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sexta-feira, 8 de maio de 2026

O Sr. Armindo mandava para baixo

O idoso
Chegou aos 66 anos e quatro meses... e reformou-se. Aprendeu a jogar à sueca, tirou o passe de terceira idade, comprou um capacete, um par de botas de biqueira de aço e um colete reflector, pôs as mãos atrás das costas e foi para o pé das obras mandar palpites.

Antigamente mandava-se a papelada para baixo, e quem tratava do assunto em Fafe, desburocratizando a vida dos mais pobres, era o Sr. Armindo Bristol, pai do Armindo Cinco-Coroas, príncipes do velho Picotalho e gente do melhor que possa haver em Portugal e no mundo inteiro. Meter os papéis era pedir a reforma. Sim, pedir, como se fosse uma esmola, e por acaso era - como se não fosse um direito. O Sr. Armindo pai, homem letrado e bom, vestia fato e sobretudo durante todo o ano e despachava na mesa do tasco muito limpa e organizada em envelopes, folhas de papel de 25 linhas, folhas de papel selado, cédulas pessoais, bilhetes de identidade, cartões da Caixa, recibos, atestados médicos, provas de vida, recomendações do presidente da Junta, do regedor e do bufo da Pide, a bênção do senhor abade, selos dos Correios e estampilhas fiscais, uma caneca de verde tinto em exercício e quero crer que escrevia com caneta de tinta permanente.
O Sr. Armindo, figura excelentíssima que um dia espero contar melhor e mais minuciosamente, passou uma porrada de anos no sanatório e foi lá que se formou em desburocracia e ajuda aos outros. Quando tornou a casa, salvou o resto das vidas de milhares de fafenses desinformados, abandonados, assustados e analfabetos. Fez-se loja do cidadão. Serviço prestado a troco de um quartilho, por um punhado de moedas ou por uma nota de vinte, consoante as posses dos desgraçados requerentes e da previsão da tença a haver, ou então por nada, apenas por um obrigado, um Deus lhe pague, uma mãozada, ficamos assim e não se fala mais nisso, porque na nossa terra, naquele tempo, a única fartura era a pobreza, abundava quem não tivesse dinheiro sequer para assobiar em cuecas sem ir preso, e o Sr. Armindo sabia disso, sabia da vida, conhecia o povo, um a um, e fazia caso.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Segurança Social.)

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Já não vamos para velhos

A verdade é esta: biblicamente falando, Moisés viveu até aos 120 anos, Jacob até aos 147, Abraão até aos 175, Adão até aos 930, Noé até aos 950, e Matusalém, filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, faleceu de repente aos 969 anos. Antigamente era assim. E agora? Agora andamos à rasca para chegarmos aos 60 e damos graças a Deus se alcançarmos os 70, embora a esperança média de vida na Europa ronde os 82. Regra geral, metemos os papéis para a reforma e morremos logo a seguir. O que estará por trás desta alteração tão radical? Glaciares, asteróides, falta de médicos de família ou tão-só falta de fé, não tenho a certeza, mas creio que a segurança social também já não aguentava tanto profeta...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Segurança Social.)

domingo, 8 de maio de 2022

Já não vamos para velhos

A verdade é esta: biblicamente falando, Moisés viveu até aos 120 anos, Jacob até aos 147, Abraão até aos 175, Adão até aos 930, Noé até aos 950, e Matusalém, filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, faleceu de repente aos 969 anos. Antigamente era assim. E agora? Agora andamos à rasca para chegarmos aos sessenta e damos graças a Deus se alcançarmos os setenta. O que estará por trás desta alteração tão radical? Glaciares, asteróides, falta de médicos de família ou tão-só falta de fé, não tenho a certeza, mas creio que a segurança social também já não aguentava...

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Segurança Social. Logo hoje, que é domingo, e a função pública está fechada...