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quinta-feira, 8 de maio de 2025

Já não vamos para velhos

A verdade é esta: biblicamente falando, Moisés viveu até aos 120 anos, Jacob até aos 147, Abraão até aos 175, Adão até aos 930, Noé até aos 950, e Matusalém, filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, faleceu de repente aos 969 anos. Antigamente era assim. E agora? Agora andamos à rasca para chegarmos aos 60 e damos graças a Deus se alcançarmos os 70, embora a esperança média de vida na Europa ronde os 82. Regra geral, metemos os papéis para a reforma e morremos logo a seguir. O que estará por trás desta alteração tão radical? Glaciares, asteróides, falta de médicos de família ou tão-só falta de fé, não tenho a certeza, mas creio que a segurança social também já não aguentava tanto profeta...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Segurança Social.)

sábado, 19 de outubro de 2024

O amplexo veio para trás

O meu amigo fazia anos e eu mandei-lhe uma SMS: "Parabéns. Abraço."
O meu amigo respondeu-me, também por SMS: "Devolvo o abraço. Obrigado."
E eu pensei: o meu abraço tinha defeito?...

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Os penetras

No dia do meu aniversário, mal abre o horário de expediente, o banco, o dentista e o oculista mandam-me pressurosas mensagens de parabéns! Deve ser assim com toda a gente, mas eu não gosto que seja assim comigo. Estragam-me logo o dia. Eu não os convidei, não lhes encomendei o sermão, não lhes dei sequer licença, estão a meter o nariz onde não foram chamados. Os meus anos não são segredo de Estado, mas também nunca os esparramei na praça pública. São meus e só aceito partilhá-los com a família mais chegada e com os quatro ou cinco amigos que faço questão de ter. Agora: o banco, o dentista e o oculista não são de certeza da família nem lhes tenho amizade, estão portanto a abusar da confiança. Não encontro ponta de simpatia ou bondade no seu gesto automático, que me parece obviamente interesseiro e aproveitador. Oportunista. Sorrateiro. Eles não querem dizer "Lembrámo-nos de si! Está sempre no nosso coração!", não, o que eles dizem é "Não se esqueça de nós! Temo-lo debaixo de olho!", é isso. E eu fico imediatamente com a pulga atrás da orelha. Como se as Finanças ou a agência funerária me ligassem também a dar os parabéns...

sábado, 28 de setembro de 2024

Villas-Boas, à margem

"André Villas-Boas, presidente do FC Porto, discursou na manhã deste sábado, à margem da comemoração do 131.º aniversário do clube azul e branco, no Estádio do Dragão", escreve o jornal O Jogo. Não há dúvidas: "à margem". Não durante, não no âmbito, não no decorrer, não na abertura, não no encerramento, não no ponto alto da cerimónia. Não. "À margem". Villas-Boas não faz parte. Quer-se dizer: o presidente do FC Porto não foi convidado, entrou de penetra, subiu ao palanque e ainda por cima discursou. É de homem, caralho...

segunda-feira, 17 de julho de 2023

António Costa cala os críticos

António Costa faz hoje anos, se não estou em erro. Parece que 62, se as contas, pelo menos estas, estão certas. E o primeiro-ministro faz mesmo questão de fazer anos, até para atirar à cara de todos os que dizem - no comentário, na oposição, no café, na cave do PS e em Belém - que ele não faz nada...

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Quando for pequeno

"Quando for pequeno, quero ser palhaço", disse o ancião, sonhador e triste. Com efeito, aquela sociedade funcionava às arrecuas: nascia-se velho e morria-se a chupar no dedo. Era naturalmente governada por garotos.

O predestinado

O seu aniversário calhava todos os anos no mesmo mês e no mesmo dia. Ele achava que era um sinal, um bom augúrio.

O futuro tem tempo

Chegou aos 65 anos e deparou-se com um problema: não sabe o que quer ser quando for grande.

Empreendedorismo

Fazia anos muito bem. E vendia para fora.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Hoje quero a minha gemada

Conhecia-os de vista. De passar pelas montras ou das mesas do Peludo, mas nunca me tinham sido apresentados. Até que uma vez o meu pai trouxe meia dúzia para casa. Vinham naquela caixinha de papel, obra de engenharia feita na hora, ali mesmo aos olhos do freguês, com a habilidade e o requinte de quem constrói um avião a jacto. Se me estou a lembrar bem, havia, naquele tempo, os bolos de arroz, as bolas de berlim, os queques, os jesuítas, os caramujos, os mil-folhas, as natas e os cocos. As tíbias apareceram depois, já na era das minissaias. O meu pai chegou muito tarde "da música" e se calhar os pastéis vinham por isso, como pedido de desculpas, para adoçar a boca à minha mãe. Não tenho a certeza. Era pequeno demais para então perceber o que agora sei tão bem. Mas gostei da festa que foi: acordámos - a Nanda, o Nelo e eu -, sentámo-nos todos na beira da cama da frente, ao lado da nossa mãe, provámos apressados a novidade, o nosso pai fez-nos rir como de costume e fomos felizes. Então pastéis era aquilo? Era bom. Para mim, quase tão bom como uma côdea de broa coberta com açúcar amarelo, e já lá irei.

Fafe era um terra de antonomásias, estoufarto de dizer. No nosso imenso pequeno mundo, tínhamos o Largo, a Avenida, o Monumento, a Recta, o Campo, o Depósito, o Banco, os Serviços, a Bomba, o Jardim, a Quelha, o Santo e o Café, que era o Peludo e que na verdade se chamava Cine-Bar, eventualmente dada a sua proximidade e até uma certa ligação ao Teatro-Cinema e à família Summavielle. Mas cafés, tascos e afins havia muitos. Uma mão-cheia de cafés, e tascos até dar com um pau, para ser mais preciso. Pastelarias, salões de chá ou snack-bares é que nada, até aparecer o Dom Fafe, mesmo no centro da vila, coisa fina e para clientela sem gases. O Dom Fafe, respeitando a tradição, passou a ser "o" Snack-Bar.

Eu era calisto. Calisto televisivo. A preto e branco e com muitos pedimos desculpa por esta interrupção. Para me fazer pagar a moina, o Sr. Avelino do Café, que era o Hoss do "Bonanza" em pessoa menos o chapéu alto, entregava-me umas moedas e mandava-me à cozinha do Hospital buscar uns enormes tijolos de gelo que ele depois partia e metia no barril de tirar finos (imperiais, se lido em Lisboa). No fim do recado dava-me o troco? É o davas. Oferecia-me um pastel? Fodias-te. Eu tinha para aí sete anos, o meu pai ainda não tinha trazido pastéis para casa e o Sr. Avelino punha-me à frente a merda de um cimbalino. Sete anos, e ele dava-me um café (bica, se lido em Lisboa). Se ainda ao menos fosse um cigarro!...
Eu e o Sr. Avelino, o tempo haveria de fazer-nos bons amigos, mas nunca lhe perdoei a desfeita do café.

Não sou de doces. E, dos pastéis que o meu pai trazia para casa, o que eu gostava mais era da festa, do riso. Daquela meia hora extra fora da cama. Da sensação de família e fartura, da felicidade antes do sono. Porque o meu doce preferido era outro: era a côdea de broa, "grande daqui até ao céu", enfiada às escondidas na lata do açúcar amarelo e comida na clandestinidade do fundo do quintal. Subia a um banco para subir à mesa da cozinha para chegar ao armário, abria a lata, passava o pão, fechava a lata e saía dali a cem à hora mas com mil cuidados para não entornar o "recheio". Côdea de broa com açúcar amarelo, isso, sim, era o meu bolo. Havia lá coisa melhor no mundo!? Por acaso até havia: era a gemada. Gemada simples e honesta: gema de ovo batida numa malga com muiiiiiito açúcar. Mas essa só podia ser duas vezes por ano, acho eu, pela passagem de classe e no meu aniversário. Com os ovos, lá em casa, todo o cuidado era pouco. Estavam contados, eram para deitar. E ao açúcar para a broa a minha mãe fechava os olhos. Fazia de conta que não sabia...

P.S. - Publicado originalmente no dia 7 de Junho de 2012, sob o título "Eu era mais broa com açúcar amarelo". Mas hoje, palavra de honra, marchava uma gemada...

O ungido (ou Ele há gajos com sorte)

O seu aniversário calhava todos os anos no mesmo mês e no mesmo dia. Ele achava que era bom augúrio.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Fernando Pessoa 4

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.


Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!


O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!


Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...


O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Fernando Pessoa

(Fernando Pessoa nasceu no dia 13 de Junho de 1888. Morreu em 1935.)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Muitíssimos parabenzíssimos

                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

O Leixões Sport Clube faz amanhã 106 anos. É Matosinhos que está em festa. Programa das comemorações e mais informação, aqui.

domingo, 21 de julho de 2013

A maior aula de judo do mundo 2

Foto Hernâni Von Doellinger

Sete mil eram esperados. Seis mil tiveram falta. "A maior aula de judo do mundo" em Matosinhos foi um enorme fiasco. Nelson Mandela não merecia e Nuno Delgado se calhar também não.
É o que dá misturar coisas sérias com a pré-campanha eleitoral.

sábado, 20 de julho de 2013

A maior aula de judo do mundo

Foto Hernâni Von Doellinger

Sete mil participantes são esperados para "A maior aula de judo do mundo", que daqui a pouco mais de duas horas vai tomar conta da Praia de Matosinhos. É uma iniciativa do medalhado olímpico Nuno Delgado (foto), em parceria com a Câmara Municipal. O evento pretende também celebrar o 95.º aniversário de Nelson Mandela.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Extraordinário: José Mourinho faz 50 anos! 2

- Então, o nosso Mourinho?
- Extraordinário. Cinquenta anos! Como é que ele consegue?
- É verdade. Não se fala de outra coisa...
- Pois não. E compreende-se. São cinquenta anos. Cinquenta! O homem merece.
- Claro que merece. E tu?
- Eu quê?
- Tu. Anos...
- Eu? Cinquenta e cinco.
- Cinquenta e cinco? E cinco? Mas isso ainda é mais extraordinário! Porque é que os jornais não se interessam por ti?
- Por causa da idade...

(1. "Mourinho 50 anos: meio século de glória" é, de longe, o melhor título com que a imprensa nacional presenteou, por estes dias festivos, o actual treinador do Real Madrid. Começou cedo o fenómeno: nasceu e pronto.
2. José Mourinho disse ao JN que "quanto mais velho, melhor treinador". A rapaziada dos jornais, que gosta de chutar os "velhos" para canto, riu-se um bocado com isto.)