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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Os livros, nossos amigos

Gosto de afagar os livros que leio. Aliso-os. Cheiro-os. Protejo-os. Guardo-os com mil cuidados. E deixei de emprestá-los!

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Doação de Livros.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O livro

Chegou à última página com o coração dilacerado entre a euforia e o desalento. Que mundo extraordinário, o livro. Quinhentas e sessenta e três páginas cheias de mistério, de sonho, de imaginação, de fantasia, certamente romance, amores e desamores, aventuras e desventuras, acção, suspense, final previsto e inesperado, feliz. Por outro lado, pensou, acariciando-lhe vagarosamente a lombada macia, num gemido mal disfarçado de suspiro: - Ah, se eu soubesse ler!...

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Leitura em Voz Alta.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Palavra do senhor

Foto Hernâni Von Doellinger

A senhora sentada à minha frente faz croché - que raro! Eu leio um livro. O resto do metro espreita o telemóvel, fala para o telemóvel, escreve no telemóvel, joga no telemóvel, tira selfies com o telemóvel, põe o telemóvel entre pernas, aconchegadíssimo às intimidades, em alarmante modo de vibração. O metro inteiro é um telemóvel amarelo de duas carruagens, dois refractários e razoáveis orgasmos. Como quem não quer a coisa, a senhora sentada ao lado da senhora sentada à minha frente que faz croché desvia um olho do telemóvel e procura-me a capa do livro. Chega lá. Abana a cabeça, sentenciosa, faz cara de caso, deita-me uns olhos, ambos, num misto de decepção e de censura. Percebo-a: não leio José Rodrigues dos Santos. Leio "Poesias Completas & Dispersos", de Alexandre O'Neill, calhamaço como os do outro, mas calhamaço sem culpa de autor, calhamaço que dá gosto. Folheio-o com o respeito e o cuidado de quem folheia uma bíblia. E é. Vou naquela parte em que O'Neill me diz "A estouvaca": deitada atravessada / na estrada / a malhada / vai ser atropelada / foi. Palavra do senhor.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Croché.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

O que é nacional é joia

O que distingue um livro português de um livro estrangeiro em geral é que o livro português é geralmente escrito em brasileiro.

sábado, 23 de abril de 2022

E apeteceu-me dar-lhe um abraço

O homem caminhava vagarosamente ao lado da mulher. Curvado pelo peso de, fiz as contas, setenta e tantos anos bem medidos, caminhava ainda assim com uma dignidade evidente. O homem velho, de casaco e digno, pé ante pé até ao café de praia e ao milagre do sol-pôr, levava as mãos atrás das costas. E nas mãos, reparei, um livrinho da Colecção Vampiro, a antiga: "O Imenso Adeus", de Raymond Chandler.
Caramba!, és cá dos meus - pensei. E apeteceu-me dar-lhe um abraço...

Sempre a destoar, eu

Entro no metro. Viagem curta, de Matosinhos Sul até à Senhora da Hora, apenas quinze minutos e mudança de linha para Vila do Conde. Sento-me num daqueles bancos frente com frente, éramos quatro, dois de cada lado e, se fosse futebol, a bola seria redonda. Ninguém conhecia ninguém. Os dois rapazes e a rapariga, os três mais para os trinta do que para os vinte, cabeças para baixo e graves, rapam dos bolsos os respectivos telemóveis como se se conhecessem de outras encarnações e estivessem combinados, e jogam, ela, e mensajam, eles, automaticamente, ignorantes uns dos outros, numa simbiose perfeita. Eu vou à mochila e tiro o livro. "Kafka à Beira-Mar", de Haruki Murakami. Pensei: é o que diz a minha mãe - sempre a destoar, eu.

Para ti flores, perfumes. Para mi, algunos libros.

Fui tratar da renovação do cartão do cidadão e, é preciso ter azar, correu tudo muito bem. Despacharam-me em menos de um quarto de hora. Eu contava passar a tarde inteira refastelado numa das cadeiras partidas das instalações de Alferes Malheiro, embora tivesse marcado para as catorze um encontro com o Lopes e com as bifanas da Conga, mas ainda não era meio-dia e já me despejava no meio da rua sem saber o que fazer com os seguintes cento e vinte e tal minutos da minha vida. É isto, desabituei-me de ir à Baixa do Porto...
Ameaçava ameaçar chover. Vi uma daquelas livrarias de campanha montada mesmo à frente do meu nariz, no largo da estação de metro da Trindade, e entrei. Lá dentro, o refugo do costume ao habitual preço da uva mijona, nada de razoavelmente interessante, mas às vezes nunca se sabe...
Uma simpática funcionária, diria entre os trinta e muitos e os quarenta e poucos, abeirou-se-me e perguntou, de sorriso engatilhado:

- Posso ajudá-lo?
- Ando só a ver, muito obrigado. Mas, já agora, diga-me, por favor: tem alguma coisa do Montalbán?
- De quem?
- Do Vázquez Montalbán, histórias do Pepe Carvalho...
- Quem?
- Pepe Carvalho.
- Saiu este ano?
- Não. No geral, são livros já com uns anitos...
- E o género?
- Policial, talvez. Mas dizer policial é dizer muito pouco. Policial literário e gastronómico, se for possível, e de repente não sei dizer melhor...
- Pepe Carvalho? Esse autor acho que não temos.
- Desculpe. O autor é Manuel Vázquez Montalbán. O herói dos livros é que se chama Pepe Carvalho, detective privado de origem galega e estabelecido em Barcelona, uma espécie de Sherlock Holmes espanhol, mas mais verosímil e versão séculos vinte-vinte e um.
- Então é conhecido em Espanha...
- Quem? Eu?
- Não. Esse tal Pepe....
- Acredito que sim, e em Portugal também. E no resto do mundo, se calhar. Não é que seja abonatório por aí além, mas até já fizeram filmes de um ou dois livros do Montalbán, quer ver?

Resolvi ser eu a ajudar a solícita porém desinformada funcionária. Ando exactamente a reler a Série Pepe Carvalho que as Edições ASA em boa hora começaram e em má hora interromperam, após a eucaliptal intervenção da Leya. Fui à mochila e saquei o "Assassinato no Comité Central", que por acaso acabei ainda na espera desse princípio de tarde. Expliquei à senhora:

- Vê?
- Ah! Montalbán é que é o autor. Eu estava a perceber que Pepe Carvalho é que...
- Esta era uma belíssima colecção da ASA que infelizmente...
- Ah! Livros da ASA não tenho.
- Mas Montalbán já foi publicado em português por outras editoras, pelo menos pela falecida Regra do Jogo e pela Caminho, se não me engano, há até uns livrinhos de bolso, tenho um, "As Termas"...
- "Assassinato no Comité Central", esse aí... 
- Olhe, foi um dos que deram filme. Neste, quem faz de Pepe Carvalho no cinema é, veja lá, o Patxi Andión...
- Quem?
- O Patxi Andión, o famoso cantor espanhol, o cantautor, o poeta, o escritor...
- Não estou a ver...
- Então, o Patxi Andión, ainda outro dia esteve aqui na Casa da Música...
- Não, não conheço. E até gosto de música espanhola, mas não da música pimba...
- Minha senhora, o Patxi Andión...

Ia gastar mais um pouco do meu atamancado latim para explicar à gentil funcionária quem é Patxi Andión, que vem a Portugal desde o tempo do Zip Zip, contar-lhe da amizade antiga com Ary dos Santos e com Zeca Afonso, mas desisti. Preferi ser agradável e mentir com quantos dentes tenho, e são todos menos os sisos inferiores. Disse:
- ... Pois, evidentemente a menina é nova demais para conhecer o Patxi, o Pepe e o Montalbán. A menina é de uma geração tipo mais... tipo.
- Ai não se deixe enganar pela aparência. Estou é muito bem conservada... - devolveu-me a amável funcionária, enfim sorrindo, e corando de satisfação e vaidade.

Ficou cientificamente provado: a ignorância é óptima para a pele, muito melhor do que baba de caracol. A ignorância é o verdadeiro elixir da juventude. Por outro lado, as bifanas estavam di-vi-nais, como, em apenas três palavras, diria o meu irmão Nelo. E o Lopes, que me dá livros e parece que é bruxo, trouxe-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista"! Só tenho quem me goze...

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Abril de 2015. Entretanto Patxi Andión morreu no dia 18 de Dezembro de 2019.

A teia da Leya

Novembro de 2006 bateu-me à porta com uma grande notícia: todos os livros do escritor catalão Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003) com o detective privado Pepe Carvalho iam ser publicados, ou republicados, em português. Era um projecto das Edições ASA e, ao que foi então tornado público, uma aposta pessoal do seu director-geral, Manuel Alberto Valente, confesso admirador do autor de "Eu Matei Kennedy".
Montalbán tinha-me sido ensinado pelo meu amigo Luís Lopes, que me emprestara tudo o que Portugal conhecia da série Pepe Carvalho, que eram para aí uns cinco ou seis títulos, isto, se bem me lembro, lá pelos finais da década de 1980, princípios da década de 1990. E foi tiro e queda, tiro limpo, bem no meio do coração: tornei-me vázquez-montalbanista. Em 1999, pelos meus anos ou pelo Natal, alguém que sabia da minha paixão e que se me varreu fez o favor de me oferecer "O Quinteto de Buenos Aires". A esse respeito, aqui vai o meu mais sentido muitíssimo obrigadíssimo não sei a quem.
Com a minha mania de devolver ao dono o que me é emprestado, "O Quinteto" era tudo o que eu tinha de Pepe Carvalho quando soube da magnífica novidade. Fui logo a correr fazer a reserva de toda a colecção, 22 livros que deveriam ir saindo ao longo de uma meia dúzia de anos.
Saíram "Milénio I" e "Milénio II", trabalho que Montalbán revia quando foi acometido de um fulminante ataque cardíaco em Banguecoque, cenário de outro título da série que também foi publicado, "Os Pássaros de Banguecoque"; saíram ainda "Assassinato no Comité Central" e "Os Mares do Sul"; e não saiu mais nada.
Nos inícios de 2008, a Leya, de Miguel Pais do Amaral, abocanhou a ASA e mais não sei quantas editoras nacionais, Manuel Alberto Valente foi-se embora e o Pepe Carvalho de Manuel Vázquez Montalbán, que já passara por tantas e de todas se safara, morreu mesmo ali, sem direito a notícia no jornal, quanto mais missa de sétimo dia.
Fui às livrarias, procurei saber o que acontecera. Se vissem como eu vi o desconsolo com que as caras e os silêncios dos livreiros me falaram da Leya, do mal que o quase-monopólio da Leya está a fazer ao mercado do livro em Portugal, do sufoco imposto pela teia da Leya, então perceberiam porque me inquietei.
Passei dois anos a questionar directamente a Leya, por e-mail. Perguntava, respeitosa e repetidamente: vão retomar a publicação da série? Quando? Nunca me responderam. Dois anos, até desistir. Mas nunca me responderam. Os mesmos que, abusando do conhecimento do meu endereço electrónico, ainda ontem me enviaram o seu habitual folheto de supermercado livreiro, cheio de inutilidades editoriais mas "com descontos até 40%".

P.S. - Publicado originalmente no dia 24 de Agosto de 2011.

sábado, 26 de março de 2022

O que é nacional é joia

O que distingue um livro português de um livro estrangeiro em geral é que o livro português é geralmente escrito em brasileiro.

P.S. - Hoje é Dia do Livro Português. No Brasil é Dia do Cacau.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

As tascas do Porto

A terceira edição do livro "As Tascas do Porto / Estórias e Memórias Servidas à Mesa da Cidade", com textos de Raul Simões Pinto e fotografias de Gabriela Felício, é lançada na próxima sexta-feira, dia 2 de Dezembro, pelas 18 horas, no restaurante Pedro dos Frangos, da Rua do Bonjardim, Porto. A obra, com chancela das Edições Afrontamento, será apresentada pelo jornalista Manuel Vitorino, que também assina o prefácio.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Estou farto da Sónia Brazão

Há que tempos que eu já tenho a minha dose de Sónia Brazão. Estou por aqui com ela. Desejo-lhe muita saúde e o maior sucesso, mas não quero saber dela. Não percebo porque é que ela só está bem sendo notícia. Acho que e rapariga está a abusar. Acho que uma vida recatada e se possível longe dos fogões de gás só lhe fazia bem.
Mas a actriz (que é actriz, assim leio) lançou hoje um livro que é, segundo o jornal Público, "o relato na primeira pessoa do que aconteceu na sua vida desde o acidente a 3 de Junho". Sónia teve consigo Paula Antunes, a médica que acompanha a sua recuperação, e vários outros membros da equipa que a tratou na Unidade de Queimados do Hospital de São José. Afinal, Sónia Brazão não é a única que gosta de aparecer.
Apresentado uma semana depois de a revista TV Guia ter noticiado que Sónia Brazão terá cometido três tentativas de suicídio antes da explosão de 3 de Junho, o livro, obviamente editado pela Leya, chama-se "Não Desisto", o que é perigoso. Foi dito na cerimónia que é "um testemunho". A Polícia Judiciária duvida.