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sexta-feira, 12 de setembro de 2025

O meu primeiro casamento

Ele era um tipo com princípios e valores, sabia das suas obrigações. Casou. Casou pelo civil e casou pela Igreja. Por amor é que não!

O meu primeiro casamento foi o casamento do meu padrinho e tio Américo com a minha querida tia Laura. Vieram convidados do Porto e eu andei de "pão de forma" em forma de Volkswagen, numa épica viagem entre a Igreja Nova e os Bombeiros antigos, logo ali no meio dos palacetes, talvez nem 100 metros sempre em linha recta, e ainda assim enjoei. A fotografia "de conjunto" foi tirada a preto e branco nas escadas do Hospital, talvez esteja a inventar, e o banquete teve lugar no velho salão da Bomba, eu metido numa mesinha à parte para as crianças, logo depois da grande porta dupla de entrada, e portanto não gostei. O meu segundo casamento, eu já rapaz, foi o casamento do meu tio Zé da Bomba com a minha querida tia Lena. Vieram convidados do Porto, evidentemente, comeu-se no famoso Restaurante Jordão, em Guimarães, fui apresentado aos agriões em salada, houve discursos e não me lembro de como é que fomos para lá, se calhar a minha mãe teve de alugar um carro, serviço que decerto ainda hoje, mais de 50 anos depois, andará a pagar a prestações. O meu terceiro casamento foi o casamento da minha irmã Nanda com o meu cunhado Álvaro. Não tenho ideia se veio alguém do Porto, mas provavelmente veio, porque fazia parte ou então era mania, tara de família, isso de vir alguém do Porto, e aquilo fazia-me espécie. "Os do Porto" não era por acaso que eram "os do Porto". Ser-se "do Porto" era um merecimento, uma espécie de doutoramento ou condecoração, estatuto, posição, em todo o caso. Eu ia para o Porto de comboio, automotora, vá lá, de cu tremido e geralmente a dormir, só para namorar, essa é que é a verdade, nunca fiz nada na vida, mas eles não, tinham ido para o Porto a pulso, mais difícil ainda do que ir para a França a salto, "estavam muito bem", regressavam para as festividades da terra, de fato e prendas, magnatas e um bagaço, ninguém sabia o que é que eles realmente faziam no Porto, se é que faziam alguma coisa, e se eventualmente não seria em São Mamede de Infesta ou em Rito Tinto, para não ir mais longe, mas, para todos os efeitos, eram "os do Porto", parentes desconhecidos e habitualmente desnecessários, porém com direito a vénias e mordomias sempre que se apresentassem, e eu, quer-se dizer, afinava com tanto fingimento. Tornando à Nanda e ao Álvaro, que é o que mais importa, a cerimónia religiosa creio que se passou na Capela de Santo Ovídio, que era moda naquele tempo, e o almoço lembro-me que foi muito bem servido no restaurante do Café Académico, tudo em Fafe. Depois dos meus três primeiros casamentos, tive evidentemente outros casamentos, inclusive o meu, que ainda hoje vigora, não é para me gabar. O meu casamento realizou-se por acaso no Porto e vieram convidados de Fafe. Muitos. A maioria qualificada. Não foi vingança, mas soube bem.

(Publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Memória

Foto Tarrenego!

Dia 23 de Fevereiro de 1961. O Conselho de Segurança das Nações Unidas emite a primeira resolução condenatória da política colonialista de Salazar.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Causa da morte: ida ao médico

Um gajo anda mais ou menos porreiro, uma dorzita aqui, uma pontada acolá, um bocadinho de falta de ar, ouras e fastio às vezes, coisas de nada, coisas da vida, se calhar do tempo ou, vá lá, da idade. Um gajo anda mais ou menos porreiro. Até que um dia, empurrado ou de livre vontade, vai ao médico. Análises, exames, diagnósticos, prognósticos, agnósticos, cancro, coração, rins, fígado, coluna, internamento, cirurgia, hemodiálise, quimioterapia, antipatia, utente, paciente, despistagem, despessoamento, isolamento, transferência, circunferência, alta, baixa, alta, baixa, piso 1, piso 2, piso 10, piso 1, doente da cama 13, bactérias, vírus, infecção, pneumonia, silêncio, cave. Um gajo andava mais ou menos porreiro. No competente certificado há-de constar, obitamente e por ser verdade: "Causa provável de morte - ida ao médico"...

O meu amigo Lopes é um sábio e eu aprendo sempre que falo com ele. Ainda no outro dia me ensinou que um gajo, sobretudo um gajo que anda mais ou menos porreiro, está irremediavelmente fodido "quando passa do mundo dos vivos para o mundo dos doentes". Eu já tinha essa ideia assim pensada: a exposição a hospital é tendencialmente perigosa, e até imaginei o sinal, amarelo, vermelho, negro e triangular - Hospital: Perigo de morte!
O meu amigo Lopes ensinou-me também, mas isso foi já há alguns anos, que "ninguém deve morrer sozinho", e eu tenho tentado dar o meu melhor. Mas os tempos que vivemos são tempos filhos da puta e parece que todos os cabeçudos que decidem a nossa vida se esqueceram de que há morte para trás da linha da frente, e pessoas ainda, outras, fora das formidáveis estatísticas televisivas do meio-dia e meia. Peço desculpa, encontro-me excepcionalmente triste e zangado. Com os tempos. Que são realmente filhos da puta.