro, referindo-se preferencialmente a um jumento novo, pequeno, ou a uma qualquer besta de carga, e pode também servir para descrever um mulo ou, pejorativamente, uma pessoa de pouca inteligência e/ou com qualidades negativas ou malandra, mas em Fafe o conceito afeminou-se, não sei em que altura do século passado, e mudou completamente de sentido. Temos então a begueira, as begueiras, linguarudas, opinativas, independentes, soalheiras, as que "não têm que fazer em casa". As begueiras funcionam em grupo, em vários grupos, assíduos, independentes e fechados, às vezes inimigos uns dos outros, células militantes de escrutínio alheio e maledicência, municiadas estatutariamente a chá e torradas, amiúde um panachê. No seu conjunto, elas, as begueiras, os diversos núcleos de begueiras, formam o chamado begueirame.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 8 de março de 2026

Viva o Dia da Mulher!

Hoje é Dia da Mulher e é porreiro. A minha vai levar-me a comer fora, para eu não ter de cozinhar. Amanhã torno ao fogão. E é a vida.

P.S. - Hoje é Dia da Mulher.

sábado, 8 de março de 2025

As mulheres e eu

Raparigas e mulheres que passam por mim todos os dias, ou quase todos os dias, nas minhas caminhadas matinais. Raparigas bonitas, mulheres interessantes, todas amáveis, que me cumprimentam desembaraçadamente com um "olá!", com um "bom-dia!", com um jovial aceno de mão, com um enorme sorriso, personalizado. E alegram-me a vida. Palavra de honra, fazem-me feliz. Raparigas e mulheres de que nem lhes sei os nomes nem de onde são e param a bicicleta ou a corrida para me explicarem, sem obrigação, que estiveram meio ano a trabalhar na América, que os filhos pequenos mudaram de colégio, que tiveram um pequeno problema de saúde, que agora costumam vir mais tarde ou que agora costumam vir mais cedo, e que por isso não nos temos visto e é pena.
Mulheres e raparigas que, se por acaso me apanham a caminhar com a minha mulher, de mão dada, deitam de antecedência os olhos ao chão, zapam por nós como se não nos vissem, comprometidas, como se não me conhecessem de lado nenhum, como se eu fosse ninguém.
Quer-se dizer: o que é que elas pensam? O que é que elas pensavam? De que é que estavam à espera? Eu sou apenas o velho simpático, porra!

P.S. - Hoje é Dia da Mulher e é porreiro. A minha vai levar-me a comer fora, para eu não ter de cozinhar. Hoje. Amanhã torno ao fogão. E é a vida.

domingo, 3 de novembro de 2024

Crónica Feminina

Vieram as calças, e ela nada. Os movimentos libertários, o divórcio, o voto, a canasta, os empregos, os carros, os cigarros, as gravatas, os sapatos de salto baixo e os sapatões também vieram, e ela nada. Em casa, sempre em casa, de uma virgindade absoluta em relação ao amantíssimo esposo e demais, bordava, falava francês e tocava piano. Ouvia os discos pedidos e lia Corín Tellado. E dava alpista ao canário. E regava os vasinhos, ela própria uma flor de estufa, no larguinho da vila antiga. E compunha almofadinhas e peluches e corações por sobre o delicado leito conjugal. Muito cor-de-rosa, muita renda na roupa interior que só ela sabia, muito tafetá, muitos lacinhos e sabonetinhos. Tanto pó de talco e perfume! Queimou uma vez um sutiã, é verdade, mas foi sem querer, passando a ferro, quando a serviçal lhe faltou. Tirando isso, nada. Parecia doença. Crónica. As vizinhas, que nem lhe conheciam o nome, chamavam-lhe, por graça, Crónica Feminina.

P.S. - Hoje é Dia da Dona de Casa.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Mulheres

Hoje é Dia da Mulher e é porreiro. A minha vai levar-me a comer fora, para eu não ter de cozinhar. Hoje. Amanhã torno ao fogão. E é a vida.

terça-feira, 8 de março de 2022

Foi comprar tabaco e não voltou

Era uma esposa exemplar, uma esposa à moda antiga. Em apenas duas palavras imediatamente seguidas de ponto de admiração: uma esposa! Ou em cinco palavras imediatamente seguidas de três pontos de admiração: uma mulher como deve ser!!! Todos os dias de manhã ela ia comprar tabaco para o marido. Um dia ela foi e não voltou.

O lugar da mulher

Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai ela jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito. Na minha rua, meus vizinhos, palavra de honra, em pleno século XXI.

A senhora do lixo

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 8 de março de 2021

Foi comprar tabaco e não voltou

Era uma esposa exemplar, uma esposa à moda antiga. Em apenas duas palavras imediatamente seguidas de ponto de admiração: uma esposa! Todos os dias de manhã ela ia comprar tabaco para o marido. Um dia ela foi e não voltou.

P.S. - Hoje, 8 de Março, é Dia da Mulher.

É hoje!

Um: - Hoje é dia da mulher.
O outro: - E a que horas é que ela vem?...

Vais ver quando eu chegar a casa!

Era uma mãe à moda antiga, pobre, viúva, severa e de mão lesta, e foi chamada à escola derivado ao filho do meio. Eram nove. Na escola ouviu o que não queria, enfunou, e ligou ao miúdo logo ali, à frente de quem de direito, para que soubessem: "Vais ver quando eu chegar a casa!", ameaçou cheia de nervos e até o telemóvel cor-de-rosa com florzinhas lhe estremeceu. O filho, que era cego, ficou todo contente.  

Sem desculpa

Errar é próprio do homem. A mulher não tem desculpa!

Respeitinho

Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito. 

Por trás de uma grande mulher

Por trás de uma grande mulher, o homem geralmente não se vê.

Por trás de um grande homem

Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher, diz-se, e era isso que o incomodava. Media doismetrosevintesetecentímetros, há mais de trinta anos que estava em idade casadoira, rebentava de tesão, mas as coisas querem-se na medida certa - pensava. A ele convinha-lhe uma rapariga assim para o manejável, porque, diz-se também, a mulher é boa como a sardinha: pequenina. Até imaginava, gozoso, o retrato matrimonial em cima da cómoda do quarto, a sorte grande e a terminação. Lá o "por trás" era para o lado que ele dormia melhor...

A mulher, o bronco e as piriscas

Foto Hernâni Von Doellinger

Seria um casal patusco, se não fosse trágico. Desengonçados ambos, cómicos no vestir, feiinhos graças a Deus, testo e panela emparelhados de encomenda. Cirandam pelas ruas de Matosinhos todos os dias, de manhãzinha à noite, de braço dado, num andar de procissão e olhos caídos, passando o chão a pente fino à cata de piriscas reutilizáveis. Ele, posto que zarolho, tem visão de longo alcance ou então algum radar que eu não sei. Vê a beata e faz um gesto com a cabeça. Ela, em obediência canina, dobra-se, apanha a prisca referenciada, entrega-lha e corre a enfiar-lhe novamente o braço, se ele deixar, até à próxima. Ele fuma e ela vai feliz. Os dois são um filme mudo. Isso, uma fita das antigas, num preto-e-branco fatela. Digo, seria um casal patusco, se não fosse trágico: quando lhe apetece, o filhodaputa bate na mulher.

Era assim. Mas há uns meses que o vejo sozinho pelas esquinas, desamparado, perdido, praguejante. A franzina senhora desapareceu de cena. De tão sumária e submissa que me parecia, temo, sinceramente temo, que lhe tenha acontecido o pior: que tenha resolvido morrer devagarinho só para não incomodar. O bronco continua por aí, agora solitário e sempre bandalho, sem escrava nem saco de pancada pelo braço, enfim obrigado a vergar a mola se quer matar o vício. O Governo criminalizou as piriscas, a ciência inventou os cigarros electrónicos e a covid encerrou cafés e restaurantes, no chão da porta dos quais ele costumava abastecer-se e rir-se das imbecilidades do Governo e da ciência. Risinhos à parte, que o gajo é tolo, a vida corre-lhe de mal a pior. E é o que eu lhe estimo.

O filhodaputa continua, portanto, às piriscas, no outro dia sem mais nem menos malcriou com a minha mulher, que não lhe liga mas tem medo dele, mais cedo ou mais tarde vou ter de lhe foder o focinho, ao porco. O indivíduo continua às piriscas, que fuma acto contínuo, mas, actualizado com os tempos da pandemia, anda de máscara. A máscara padece de evidentes sinais de que foi sacada ao lixo. Mas de máscara, o burgesso. É outra limpeza, outra segurança.