Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Alegre. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Alegre. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Poema a Salgueiro Maia, de Manuel Alegre

Ele ia de Santarém
a caminho de Lisboa
não sabia se ganhava
não sabia se perdia.
Ele ia de Santarém
para jogar a sua sorte
a caminho de Lisboa
em marcha de vida ou morte.
E dentro dele uma voz
todo o tempo lhe dizia:
Levar a carta a Garcia.

Ele ia de Santarém
todo de negro vestido
como um cavaleiro antigo
em cima do tanque verde
com o seu elmo e sua lança
ei-lo que avança e avança
ninguém o pode deter.

Ele ia de Santarém
para vencer ou morrer.
E em toda a estrada o ruído
da marcha do Capitão.
Eram lagartas rangendo
e mil cavalos correndo
contra o tempo sem sentido.
E aquela voz que dizia:
Levar a carta a Garcia.

Era um cavaleiro andante
no peito do Capitão.
E o pulsar do coração
de quem já tomou partido.
Ele ia de Santarém
todo de negro vestido.

Manuel Alegre

P.S. - Salgueiro Maia morreu no dia 3 de Abril de 1992. Aos 47 anos.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Poema a Salgueiro Maia, de Manuel Alegre

Ele ia de Santarém
a caminho de Lisboa
não sabia se ganhava
não sabia se perdia.
Ele ia de Santarém
para jogar a sua sorte
a caminho de Lisboa
em marcha de vida ou morte.
E dentro dele uma voz
todo o tempo lhe dizia:
Levar a carta a Garcia.

Ele ia de Santarém
todo de negro vestido
como um cavaleiro antigo
em cima do tanque verde
com o seu elmo e sua lança
ei-lo que avança e avança
ninguém o pode deter.

Ele ia de Santarém
para vencer ou morrer.
E em toda a estrada o ruído
da marcha do Capitão.
Eram lagartas rangendo
e mil cavalos correndo
contra o tempo sem sentido.
E aquela voz que dizia:
Levar a carta a Garcia.

Era um cavaleiro andante
no peito do Capitão.
E o pulsar do coração
de quem já tomou partido.
Ele ia de Santarém
todo de negro vestido.


Manuel Alegre

(Salgueiro Maia morreu no dia 3 de Abril de 1992)

Salgueiro Maia, segundo Manuel Alegre

Salgueiro Maia

Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade.


Manuel Alegre

(Salgueiro Maia morreu no dia 3 de Abril de 1992)

sábado, 12 de junho de 2021

Com mãos tudo se faz e se desfaz

Foto Hernâni Von Doellinger

A senhora sentada à minha frente faz croché - que raro. Eu leio um livro. O resto do metro espreita o telemóvel, fala para o telemóvel, escreve no telemóvel, joga no telemóvel, tira selfies com o telemóvel, põe o telemóvel entre pernas, aconchegadíssimo às intimidades, em alarmante modo de vibração. O metro inteiro é um telemóvel amarelo de duas carruagens, dois refractários e razoáveis orgasmos. Como quem não quer a coisa, a senhora sentada ao lado da senhora sentada à minha frente que faz croché desvia um olho do telemóvel e procura-me a capa do livro. Chega lá. Abana a cabeça, sentenciosa, faz cara de caso, deita-me uns olhos, ambos, num misto de decepção e de censura. Percebo-a: não leio José Rodrigues dos Santos. Leio "Poesias Completas & Dispersos", de Alexandre O'Neill, calhamaço como os do outro, mas calhamaço sem culpa de autor, calhamaço que dá gosto. Folheio-o com o respeito e o cuidado de quem folheia uma bíblia. E é. Vou naquela parte em que O'Neill me diz "A estouvaca": deitada atravessada / na estrada / a malhada / vai ser atropelada / foi. Palavra do senhor.

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 Julho de 2018.

domingo, 1 de julho de 2018

Salgueiro Maia, segundo Manuel Alegre

Salgueiro Maia

Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade.

Manuel Alegre

(Salgueiro Maia nasceu no dia 1 de Julho de 1944)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Atenção a estes dois jovens turcos!

Há aí dois rapazes que estão a aparecer agora e que eu trago debaixo de olho. O alegado primeiro-ministro de Portugal também já os sinalizou, detectando-lhes logo o defeito essencial: aparecem muito. E ninguém sabe de onde é que eles apareceram! São atrevidos, são oferecidos, são penetras. Metem-se em casamentos e baptizados sem serem convidados, vão aos concursos de talentos da televisão, colam-se atrás dos repórteres da Sport TV à porta dos estádios e sobretudo - atenção, muita atenção! - têm a mania de "assumir protagonismo em datas especiais". Gostam de dar nas vistas.
Pedro Passos Coelho, recatado porém histórico estadista, com mais calo no cu do que o falecido macaco do Palácio de Cristal, emérito punheteiro, é que lhes vai fazer a folha. Os casamentos e baptizados não perdem pela demora, acabam em Portugal antes do Verão, só falta a nota de encomenda da troika, e é mais uma despesa que se desarrisca. A Sport TV passa a fazer reportagens sem som nem imagem, mas aqui com a desculpa do pedido de milhares de assinantes, entre os quais eu me incluo. E quanto aos feriados, que são "datas especiais" da pior espécie e os dias em que os dois jovens emplastros mais gostam de atacar, o assunto há que tempos que está a ser tratado. Quatro sabe-se que vão ao ar, se Deus quiser, e os outros, assim sozinhos, estão prontos a desistir.
Cá entre nós, convenhamos: o alegado primeiro-ministro de Portugal tem razão. Vamos lá pensar como deve ser, agora que passam dois minutos da meia-noite e tornámos à normalidade do 24 de Abril: mas há algum motivo para mantermos, por exemplo, um abcesso como o 25 de Abril no calendário nacional? Ainda por cima, só por causa de um Real Madrid-Bayern de Munique?

quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de Abril: se perguntarem por mim, não estou

Foto RICARDO CASTELO

Os militares do 25 de Abril não vão ao 25 de Abril. Solidários, Mário Soares e Manuel Alegre também não vão. Pedro Passos Coelho, alegado primeiro-ministro de Portugal, diz que assim ainda é melhor, até porque já está farto destas "figuras políticas" que o que querem é "assumir protagonismo em datas especiais". A marcha da desobediência civil avança até à Assembleia da República, onde conta chegar cerca das 0h20 - e as manifestações e concentrações estão proibidas por lei a partir das 0h30. No Porto, o projecto Es.Col.A ameaça tentar reabrir e reocupar a antiga escola primária da Fontinha, de onde foi despejado pela polícia na passada quinta-feira, com feridos e detenções. Ainda sob o efeito da adrenalina da greve de 22 de Março, a PSP avisa que agirá com tolerância zero em relação a todos os desfiles e acções de rua que não estejam "devidamente autorizados". Dito de outra forma: serão impedidos e desbaratados à nascença.
Caros amigos: a homenagem póstuma ao 25 de Abril promete. Se me dão licença, eu vou ali e venho já. Vinte e cinco de Abril sempre, nem que seja só às vezes!